Ir para o conteúdo. |

  • A Empresa
  • Envie seu texto
  • Contato
  • Seções:
siga a estrada de tijolos amarelos: Demonologia Estudos de Demonologia O Demônio Está no Pastor e na Memória

O Demônio Está no Pastor e na Memória

puppet.jpgUm aspecto curioso das religiões neopentecostais é a enorme ênfase no papel do demônio como causa dos problemas dos seus crentes. Esses evangélicos acreditam que seus erros passados, ou de parentes, eram coisa do diabo e que portanto é possível mudar graças à nova religião.

Mais impressionante é gente acreditar que está com o diabo no corpo ou que diz ter presenciado alguém possuído pelo demônio. Céticos tendem a não levar a sério esse tipo de declaração, achando que tudo seria picaretagem. Claro, dá para desconfiar se o pastor chega para o fiel e diz que ele não está contribuindo com dinheiro "porque o demônio está segurando a sua mão". Mas esse tipo de fenômeno é bem mais complexo do

ue aparenta.

Um estudo interessante feito por três pesquisadores mostrou que é possível não só fazer pessoas acreditarem na possibilidade de possessão demoníaca, como também fazê-las "lembrar" de que já viram algo do gênero quando eram crianças!

O estudo foi feito por Elizabeth Loftus, Giuliana Mazzoni e Irving Kirsch para a revista especializada de psicologia "Journal of Experimental Psychology: Applied". Loftus é uma famosa especialista em memória.

Ela demonstrou ser possível "implantar" memórias falsas em pessoas, que passam a acreditar que viveram coisas que foram inventadas pelo psicólogo. Eu a conheci pessoalmente em 1998, e escrevi u
a reportagem na Folha sobre seu trabalho.

Há um fenômeno que ela chama de "inflação da imaginação" -depois de colocar a mente para imaginar os detalhes do "evento", a certeza de que ele de fato ocorreu tende a aumentar, como eu relatei em 98.

Implantar a falsa memória de um evento rotineiro não é tão difícil. É plausível que algum dia você tenha se perdido dos seus pais em uma loja, um dos exemplos usados por Loftus. E a própria pessoa passa a inventar detalhes daquilo que se "passou" com ela, solidificando ainda mais a falsa memória.

Em um outro estudo ela e colegas conseguiram fazer pessoas acreditarem que tinham apertado a mão do coelho Pernalonga ao chegarem à Disneylândia. Só que o coelho não é um personagem da Disney...

Algo mais fantástico é mais difícil de ser implantado -como a memória de ter presenciado alguém ser possuído pelo demônio. Mas também é possível. O poder da sugestão não é tão fora do comum assim. Houve um aumento no número de pessoas querendo ser exorcizadas na década de 70, depois que foi lançado o filme "O Exorcista", afirma Loftus.

As experiências foram feitas com a ajuda de 200 estudantes italianos voluntários. Primeiro, eles tinham que afirmar o que achavam sobre a idéia de possessão demoníaca e se tinham alguma vez observado a coisa quando eram crianças. Todos duvidaram da possibilidade da possessão. Nenhum deles tinha presenciado alguém ser tomado pelo demônio.

Até que receberam para ler uma série de artigos de imprensa que mostravam que a possessão demoníaca era algo relativamente comum (de onde será que meus colegas jornalistas tiram essas coisas?). Em seguida, tiveram que preencher um questionário sobre medo e ansiedade. Alguns dos estudantes foram então "informados" que seus medos específicos indicavam que provavelmente tinham presenciado alguém ser possuído pelo demônio quando criança...

O resultado disso foi que, em novas entrevistas, 18% dos estudantes haviam mudado de idéia e agora concordavam não só que a possessão era possível, como também que eles haviam testemunhado um caso desses quando eram crianças! Três quartos dos outros estudantes já aceitavam então a idéia de que é possível a um ser humano ser possuído pelo demônio, apesar de continuarem afirmando que nunca pessoalmente viram a coisa.

O escritor italiano Primo Levi (1919-1987) estava correto quando afirmou que a memória humana é um instrumento maravilhoso, mas enganador. "As memórias que estão dentro de nós não são gravadas em pedra; não só elas tendem a se apagar com a passagem dos anos, mas muitas vezes mudam ou mesmo aumentam ao incorporar características estranhas."

Publicado originalmente na Revista da Folha - 08/07/2001

por Ricardo Bonalume Neto