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siga a estrada de tijolos amarelos: Miscelânia Textos Diversos 23 Razões para Agradecer (de joelhos) aos Católicos A Indústria

A Indústria


23 Razões para Agradecer (de joelhos) aos Católicos

Moinho beneditinoA revolução industrial foi fruto da Inglaterra do século XVIII quando a máquina a vapor criou o  ambiente urbano. Nos poucos anos que separaram 1769 e 1870 dez em cada sete ingleses se mudaram para as cidades e com isso nasceu uma nova organização social trazendo de um lado a superlotação, os problemas sanitários e os conflitos trabalhistas e do outro a criação bens de consumo em massa e as facilidades da modernidade. Esse capítulo contudo não é propriamente sobre a Revolução Industrial, mas sim sobre algo mais essencial, que a precede e sobre a qual se sustenta. A Indústria propriamente dita.

Definimos que a indústria é a "Atividade que tem por finalidade transformar matéria-prima em produtos comercializáveis, utilizando para isto força humana, máquinas e energia." e sendo assim podemos afirmar que a indústria nasceu dentro dos mosteiros cistercienses do século X. Dizem que a indústria nasceu quando o artesão quis ganhar tempo e foi exatamente assim que aconteceu, preocupados em melhorar a produção interna dos seus mosteiros estes religiosos se descobriram donos de excedentes que podiam ser vendidos e doados a interessados de fora.

Os cistercienses são uma ordem beneditina reformada fundada em Citeaux, França e ficaram conhecidos por seu domínio das artes práticas e aplicações tecnológicas.  A Ordem de Cister complementou as regras da Ordem de São Bento com sua "Charta Charitatis", a primeira carta constitucional da história, que estabeleceu, entre outras coisas uma ligação maior entre os mosteros e encontros anuais regulares. Estes encontros eram utilizados para troca de experiências e conhecimentos técnicos e logo uma rede de inovação se formou pela Europa.

Outro ponto fundamental é que o "Charta Charitas" estabeleceu o trabalho como valor fundamental. Assim, em vez de esperar pela caridade alheia os monges arregaçaram as mangas e se propuseram a solucionar todo tipo de problemas. Os frutos deste esforço podem ser vistos ainda hoje em todo seu patrimônio técnico, artístico e arquitetônico. Os cistercienses partiam do princípio que se utilizassem sua inteligência  para resolve as tarefas poderiam usar suas energias para trabalhar com outras coisas e empenhar o resto do tempo em assuntos mais elevados.

Em “Como a Igreja Católica Construiu a Civilização Ocidental”, Thomas E. Woods diz que a comunidade monástica cisterciense tinha geralmente as suas próprias fábricas para a produção de energia hidráulica, que lhes servia para moer o trigo, peneirar a farinha, lavar a roupa e tratar o couro e cita o historiador Randall Collins: “Esses mosteiros eram verdadeiramente as unidades fabris mais produtivas de todas as que haviam existido até então na Europa e talvez no mundo."

O exemplo a seguir, também dado por Woods é um relatório do mosteiro cisterciense de Claraval, datado do século XII e descreve o modo como nele se usava a energia hidráulica:

“Entrando por baixo do muro exterior da abadia, que, como um porteiro, lhe dá passagem, inicialmente o arroio lança-se de modo impetuoso no moinho, contorcendo-se em um movimento revolto, primeiro para moer o trigo sob o peso das pedras, depois para agitar a fina peneira que separa a farinha do farelo. Depois de alcançar a construção seguinte, enche os tanques e entrega-se às chamas, que o aquecem para preparar a cerveja ou o licor dos monges, quando as vinhas recompensam o duro trabalho dos vinicultores com uma colheita pobre. Mas o arroio ainda não concluiu a sua tarefa. Convocam-no os lavadores, postados perto do moinho. No moinho, ocupara-se em preparar alimento para a irmandade; agora cuida-lhes da roupa. Nunca se esquiva nem se recusa a fazer qualquer coisa que lhe seja pedida. Levanta e deixa cair um a um os pesados pilões, os grandes maneios de madeira, poupando assim aos monges grandes fadigas… Quantos cavalos não cairiam esgotados, quantos homens não ficariam com os braços extenuados, se esse gracioso rio, ao qual devemos roupas e comida, não trabalhasse por nós!

“Depois de fazer girar o eixo a uma velocidade muito superior à que qualquer roda é capaz de se mover, desaparece em um frenesi de espuma; é como se ele próprio se deixasse triturar pelo moinho. Em seguida, entra no curtume, onde se mostra ainda mais aplicado e diligente no preparo do couro para o calçado dos monges; depois, divide-se em uma multidão de pequenos veios e prossegue o seu curso para cumprir os deveres que lhe são confiados, sempre atento a todos os trabalhos que requerem a sua participação, sejam eles quais forem – cozinhar, peneirar, girar, moer, regar ou lavar –. sem se recusar nunca a colaborar em qualquer tarefa. Finalmente, carrega para fora os resíduos, deixando tudo imaculado”

Como não poderia deixar de ser os cistercienses eventualmente passaram a produzir mais do que consumiam e puderam vender o excedente a comunidade ao redor. Isso fez com que a ordem prosperasse e se espalha-se pela Europa. Entre os séculos XII e XVII eles se tornaram líderes na metalurgia. Segundo o trabalho do arqueólogo Gerry McDonnell, a sofisticação técnica encontrada na abadia de Rievaulx, em North Yorkshire, Inglaterra, os deixava a poucos passos atrás da maquinaria do século XVII.

Mas a história não quis assim. Em 1530 o rei Henrique VII intimidado pelo crescente poder político e financeiro dos cistercienses mandou fechar todos os mosteiros que podia. Com isso os monges foram agregados em outras congregações romanas e eliminou-se a rede cistercienses de informação. Fazendo isso, ainda segundo McDonnell o monarca abortou a produção de ferro fundido em larga escala e possivelmente postergou a revolução industrial em três séculos. Contudo a industria já estava inventada e não se pode desinventar uma coisa. Era apenas questão de tempo para estes conhecimentos e técnicas se espalhassem e chegassem aos ouvidos de homens de negócios munidos de máquinas a vapor.


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