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siga a estrada de tijolos amarelos: Angeologia Textos sobre Anjos Os livros sagrados dos Yezidis

Os livros sagrados dos Yezidis


Iaida Baphometo

yesiddream.jpgOs Yezidis constituem um povo do nordeste do Iraque. Embora falem o idioma curdo, seus costumes e crenças são bastante diferentes dos povos curdos em geral, e são amplamente perseguidos por isso.

São tido popularmente por adoradores do demônio, pela identificação de sua divindade principal (este apontamento é controverso) MALAK TAUS com AZAZ-IL (Azazel, Samiaza) que recebe os hepitetos adicionais de SHAYTAN (Satã) e IBLIS (como é chamado o demônio no Qorão).

Como bem apontou a tradutora do texto árabe, os deuses de um povo são convertidos em demônios pelos vizinhos, e assim, a fama de adoradores de um demônio ou espírito cognato específico cai por terra diante da realidade: os Yezidis adoram anjos, e simplesmente isso.

Especificamente quanto a religião, os Yezidis detêm um conjunto de crenças misticas por onde transitam sem qualquer estranhamento os ensinamentos gnósticos, islâmicos, cristãos e judeus.

COSMOGENESE

Os yezidis acreditam em um deus criador, tão alto e inacessível que acaba tornando-se uma figura desconhecida, a qual não exige nenhuma forma de adoração ou sacrifício. Foi esta divindade distante que criou o universo e a terra de uma pérola.

Após o que entregou este mundo sob os auspícios dos anjos, e deles emanaram os planetas, a abobada celeste e outros elementos cósmicos. Tal crença corresponde à cosmogênese gnóstica do Éons, na qual do Pleroma (o espaço celeste) emanaram as demais manifestações visíveis da natureza corpórea e incorpórea.

OS SETE ANJOS

Tal como algumas crenças orientais, de fundo semita e também grego, o demiurgo criou sete anjos ou espíritos, ou ainda, deuses menores. Todos estão identificados e tem atributos familiares a qualquer estudante de ocultismo.

Deles são os sete dias da semana e pode-se atribuir aos mesmos as características das mônadas qabalísticas (as sete sephirot do núcleo da arvore da vida) ou dos sete gênios qabalísticos, com algumas divergências.

Estes anjos, portanto desempenham funções especificas como se vislumbra; JIBRA-IL (Gabriel) atua como principal mensageiro do demiurgo. AZAZ-IL (Azazel) chamado também MALAK TAUS, é o intermediário entre a divindade criadora e o mundo inferior, identificado com a monada do sol, ou a sephirot Thiferet onde reside o Lógos.

Isto pode nos levar a conclusão mais do que óbvia de que a religião dos Yezidis é de orientação solar, e daí decorrem vários elementos relacionados, como por exemplo o patriarcado e uma marcante supremacia do homem sobre a mulher, ainda que, é verdade, nem toda religião de cunho solar apresente tais características, como por exemplo o conjunto de crenças thelêmicas.

A QUEDA, A REDENÇÃO E OS PAPEIS DUPLOS

Apesar de que os anjos designados no Mashef Resh (ou Kithab Resh) guardem semelhanças com aqueles encontrados no Livro de Enoch, o enredo difere em muitos pontos.

Naquele livro os anjos experimentaram a queda na hierarquia espiritual em virtude da paixão que sentiram pelas filhas dos homens. Azazel, na versão apócrifa de Enoch, era o chefe dos anjos rebeldes, e foi condenado a escuridão pelo deus hebreu.

No Mashef Resh, Azazel chefia a hierarquia dos anjos, mas não experimenta uma queda. Antes é ele quem tenta o homem, para posteriormente adjudicar-lhe a salvação. Conforme já escrevi em outros textos, o anjo Azazel, ou MALAK TAUS, faz um jogo duplo. No primeiro ato aparece como tentador, porque se não houver a queda, não haverá, por decorrência lógica, a possibilidade de salvação.

Tais crenças, são notavelmente idênticas aquelas tidas entre os ofitas, um grupo gnóstico proto-cristão, de quem provavelmente herdamos o famigerado evangelho de Judas Iscariotes. Eram tidos como “satanistas” porque rendiam culto a serpente do Éden, identificando-a com o redentor, e apoiavam suas crenças com algumas passagens bíblicas (entre elas a mais importante era o ídolo serpentino que Moises erigiu no deserto durante o Êxodo), bem como tinham a convicção de que o Cristo era a serpente que havia tentado Adão no paraíso, e que houve um conluio entre Judas e Jesus, para que a crucificação culminasse na realização das profecias; deste modo, tinham que Judas era um portador da gnosis, isto é, ele conhecia a verdade de forma direta, a despeito de todos os outros apóstolos. Malak Taus faz um papel semelhante no relato do paraíso, na concepção Yezidi.

A ORIGEM DOS YEZIDIS

Existem duas versões da origem dos Yezidis que são dispares. A primeira remonta a Adão, onde num certo relato, durante uma disputa entre ele e sua esposa, houve a geração, em uma ânfora, de duas crianças, macho e fêmea. Destas duas crianças nasceram os Yezidis, portanto filhos diretos de Adão, sem a intervenção de Eva.

Posteriormente Adão “conheceu” Eva, e daí foram gerados os demais povos (cristãos, muçulmanos, judeus, persas entre outros). Aqui também, diga-se existe uma divergência quanto aos textos bíblicos e muçulmanos, e mesmo entre os livros apócrifos. Saliente-se também que esta versão aponta como patriarcas os nomes de Enoch, Noé e Seth. Não há nenhuma referencia a Caim, como nos textos dos ofitas gnósticos, citados acima.

A outra versão foi a do nascimento do “bárbaro” Yezid, nascido de um escravo “pecador” de Mohammed (Maomé) com uma mulher de oitenta anos, que por um milagre, rejuvenesce do dia para a noite se tornando uma fértil donzela de vinte e cinco anos.

ORGANIZAÇÃO SOCIAL

Os Yezidis possuem um forte senso ético e um conjunto de estatutos bastante rígidos. É comum a divisão em castas. Em qualquer delas, a mulher possui papel subalterno, devendo total submissão ao homem o que de fato não corresponde a uma particularidade dos Yezidis, mas de todas as religiões de berço semita como o judaísmo, islamismo e cristianismo.

Encabeçando a hierarquia Yezidi encontramos os Sheiks, que desempenham papel de juizes, descendentes da linhagem do fundador da tribo, Yezid. Seu sinal distintivo é uma rede de couro com que enlaçam os braços, a semelhança do uso da tephila judaica (uma correia de couro que os judeus usam durante as orações). Os Sheiks podem “vender” áreas de terra no paraíso, a quem se dispuser a pagar. Além disso sua principal incumbência é a guarda da tumba de Skeik Adin, um dos mestres ou gurus dos Yezidis.

Em seguida estão os Emires, que também descendem de Yezid, o fundador da tribo e tem uma arvore genealógica própria. São tidos como mestres em assuntos cotidianos e pode dar ordens e proibir condutas como os Sheiks.

Depois vem os Kawwâls, que são músicos nas festividades.

Seguem-nos na hierarquia os Pir´s, que são responsáveis pelas observações dos jejuns e obrigações religiosas. São eles que usam o turbante negro, que identifica os Yezidis na região curda.

A seguir estão os Koshaks, ou como são designados em português, os kossakos, incumbidos de vários deveres religiosos como a instrução nos mistérios Yezidis, a interpretação dos sonhos e a profecia.

Após estão os Fakires, que instruem os jovens nos deveres religiosos e servem, como os Sheiks, a tumba de Skeik Adin.

Por fim estão os Mullas, ou educadores, que guardam os escritos sagrados, os interpretam e são atentos aos negócios da tribo.

Entre os Yezidis, é vedado sumariamente o casamento entre pessoas de castas diferentes, exceto aos Sheiks, que detêm o privilégio de escolher suas esposas dentre as diversas castas existentes. O casamento de Yezidis com outras tribos é vedado em todas as hipóteses. As mulheres não têm qualquer autonomia para escolher seus maridos, mas podem negar-se a um casamento, o que acarreta ao pai da noiva o pagamento de um tributo correspondente a um salário (não há especificação de valor) pelos seus serviços.

LIVROS SAGRADOS

As opiniões pronunciadas neste tópico são particulares, e não as elevo ao patamar de verdades. O que direi a seguir são conclusões que tive ao executar a tradução do texto que estou introduzindo.

Os Yezidis possuem vários livros sagrados, dentre os quais os principais são o Meshaf Resh e o Kithab Jiwa, que formam os pilares da literatura sagrada da tribo, ambos traduzidos abaixo. Tive a idéia de traduzi-los porque fiquei intrigado com um hipertexto que tive acesso (esta na web a disposição de qualquer pessoa) e que estava cheio de interpolações e versões diferentes, além do que, a mutilação textual evidenciava uma flagrante e deliberada idéia centrada no fato do provar o pretenso “satanismo” imputado aos Yezidis.

Quando traduzi o Kithab Jiwa, não se evidenciou qualquer elemento que pudesse respaldar o fato de que o culto Yezidi fosse integrado ao conjunto de crenças e práticas tidas entre alguns ocultistas como o “caminho da mão esquerda”. Eu admito que esperava por isso, por motivos pessoais, evidentemente, vez que me interesso particularmente pelo assunto.

Havia alguns escritos de Aleister Crowley onde ele pretende ser o reavivador das tradições “draconianas”, ou seja lá como se queira chamá-las, e as religiões mais chegadas ao lado “sombrio”, e o culto a divindade Yezidi identificada como Shaytan (i.e. MALAK TAUS) esta entre elas. As idéias que hoje se tem acerca do satanismo moderno foram, ao menos no ocidente, formuladas pela figura controversa deste ocultista inglês. Posteriormente vieram os escritos de LaVey, que tem uma abordagem toda própria, ainda que, superficialmente, pareça uma fraternidade ateística de fundo hedonista. A ONA (Order of Nine Angels) representa uma vertente teista, ou melhor, politeísta.

Os Yezidis, pelo menos para mim, antes de uma aproximação mais cuidadosa, soavam como uma forma de “satanismo” sarraceno, árabe ou islâmico. Vim a saber posteriormente, por fontes fidedignas, que os Yezidis constituíam um culto sufi, onde de fato se adorava um ídolo chamado MALAK TAUS, ou anjo pavão real, cujo nome também era SHAYTAN (Satã). Além desta figura emblemática, havia o culto da serpente negra (HAYYATH), que não é mencionada nos textos presentes, e que constitui um ídolo que igualmente incita e fascina a mente ocidental como todos os demais mitos ofídicos, associados a seres e complexos ctônicos, que após o advento do cristianismo, foram qualificados como "forças do mal".

Pois bem, ao iniciar a tradução do Meshaf Resh por vários momentos a verdade se revelou um tanto divergente da expectativa que eu por tanto tempo alimentei. De fato, os Yezidis muito pouco tem em comum com qualquer coisa que aqui no ocidente chamamos de “caminho da mão esquerda” ou mesmo “satanismo”; mas por outro lado, pela peculiaridade de suas crenças e práticas, pode-se classificá-los como pagãos (designação que desprezo por me parecer demasiado cristã), ou idólatras (porque de fato adoram e reverenciam ídolos, mas da mesma forma, a idolatria é um termo pejorativo entre alguns ocultistas “cultivados”).

Os próprios Yezidis tem para si que estes termos são inadequados, e estão certos nisto, uma vez que esta terminologia só é possível quando se parte de um ponto de vista eurocêntrico, cristão, mosaico ou islâmico (o que vem a ser pior ainda). Pois bem, como classifica-los então? Simples, partindo da pressuposição de que os que seguem cristo são cristãos, os que seguem o judaísmo são judeus e assim por diante, aqueles que seguem ou adoram MALAK TAUS são... Yezidis, pura e simplesmente.

CONCLUSÃO

Tirar conclusões acerca dos Yezidis é uma tarefa delicada. O que eu disse acima foi baseado nos textos que li e traduzi. Para quem entende inglês eu recomendaria a leitura do livro “Devil Worship - The Sacred Books and Traditions of the Yezidiz”, escrito por Isya Joseph, traduzido de um texto árabe do século XIX. Foi este o texto base para a presente tradução. O livro teve sua primeira edição em 1919, quando provavelmente Crowley deve ter tomado conhecimento dele. Pode-se encontrá-lo na íntegra no portal www.sacred-texts.com.

Preciso esclarecer que os textos não estão divididos em versículos, que tomei a liberdade de inserir para facilitar as citações que porventura possam surgir em outros trabalhos futuros e eventuais.

Por fim, convido o leitor a desprender-se antes da leitura de suas crenças pré-constituídas, uma vez que qualquer expectativa criada por informações de segunda mão redundará em um possível desapontamento.

Por vezes o texto é um tanto delirante, como os demais das literaturas “sagradas”, e apresenta uma série de absurdos que hoje facilmente descartaríamos. Por outro lado, há a questão da abordagem eurocêntrica. Alguns sabem exatamente o que estou referindo. Todas estas posturas seriam desastrosas.

Para os outros, isto é, aqueles que buscam o conhecimento e acreditam que podem alargá-lo com a leitura destes textos, a oportunidade é impar.

Espero que apreciem o trabalho.

IAIDA BAPHOMETO
Janeiro de 2009

 


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