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siga a estrada de tijolos amarelos: Alta Magia Alquimia Alquimia Alquimia - Primeira Conferência: Introdução

Alquimia - Primeira Conferência: Introdução


por Marie-Louise von Franz

Meditei muito sobre a forma em que devia dar este curso destinado a introduzi-los no simbolismo da alquimia, e me decidi por uma breve interpretação de muitos textos, em vez de optar por um texto único como em outras ocasiões. Como as conferências serão nove, proponho-me dar três sobre a alquimia na Grécia antiga, três sobre a arte alquímica árabe e as três últimas sobre a alquimia européia tardia, de modo que delas se obtenha ao menos um vislumbre de cada fase da evolução desta ciência.

Como vocês sabem, o doutor Jung consagrou muitos anos de estudo a este tema, que praticamente exumou da estrumeira do passado, já que se tratava de um domínio da investigação desdenhado e esquecido que ele conseguiu ressuscitar.

O fato de que agora um mínimo folheto vende-se por uns cem francos suíços, enquanto que faz mais ou menos dez anos se podia comprar por dois ou três francos um livro excelente sobre alquimia, deve-se na realidade ao Jung, porque a não ser pelo interesse demonstrado por alguns círculos da franco-maçonaria, e posteriormente pelos rosa-cruzes, quando ele começou a trabalhar sobre o tema ninguém sabia virtualmente nada sobre a alquimia.

Logo que entremos nos textos entenderão vocês em alguma medida como chegou a ser esquecida a alquimia e por que ainda, inclusive nos círculos junguianos, muita gente diz que pode coincidir com Jung no que se refere à interpretação dos mitos, e também a todo o resto de sua obra, mas que quando se trata de alquimia deixam de ler —ou lêem protestando e a contra gosto— seus livros sobre o tema. Isto se deve a que a alquimia é, em si mesmo, tremendamente obscura e complexa, e os textos muito difíceis de ler, de maneira que se necessita uma bagagem enorme de conhecimento técnico se quiser um adentrar-se neste campo. Ofereço este curso introdução aos estudantes na esperança de que lhes permita entrar melhor no tema, de modo que quando lerem os livros de Jung tenham já um caudal de conhecimento que lhes permita entendê-los.

Em seu livro Psicologia e Alquimia Jung introduziu, por assim dizê-lo, a alquimia na psicologia, primeiro publicando uma série de sonhos de um estudioso das ciências naturais que contêm grande quantidade de simbolismo alquímico, e depois oferecendo entrevistas de textos antigos, com o qual esperava demonstrar o importante e moderno que é este material, e quanto o que tem para dizer ao homem moderno. O próprio Jung descobriu a alquimia em forma absolutamente empírica. Uma vez me contou que nos sonhos de seus pacientes apareciam com freqüência certos motivos que não podia entender, e que um dia, observando velhos textos sobre alquimia, achou uma relação. Por exemplo, um paciente sonhou que uma águia começava a voar para o céu e depois, subitamente, girava para trás a  cabeça inferior grossa, começava a devorar as asas e voltava a cair na terra. O doutor Jung captou o simbolismo sem necessidade de comparações históricas, como por exemplo: o espírito ascendente ou a ave pensante. O sonho mostra uma enantiodromia, o oposto à situação psíquica. Ao mesmo tempo estava impressionado pelo motivo que cada vez mais era reconhecido como arquetípico e que devia, quase obrigatoriamente, ter um paralelo, até que não podia encontrar-se em nenhum lugar, aparecia como tema geral. Então, um dia descobriu o Ripley Scroll, que dá uma série de imagens do processo alquímico —publicadas em parte em Psicologia e Alquimia—, onde uma águia com cabeça de rei se volta para trás para comer suas próprias asas.
                                  
                                                                         FIGURA 2

A coincidência o impressionou muitíssimo, e durante anos a deixou presente, com a sensação de que na alquimia havia algo mais, e de que devia aprofundar no tema, mas não se decidia a abordar este campo muito complexo porque se dava conta do enorme trabalho que significaria e de que lhe exigiria refrescar seus conhecimentos de latim e grego, e ler muitíssimo. Finalmente, entretanto, chegou à conclusão de que tinha que fazê-lo, de que era muito o que o tema ocultava e de que esse material era importante para que pudéssemos entender melhor o material onírico das pessoas modernas.

O doutor Jung não o expôs como problema teórico, mas sim viu um paralelismo surpreendente com o material com que trabalhava. Mas agora poderíamos nos perguntar por que teria que estar o simbolismo alquímico mais próximo das produções inconscientes de muitas pessoas modernas que nenhum outro material. Por que não teria que bastar estudando mitologia comparada, e aprofundar nos contos de fadas e na história das religiões? Por que tinha que ser especialmente a alquimia?

Para isso há diversas razões. Se estudarmos o simbolismo na história comparada da religião, ou no cristianismo —todas as alegorias da Virgem Maria, por exemplo, ou a árvore da vida, ou a cruz, ou o simbolismo do dragão no material cristão medieval, etcétera—, ou se estudarmos mitologia, como por exemplo a dos índios norte-americanos (as crenças dos hopis, as canções dos navajos, etc.), em cada caso estamos nos enfrentando com material produzido por uma coletividade e comunicado por uma tradição mais ou menos organizada. Entre os índios norte-americanos há tradições dos médicos bruxos que comunicavam a seus discípulos suas canções e rituais, enquanto que certas coisas eram conhecidas pela totalidade da tribo, que participava dos rituais. O mesmo é válido para o simbolismo cristão, que se comunica nas tradições da Igreja, e o simbolismo total da liturgia e da missa, com todo seu significado, transmite-se por mediação da doutrina, a tradição e as organizações humanas. Estão também as diferentes formas orientais do ioga e outras formas de meditação. São símbolos que certamente se formaram no inconsciente, mas que depois foram trabalhados pela tradição. Vemos repetidas vezes como qualquer que tenha uma vivência original e imediata de símbolos inconscientes começa em seguida a trabalhar sobre eles.

Tomemos o exemplo de São Nicolas de Flüe, o santo suíço que teve a visão de uma figura divina errante que lhe aproximou envolta em uma brilhante pele de urso e cantando uma canção de três palavras. Pelo relato original é óbvio que o santo estava convencido de que quem lhe aparecia era Deus ou Cristo. Mas o relato original se perdeu e até faz uns oitenta anos não houve mais que um relato feito por um de seus primeiros biógrafos, que contou mais ou menos corretamente a história, mas sem falar da pele de urso! As três palavras da canção se referem a Trindade, o vagabundo divino seria Cristo, que aparece ao santo, e assim sucessivamente. Tudo isso, o biógrafo mencionava, mas com a pele de urso não pôde fazer nada, porque. Por que teria que usar Cristo uma pele de urso? Então, não se falou mais daquele detalhe, e só voltou a incluir quando o azar levou a descobrir novamente o relato original da visão. Isto é o que acontece com as experiências originais que se transmitem; faz-se uma seleção, e adapta-se ao que já se sabia —ou coincide em certo modo com isto— se comunica, enquanto que se tende a deixar acontecer os outros detalhes, porque parecem estranhos e ninguém sabe o que fazer com eles.

Parece, entretanto, que o simbolismo que se comunica mediante a tradição está em certa medida racionalizado e depurado das vulgaridades do inconsciente, dos miúdos detalhes estranhos que este vai adicionando, em ocasiões contraditórias e sujas. Isto também acontece, em pequena escala, dentro de nós mesmos. Um jovem médico voltou de repente muito céptico em relação à forma em que anotamos nossos sonhos, porque acreditava que quando um os anota pela manhã já houve muita falsificação. Então instalou um gravador junto à cama: de noite, quando despertava, embora estivesse meio dormindo, gravava o sonho e pela manhã o anotava por escrito tal como o recordava, e comparava as duas versões. Descobriu assim que seu cepticismo era exagerado. Os relatos de sonhos que fazemos à manhã seguinte são quase corretos, mas involuntariamente ordenamos isso. Por exemplo, ele sonhara que algo acontecia em uma casa, e que depois ele entrava na casa. Ao voltar a contar o sonho pela manhã, corrigiu a seqüência temporária e escreveu que ele entrava na casa e depois lhe acontecia tal e tal coisa. De fato, os sonhos registrados imediatamente são mais confusos quanto à seqüência temporária, mas pelo resto são bastante corretos. Portanto, mesmo que um sonho atravesse a soleira da consciência, esta, ao relatar-lo, faz-lhe algo, emenda-o e apresenta-o em forma um pouco mais compreensível.

Cum grano sales, poder-se-ia comparar o expresso com a forma como se comunicam as experiências religiosas em um sistema religioso vivente, no qual geralmente a experiência pessoal imediata se revisa, purifica-se e esclarece. Por exemplo, na história da vida íntima pessoal dos Santos católicos, a maioria deles tiveram vivências imediatas da Divindade —como corresponde à definição de um santo— ou visões da Virgem Maria, de Cristo ou de outras figuras. Entretanto, a Igreja poucas vezes publicou nada sem expurgar primeiro tudo o que se considerava material pessoal. Só deixava passar o que coincidia com a tradição.

O mesmo acontece inclusive nas comunidades primitivas livres. Também os índios norte-americanos omitem certos detalhes que não consideram importantes para as idéias conscientes da coletividade. Os aborígenes australianos celebram um festival chamado Ku-napipi, que se prolonga durante trinta anos. Durante todo esse tempo, em determinados momentos levam a cabo certos rituais — trata-se de um grande ritual de renascimento que se estende ao longo de toda uma geração— e quando os trinta anos transcorreram, volta-se a começar. O etnólogo que o descreveu pela primeira vez tomou o trabalho de registrar os sonhos que faziam referência ao festival, e descobriu que os membros da tribo sonhavam freqüentemente com ele, e que nesses sonhos, como cabia esperar e tal como nos aconteceria, havia variações em pequenos detalhes que não coincidiam de tudo com o que realmente acontecia. Os aborígenes australianos dizem que se um sonho contiver uma boa idéia, esta se comunica à tribo e adota-a como parte do festival, que dessa maneira varia um pouco em ocasiões, embora em termos gerais atêm-se à tradição que lhes foi comunicada.

Ao analisar católicos vi com freqüência o mesmo fenômeno, quer dizer que sonham com a missa, mas no sonho acontece algo especial; por exemplo, que o sacerdote distribui sopa quente em lugar da hóstia, ou um pouco parecido. Tudo é muito correto, a exceção desse único detalhe. Lembrança do sonho de uma monja onde em metade do Sanctus, quer dizer no momento mais sagrado, precisamente quando deve ter lugar a transformação, o ancião bispo que oficiava a missa se detinha de repente dizendo que antes era necessário um pouco mais importante, e pronunciava então um sermão sobre a encarnação. Depois voltava a deter-se dizendo que seguiriam com a missa tradicional, cuja terminação confiava a dois sacerdotes jovens. Aparentemente a monja, quão mesmo muitas outras pessoas, não tinha uma verdadeira compreensão do mistério da missa; para ela não era mais que a repetição mecânica do mistério, e portanto, antes de que tivesse lugar a transformação, o sonho demonstrava que na realidade teria que explicar às pessoas o que acontecia, porque senão participavam mentalmente a cerimônia não lhes serviria de nada; não fariam nada mais que acreditar sem entender. Por isso no sonho o bispo dava uma longa explicação, depois da qual a missa clássica continuava, celebrada por sacerdotes mais jovens, demonstrando que era uma renovação. A renovação produz-se de acordo com a maneira em que se entende a missa, e aqui o ancião a confiava aos dois jovens. Isto exemplifica como a experiência individual dos símbolos religiosos sempre difere um pouco da fórmula oficial, que não é mais que uma pauta média. É muito pouca a manifestação imediata do inconsciente que há na história ou em outros âmbitos.

Mediante a observação de sonhos, visões, alucinações e outras manifestações, o homem moderno pode agora, pela primeira vez, considerar de maneira utilizável os fenômenos do inconsciente. O que provém do inconsciente pode-se observar por mediação dos indivíduos. O passado nos legou alguns escassos informes de vivências individuais, mas, em geral, os símbolos do inconsciente nos chegam da maneira mais tradicional, devido ao fato de que normalmente a humanidade não abordou o inconsciente no nível individual, mas sim, com poucas exceções, relacionou-se com ele em forma indireta, mediante os sistemas religiosos. Até onde eu posso vê-lo, isto tem uma validez geral, a não ser nas sociedades mais antigas e mais primitivas, e em algumas outras formas de aproximação ao inconsciente, embora também foram codificadas.

Em várias tribos esquimós não existe praticamente conteúdo algum da consciência coletiva. Há algumas poucos ensinos sobre certos fantasmas, espíritos e deuses —Sila, o deus do ar; Sedna, a deusa do mar e alguns mais— que se comunicam verbalmente por mediação de certas pessoas, mas só as experiências pessoais são comunicadas pelo xamã ou o médico bruxo, que são as personalidades religiosas de certas comunidades. Os esquimós levam uma vida tão dura e têm tão difícil a sobrevivência, devido às terríveis condições ambientais, que normalmente todo mundo se concentra exclusivamente em sobreviver, com exceção de uns poucos indivíduos escolhidos que mantêm algum intercâmbio com os espíritos e têm experiências interiores e sonhos, de modo que o povo se relaciona simplesmente com esses sonhos e tem sobre eles suas próprias idéias, como sucede com uma pessoa moderna no curso de uma psicanálise. A única orientação que recebem é ao conhecer outros xamãs e intercambiar experiências, o que lhes permite não estar totalmente só com suas experiências íntimas. Em geral, os xamãs mais jovens procuram os velhos, temendo, como passaria a nós, que de não fazê-lo assim terminariam por enlouquecer. Nesse caso há um mínimo de tradição coletiva consciente, e um máximo de experiência pessoal imediata em alguns indivíduos.

Parece-me provável que isto represente os vestígios de um estado originário, porque segundo as considerações da antropologia pode-se supor que a humanidade vivia originariamente em pequenos grupos tribais de vinte a trinta pessoas, entre as quais costumava haver dois ou três introvertidos capazes de ter vivências pessoais íntimas, que eram os guias espirituais, enquanto que os caçadores ou lutadores, fisicamente fortes, eram os guias terrestres. Em casos assim há material referente a experiências íntimas imediatas e muito pouca tradição.

Estão além disso os fenômenos de indivíduos que fazem contato imediato com o inconsciente nas experiências iniciáticas organizadas de certos povos. Por exemplo, em muitas tribos de índios norte- americanos, parte da iniciação de um jovem médico bruxo consiste em ir ao topo de uma montanha ou ao deserto, depois de um período de jejum, e às vezes também depois de tomar drogas, a procurar ali uma visão, experiência ou alucinação que depois o jovem confia a seu Mestre ou Iniciador. Conta-se, por exemplo, que viu uma lagartixa, dizem-lhe que pertence ao clã dos thunderbird (1) e que terá que converter-se em um médico bruxo de tais e quais características. Mas ali a interpretação da vivência individual se relaciona com a tradição do inconsciente coletivo, e um médico bruxo se limitaria a omitir algo que fora completamente individual ou estranha. Paul Radin publicou sonhos de índios, mostrando a forma nas quais os interpretam, e é fácil ver que o que não entendem, saltam-no sem mais. Do sonho selecionam o que se relaciona com as idéias da consciência coletiva e omitem os detalhes estranhos, quão mesmo fazem os Analistas junguianos principiantes quando começam a interpretar seus próprios sonhos. Se um lhes sugerir que tentem fazê-lo, em geral escolhem um motivo que pareça relacionar-se com algo que entendem e dizem que sabem o que isso significa, que se refere a tal e tal coisa, e então é quando eu lhes pergunto o que tem deste detalhe e deste outro, que eles tendem a omitir.

As experiências imediatas do inconsciente que têm certos indivíduos podem ser logo codificadas ou interpretadas, ou incorporadas a um sistema religioso. Naturalmente, em todos os sistemas religiosos há seitas que tendem a revivificar as experiências imediatas. Ali onde uma religião parece muito codificada, forma-se geralmente uma seita compensatória que tendam a revivificar as experiências individuais, e isto explica a multiplicidade de cismas. Por exemplo, no Islã estão os sunnitas e xiitas, entre outros; ou a escola talmúdica e a cabalística na Idade Média judia, onde se comunicam os símbolos religiosos codificados. O grupo mais recente tende a dar mais valor às vivências individuais; um deles sustenta que é ortodoxo, e o outro afirma que tem o espírito vivente, o que seria além disso o contraste entre os tipos extrovertidos e introvertido. Mas inclusive na tradição do introvertido que se proclama dono do espírito, a verdadeira experiência pessoal do inconsciente é muito pouca. Nunca há mais que uns poucos indivíduos que tenham experiências assim, provavelmente porque são tão
 
                                 
                                                                  FIGURA 3

perigosas e aterradoras que só umas poucas pessoas excepcionalmente valentes seguem este caminho, ou os néscios que não sabem até que ponto aquilo é perigoso, e que por isso mesmo terminam enlouquecendo. Em alguma de suas primeiras conferências no colégio técnico de Zurique, E. T. H., para exemplificar o simbolismo do processo de individuação e o que queria dizer com esta expressão, o doutor Jung analisou uma série de imagens de um texto oriental de meditação e dos famosos Exercícios Espirituais de São Inácio de Loyola, como também o Benjoumin minor de Hugh de St. Victor.

Demonstrou que todas estas formas de meditação codificada contêm as teorias ou símbolos essenciais que normalmente aparecem nos indivíduos no processo de individuação. Mas todas estas abordagens do inconsciente, quão mesmo a maioria das formas de meditação oriental e das formas cristãs medievais, contêm um programa. Por exemplo, quem pratica os Exercícios de São Inácio tem que concentrar-se na primeira semana na sentença Homo creatus est, na segunda nos sofrimentos de Cristo e assim sucessivamente. Se em meio de sua contemplação lhe ocorre que gostaria de tomar um café, isso seria uma perturbação mundana induzida pelo diabo, que terá que dominar. Mas também pode haver perturbações sagradas! O meditador poderia, quando medita sobre a cruz, ver de repente uma luz azul ou uma coroa de rosas que rodeia a cruz, mas como isso não corresponde, também esse pensamento deve rechaçar; esse poderia ser o diabo, que está falsificando o processo, porque o que ele deve ver é a cruz e não um ramo de rosas. Por isso se ensina a rechaçar essas irrupções espontâneas do inconsciente e a aderir-se fanaticamente ao programado.

Naturalmente que segue ainda concentrando-se em símbolos do inconsciente, porque a cruz é um símbolo do inconsciente, mas sua mente orienta-se para um canal concreto, definido pela tradição coletiva. Se o meditador disser a seu diretor espiritual que viu uma banheira em vez da cruz, dirão que não se concentrou como devia, que se desviou. O mesmo é válido para certas formas de meditação orientais. Se a um iogue lhe aparecem formosos devas e deusas que tentam apartar de seu objetivo, deve desprezar essas idéias como fatores de perturbação. Assim, nestas formas de abordagem do inconsciente se tem que respeitar uma direção ou caminho prescrito conscientemente, e se tem que fazer caso omisso de certos pensamentos que aparecem. Por esta razão o simbolismo que aparece nestas formas não é exatamente da mesma espécie que o que aparece nos sonhos e na imaginação ativa, porque se dissermos às pessoas que se limite a observar o que aparece, coisa que, como é natural, produz um material algo diferente, os dois produtos são só relativamente comparáveis.

Os alquimistas estavam em uma situação completamente diferente. Acreditavam que estudavam os fenômenos desconhecidos da matéria —mais adiante darei os detalhes— e limitavam-se a observar o que sucedia e a interpretá-lo de algum jeito, mas sem nenhum plano específico. Aparecia um torrão de alguma matéria estranha, mas como eles não sabiam o que era, faziam uma conjetura qualquer, que é óbvio seria uma projeção inconsciente, mas nisso não havia uma intenção nem tradição definidas. Por conseguinte, se poderia dizer que na alquimia as projeções se efetuavam da maneira mais ingênua e impremeditada, e sem lhes realizar correção alguma.

Imaginemos a situação de um antigo alquimista. Em alguma aldeia, um homem construía uma choça isolada e cozinhava coisas que provocavam explosões. É muito natural que todos digam que é um feiticeiro! Um dia chega alguém que lhe diz que encontrou uma parte de metal estranho e pergunta ao alquimista se não lhe interessaria comprá-lo. O alquimista não sabe quanto vale o metal, mas faz um cálculo aproximado e lhe dá algum dinheiro. Depois põe sobre o fogão o que lhe trouxeram e o mescla com enxofre ou algo similar para ver o que acontece, e, se o metal acertar a ser chumbo, o alquimista fica gravemente afetado pelos vapores tóxicos. Chega então à conclusão de que se trata de uma matéria que faz sentir mal às pessoas e quase o arbusto, e conclui dizendo que há um demônio no chumbo! Depois, quando escreve suas receitas, acrescenta uma nota ao pé: «Tomem cuidado com o chumbo, porque nele há um demônio capaz de matar e enlouquecer a gente», o que para aquele momento e naquele nível seria uma explicação bastante óbvia e razoável. Por conseguinte, o chumbo se converteu em um objeto ideal para projetar fatores destrutivos, dado que em certas condições seus efeitos são tóxicos. As substâncias ácidas também eram perigosas, mas como por outra parte eram corrosivas e tinham propriedades dissolventes, eram extremamente importantes para as operações químicas. Dessa maneira, se queriam fundir algo ou obter em forma líqüida podiam fazê-lo valendo-se de soluções ácidas, e por esta razão a projeção afirmava que o ácido era a substância perigosa que dissolve, mas que também possibilita o manejo de certas substâncias. Ou senão, é um meio de transformação que permite, por assim dizê-lo, abrir um metal com o qual é impossível fazer nada e voltá-lo acessível a transformação mediante o uso de certos líqüidos. Por isso os alquimistas escreviam sobre o tema na forma ingênua que estou lhes descrevendo, sem dar-se conta de que aquilo não era ciência natural, mas sim, se se o considera do ponto de vista da química moderna, continha muitíssimas projeções.

Na alquimia existe, pois, uma quantidade assombrosa de material que procede do inconsciente, produzido em uma situação em que a mente consciente não seguia um programa definido, mas sim somente investigava. O próprio Jung abordou de maneira similar o inconsciente, e em análise também tentamos conseguir que adotemos uma atitude na qual não se aproxime ao inconsciente limitando-se a um programa. Dizemos simplesmente, por exemplo, que a situação parece má, que o estado do sujeito não é de todo satisfatório e que devemos considerar tudo isso, junto ao fenômeno vital que chamamos o inconsciente, e nos perguntar o que é que ambas as coisas juntas poderiam representar, ou para onde poderiam encaminhar-se. Um ponto de partida assim, consciente, que contém um mínimo de  programação, corresponde ao point de départ consciente do alquimista, de modo que o inconsciente responde de maneira parecida, e por isso os escritos alquímicos são especialmente úteis para chegar a entender o material moderno.

Pergunta: Em um volume de Oppenheim, de material onírico antigo, titulado The Interpretation of Dreams in the Ancient Near East [A interpretação dos sonhos no Oriente Próximo antigo], a gente tem a sensação de que os antigos intérpretes trabalhavam também sobre uma base coletiva. Você crê que é assim?

M. L. von Franz: Sim, na medida em que também eles faziam uma seleção nos sonhos, escolhiam aquilo que se relacionava com o material coletivo. Isto também é válido para o Artemidoro. Eu não conheço mais que um documento da antigüidade aonde há uma série de sonhos não selecionados, e se encontra em um texto proveniente do serapeo de Menfis. Um homem chamado Ptolomeu (parece-me que seu artigo foi publicado por Ulric Wilcken) meteu-se em dificuldades, acredito que por dívidas, por isso deveria ir à prisão, mas em troca optou por converter-se em noviço —um Katochos— no serapeo de Menfis, quer dizer o santuário de Serapis erguido em Menfis. De acordo com as normas, um Katochos devia anotar seus sonhos, e temos o papiro de Ptolomeu —um papiro excepcional, em grego egípcio helenizado— onde constam sonhos assombrosamente «modernos». Por exemplo: «Encontrei-me com Fulano, e disse...», e a isso seguem algumas trivialidades, e logo outra vez o nome, e assim sucessivamente, como seria típico de nossos sonhos. É impossível interpretar um sonho assim, porque não conhecemos as associações. Em uma série de uns vinte e sete sonhos há dois ou três em que aparece a deusa Isis, por exemplo. Embora possamos entender os sonhos coletivos, nos quais aparecem figuras coletivas, com os outros não podemos fazer nada porque não sabemos as associações. Ptolomeu diz, por exemplo, que se encontrou com seu sobrinho, mas ninguém sabe o que significava para ele esse sobrinho.

Há algo mais que teve grande importância para mim quando descobri este documento, ou seja, que aquelas pessoas sonhavam exatamente igual a nós. Se lermos os sonhos dos babilônios, sente que eles não sonhavam como nós, porque no material onírico dos babilônios os sonhos se selecionam para adaptar-se à interpretação tradicional. Por exemplo, sonhar com uma cabra negra anuncia má sorte. Centenas de outros sonhos do mesmo homem que tivera um sonho assim passam sem pena nem glória, mas, como na tradição coletiva uma cabra negra que aparece em sonhos significa má sorte, aquele sonho registrou-se. O mesmo acontece hoje em nossas comarcas camponesas, onde ninguém presta atenção alguma aos sonhos ordinários. Mas se alguém sonha com um ataúde, ou com umas bodas ou uma serpente, disso se fala, e todos se perguntam se estará por morrer alguém da família; isto só é válido para os motivos tradicionais, e o resto do material onírico se despreza.

Mas os fragmentos dos sonhos de Ptolomeu nos mostram algo completamente diferente da bibliografia sobre sonhos da antigüidade, e um se dá conta de que sonhavam então como nós, embora a bibliografia sobre sonhos não relata mais que os poucos sonhos que concordam com suas teorias: se sonhou que a casa se incendiava, então está enamorado, coisas assim. Sempre se pode ver como chegavam à suas interpretações, que não eram do todo más, porque é bastante provável que alguém que está enamorado sonhe que lhe queima a casa. Esses livros estão organizados sobre experiências médias, mas todo o material onírico medieval, quão mesmo o da antigüidade, interpreta-se no nível da realidade. Ou seja, se alguém for morrer, sonhará com um visitante que receberá ou perderá dinheiro, e assim no mesmo estilo. Um sonho não se toma jamais como uma coisa ou um processo interior, mas sim o projeta sempre sobre o mundo exterior.

Inclusive hoje, aqui na Suíça, as pessoas simples costumam falar de seus sonhos, mas vendo-os só como pronósticos. Eu analiso uma mulher da limpeza, e outro dia me chamou seu irmão para me perguntar por que enlouquecia mais ainda a sua irmã analisando-lhe os sonhos, e para me dizer que os sonhos não são mais que tolices, como bem sabia ele, que o inverno passado sonhara três vezes com ataúdes, e na família não morreu ninguém! Este homem pensa à maneira clássica grego-egípcio- babilônica. Mas voltemos agora às tradições originais dos pequenos grupos primitivos, e suponhamos que um homem tem sonhos ou visões. Ante ele se abrem duas possibilidades: se conhecer alguém a quem se considera xamã ou médico bruxo, ou a um sacerdote, consulta-o e aceita sua interpretação, ou, senão, pode manter-se independente e dar-se sua própria interpretação, extrair suas conclusões e elaborar um sistema completo.

Comentário: Então tudo depende da atitude e do entendimento de quem tem a autoridade e, em última instância, da questão de qual é a autoridade que se tem que respeitar mais, se a do intérprete que assinala a tradição ou a da pessoa que teve o sonho ou a experiência.

M. L. von Franz: Sim, e em última instância da pessoa que tem mais mana, a que leva a vida mais espiritual e tem maior autoridade. Por exemplo, às vezes, inclusive nesses países primitivos, as pessoas guardam para si suas experiências e cultivam seu próprio sistema, mas se depois fracassam na vida os consideram tontos, de modo que o homem que tem a arrogância bastante para querer ficar só corre o risco de que o vejam como a um possuído e um parvo, e não como um grande médico bruxo. Tem que correr esse risco, e só a vida pode demonstrar qual é a verdade. Mas inclusive nas tribos assim se distingue quem é um parvo e está possuído, e quem é um médico bruxo.

Comentário: Em termos cristãos poder-se-dizia que um homem assim carregaria sua cruz, mas que tudo dependia do motivo.

M. L. von Franz: Sim, isso mesmo. Ou, como acontece na heresiologia católica, alguém também pode ter uma revelação individual de Deus, que o leva a afastar-se do dogma da Igreja. Imaginemos que esta pessoa tem uma visão de Cristo e que Cristo lhe diz que é meio animal, ou um pouco parecido, e que então o homem anuncie que ele sabe que Cristo não só se encarnou como homem, mas também no nível de um animal. Se um homem acredita nisso, a Inquisição que o condena à fogueira diz também que ainda pode salvar-se e ainda pode ter razão. Terá que queimá-lo, porque o credo ortodoxo deve defender-se, mas a porta permanece aberta; dizem que o herege pode ter razão, mas que se quer aderir-se a sua verdade pessoal deve aceitar que o queimem por ela. Não pretendem que perca sua alma, porque Deus bem pode aceitá-lo no Paraíso, mas seu destino é também morrer queimado.

Uma coisa assim representa uma espécie de modéstia espiritual, porque embora o condenam à fogueira, não condenam sua alma nem sustentam tampouco que não haja salvação para ele. Um homem assim é bastante orgulhoso (ou solitário, ou espiritualmente independente) para confiar em suas próprias crenças e em suas experiências pessoais, e deve aceitar as conseqüências, mas a comunidade não o aceitará nos círculos católicos. Em outros círculos a atitude pode ser diferente. Conforme tive notícias recentemente, também os ensinos do catolicismo moderno modificaram-se ligeiramente em um sentido. Um jesuíta disse a um amigo meu que a um lhe permite acreditar algo, como ao homem da tribo a quem nos referimos antes, sempre que não lhe fale com ninguém mais do assunto, não o converta em doutrina e não tente converter a outros à mesma crença. Se simplesmente guarda-as para si, mas decide não rechaçar sua visão interior, então a Igreja Católica tampará os olhos ante o problema.

Comentário: Acredito que isso não só se aplica à Igreja Católica, mas também a qualquer grupo de pessoas. Depende se o indivíduo crê —ou não— que pode falar de sua experiência com seu grupo.

M. L. von Franz: Sim, e por isso com freqüência digo às pessoas de personalidade esquizóide que sua loucura não está no que vêem ou no que ouvem, mas que não saibam a quem podem dizer-lhe Se o guardassem para si, tudo iria bem. Tenho, por exemplo, uma paciente fronteiriça, uma mulher que percorre todos os psiquiatras acusando-os de serem uns racionalistas idiotas que não acreditam em Deus, e os conta suas visões. Acredito que seu único engano está em dizer a essa gente, porque isso é, simplesmente, ser uma inadaptada. Suas visões como tais estão perfeitamente, e o que a paciente pensa delas também, mas seu sentimento de extroversão é inferior, socialmente é uma inadaptada. Não deveria falar dessas coisas com um psiquiatra racionalista que não faz mais que perguntar se não teria que interná-la!

Comentário: Não, porque sua própria reputação também está em jogo!

M. L. von Franz: Sim, por certo. Seus colegas burlariam dele se começasse a acreditar nas visões de seus pacientes. Os colegas sempre se comportam assim, e falam de contra-transferência e essas coisas. É a tal ponto uma questão de ambição e prestígio e convenção coletiva..., quão mesmo passa conosco. Há outro aspecto do problema da alquimia, e é por que tem tanta importância para o homem moderno. A alquimia é uma ciência natural que representa um intento de entender os fenômenos materiais da natureza; é uma mescla da física e da química daqueles primeiros tempos, e corresponde à atitude mental consciente dos que a estudaram e se concentraram no mistério da natureza, e particularmente dos fenômenos materiais. É também o começo de uma ciência empírica, mas nessa história específica entrarei depois. O homem moderno médio, em especial o dos países anglo-saxões, mas também e cada vez mais em todos os países europeus, está treinado mentalmente na observação dos fenômenos das ciências naturais, enquanto que às humanidades, como bem vocês sabem, as desdenha cada dia mais. Esta é uma tendência da atualidade, na qual fica cada vez mais o acento sobre o enfoque «científico». Se analisarem vocês as pessoas modernas, encontram-se com que sua visão da realidade está muito influenciada pelos conceitos básicos da ciência natural, e com que o material compensatório ou de conexão que provê o inconsciente também é similar. A analogia é superficial, porque a razão é muito mais profunda.

Se se perguntar um por que em nossa Weltan-schauung [visão do mundo] preponderam até tal ponto as ciências naturais, pode-se ver que isto é o resultado de uma evolução prolongada e específica. Como possivelmente todos sabem, vista do ângulo mais especificamente europeu se considera que a ciência natural se originou no século VI a. C., para a época da filosofia pré-socrática. Mas se tratava basicamente de uma especulação filosófica sobre a natureza, porque havia muito pouca investigação experimental por parte dos primeiros cientistas da natureza. Seria mais correto dizer que o que nasceu naquele momento foi a ciência natural assim como a teoria ou conceito geral da realidade. A ciência natural, no sentido da experimentação que sempre levou a cabo o homem com os animais, as pedras, as plantas, a matéria, o fogo e a água, é muito mais ampla, e em tempos passados formou parte das práticas mágicas que se relacionam com todas as religiões e que se ocupavam daqueles materiais. Há umas poucas exceções.

Por isso se poderia dizer que, em sua visão das realidades últimas da vida, o homem se sente afligido por idéias e conceitos vindos de seu próprio interior, por símbolos e imagens, mas se enfrenta também com os materiais externos. Isto explica por que, na maioria dos rituais, há algo concreto que representa o significado simbólico; por exemplo, a tigela de água que fica no centro para a adivinhação, ou algo desse mesmo gênero.

Por isso, à matéria e aos fenômenos materiais os aborda de maneira «mágica», e portanto nas histórias da religião de diferentes povos há símbolos religiosos que são personificações ou representações de demônios, com aspectos personificados pela metade, como há também divindades, isto é, fatores de poder, que têm um aspecto material. Todos vocês conhecem o conceito de mana, que inclusive os investigadores não junguianos da religião comparam com a eletricidade. Se um australiano esfregar seu churinga (2) para obter mais mana, seria com a idéia de recarregar seu totem, ou sua essência vital, como quem recarga uma pilha.

O conceito mesmo de mana suporta a projeção de uma eletricidade semi-material e divina, de uma energia ou um poder divino. Assim, as árvores alcançadas pelo raio representam o mana. Além disso, na maioria dos sistemas religiosos há substâncias sagradas, como a água e o fogo, ou certas plantas, como também espíritos, demônios e deuses encarnados que estão mais personificados e que podem falar em visões ou aparecerem e conduzir-se de maneira semi-humana.  Em ocasiões, o acento fica melhor na natureza despersonalizada dos símbolos de poder, e outras vezes melhor em poderes personificados. Em algumas religiões um dos aspectos é mais dominante, e em outras o outro. Por exemplo, o sistema religioso cuja forma decadente se reflete nos poemas homéricos, nos quais os deuses do Olimpo grego aparecem semi-personificados, com suas deficiências humanas, constituem um exemplo extremo de divindades principalmente personificadas. Por outra parte, o extremo contrário da oscilação pendular encontra-se na filosofia natural grega, aonde subitamente toda a ênfase fica em símbolos tais como a água, da qual se diz que é o princípio do mundo, ou no fogo, como em Heráclito, todo o qual é uma revivificação da idéia do mana em um nível superior.

No cristianismo observa-se uma mescla: a Deus Pai e a Deus Filho, representa-os em geral na arte como seres humanos, e ao Espírito Santo, às vezes, como um ancião com barba, o qual é um esteriótipo idêntico ao de Deus Pai, mas freqüentemente como um animal, que é outra forma de personificação, ou também pode representar-se pelo fogo, o vento ou a água, ou pelo fôlego [que circula] entre o Pai e o Filho. De modo que o Espírito Santo, até na Bíblia, tem certas formas em que o descreve como fenômenos naturais tais como o fogo, a água ou a respiração, ou equipara-o com eles. Assim, o cristianismo tem uma imagem de Deus que representa ambos aspectos. Mas em outras religiões há ou vários humanos ou outros deuses, de modo que provavelmente tenhamos que nos expor à hipótese de que o inconsciente gosta de aparecer em suas manifestações últimas, arquetípicas, simbolizado às vezes nos fenômenos
 
                                
                                                                      FIGURA 4
naturais, e outras vezes personificado. O que significa isto ?

A pergunta é muito difícil. Por que, por exemplo, tem alguém um conceito de Deus como um fogo invisível e divino que tudo o penetra, enquanto que outra pessoa imagina como algo semelhante a um ser humano? Atualmente, tendemos a pensar que um menino pequeno, com idéias de jardim de infância, imaginará a Deus Pai com uma barba branca, porém, mais adiante, adquirida já uma maior informação científica, imaginaria melhor —se o imagina— como uma potência significativa no cosmos ou um pouco parecido. Mas então, não fazemos mais que projetar nossa própria situação científica! Até onde eu vejo, não é verdade que aquelas manisfestações ou idéias personificadas dos deuses, ou da Divindade, sejam mais infantis.

Para poder responder à questão seríamos forçados a estudar com cuidado uma quantidade de material onírico e nos perguntar depois, totalmente a parte deste problema religioso, o que quer dizer que um conteúdo arquetípico se manifeste como uma bola de fogo e não como um ser humano. Suponhamos que há dois homens, e que um deles sonha com uma bola de fogo que o reconforta e o ilumina, enquanto que ao outro lhe aparece no sonho um maravilhoso sábio ancião, e que para ambos a vivência é igualmente avassaladora. De um modo superficial, poder-se-dizia que ambas as imagens simbolizam o Si mesmo, quer dizer a totalidade, o centro, uma forma mais de manifestação da imagem de Deus. Qual é a diferença quando a experiência de um homem é de luz, ou de uma bola de fogo, enquanto que ao outro lhe aparece o sábio super humano?

Resposta: A anterior representaria o significado abstrato.

M. L. von Franz: Sim, alguém é mais abstrato —abstrabere—, mas é abstractus do que?

Comentário: Estaria mais afastado do humano.

M. L. von Franz: Sim, per definitionem, mas como responderia você ao analisando que lhe fizesse uma pergunta assim? Nunca podemos dar uma resposta absoluta, mas podemos dizer algo sobre isso. Eu muito simplesmente, perguntaria ao paciente, e trataria de animá-lo a seguir. Com um ancião sábio pode-se falar, pode-lhe fazer perguntas ou expor todos seus problemas humanos —se deveria divorciar ou gastar seu dinheiro de tal ou qual maneira— e pode-se supor que, posto que se aparece nessa forma, deve saber algo do assunto, embora possivelmente responda que ele está muito afastado de todas essas coisas! Em todo caso, sensação primária, ou a conjetura, ou a atitude que suscita é que, com uma figura assim, a gente pode relacionar-se em um nível humano. Mas não se pode falar com uma bola de fogo nem fazer contato com ela, a não ser com algum recurso da ciência natural... É possível colocar em um recipiente de cristal, ou observá-la para ver o que é que faz; pôr-se de joelhos e adorá-la, mantendo-se à distância prudente para que não se queime, ou se colocar dentro dela e descobrir que é um fogo que não queima, mas que não é possível relacionar-se com ele de forma humana.

Então, a manifestação em uma forma humana deveria demonstrar a possibilidade de uma relação consciente, enquanto que uma forma desumana, ou a de um poder natural, não é mais que um fenômeno, e só é possível relacionar-se com ele na sua condição de tal. Evidentemente, seja o que for o Divino, tem as duas vertentes, e assim o mantiveram a maior parte das teologias. O que é um deus com quem não podemos nos relacionar? Senão pudermos lhe dizer nada de nossa alma humana, do que nos serve? Por outra parte, o que é um deus que não é mais que uma espécie de ser humano, e que não vai além disso? Também ele parece ser o Outro completamente misterioso, com o qual não podemos nos relacionar, da mesma maneira que não podemos nos relacionar com os fenômenos misteriosos da natureza. Portanto, é provável que sempre existira os dois aspectos deste centro íntimo e final da psique: um deles completamente transcendente, que se manifesta em um pouco tão remoto como o fogo ou a água, e outro que às vezes se manifesta em forma humana, o qual significaria que se aproxima de uma forma com a qual poderíamos nos relacionar.

Se alguém sonhar com a Divindade em figura humana, haverá então um grande caudal de experiência emocional e intuitiva de seu caráter e de sua proximidade. São Nicolas teve um sonho ou uma visão de Cristo que lhe aparecia como um Berserk (3) e logo, na mesma visão, o Berserk dizia ao povo a verdade sobre si mesmos; como era capaz de ver dentro deles o que realmente eram, as pessoas fugiam. Ele sabia no momento o que queriam lhe perguntar e, com freqüência, simplesmente dava a resposta sem interrogá-los sequer. Por conseguinte, é óbvio que São Nicolas tinha a mesma qualidade que tinha Cristo em sua visão, o que seria um exemplo de algo pertencente ao inconsciente arquetípico e que penetra no ser humano. Se alguém sonhar com um arquétipo em forma humana, isso significa que o sonhador poderia, em alguma medida, encarnar o arquétipo. Este poderia manifestar-se no sonhador e expressar-se por sua mediação; nisto consiste a idéia do Cristo interior. Se alguém sonhar com o ancião sábio, pode acontecer que se encontre em uma situação impossível na qual lhe formulam uma pergunta impossível, mas subitamente lhe ocorre uma resposta perfeita! Se a pessoa for sincera, sente-se obrigada a admitir depois que não era ela quem falava. «Isso» falou por meio dela, mas ela não podia pretender que lhe ocorrera semelhante idéia. Isso seria a manifestação na pessoa do ancião sábio, de alguém ou algo que não é idêntico ao eu, mas que é uma ajuda em uma situação difícil.

Pergunta: Por que você nega necessariamente a identificação com o eu?
 
M. L. von Franz: Porque, se você se identificar, cai em uma inflação. Com isto deve ser sincero. Se você fez um esforço mental, pode dizer que a idéia foi dele, mas me aconteceu às vezes que disse algo e depois a pessoa o repetiu, dizendo que com aquilo eu lhe salvara a vida. Se eu for sincera, respondo que não me dera conta do que dizia, mas sim disse o que me ocorreu, e que aquilo resultou ter muito mais sabedoria que algo que eu pudesse pensar. Mas inclusive se a gente fez o esforço e tem a sensação subjetiva de que o pensou, de fato aquilo proveio do inconsciente, porque sem a cooperação deste não se pode produzir nada. Inclusive se a gente disser que às doze deve lembrar-se de fazer tal coisa, se o inconsciente não cooperar, esquecerá.

É óbvio, qualquer classe de visão mental interior provém do inconsciente, mas este postulado é exagerado, porque há vezes em que alguém tem a sensação de ter resolvido algo por seu próprio esforço, enquanto que em outra ocasião a idéia simplesmente lhe ocorre, sem esforço consciente de sua parte. É mister ser singelo e sincero, não deixar ganhar pela inflação nem reclamar para si mesmo essas boas idéias; quem falava —se é que assim o confirmam os sonhos— era o ancião sábio, ou a acordada viagem, ou a Divindade. Se alguém sonhar com o ancião sábio e tem uma experiência destas, essa é a demonstração empírica. A bola de fogo não oferecerá a mesma experiência, embora em certo sentido será ainda mais maravilhosa, porque a pessoa se verá muito mais afetada emocionalmente; estará afligida, paralisada pelo mistério, pela total alteridade do Divino.

Uma experiência do Divino costuma ser algo de um poder entristecedor que transcende nossa compreensão, que é perigoso, mas ao qual terá que adaptar-se, como terá que adaptar-se a certas manifestações da natureza, como a erupção de um vulcão. O espetáculo é muito formoso, mas não terá que se aproximar demasiado, e é impossível relacionar-se com ele. O único que se pode fazer é olhá-lo, mas é algo que jamais se esquecerá. Emocionalmente, tem um efeito sobre um, mas para descrevê-lo faria falta um poeta. Isso corresponderia às manifestações do arquétipo como fenômeno natural. A natureza tem, na experiência do ser humano, um aspecto numinoso e divino que explica por que a imagem de Deus tem ambos os aspectos. Na maioria das religiões há personificações de Deus em ambas as formas.

Na história da evolução da mente européia se manifestou, da época dos gregos, uma forma estranha de oposição e de enantiodromia. (4) Na religião homérica, o aspecto personificado estava exagerado. Na filosofia natural dos pré-socráticos exagerava-se o aspecto natural. Tanto que no estoicismo ficou mais ênfase no aspecto natural, na primeira época do cristianismo houve um retorno a um aspecto mais personificado, mas a partir dos séculos XV e XVI voltou-se a pôr ênfase no aspecto da natureza. Parece como se na evolução da mentalidade européia se iniciasse um certo movimento de equilíbrio dos opostos, quer dizer da diferença ou contraste entre ciência e religião, que chegou logo a converter-se no grande pseudo-problema da modernidade posterior: o dilema de ciência ou religião.
 
Refiro a ele em forma arbitrária e ridicularizando-o como pseudo-problema porque originariamente não era problema algum, e de fato não existe mais que uma só coisa: a busca da verdade essencial. Se voltamos àquela questão e dizemos que o que interessa é a verdade, e não em qual das faculdades universitárias tem que achar, então o problema se desinfla. Algumas pessoas ficam presas na projeção das representações arquetípicas do poder da natureza, e outras nos poderes personificados, e os dois grupos brigam. Entre vocês pode haver alguém que o objete e me pergunte como é que também os cientistas da natureza podem cair na armadilha das projeções. Para um analista, isto é evidente, mas quero explicá-lo brevemente para aqueles que possivelmente não se dedicaram muito a pensar nestas coisas.

Se lerem vocês a história da evolução da química, e em particular da física, verão que inclusive estas ciências naturais tão exatas não podiam, nem podem ainda, deixar de apoiar seu sistema de pensamento sobre certas hipóteses. Na física clássica, até finais do século XVIII, uma das hipóteses de trabalho, a que se chegou seja em forma inconsciente ou semi-consciente, era que o espaço tinha três dimensões, uma idéia que jamais questionaram. O fato se aceitou sempre, e os desenhos em perspectiva de fatos, diagramas ou experimentos físicos estavam sempre de acordo com aquela teoria. Só quando se abandona se pergunta um como é que se pôde acreditar jamais em semelhante coisa. Como se chegou a uma idéia assim? Por que estávamos tão presos nela que jamais ninguém duvidou, nem sequer questionou, aquela afirmação? Aceitava-se como um fato evidente, mas que base tinha?

Johannes Kepler, um dos pais da física moderna ou clássica, dizia que naturalmente o espaço devia ter três dimensões, porque eram três as pessoas da Trindade! De modo que nossa propensão a acreditar na tridimensionalidade do espaço é um broto mais recente da idéia trinitária cristã.

Além disso, até agora a mentalidade científica européia esteve possuída pela idéia da casualidade, aceita também sem questioná-la: tudo era causal, e a atitude científica consistia em afirmar que as investigações deviam fazer-se tendo presente esta premissa, porque para tudo devia haver uma causa racional. Se algo parecia irracional, acreditava-se que sua causa era ainda desconhecida. Por que estávamos tão dominados por aquela idéia? Um dos grandes pais das ciências naturais, e grande protagonista do caráter absoluto da idéia de casualidade, foi Descartes, o filósofo francês cuja crença se apoiava na imutabilidade de Deus. A doutrina da imutabilidade de Deus é um dos dogmas do cristianismo: a Divindade não muda, em Deus não deve haver contradições internas nem idéias ou concepções novas. Essa é a base da idéia de causalidade! Da época de Descartes em diante, isto parecia com todos os físicos tão evidente que ninguém o questionou. A ciência não tinha outra missão que investigar as causas, e ainda o acreditamos. Se algo cair, terá que encontrar o por que: deve-o ter derrubado o vento ou algo assim, e estou segura de que se não descobrir nenhuma razão, a metade de vocês dirão que ainda não sabemos a causa, mas claro que tem que haver uma! Nossos prejuízos arquetípicos são tão fortes que não é possível defender-se deles: apanham-nos, sem razão.

O professor Wolfgang Pauli, físico [e prêmio Nobel], demonstrava com freqüência até que ponto as ciências físicas modernas estão em certa medida arraigadas nas idéias arquetípicas. Por exemplo, a idéia de casualidade tal como a formulou Descartes é responsável de enormes progressos na investigação da luz e dos fenômenos biológicos, mas aquilo mesmo que promove o conhecimento se converte em sua prisão. Geralmente, os grandes descobrimentos nas ciências naturais se devem à aparição de um paradigma arquetípico mediante o qual se pode descrever a realidade; esta aparição costuma preceder aos grandes avanços, porque agora há um modelo novo que permite uma explicação muito mais completa do que até o momento era possível.

A ciência progrediu, pois, mas ainda qualquer modelo se converte em uma jaula, porque se a gente tropeçar com fenômenos difíceis de explicar, em vez de adaptar-se e dizer que não se correspondem com o modelo e que é mister achar outra hipótese, adere-se com uma espécie de convicção emocional às quais já tem, e não pode ser objetivo. Por que não teria que haver mais de três dimensões, por que não o investigamos a ver onde nos conduz? Mas isso era algo que a gente não podia fazer.

Recordo um exemplo muito bom que deu um dos discípulos de Pauli. Vocês sabem que a teoria do éter desempenhou um importante papel nos séculos XVII e XVIII. Esta teoria afirmava que no cosmos havia uma espécie de pneuma, semelhante ao ar, no qual existia a luz, etcétera. Um dia, quando em um congresso um físico demonstrou que a teoria do éter era ao todo desnecessária, ficou de pé um ancião de barba branca, que com voz tremente declarou: «Se o éter não existir, então tudo desaparece!». Inconscientemente, aquele ancião projetara no éter sua idéia de Deus. O éter era seu deus, e senão o tinha não ficava nada. Aquele homem tinha a ingenuidade suficiente para falar de suas idéias, mas todos os cientistas da natureza têm modelos últimos da realidade, nos quais acreditam como no Espírito Santo.

Como é questão de crença e não de ciência, é algo que não se pode submeter a discussão, e a gente se irrita e fica fanática apresenta-lhe um fato que não se adapta ao marco referencial. São capazes de dizer que todo o experimento é falso e que se devem apresentar fotografias, e é virtualmente impossível conseguir que aceitem o fato. Conheci um físico cujos sonhos apontavam a um descobrimento novo, ainda por fazer, e ao qual ele mesmo não chegara ainda, mas que estava no ar, por assim dizê-lo. A partir dos sonhos chega à conclusão de que devia abandonar sua crença em uma relação simétrica entre os fenômenos materiais. O físico disse que uma idéia assim o tornaria louco! Mas uns três meses depois, publicaram-se resultados experimentais que demonstravam com exatidão que o que ele sonhara era correto, e que teria que renunciar à suas antigas idéias sobre a ordem cósmica. Quer dizer que o arquétipo é o promotor de idéias, e é também o causador das restrições emocionais que impedem que se renuncie à teorias anteriores. Na realidade, não é mais que um detalhe ou aspecto específico do que acontece continuamente na vida, porque não poderíamos reconhecer nada sem projeção, mas esta é também o principal obstáculo que se opõe a que alcancemos a verdade. Se um se encontrar com uma desconhecida, não é possível estabelecer contato sem projetar algo; alguém deve expor uma hipótese, coisa que por certo se faz em forma totalmente inconsciente: a mulher é maior, e provavelmente uma espécie de figura materna, é um ser humano normal, etecétera. A partir dessas hipóteses se estabelece a ponte. Quando a gente conhecer melhor à pessoa, terá que descartar muitas das primeiras hipóteses e admitir que nossas conclusões eram incorretas. A menos que isto se faça, o contato se travará.

Ao princípio um tem que projetar, ou se não não há contato, mas depois terá que ser capaz de corrigir a projeção, e o mesmo vale não só para os seres humanos, mas também para todo o resto. É necessário que o aparelho de projeção funcione em nós, porque sem o fator de projeção inconsciente nem sequer pode ver nada. Por isso, de acordo com a filosofia da Índia, a totalidade da realidade é uma projeção, e falando subjetivamente o é. Para nós, a realidade existe somente quando fazemos projeções sobre ela.

Pergunta: É possível relacionar-se sem projeção?

M. L. von Franz: Não acredito. Filosoficamente falando, não é possível relacionar-se sem projeção, mas há um status do sentimento subjetivo em virtude do qual um às vezes sente que sua projeção «calça» e não há necessidade de trocá-la, e outro status no qual se sente incômodo e pensa que terei que corrigir a situação. Mas nenhuma projeção se corrige nunca sem essa sensação de desconforto.

Suponhamos que levamos dentro um mentiroso inconsciente e nos encontramos com alguém que minta como um contador de história. A única forma de reconhecer o mentiroso no outro é sê-lo nós mesmos, porque de outra maneira não nos daríamos conta de que ele mente. Só é possível reconhecer uma qualidade em outra pessoa se tivermos a mesma qualidade e conhecermos a sensação que se experimenta ao mentir, e por isso reconhecemos a mesma coisa em outra pessoa. Como o outro é realmente um mentiroso, fizemos uma avaliação acertada; por que, pois, teríamos que dizer que é uma projeção que deve ser retirada? Constitui uma base para a relação, porque pensamos para seu adentro: se X é um mentiroso, não devo acreditar do todo nada que ele me diga, a não ser questioná-lo. É algo muito razoável, bem adaptado e correto. Seria um grave engano pensar que não é mais que uma projeção de um, e que deveríamos dar crédito à outra pessoa; fazê-lo assim seria uma tolice. Mas se o encara filosoficamente, é uma projeção ou o enunciado de um fato? Filosoficamente não se pode chegar a uma conclusão, só se pode dizer que subjetivamente parece correto. Por isso Jung diz —e este é um ponto delicado, que raras vezes entendemos quando pensamos na projeção— que só podemos falar de projeção, no sentido próprio da palavra, quando já existe certo desconforto, quando a identidade de que sente está perturbada; quer dizer, quando tenho uma sensação de inquietação a respeito do que disse de X é ou não é verdade. Enquanto isso não aconteceu em forma autônoma dentro de mim, não há projeção.

A mesma idéia se aplica às ciências naturais. Por exemplo, a teoria de que a matéria consiste em partículas se apóia na projeção de uma imagem arquetípica, porque uma partícula é uma imagem arquetípica. A energia também é uma imagem arquetípica, um conceito intuitivo com um fundo arquetípico. Não é possível investigar a matéria sem hipótese como estas, quer dizer, que há algo que é a energia, algo que é a matéria e algo que são as partículas.

Mas posso me encontrar com fenômenos que me dão uma sensação de inquietação. Por exemplo, há fenômenos nos quais não posso falar de que este elétron, ou este méson, esteja em um momento dado em um lugar definido, embora, se existir algo ao que caiba chamar partícula, deve estar em certo lugar em um momento dado, porque isto parece, de fato, arquetipicamente evidente. Mas agora os experimentos modernos demonstram que esta teoria é insustentável, que não se pode determinar onde estão certos elétrons em um momento dado, de maneira que nos vemos confrontados com um fato que põe em questão a totalidade de nossa idéia do que é uma partícula. Agora estamos incômodos, e poderíamos reconhecer que ao falar de partículas, em parte, projetamos, e que é uma projeção o que estorva nossa percepção da realidade. Mas antes de que surja a inquietação —devida ao fato de que nossa projeção não enquadra, de que em certos experimentos a partícula não se conduz como esperaríamos—, não duvidaríamos de nosso conceito.

Assim na ciência natural, quão mesmo nos contatos interpessoais, dá-se o mesmo problema da projeção; até as formas mais científicas, mais modernas e mais exatas das ciências naturais de hoje se apóiam, todas, em projeções. Na ciência, o progresso é a substituição de uma projeção primitiva por outra mais precisa, de modo que se pode dizer que a ciência se ocupa da projeção de modelos da realidade aos quais os fenômenos possam adequar-se mais ou menos bem. Se os fenômenos parecem coincidir com meu modelo, perfeito, mas senão, tenho que revisar meu modelo. Como se liga tudo isto é um grande problema.

Já vocês sabem que entre Max Planck e Einstein houve uma famosa discussão, em que Einstein sustentava que, no papel, a mente humana era capaz de inventar modelos matemáticos da realidade. Ao dizê-lo generalizava sua própria experiência, porque isso é o que ele fazia. Einstein concebia suas teorias em forma mais ou menos completa sobre o papel, e depois a evolução experimental da física demonstrava que seus modelos explicavam muito bem os fenômenos. Por isso Einstein diz que o fato de que um modelo construído pela mente humana em uma situação de introversão concorde com os fatos externos é um milagre e deve tomar-se como tal. Planck não está de acordo; ele pensa que concebemos um modelo que verificamos mediante experimentos, depois do qual revisamos o modelo, de modo que há uma espécie de fricção dialética entre o experimento e o modelo, por obra da qual chegamos lentamente a um fato explicativo composto por ambos. Platão-Aristóteles em uma forma nova! Mas ambos se esqueceram de algo: do inconsciente. Sabemos algo mais que aqueles dois homens; ou seja, que quando Einstein faz um novo modelo da realidade conta com a ajuda de seu inconsciente, sem o qual não chegaria à suas teorias.

Mas, que papel desempenha o inconsciente? Pareceria que produz modelos aos quais se pode chegar diretamente de dentro, sem olhar aos fatos externos, e que depois dão a impressão de coincidir com a realidade externa. Trata-se de um milagre ou não? Há duas explicações possíveis: ou o inconsciente tem conhecimento de outras realidades, ou o que chamamos o inconsciente é parte da mesma coisa que a
 
                               
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realidade externa, porque não sabemos de que maneira se vincula o inconsciente com a matéria. Se uma idéia maravilhosa, tal como a forma de explicar a gravitação, surge de dentro de mim, posso dizer que o inconsciente imaterial dá-me uma idéia maravilhosa sobre a realidade material, ou devo dizer que o inconsciente dá-me uma idéia tão maravilhosa da realidade externa porque ele mesmo vincula-se com a matéria, é um fenômeno da matéria, e a matéria conhece também à matéria?

Aqui chegamos a um beco sem saída em relação à forma de prosseguir, e temos que deixar a questão aberta e dizer que a grande incógnita é que não sabemos como seguir. Podemos formular duas hipótese. O doutor Jung se inclina a pensar —embora nunca formulou seu pensamento, ou só o fez hipoteticamente, porque não podemos fazer mais que hipótese ou conjeturas— que é provável que o inconsciente tenha um aspecto material, e que seria por isso que sabe coisas sobre a matéria, porque — por assim dizê-lo— é matéria que se conhece si mesmo. Se assim é, haveria então um fenômeno de consciência, escuro ou tênue, inclusive na matéria inorgânica.

Aqui entramos em contato com grandes mistérios, mas falo deles porque é muito mesquinho dizer que o velho alquimista, quer dizer, o científico natural da antigüidade medieval, projetava na matéria imagens inconscientes, e que atualmente nós o temos tudo muito claro e sabemos o que é o inconsciente, mas que aquela pobre gente não os distinguia, o que explica que fossem tão atrasados e que fantasiassem de uma maneira tão pouco científica! O problema psique-matéria ainda não está resolvido, e precisamente por isso não está resolvido ainda o enigma básico da alquimia. Tampouco nós achamos resposta à questão que eles expõem. Podemos ter projeções referentes a muitas coisas, tal como eles as tinham da matéria, mas preferimos qualificar àquelas de projeções ingênuas do inconsciente, porque nós já deixamos atrás esses modelos. Ainda podemos reconhecê-los como fenômenos do inconsciente, ou como matéria de sonhos, mas já não reconhecemos o caráter científico. Por exemplo, se alguém disser que o chumbo contém um demônio, podemos dizer que projeta sobre o chumbo a sombra e as qualidades demoníacas do homem, mas já não podemos pretender que o chumbo contém um demônio porque deixamos atrás aquela projeção e chegamos a uma conclusão diferente a respeito de por que e como nos faz mal o chumbo.
 
Basicamente, entretanto, a alquimia continua para nós um problema aberto, e por isso ao tocá-la, Jung sentiu que tocava algo que o levaria mais longe, e que ainda não sabia até onde. Acredito que também é em parte por isso que temos tal resistência à alquimia, porque nos confronta com algo que ainda não podemos entender. Mas está bem que assim
 
                               
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seja, porque o devolve um a si mesmo, e a modesta atitude de ter que descrever os fenômenos de acordo com nosso conhecimento atual.

Na próxima conferência começaremos com o primeiro texto grego.

Notas:

[1] Ave de grande tamanho, que no folclore dos índios norte-americanos se considera capaz de produzir raios, trovões e chuva. (N. da  T. )

[2] Um tablete pequeno, com desenhos de retas e curvas, que os australianos usam para representar a alma de um indivíduo que conservam em lugares secretos (N. da T.)

[3] Na tradição e no folclore escandinavos, o membro de uma classe de ferozes guerreiros da época pagã. Em batalha, uma espécie de frenesi os levava a uivar como lobos ou grunhir como ursos, tinham a reputação de ser invulneráveis (N. da T.)

[4] A idéia junguiana de que tudo termina por converter-se em seu oposto. (N. da T.)


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