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siga a estrada de tijolos amarelos: Blog Onde não existem idiotas, não existem golpistas

Onde não existem idiotas, não existem golpistas


Graças às ferramentas de comunicação e ao ótimo conteúdo dos programas destinados ao grande público. Novos mitos surgem a todo o instante. Ou melhor, velhos mitos ganham hoje uma roupagem diferente, que serve de reflexo para a cultura que a cria.

Um exemplo disso é o que ocorre na novela Caminho das Índias com a personagem de Letícia Sabatella que seduz um dos personagens, mina a confiança dele na esposa, a confiança da esposa nele, convence-o a simular a própria morte e foge com ele para a Índia para tentar se apoderar da pequena fortuna que ele mesmo desviou da empresa da família (ou algo bem parecido com isso).

Até ai, nada de novo - de Dalila a Lady Macbeth sempre houve aquelas que se aproveitaram dos próprios dotes para conseguir algo a mais do que a tradicional caixa de bombons. O que chama a atenção neste caso é a associação "natural" que surge da personagem com o mito.

Listas de discussão, revistas, matérias de sites começam a vomitar artigos e matérias que podem ser resumidas pelo título da mais nova do gênero, lançada no site Terra:

Aprenda a identificar um vampiro dos tempos modernos

 

A lógica segue mais ou menos da seguinte forma:

Vampiros, segundo as lendas, é um ser mitológico morto, que para se apegar à vida se alimenta do sangue dos vivos. Citam alguns vampiros conhecidos e atribuem a antiguidade das lendas a regiões e paises como Mesopotâmia e Suméria - apenas para mostrar como de fato são antigos. Então a lenda antiga ganha uma roupagem contemporânea, falam de vampiros astrais que se alimentam da energia vital e não mais o sangue. E então acontece. Como um passe de mágica. Claro que não um passe de mágica sutil - como deveria ser - ou mesmo cheio de malícia, mas algo que beira a aberração. O vampiro se torna alguém real que vive de "vampirizar" aqueles que o cercam.

Vampiros Psíquicos, psicopatas, manipuladores, etc... os adjetivos caem como chuva do céu. Basicamente o que ocorre é encontrarem uma relaçào em que uma pessoa é explorada por outra. A exploradora se torna o monstro e a explorada se torna vítima. A exploradora é mostrada como alguém cujo objetivo principal dessas é arrancar do outro aquilo que necessitam no momento, atropelando tudo e todos com total indiferença, numa busca de poder e autopromoção, indo mais longe afirmam que este novo tipo de vampiro não é considerada um doente mental, já que não apresentam nenhum sofrimento mental, nem sofrem de alucinações ou qualquer tipo de desorientação; apenas são frias e calculistas, sem qualquer emoção ou sentimento de compaixão ou generosidade.

Este tipo de comportamento é curioso, já que cria um monstro de um lado e uma justificativa do outro. A uma vítima tudo é permitido e toda miséria é justificada. Não que o abuso exista, e que em alguns casos seja extremo, o problema é que muitas vezes o monstro nasce não da própria força, mas da fraqueza alheia. Estamos vivendo em uma época em que o monstro não é a fera, mas a eterna vítima. É mais fácil enumerar os problemas de alguém do que reconhecer a própria fraqueza. E assim aquela pessoa que encontra em alguém a realização de seu desejo de ser manipulado acaba ganhando um passe livre para se livrar das garras da própria culpa.

A máxima dos golpes é que mesmo que seja necessário um malandro de um lado é necessário também alguém querendo se dar bem do outro, um sabe que é vigarista, o outro não sabe que é idiota, acredita que faz parte do grupo dos espertos. Não importa quantos quilos de jargões de auto-ajuda sejam utilizados, o quanto se mostre como a carência de alguém é explorada, a inocência, como o mal sempre busca enganar e se aproveitar. Isso só torna Bela Lugosi a vítima de Helen Chandler. Criamos a filosofia do é bom ter ambição e desejar coisas, desde que não me envolva nisso. Como criar uma ética de valores para aquilo que é oferecido e aquilo que é recebido?

E em uma época de vampiros "vegetarianos" e virgens temos uma nova espécie, aquela que serve para justificar a nossa fraqueza.


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