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siga a estrada de tijolos amarelos: Bruxaria Textos Pagãos A Magia Psicodélica de Carlos Castañeda O Mistério dos Aliados

O Mistério dos Aliados

A leitura superficial da obra de Castaneda, especialmente seu primeiro livro, A Erva do Diabo, pode sugerir que os ALIADOS são aquelas duas plantas, em si mesmas ou, indissociáveis daquelas plantas e do seu consumo.

Esta é uma ideia completamente errada. O próprio Don Juan teria deixado claro que ...Existem muitos desses poderes aliados no mundo ...mas ele só conhecia de perto dois. (CASTANEDA, 1968 – p 26)

O trecho citado acima consta no primeiro livro de Castaneda, A Erva do Diabo. São palavras extraídas de um enorme volume de anotações do autor feitas em um primeiro período de aprendizagem que durou pouco menos de cinco anos.

Como acadêmico que usou essas anotações para sua dissertação de Mestrado, Castaneda fez uma triagem naquele enorme vo

ume de material compilado para redigir se texto final. Nesse processo, cometeu erros de interpretação que viria reconhecer e corrigir em obras posteriores, como Uma Estranha Realidade e a Viagem a Ixtlan.

...[reexaminando] detalhadamente todo o meu trabalho de dez anos. Tornou-se evidente para mim que minha suposição original sobre o papel das plantas psicotrópicas era falsa. Elas não eram a característica essencial da descrição do mundo por um feiticeiro... (CASTANEDA, 1972 – p 28)

Um dos enganos mais notáveis desse autor é, justamente, o conceito de ALIADO. Ele afirma que Don Juan teria dito que somente conhecia de perto dois desse poderes aliados e, assim, as

ocia os Aliados às plantas mas, lendo a frase com cuidado, nota-se que a referência á a PODERES ALIADOS.

Nos livros posteriores verifica-se que Don Juan conhecia não somente dois poderes aliados, mas inúmeros deles. Duas eram somente as plantas cuja utilização ele conhecia para auxiliar na revelação desses aliados.

O consumo das substâncias também não é um ritual ou compromisso vitalício. Ninguém, nem mesmo o feiticeiro torna-se dependente das plantas, por toda a vida, para manter o vínculo com seu ALIADO. Significa que depois de aberta a porta da percepção metafísica, depois de experimentar e bem conhecer  o estado de consciência ampliada – a realidade não comum – é possível chegar ao mesmo  resultado sem a utilização das plantas.

Terça-feira, 24 de dezembro de 1963

– Disse que não precisa mais fumar, Dom Juan?

– Sim, porque o fumo é meu aliado e não preciso mais fumar. Posso chamá-lo a qualquer momento, em qualquer lugar.

– Quer dizer que ele vem mesmo que você não fume?

– Quero dizer que vou até ele livremente.

– Também poderei fazer isso?

– Se conseguir fazer dele seu aliado, sim.

(CASTANEDA, 1968 – p 69)

E, ainda:

– O aliado não está no fumo — disse ele. — O fumo leva você para onde está o aliado, e quando você se torna um com o aliado, nunca mais precisa fumar. Daí em diante pode chamar seu aliado à vontade e fazê-lo fazer o que você quiser.

(CASTANEDA, 1971 – p 46)

Aqui é possível ir além do Universo da Ciência Oculta meso-americana e finalmente compreender que, enquanto substâncias consumidas em natura ou processadas não quimicamente, no sentido de não sintetizadas ou não extraídas das plantas através de procedimentos laboratoriais, os ALIADOS – segundo o entendimento e prática de Don Juan, podem ser outras plantas capazes de produzir efeitos psicotrópicos ou, especificamente, alterar a consciência (o conhecimento do mundo, da realidade) pela ampliação da capacidade de percepção.

Entre estas, poderiam ser classificadas como ALIADOS, por exemplo:

Maconha (Cannabis sativa);

Banisteriopsis caapi conhecido como cipó-mariri ou ayahuasca que combinado com as folhas do arbusto Psychotria viridis ou chacrona, são as duas plantas amazônicas utilizadas no preparo do chá de Santo Daime;

Claviceps purpúrea – fungo  que, biologicamente, apesar de sua classificação botânica é uma criatura geneticamente mais próxima do reino animal que do reino vegetal,do qual é extraído o LSD (Lysergsäurediethylamid em alemão ou dietilamida do ácido lisérgico);

a  Papaver somniferum  ou Papoula dormideira (ou papoila), fonte do ópio;

os frutos ou bagas da chamada Beladona (Atropa belladonna, planta cuja ingestão em doses altas de qualquer uma de suas partes, seja raiz, folhas ou frutos pode ser mortal)...

OK, vamos parar por aqui e NÃO!!! NÃO TENTE FAZER ISSO EM CASA PELO HORROR DE DEUS!!! Porque o uso irresponsável, fútil ou abusivo dessas plantas pode fazer com que o que deveria ser seu ALIADO transforme-se em seu pior inimigo ou mesmo seu assassino.

Das plantas citadas acima a única que, segundo os registros, jamais provocou morte ou demência é a Cannabis sativa. Ainda assim seu uso diário constante pode produzir desagradáveis efeitos colaterais como perda da memória recente (ou seja, você não sabe onde colocou as chaves do carro que estavam ali agora mesmo); um comportamento apático denominado síndrome desmotivacional (quer dizer que você pode se tornar um vagabundo, sem vontade para nada e possivelmente, impotente); e – finalmente, devido ao não controle de um efeito conhecido como larica, ou seja, apetite exagerado, além da fome, com notável atração por doces (devido à diminuição das taxas normais de glicose no sangur), o viciado em maconha pode tornar-se um (a) sujeito (a) – no mínimo – gordo (a) podendo chegar à obesidade.

Raríssimas pessoas são imunes a esses efeitos se tornam o uso da maconha uma prática diária. Os imunes são quase anormais denominados popularmente cabeção ou, ainda dragão! Eeeeeeeeee... Não! Isso não consta na obra de Castaneda.

Estas são informações que este articulista, apesar de ser jornalista, sendo amante da antropologia, COMPROVOU em sua própria... ahn... experiência... ahn... pesquisa e observação de campo ao longo de vários anos. A ocorrência desses efeitos é um fato.

Don Juan adverte sobre esses riscos conforme foi documentado por Castaneda em vários trechos de A Erva do Diabo e Uma Estranha Realidade, como nos trechos a seguir, quando Don Juan comenta as experiências do discípulo em diferentes ocasiões depois de usar o Fuminho:

A fumaça virá. Você a sentirá. Ela o libertará para ver tudo o que quiser ver... Mas quem o procurar tem de ter um propósito e uma vontade irrepreensíveis. Ele precisa disso porque tem de pretender e querer sua volta, do contrário o fumo não o deixará voltar. (CASTANEDA, 1968 – p 42)

...Você viajou muito longe ...tive uma dificuldade enorme em puxá-lo de volta. Se eu não estivesse por perto, poderia ter ido embora e nunca mais voltado, e nesse caso só restaria de você agora seu cadáver aqui ao lado do riacho. (CASTANEDA, 1971 – p 202)

E referindo-se ao preparo do fumo, o conhecimento do tipo certo de cogumelo na hora de coletá-lo:

O verdadeiro segredo da mistura reside nos cogumelos – disse ele. – São o ingrediente mais difícil de colher. A ida ao lugar onde crescem é longa e perigosa, e escolher a qualidade certa é ainda mais arriscado. Há outros tipos de cogumelos que crescem juntos deles, e que não valem nada; estragariam os bons se fossem secados juntos. Leva tempo para se conhecer bem os cogumelos, e não se errar. Sérios males podem resultar, se se usar o tipo errado – mal para o homem e para o cachimbo. Conheço homens que caíram mortos por terem usado um mau fumo. (CASTANEDA, 1968 – p 41/42)

Os ALIADOS são PODERES. Poderes do próprio Homem e poderes da natureza que o cercam e que são passíveis de serem “domesticados”, como diz Don Juan. Ou seja, são Poderes que o feiticeiro (o Mago) aprende a reconhecer e dominar.

Na obra de Castaneda o conceito de ALIADOS consolida-se pouco a pouco, em trechos isolados de livros diferentes. Não é apresentado em um conjunto coeso de informações fornecidas em um dado momento do aprendizado de Castaneda.

A “didática” de Don Juan é fragmentada, mas uma primeira elucidação, que aparece em Uma Estranha Realidade, é o começo da revelação da natureza desses seres enigmáticos aproximando-os do que a magia ocidental europeia chamaria de Elementais.

Porém, Don Juan não os classifica em categorias relacionadas aos elementos Terra, Água, Fogo e Ar atribuindo nomenclaturas a essas categorias que seriam, respectivamente, Gnomos/duendes, Ondinas ou Náiades, Salamandras e Silfos, como fazem os ocultistas do ocidente europeu. 

Todos são simplesmente Entes ou Aliados, como – por exemplo, no caso de um deles que o xamã denomina de “espírito de um olho d’água”;  e nem sempre são, de fato, amigáveis se não forem “domesticados”, cativados (tomados de simpatia) ou subjugados pelo homem...

São forças, nem boas nem más, apenas forças que um brujo aprende a conjurar. (CASTANEDA, 1971 – p 44)

Mais adiante Don Juan fornece mais detalhes sobre essas FORÇAS e chega a referir-se a elas como ENTES que, quando são visíveis, jamais são reconhecidos pelas pessoas comuns.

Somente um brujo ou um Homem de Conhecimento, que aprendeu a VER além de simplesmente OLHAR, consegue distinguir estes Entes – ou Aliados de uma realidade objetiva qualquer.

Os animais, todavia, têm a capacidade inata de identificar estes seres mesmo que eles tenham tomado a forma de semelhante da espécie. Isso acontece porque esses Entes tem a capacidade de assumir a aparência de qualquer criatura ou objeto, de um ser humano, a um animal, uma planta, uma pedra, uma névoa. São metamorfos:

Os aliados assumem formas diferentes. Parecem cães, coiotes, pássaros, até o amaranto (que é uma planta), ou qualquer outra coisa.

... têm o aspecto daquilo que estejam fingindo ser. Tomam qualquer forma ou tamanho que lhes convenha. Podem ter a forma de uma pedrinha, ou de uma montanha. Em companhia dos homens, comportam-se como homens. Na companhia de animais, comportam-se como animais. Os animais geralmente têm medo deles; mas se estiverem habituados a ver os aliados, não os importunam.

Os aliados apenas tomam a aparência exterior do que estiver por perto e então pensamos que eles são o que não são.(CASTANEDA, 1971 – p 46/47/48)

...para um corvo, ele parece um chapéu pontudo. Redondo e largo embaixo, terminando numa ponta comprida. Alguns brilham; outros, a maioria, são opacos e parecem muito pesados. Lembram um pano ensopado. São formas sinistras. ...

Temos centenas de aliados entre nós, mas não os importunamos. Como os nossos olhos só podem olhar para as coisas, nem reparamos neles. (CASTANEDA, 1971 – p 48)

Ao contrário do que muitos podem pensar a população destes Entes, apesar de sua íntima relação e até identificação com as Forças da Natureza, esta “população” não se restringe nem se concentra territorialmente aos espaços abertos, aos ambientes mais selvagens ou agrestes como desertos, montanhas e florestas.

Estão em toda parte incluindo as grandes metrópoles desta pós-modernidade e, em forma humana, por exemplo, estão misturados à multidão que circula nas ruas de qualquer cidade, em meio às pessoas que entram e saem dos prédios comerciais e residenciais, entre os passageiros de um ônibus ou do metrô.

A capacidade metamórfica favorece estas Criaturas quando estão empenhadas em influir sobre o destino dos indivíduos, para o bem ou para o mal. Muitas vezes, isso acontece, porque o Ente foi conjurado e aceitou (ou foi obrigado a) aliar-se a um brujo ou mago.

Esse tipo de procedimento, conjurar um Ente, (elementais ou mesmo espíritos desencarnados), com boas ou más intenções, será sempre uma prática do que se chama de magia negra, que consiste, exatamente, em valer-se de um agente de poder metafísico para interferir na vida (e morte) dos outros, ainda que seja com excelentes intenções. Aliás, diz a língua do povo que – De boas intenções o Inferno está cheio.

Este articulista pode prever as objeções que o leitor poderá fazer, mencionando, por exemplo, os milagres realizados peli Cristo Jesus. Note-se, porém, que o meigo Rabi, depois de curar um cego ou um aleijado, sempre dizia: TUA fé te salvou; e não MEU PODER te salvou. 

Mesmo quando ressuscitava mortos, ele os chamava primeiro para seus corpos ainda com capacidade funcional de sustentar a vida. O Espírito, retornava, então, por sua própria vontade.

Ou seja, um Homem de Poder honesto usa o poder que cultivou e detêm unicamente no âmbito de sua própria vida dentro dos limites dos seus direitos pessoais. Jamais para brincar de Deus.

Ligia Cabus

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