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siga a estrada de tijolos amarelos: Alta Magia Magia Cerimonial Dogma e Ritual da Alta Magia A Necromancia

A Necromancia


Eliphas Levi - Dogma e Ritual da Alta Magia

Enunciamos ousadamente o nosso pensamento ou antes a nossa convicção sobre a possibilidade do ressurrecionismo em certos casos; é preciso completar, aqui, a revelação deste arcano e expor a sua prática.
 
A morte é um fantasma da ignorância; ela não existe: tudo é vivo na natureza, e é porque tudo é vivo que tudo se move e muda incessantemente de formas.
 
A velhice é o começo da regeneração; é o trabalho da vida que se renova, e o mistério do que chamamos a morte era figurado entre os antigos por esta fonte de Juvência onde a pessoa entra decrépita e de onde sai criança.  
O corpo é uma vestimenta da alma. Quando esta vestimenta está completamente gasta ou grave e irreparavelmente despedaçada, a alma a deixa e não mais a toma. Mas quando, por um acidente qualquer, esta vestimenta lhe escapa, sem estar gasta ou destruída, a alma pode, em certos casos, retoma- la, quer pelo seu próprio esforço, quer pela assistência de uma outra vontade mais forte e mais ativa do que a sua.
 
A morte não é nem o fim de vida nem o começo da imortalidade; é a continuação e a transformação da vida.  
Ora, uma transformação sendo sempre um progresso, há poucos mortos aparentes que consentem em reviver, isto é, em retomar a vestimenta que acabam de deixar. É o que faz da ressurreição uma das obras mais difíceis da alta iniciação. Por isso, o seu sucesso nunca é infalível e deve ser considerado quase sempre como acidental e inesperado. Para ressuscitar um morto, é preciso fechar repentina e energicamente a mais forte das cadeias de atração que possa uni - lo novamente à forma que acaba de deixar. É, pois, necessário conhecer primeiramente esta cadeia, depois de apoderar- se dela e produzir um esforço de vontade tão grande para fechá- la instantaneamente e com uma força irresistível.
 
Tudo isto, dizemos nós, é extremamente difícil, mas nada tem de absolutamente impossível. Já que em preconceitos da ciência materialista não admitindo, hodiernamente, a ressurreição na ordem natural, há tendências para explicar todos os fenômenos desta ordem pelas letargias mais ou menos complicadas com os sintomas mais ou menos longos da morte. Lázaro ressuscitaria, hoje, diante dos nossos médicos, e eles simplesmente apontariam, no seu relatório para as academias competentes, o caso estranho de uma letargia acompanhada de um começo aparente de putrefação e de um odor cadavérico bastante forte; dariam um nome a este acidente excepcional, e tudo ficaria dito.
 
Não gostamos de contrariar ninguém e se para respeitar os homens condecorados que representam oficialmente a ciência é preciso considerar as nossos teorias ressurrecionistas como a arte de curar as letargias excepcionais e desesperadas, nada nos impedirá, espero, de lhes fazer esta concessão.
 
Se, porventura, uma ressurreição foi feita no mundo, é incontestável que a ressurreição é possível. Ora, os corpos
 
constituídos protegem a religião; a religião afirma positivamente o fato das ressurreições: logo, as ressurreições são possíveis. É difícil sair daí. Dizer que são possíveis fora das leis da natureza e por uma influência contrária à harmonia universal, é afirmar que o espírito de desordem, trevas e morte pode ser o árbitro soberano da vida. Não disputemos com os adoradores do diabo, e passemos.
 
Não é, porém, só a religião que atesta os fatos da ressurreição; colhemos vários exemplos deles. Um fato que tinha ferido a imaginação do pintor Greuze foi reproduzido por ele num dos seus quadros mais notáveis: um filho indigno, junto do leito de morte de seu pai, surpreende e rasga um testamento que não lhe era favorável; o pai se reanima, sobressalta- se, amaldiçoa o filho, depois se deita e morre uma segunda vez. Um fato análogo e mais recente foi atestado por testemunhas oculares: um amigo, traindo a confiança do seu amigo que acabava de morrer, tomou e rasgou uma atestação de fideicomisso subscrita por ele; à vista disso, o morto ressuscitou e ficou vivo para defender os direitos dos herdeiros escolhidos que este infiel ia prejudicar; o culpado ficou louco, e o morto ressuscitado foi bastante compassivo para lhe dar uma pensão.
 
Quando o Salvador ressuscita a filha de Jairo, entra só com seus três discípulos fiéis e favoritos; afasta os que faziam barulho e choravam, dizendo - lhes: “Esta moça não morreu, ela dorme ”. Depois, somente na presença do pai, da mãe e dos três discípulos, isto é, um círculo perfeito de confiança e desejo, toma a mão da moça, levanta- a bruscamente e lhe diz: “Menina, levantai -vos! ”A moça, cuja alma indecisa errava, sem dúvida, junto a seu corpo, de que talvez lamentasse a extrema mocidade e beleza, surpreendida pelo acento desta voz, que seus pais e sua mãe ouvem de joelhos e com estremecimentos de esperança, entra no seu corpo, abre os olhos, levanta - se, e o Mestre logo ordena que lhe dêem de comer, para que as funções da vida comecem um novo ciclo de absorção e regeneração.
 
A história de Eliseu, ressuscitando o filho de Sunamita, e a de São Paulo, ressuscitando Eutíquio são fatos da mesma ordem; a ressurreição de Dorcas por São Pedro contada com tanta simplicidade nos Atos dos Apóstolos , é igualmente uma história cuja verdade não poderia ser razoavelmente contestada. Apolônio de Thyana parece também ter realizado semelhantes maravilhas. Nós mesmos fomos testemunhas de fatos que não deixam de ter analogia com estes, mas o espírito do século no qual vivemos nos impõe, a este respeito, a mais discreta reserva, os taumaturgos estando expostos a ter, em nossa época, um acolhimento muito medíocre diante do bom público: o que não impede a terra de girar e Galileu de ser um grande homem.
 
A ressurreição de um morto é a obra -prima do magnetismo, porque é preciso, para realizá- la, exercer uma espécie de onipotência simpática. É possível no caso de morte por congestão, afogamento, languidez, histerismo.  
Eutíquio, que foi ressuscitado por São Paulo, depois de ter caído do terceiro andar, sem dúvida não tinha nada rompido interiormente, e havia sucumbido seja pela asfixia ocasionada pelo movimento do ar durante a queda, seja pela surpresa e o temor. É preciso, em tal caso, e quando o operador sente a força e a fé necessárias para realizar semelhante obra, praticar como o apóstolo, a insuflação boca contra boca, ajuntando a isso o contato das extremidades para lhe dar calor. Se se tratasse simplesmente do que os ignorantes chamam um milagre, Elias e São Paulo, cujos processos, em tal caso, foram os mesmos, teriam simplesmente falado em nome de Jeová ou do Cristo.
 
Ás vezes, pode ser suficiente tomar a pessoa pela mão e levanta- la vivamente, chamando -a com voz forte. Este processo, que, de ordinário, é bem - sucedido nos desmaios, pode ter ação sobre a morte, quando o magnetizador que o exerce é dotado de uma palavra poderosamente simpática e possui o que poderíamos chamar a eloqüência da voz. É preciso também que seja ternamente amado ou respeitado pela pessoa sobre a qual quer agir, e que faça a sua obra por um grande impulso de fé e vontade, que nem sempre a pessoa acha em si mesma no primeiro susto de uma grande dor.  
O que, vulgarmente, é chamado de necromancia nada tem de comum com ressurreição, e é, ao menos, muito duvidoso que, nas operações relativas a esta aplicação do poder mágico, a pessoa se ponha realmente em relação com as almas dos mortos que invoca. Há duas espécies de necromancia: a necromancia de luz e a necromancia das trevas; a evocação pela prece, o pantáculo e os perfumes, e a evocação pelo sangue, as imprecações e os sacrilégios. É somente a primeira que praticamos, e não aconselhamos a ninguém que se entregue à segunda.
 
É certo que as imagens dos mortos aparecem às pessoas magnetizadas que as evocam; é certo também que nunca lhes revelam coisa alguma dos mistérios da outra vida. As pessoas vêem - nas tais como podem estar nas lembranças dos que as conheceram, tais como, sem dúvida, os seus reflexos as deixaram impressas na luz astral. Quando os espectros evocados respondem às perguntas que lhes dão dirigidas, é sempre pelos sinais ou a impressão interior e imaginária, nunca com uma voz que realmente fere os ouvidos; e isto se compreende bem: como uma sombra falará? Com que instrumento faria vibrar o ar, ferindo - o de modo a fazer distinguir os sons?
 
Todavia, a pessoa sente contatos elétricos na ocasião das aparições, e estes contatos parecem, às vezes, serem produzidos pela própria mão do fantasma; mas este fenômeno é inteiramente interior e deve ter por causa única a força
 
da imaginação e as afluências locais da força oculta que chamamos luz astral. O que prova é que os espíritos ou, ao menos, os espectros como são considerados, às vezes nos tocam realmente, mas não seria possível toca - los, e é uma das circunstâncias mais espantosas das aparições, porque as visões têm, às vezes, uma aparência tão real, que não podemos, sem ficar comovidos, sentir que a mão passa através do que nos parece um corpo, sem poder tocar em coisa alguma ou encontrá - la.
 
Lê- se nos historiadores eclesiásticos que Esperidião, bispo de Tremithonte, que mais tarde foi invocado como santo, evocou o espírito de sua filha Irene, para saber dela onde se achava escondida uma soma de dinheiro que ela tinha recebido de um viajante. Swedenborg comunicava - se habitualmente com os pretensos mortos, cujas formas lhe apareciam na luz astral. Conhecemos várias pessoas dignas de fé, que nos asseguravam ter visto, durante anos inteiros, defuntos que lhes eram caros. O célebre ateu que Silvano Marechal apareceu à sua viúva e a uma amiga desta última, para lhes dar conhecimento de uma soma de 1.500 francos em ouro que tinha guardado numa gaveta secreta de um móvel. Obtivemos esta informação de uma antiga amiga da família.
 
As evocações devem ser sempre motivadas e ter um fim louvável; de outro modo, são operações de trevas e de loucura, muito perigosas para a razão e a saúde. Evocar por pura curiosidade e para saber se a pessoa verá alguma coisa, é estar já disposto a afadigar- se só com prejuízo. As altas ciências não admitem nem as dúvidas nem as puerilidades.
 
O motivo louvável de uma evocação pode ser de amor ou de inteligência.
 
As evocações de amor exigem menos aparato e são, em todas as maneiras, mais fáceis. Eis como é preciso proceder nelas:
 
Devemos primeiramente recolher com cuidado todas as lembranças daquele ou daquela que desejamos tornar a ver, os objetos que lhe serviram e guardaram a sua impressão, e mobiliar, quer um quarto em que a pessoa tenha habitado em sua vida, quer um lugar semelhante, onde poremos o seu retrato, coberto de branco, no meio das flores que a pessoa gostava e as quais renovaremos todos os dias.
 
Depois, é preciso observar uma data fixa, um dia do no que tenha sido, quer a sua festa, quer o dia mais feliz para a nossa afeição e a dela, um dia do qual supomos que sua alma, por mais feliz que seja, não pôde perder a lembrança: é este mesmo dia que é preciso escolher para a evocação, à qual nos prepararemos durante catorze dias.  
Durante este tempo, será preciso observar em não dar a ninguém as mesmas provas de afeição que o defunto ou a defunta tinha direito de esperar de nós; será preciso observar uma castidade rigorosa, viver no retiro e só fazer uma refeição modesta e uma leve colação por dia.
 
Todas as tardes, à mesma hora, será preciso fechar - se com uma única luz pouco clara, tal como uma pequena lanterna funerária ou uma vela, no quarto consagrado à memória da pessoa de quem se tem saudades; a pessoa colocará a luz atrás de si e descobrirá o retrato, em presença do qual ficará uma hora em silêncio; depois perfumará o quatro com um pouco de bom incenso e sairá dele recuando.
 
No dia fixado para a evocação, será preciso preparar - se desde a manhã como para uma festa; não ser o primeiro a dirigir uma palavra a ninguém, só fazer uma refeição composta de pão, vinho e raízes ou frutas; a toalha de mesa deve ser branca; a pessoa porá dois talheres e cortará uma parte do pão que deverá ser servido inteiro; porá também algumas gotas de vinho no copo da pessoa que se quer evocar. Esta refeição deve ser feita em silêncio, no quarto das evocações, em presença do retrato coberto; depois a pessoa tirará tudo o que serviu para isso, exceto o copo do defunto e a sua parte de pão, que serão deixados diante do seu retrato.
 
De tarde, fora da visita habitual, a pessoa irá ao quarto em silêncio; acenderá um fogo claro com pau de cipreste e porá nele incenso sete vezes, pronunciando o nome da pessoa que se quer tornar a ver; apagará, depois, a lâmpada e deixará o fogo apagar- se. Neste dia, não descobrirá o retrato.
 
Quando a chama ficar apagada, porá incenso nas brasas e invocará a Deus conforme as fórmulas da religião à qual pertencia a pessoa falecida e conforme as idéias que ela tinha de Deus.
 
Será preciso, ao fazer esta prece, identificar- se com pessoa evocada, falar como ela falaria, acreditar ser, de algum modo, ela mesma; enfim, depois de um quarto de hora em silêncio, falar- lhe como se estivesse presente, com afeição e fé, pedindo - lhe que se mostre a nós; renovar esta prece mentalmente e cobrindo a fronte com ambas as mãos, depois chamar três vezes, em alta voz, a pessoa; esperar de joelhos e com os olhos fechados ou cobertos, durante alguns minutos, falando - lhe mentalmente; chamá - la ainda três vezes, com voz agradável e afetuosa, e abrir lentamente os
 
olhos. Não vendo nada, será preciso renovar esta experiência no ano seguinte, e, assim, até três vezes. É certo que, ao menos na terceira vez, obterá a aparição desejada, e quanto mais viver tardado, tanto mais será visível e surpreendente de realidade.
 
As evocações de ciência e de inteligência se fazem com cerimônias mais solenes. Se se tratar de uma personagem célebre é preciso meditar durante vinte e um dias a sua vida e os seus escritos, fazer uma idéia da sua pessoa, das suas afeições e da sua voz; falar- lhe mentalmente e imaginar as suas respostas, trazer consigo o seu retrato ou ao menos o seu nome, sujeitar- se a um regime vegetal durante dos vinte e um dias, e a um jejum severo durante os últimos sete; depois construir o oratório mágico tal como o descrevemos no décimo terceiro capítulo do nosso Dogma . O oratório deve ser inteiramente fechado; mas, se a pessoa deve esperar de dia, pode deixar uma estreita abertura ao lado em que bate o sol à hora da evocação e colocar diante desta abertura um prisma triangular; depois, diante do prisma, um globo de cristal, cheio de água. Se tiver de operar à noite, é preciso dispor a lâmpada mágica de modo a fazer cair o seu único raio sobre a fumaça do altar. Estes preparativos têm por fim fornecer ao agente mágico elementos de uma aparência corporal e aliviar a tensão da nossa imaginação, que não poderia, sem perigo, ser exaltada até a ilusão absoluta do sonho. Aliás, entende - se bastante que um raio de sol ou de lâmpada diversamente colorida, caindo sobre uma fumaça móvel, não pode, de modo algum, criar uma imagem perfeita. O fogareiro do fogo sagrado deve estar no centro do oratório, e o altar dos perfumes a pouca distância. O operador deve voltar - se para o oriente a fim de orar, e para o ocidente a fim de evocar; deve estar só ou ser assistido por duas pessoas que observarão o mais rigoroso silêncio; usará os vestuários mágicos tais como os descrevemos no sétimo capítulo; será coroado de verbena e de ouro. Deverá ter- se lavado antes da operação e todas as suas roupas deverão ser de uma intacta e rigorosa limpeza.
 
A pessoa começará por uma operação apropriada ao gênio do espírito que quer evocar, e que ele mesmo, se ainda vivesse, poderia aprovar. Assim, por exemplo, nunca seria possível evocar Voltaire, recitando orações do gosto de Santa Brígida. Para os grandes homens dos tempos antigos é preciso dizer os hinos de Cleanto ou de Orfeu, com o juramento que termina os versos áureos de Pitágoras. Por ocasião de nossa evocação de Apolônio, tomamos, como ritual, a magia filosófica de Patrício, que contém os dogmas de Zoroastro e as obras de Hermes Trismegisto. Lemos em alta voz o Nuctemeron de Apolônio, em grego, e acrescentamos a conjuração seguinte:
 
  nuctemeron.gif
 
Para a evocação dos espíritos pertencentes às religiões emanadas de judaísmo é preciso dizer a invocação cabalística de Salomão, quer em hebreu, quer em qualquer outra língua que sabemos ter sido familiar ao espírito que evocamos:  

“Potências do reino, ficai sob meu pé esquerdo e na minha mão direita; glória e eternidade, tocai nos meus ombros e dirigi -me nos caminhos da vitória; Misericórdia e Justiça, sede o equilíbrio e o esplendor da minha vida; espíritos de Malchut , levai - me entre as duas colunas nas quais se apóia todo o edifício do templo; anjos de Netsah e de Hod , firmai - me na pedra cúbica de Yesod.
 
Ó Gedulael ! ó Geburael ! ó Tiphereth ! Binael , sê meu amor; Ruach Hochmael , sê minha luz; sê o que és e o que serás, ó Ketheriel !
 
“Ischim , assisti - me em nome de Saddai ”.
 
“ Querubim , sede minha força em nome de Adonai ”.
“ Beni-Elohim , ”sede meus irmãos em nome do filho e pelas virtudes de Zebaoth “.
“ Elohim , combatei por mim em nome de Tetragrammaton ”.
“Malachim , protegei -me em nome de Heh.gifVav.gifHeh.gif Yod.gif.
“ Serafim , purificai meu amor em nome de Elvoh ”.
“ Hasmalim , iluminai -me com os esplendores de Eloi e da Schechinah ”.
“Aralim , agi; Ophanim , girai e resplandecei ”.
“ Haioth ha Kadosch , gritai, falai, roncai, daí mugidos; Kadosch , Kadosch , Kadosch, Saddai, Adonai, Jotchavah, Eiazereie , Alleluiah, Alleluiah, Alleluiah . Amem. Zayin.gif Mem.gifAleph.gif”.
 
É preciso principalmente lembrar- se bem, nas conjurações, que os nomes de Satã, Belzebute, Adrameleque e outros, não designam personalidades espirituais, mas sim legiões de espíritos impuros. Chamo -me legião, diz no Evangelho o espírito das trevas, porque somos em grande número. No inferno, reina a anarquia, e o número que faz a lei e o progresso aí se realiza em sentido inverso, isto é, que os mais adiantados em desenvolvimento satânico, os mais degradados, por conseguinte, são os menos inteligentes e os mais fracos. Assim, uma lei fatal leva os demônios a descerem quando crêem e querem subir. Por isso, os que se dizem chefes são os mais impotentes e desprezados de todos. Quanto à multidão dos espíritos perversos, ela treme diante de um chefe desconhecido, invisível, incompreensível, caprichoso, implacável, que nunca explica suas leis e que tem sempre o braço armado para ferir os que não puderam adivinha- lo. Dão a este fantasma os nomes de Baal, Júpiter ou outros mais veneráveis, e que no inferno não são pronunciados sem haver profanação; mas este fantasma é simplesmente a sombra e a lembrança de Deus, desfiguradas pela sua perversidade voluntária e que ficaram na imaginação deles como uma vingança da justiça e um remorso da verdade.
 
Quando o espírito de luz que a pessoa evocou se mostra com feição triste ou irritada, é preciso oferecer- lhe um sacrifício moral, isto é, estar interiormente disposto a renunciar ao que o ofende; depois é preciso, antes de sair do oratório, despedi - lo, dizendo - lhe:
 
“A paz esteja contigo! Eu não quis perturbar -te, não me atormentes; trabalharei pare me reformar em tudo o que te ofende; oro e orarei contigo e por ti; ora comigo e volta ao teu grande sono, esperando o dia em que nos despertaremos juntos. Silêncio e adeus! ”
 
Não acabaremos este capítulo sem acrescentar, para os curiosos, alguns detalhes sobre as cerimônias da necromancia negra. Encontramos em vários autores antigos como a praticavam as feiticeiras da Tessália as Canídias de Roma. Cavavam um buraco, perto do qual degolavam uma ovelha preta; depois afastavam com a espada mágica as psilas e larvas que se supunham presentes e prestes a beber o sangue; invocavam a tríplice Hécate e os deuses infernais, chamando três vezes a sombra que queriam ver aparecer.
 
Na Idade Média, os necromantes profanavam os túmulos, compunham filtros e ungüentos com a gordura e o sangue dos cadáveres; misturavam a isso o acônito, a beladona, e o cogumelo venenoso; depois cozinhavam estas horrendas misturas em fogos acesos com ossos humanos e crucifixos roubados das igrejas; misturavam a isso pós de sapatos dessecados e a cinza de hóstias consagradas; depois untavam as têmporas, as mãos e o peito com o ungüento infernal; traçavam o pantáculo diabólico, evocavam os mortos em baixo dos patíbulos ou nos cemitérios abandonados. Ouviam - se de longe os seus uivos, e os viajantes atrasados acreditavam ver sair da terra legiões de fantasmas; até as árvores tomavam a seus olhos figuras que davam medo; viam - se cintilar olhos de fogo nas moitas, e as rãs dos charcos pareciam repetir com voz rouca as palavras misteriosas do Sabbat . Era o magnetismo da alucinação e contágio da loucura.
 
Os processos da magia negra têm por fim perturbar a razão e produzir todas as exaltações febris que dão a coragem para os grandes crimes. Os engrimanços que, outrora, a autoridade fazia tomar e queimar não eram certamente livros inocentes. O sacrilégio, o assassinato e o roubo são indicados de modo obscuro como meio de realização em quase todas essas obras. É assim que, no Grande Grimório e no Dragão Vermelho , falsificação mais moderna do Grande Grimório, lê - se uma receita intitulada: Composição de morte ou Pedra filosofal . É uma espécie de extrato de água forte, cobre, arsênico e verdete; encontram - se também nele processos de necromancia que consistem em cavar a terra dos túmulos com suas unhas, tirar deles ossos que devem ser conservados no peito em forma de cruz e assistir, assim, a missa da meia- noite, na noite de Natal, numa igreja, e no momento da elevação, levantar- se e fugir, exclamando: “Que os mortos saiam de seus túmulos! ”; depois, voltar ao cemitério, tomar um punhado de terra que se ache bem perto do caixão, voltar correndo à porta da igreja, cujos assistentes terá espantado com o clamor, depor aí os dois ossos em cruz, exclamando ainda: “Que os mortos saiam dos seus túmulos! ”, e, se não houver aí ninguém para vos prender e levar para o hospício, afastar-vos a passos lentos e contar quatro mil e quinhentos passos, sem voltar para trás, e o faz supor que seguis um grande caminho e escalais as muralhas. No fim deste quatro mil e quinhentos passos, deitar-vos - eis no
 
chão; depois de ter espalhado em cruz a terra que trazeis na mão, colocar-vos - eis como o cadáver fica no caixão e repetireis ainda,com voz lúgubre: “Que os mortos saiam dos seus túmulos! ”, e chamareis três vezes aquele que desejais que apareça.
 
Não é para se duvidar que a pessoa tão tola e tão perversa para se entregar a tais obras já esteja disposta a todas as quimeras e a todos os fantasmas. A receita do Grande Grimório é, pois, certamente muito eficaz, mas não aconselhamos a nenhum dos nossos leitores que faça uso dela.


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