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siga a estrada de tijolos amarelos: Demonologia Estudos de Demonologia Relato de Eliphas Levi sobre São Cipriano

Relato de Eliphas Levi sobre São Cipriano


LEVI, Eliphas. História da Magia. Trd. Rosabis Camaysar. São Paulo, Pensamento, 1995. Cap V: Das Lendas

Eliphas_Levi.jpgAs estranhas narrações contidas na lenda dourada, por mais fabulosas que sejam, não refluem à mais alta antiguidade cristã. São mais parábolas do que histórias; seu estilo é simples e oriental como o dos Evangelhos e sua existência tradicional prova que uma espécie de mitologia fora inventada para ocultar os mistérios cabalísticos da iniciação Joanita. A lenda áurea é um talmude cristão escrito todo em alegorias e em apólogos. Estudada sob este ponto de vista de todo novo à força de ser antigo, a lenda áurea torna-se um livro da maior importância e do mais alto interesse.

Uma das narrações desta lenda cheia de mistérios, caracteriza o conflito da Magia e do Cristianismo nascente de modo inteiramente dramático e sugestivo. É como um esboço antecipado dos Mártires de Chateaubriand e do Fausto de Goethe, fundidos juntos.

Justina era uma jovem e bela virgem pagã, filha de um sacerdote dos ídolos, o tipo de Cimodocéia. Sua janela dava para um pátio vizinho da igreja dos cristãos; todos os dias ela ouvia a voz pura e recolhida de um diácono ler bem alto os santos Evangelhos. Esta palavra desconhecida tocou e revolveu-lhe o coração, tão bem, que uma tarde, sua mãe vendo-a pensativa e instando-lhe que lhe confiasse as preocupações de sua alma, Justina lançou-se a seus pés, dizendo-lhe: “Mãe, abençoai-me ou perdoai-me, eu sou cristã”.

A mãe chorou abraçando sua filha e foi procurar seu esposo a quem confiou o que acabava de saber.

Eles adormeceram em seguida e tiveram ambos o mesmo sonho. Uma luz divina descia sobre eles, e uma voz doce os chamava dizendo-lhes: "Vinde a mim, vós que viveis aflitos e eu vos consolarei; vinde, os amados de meu pai e eu vos darei o reino que vos está preparado desde o começo do mundo."

Ao despontar da manhã, o pai e a mãe abençoaram sua filha. Todos os três fizeram-se inscrever no número dos catecúmenos, e, depois das provas do costume. Foram admitidos ao santo batismo.

Justina voltava branca e radiosa da igreja, entre sua mãe e seu velho pai, quando dois homens sombrios, embrulhados em seus mantos, passaram como Fausto e Mefistófeles perto de Margarida: era o mágico Cipriano e seu discípulo Acládio. Os homens pararam deslumbrados por esta aparição; Justina passou sem vê-los e entrou em casa com sua família.

Muda-se a cena, estamos no laboratório de Cipriano, onde se traçam círculos; uma vítima degolada palpita perto de um estrado fumegante; em pé em frente do mágico aparece o gênio das trevas.

— Eis-me aqui; porque me chamaste? Fala! Que queres?
— Amo uma virgem.
— Seduze-a.
— Ela é cristã.
— Denuncia-a.
— Eu quero possui-la e não perdê-la; podes fazer alguma coisa em meu favor?
— Eu seduzi Eva, que era inocente e que conversava todos os dias familiarmente com Deus. Se tua virgem é cristã, fica sabendo que fui eu que fiz crucificar Jesus Cristo.
— Logo, tu ma entregarás?
— Toma este ungüento mágico, besuntarás com ele o limiar de sua residência e do resto me encarregarei.

Eis agora Justina que dorme em seu quartinho casto e severo. Cipriano posta-se à porta murmurando palavras sacrílegas e procedendo a ritos horríveis; Satã coloca-se à cabeceira da rapariga e sopra-lhe sonhos voluptuosos cheios de imagem de Cipriano que ela crê encontrar ainda ao sair da igreja; mas desta vez ela o contempla, o escuta e diz-lhe coisas que lhe perturbam o coração; de repente ela agita-se, desperta e faz o sinal da cruz; o demônio desaparece e o sedutor que faz sentinela à porta, aguarda-a inutilmente toda a noite.

No dia seguinte ele recomeça suas evocações e faz amargas censuras ao seu cúmplice infernal; este confessa sua impotência.
Cipriano o expulsa vergonhosamente e faz aparecer um demônio de ordem inferior. O recém-vindo transforma-se alternativamente em moça e em formoso mancebo para tentar Justina por conselhos e carícias. A virgem vai sucumbir, mas o seu anjo da guarda a assiste; ela faz o sinal da cruz e expulsa o mau espírito. Cipriano invoca então o rei dos infernos e vem Satã em pessoa. Ele acomete a Justina com todas as dores de Jó e espalha uma peste terrível em Antióquia, mandando os oraculos dizerem que a peste cessará quando Justina acalmar Vênus e o amor ultrajados. Justina ora publicamente pelo povo, e a peste cessa. Satã é vencido por sua vez, e Cipriano o obriga a confessar a onipotência do sinal da cruz, e o afronta, marcando-se com este sinal. Ele abjura a Magia, é cristão, toma-se bispo e reencontra Justina num mosteiro de virgens; eles então amam-se com o puro e durável amor da celeste caridade, a perseguição porém os atinge; são presos juntos e mortos no mesmo dia e vão consumar no seio de Deus seu casa- mento místico e eterno.

A lenda faz S. Cipriano bispo de Antióquia, enquanto a história eclesiástica o faz bispo de Cártago. Pouco importa aliás que seja ou não o mesmo. Um é um personagem poético, o outro um padre da igreja e um mártir.
Encontra-se, nos antigos engrimanços, uma oração atribuída a S. Cipriano da lenda e que é talvez do santo bispo de Cártago. As expressões obscuras e figuradas de que está cheia, farão talvez supor que antes de ser bispo e cristão, Cipriano entregara-se às práticas funestas da Magia negra.

Eis a tradução:

“Eu, Cipriano, servo de nosso Senhor Jesus Cristo, ouvi a Deus, o pai onipotente, e disse-lhe: Tu és o Deus forte, meu Deus onipotente que habitas na grande luz! Tu és santo e digno de louvor, e desde o tempo antigo tu viste a maldade do teu servo e as iniqüidades nas quais eu me metera pela maldade do demônio. Eu não sabia então teu verdadeiro nome, eu passava por meio das ovelhas e elas não tinham pastor. As nuvens não podiam dar seu orvalho à terra, as árvores não davam frutos e as mulheres em trabalhos de parto não podiam dar à luz; eu ligava e não desligava, eu amarrava os peixes do mar e eles não eram livres, amarrava as estradas do mar e retinha muitos males conjuntamente. Mas agora, Senhor Jesus Cristo, meu Deus,. eu conheci teu santo nome e eu o amei e me converti de todo meu coração, de toda minha alma, de todas as minhas entranhas, desviando-me da multidão de mii1has faltas para marchar em teu amor, seguindo teus mandamentos que são minha fé e minha prece. Tu és o verbo da verdade, a palavra única do pai e eu te conjuro a quebrar todas as cadeias e todos os entraves pela virtude de teu santo nome.”

Esta prece é evidentemente muito antiga e encerra reminiscências notáveis das figuras primitivas do esoterismo cristão nos primeiros séculos.


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