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siga a estrada de tijolos amarelos: Bruxaria Textos Pagãos Manifesto do Idolatra

Manifesto do Idolatra


Manifesto IdolatraDe onde vem os novos pagãos?

Porque não somos cristãos?

Nossa crença nasce de três sentimentos, desconforto, descrença, e esperança. 

Nossas religiões familiares que são majoritariamente pautadas no bem, em um único Deus, e em Jesus Cristo de repente não nos preenchem mais. Existe um desconforto que permeia as religiões “reveladas”, seja porque a estrutura religiosa nos entedia, ou porque a própria tradição moral da religião “do amor”. nos categoriza como libertinos, pervertidos e hereges, ou simplesmente não vemos respostas satisfatórias sobre vida após a morte, sobre mundo e suas crises, ou a intrigante questão do bem e do mal pois soa meio ilógico um Deus meio carente que manda para um fogo eterno quem não o corresponde o seu “amor”.

Daí nasce à descrença a indiferença aos elementos religiosos e ao transcendente Abraamico/cristão. Vamos buscar respostas e principalmente coisas que nos toquem e mecham com o nosso íntimo. Nessa esperança surgem os que olham para a natureza, para a magia e para antigos mistérios e os grandiosos contos, heróis e deuses, esses são os novos pagãos.

Não somos cristãos porque achamos que esse mundão é muito mais cinza do que preto e branco, que a luz de uma vela é muito mais bonita quando é circundada por escuridão, sentimos e revisitamos a grandiosidade do que foi uma visão fragmentada de mundo, onde as inúmeras questões que brilhavam  nos ídolos e cerimonias politeístas. Sentimos um chamado de uma coisa intima e interior, uma busca por autenticidade e transformação.

Propomo-nos a uma reconstrução de elementos que existiram no mundo antigo, sobretudo a capacidade que nossos ancestrais tinham de capitar as nuances da existência e exprimir isso na forma de mitos e ritos, a fé era inseparável da sensação sendo assim intima, autentica e artística. Temos ao olhar para o passado o objetivo buscar um caminho de descoberta e redescoberta da vida.

Os elementos pessoais das crenças do período neolítico (pré-histórico) recorriam a esses elementos lúdicos para explicar o mundo exterior, que por falta de explicação melhor foram colocados como verdades absolutas e cosmológicas, sendo passado na forma de tradição oral para as futuras gerações. Esse sistema funcionava como uma luva para povos com relações de poder tribal e limitada de conhecimento técnico.

Contudo existe uma condição, digamos por falta de palavra melhor, irresponsável dentro da comunidade pagã, a chamada dissociação de ídolos. A questão é que para nós modernos a tentativa de reconstrução literal das tradições, é simplesmente burrice, a humanidade não tem a mesma relação de poder e sobre tudo não tem a mesma visão de mundo, hoje existe uma forma de analisar as relações naturais frente a uma metodologia cientifica, a sociedade não é mais agraria, nem tribal. Os movimentos neopagãos passando pela dificuldade de conciliar passado e presente simplesmente infantilizam os mitos ou pior os ignoram e tentam construir os ídolos antigos sobre uma ótica pós-moderna!

Isso cria uma fé que é sobre todas as coisas, infantil. Não recuperamos  os elementos originais (por serem incompatíveis com o nosso tempo) tampouco criamos uma jornada pessoal visto que a visão construída dos ídolos religiosos acaba sendo uma extensão malfeita do indivíduo e de estrangeirismos distorcidos, assim os ritos¹ são prejudicados e malfeitos.

Essa principalmente nas práticas ecléticas como a wicca, bruxaria tradicional, e alguns segmentos umbandistas (geralmente desvinculados de uma tradição ou Babalorixa). O rito e adoração geralmente acabam virando um grande misto de parodias de diversas tradições mesclado com práticas magicas e inacessível para os que não têm condições de pesquisar sobre os Ídolos antigos e seus variados nomes e em virtude disse o mundo nos ve como simples jovens mal resolvidos e obscurantistas que ficam procurando em estrangeirismos uma tentativa de ser exótico.

Nessa estrutura a própria proposta de jornada intima se vê comprometida e nossa conexão com os deuses fica distorcida, nossa relação com os mitos não deve mais ser usada para explicar os fenômenos da natureza exterior, mas sim dos indesvendáveis labirintos internos. Então para a melhor organização de nossa comunidade e melhor viabilização de nossos objetivos faço algumas propostas.

Um conceito único teológico sobre mistério e natureza 

Sobre uma perspectiva pagã se pressupõe que a existência é fragmentada, ou seja não existe como afirmam os monoteístas um criador único e distante da criação, também não reconheceremos uma figura messiânica ou humanos divinizados como jesus ou os santos

Na nossa visão vemos a natureza como um ente vivo, pulsante, emanecente auto criador e autodestruidor como já constatado pelas descobertas das ciências naturais. O mistério dessa forma é o desconhecido íntimo das coisas que se explica pela figura dos deuses.

Os deuses e ídolos são colocados como elementos da natureza e da humanidade que influenciam nas coisas como são, ou seja, os deuses fazem parte de nós, da natureza, e da nossa relação com a mesma.

Não devemos, contudo, colocar uma unidade ou continuidade nas figuras dos deuses! Afrodite não é Oxum que não é Freya cada uma revela uma percepção de algo em comum: o amor, a beleza e o sexo. A questão é que esse ídolo se construiu com base nas relações sociais e captando as percepções de cada povo, é ai que mora a diferença entre deuses e ídolos, os ídolos morrem e mudam, os deuses não.

É indiferente se existe uma entidade sentada em uma concha que nasceu do esperma e da espuma de um deus castrado, chamada Afrodite da Silva, o amor existe, a beleza existe, o sexo existe e quando entramos em contado com todas essas coisas, isso efetivamente nos muda e muda o que esta a nossa volta, esse amor pulsante e transcendente é a deidade do amor.

Para intender melhor essa relação vejam esse exemplo: nunca entenderemos por completo como modernos o que foi a ídolo Iemanjá, em uma narrativa da tradição oral  a mesma se estimula com relatos de estupro de Ogun.² visivelmente essa percepção não é compatível com nós, Iemanjá se manteve viva através de sua própria tradição que foi montada e remontada através dos tempos, ou seja existe uma forma autentica de contatar com esse ídolo, por isso é besteira fazer, como alguns fazem ritualística mesclando ídolos, pois os indivíduos não alcançam os mesmos. Ao mesmo tempo não temos elementos ritualísticos o suficiente para reconstruir um ídolo perdido, adora-lo não é errado e não implica necessariamente no problema estrutural descrito antes, contudo os devotos a esse ídolo tem que prestar atenção por motivos de respeito, colocando como pilar de sua jornada o próprio mistério que envolve o ídolo, caso o contrário corre o perigo de transformar o ídolo em um simples personagem onde o Thor que alguns adoram se aproxima muito mais do galã de Hollywood do que da entidade germânica.

O problema da grande mãe

Não existe problema nenhum em ver a natureza como uma grande mãe emanecente e sensível a nós, a questão é que as coisas ficam complicadas quando se tenta conciliar a narrativa dualista wiccana com uma ritualística que contenha ídolos religiosos, é impossível conciliar  sem cair no problema da dissociação. Para solucionar essa questão os seguidores teriam duas opções:

  • Transformar Deusa Mãe e o Cernudo nos ídolos e não colocar outros nos rituais
  • Colocar a Deusa mãe como natureza e ídolo (ídolo da natureza como gaia) e outros ídolos nas demais relações humanas, abandonando a figura do Cernudo.

Vamos com calma na magia

Um dos principais problemas nos rituais neopagãos é que eles tem se transformado em um verdadeiro shopping center espiritual, as pessoas recorrem as ritualísticas e datas místicas simplesmente para fazerem “rituais mágicos” onde supostamente usam os seus “poderes místicos”, a questão é que o elemento da magia deve ser usado de outra maneira, a ideia de que os humanos tem poderes mágicos e podem realizar feitos com isso deve ser no mínimo desvinculada dos ritos e da adoração dos deuses. Em um ritual magico que supostamente tem resultados é impossível mapear o quanto de influencia a pessoa teve no ocorrido, não que isso signifique que a magia deve ser tratada como errada ou como ilusão, visto que é indiferente se a magia é real ou não, se seus resultados são reais.

Candomblé, Hinduísmo e tradições vivas

O problema da dissociação não implica no caso de tradições místicas que dede tempos remotos foram mantidas por tradição oral de seus respectivos adeptos visto que o processo de contato com seus ídolos se manteve cultivado por uma ritualística guardada com seriedade por uma classe sacerdotal, o candomblé por exemplo(mesmo sendo monoteísta) não da tiros as cegas quando trata de adorar as entidades de sua tradição religiosa, o mesmo vale para os pagãos hinduístas, fé que é completamente inacessível segundo os hindus para nós ocidentais pois mesmo lendo os textos védicos, recitando mantras, ou até praticando alguns movimentos da escola Ioga, não conseguimos acessar o conhecimento profundo da crença e de seus ídolos.

Deuses Humanizados

É muito complicado quando nós humanos simplificamos as relações divinas e transformamos os deuses em simples bonecos ou personagens de uma serie, deuses não tem simples sentimentos como nós, essa ideia empobrece o conceito de deidade, que são nuances da própria existência, pulsantes e emanecentes.

A relação dos deuses com o mundo, com nós e seus “sentimentos” são incompreensíveis para humanos, temos naturezas ontológicas diferentes, o próprio conceito de felicidade é incompreensível na sua totalidade para nós, vemos na felicidade uma espécie de gozo duradouro, continuo e estável, em nossa realidade isso é inalcançável.     

De fato existe a alegria, quando comemos uma pizza depois de um longo dia de trabalho, ela nos deixa alegre, mas se comermos 278 pizzas todos os dias até o resto de nossas vidas, certamente alegria não sera a sensação que terremos em relação a pizza.

A felicidade, o amor, o ódio e o próprio tempo se superam em seus próprios significados esse elemento é o transcendente, e nessa singularidade existem os deuses.                            

Abertura a novos ídolos


As tradições ecléticas que geralmente se confundem nessa salada de ídolos, maquiados por uma ideia de uma deusa mãe, só conseguirão construir uma tradição pagã, um contato íntimo com a natureza e a existência, quando se permitirem construir novos ídolos, isso não significa fazer fusões de ídolos antigos ou pior, inventar um nome, uma imagem e pronto, tenho um deus!

Temos que voltar no que os nossos ancestrais pagãos faziam, vivenciar os deuses, você so chega na intimidade do que é o amor, vivenciando e sentindo o mesmo, da mesma forma o ódio, a dor, o êxtase, as nuances da existência que são os deuses.

Na ritualística podemos nos apropriar de alguns elementos místicos que são coerentes com os nossos tempos e nossas experiências:

  • Os quatro grandes elementos da natureza como símbolos de:

Sentimentalidade-Agua

Fulgor - Fogo

Liberdade- Ar

Forma – Terra

  • O ciclo Solar como luz e sombra onde existe os estremos de um e de outro e dois pontos de equilíbrio.

O uso e abuso de elementos lúdicos e artísticos, isso retoma a noção de que as coisas acontecem devido a um processo, a indução criativa.Para os deuses: musicas, Odes, imagens e entoação de sons nos possibilitará o amplo contato com esse novo ídolo que está para nascer.

A grande importância nesse processo da figura oracular e das experiências de transe, pois as mesmas possibilitam novas óticas sobre o mundo e o sentido íntimo das coisas, o mistério os deuses.

Mudança na relação entre os “covens” e instituição de um sacerdócio Pagão e a diferenciação do culto domestico do coletivo

Os chamados covens que surgem por livre associação acabam criando uma ideia de que todo mundo pode ser pagão e adorar os deuses, isso não procede, da mesma forma que não se pode ser medico sem passar por um processo de aprendizado. O culto e o surgimento de novos adeptos deve passar por um processo intimo uma jornada meditativa antes de fundar um “clã” de adoradores dos deuses, a estrutura do clã é um ótimo molde de descoberta dos novos ídolos ou tentativa de recuperação fidedigna dos antigos des de que ministradas por alguém mas sensível ao transcendente ,o chamado vulgarmente de oraculo, para não cair no problema da dissociação de ídolos, dessa forma nossa comunidade precisa se organizar no sentido de criar uma identidade para que novos adeptos possam se reconhecer no meio pagão também fundar clans por uma espécie de sacerdote, assim os novos adeptos evitariam cair em seitas ou em charlatões. Os covens devem se identificar e se juntar sob um proposito comum combater a dissociação de ídolos e os vigaristas que mascaram suas mentiras sob um discurso obscurantista e místico.

Um sacerdote seria alguém que se empenha em manter viva a vivencia pagã ou seja alguém que adota um comprometimento de ser um registro vivo. Não se trata de colocar uma função similar ao padre católico, mas sim alguém que busca na intimidade os deuses. Assim a legitimidade desse cargo deveria ser colocada em votos e um longo processo de estudo de antologias mitológicas e, sobretudo conhecimento de ritualísticas que evitem a dissociação.

Assim o culto coletivo se construiria em uma base de acesso comum e segura para aqueles que se interessam em redescobrir o paganismos ao passo de que o culto domestico também é uma coisas que não pode ser desvinculada da espiritualidade pagã, então altares, locais de culto aos ancestrais e aos ídolos domésticos, (sejam os que emergem de uma experiência intima de fé ou os recuperados) ou simplesmente um local de oração e intimidade espiritua que são construídos na intimidade, contudo é nosso dever para com os próprios deuses instruir os que querem montar um ambiente nessa categoria ou procurar uma pratica introspectiva, para continuarem nessa fé não e cairem no problema da dissociação de ídolos.

Devemos nos juntar, devemos nos falar, devemos nos sentir, a antiga arvore do paganismo foi morta, deliberadamente assassinada, mas nós ouvimos seu eco, ouvimos seu chamado desde tempos imemoriáveis, carregamos as novas sementes, e com elas a responsabilidade pelo zelo do novo, intimo e abundante, poderio pagão.

Notas:

1.Rito é por definição a concretização do mito, tomemos como exemplo a missa cristã onde o corpo e sangue de seu salvador existe naquele momento e naquele lugar, sendo sentido e adorado pelos fiéis. 

 

Autoria de Renan Favinha


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