Ir para o conteúdo. |

  • A Empresa
  • Envie seu texto
  • Apoie
  • Contato
  • Seções:
siga a estrada de tijolos amarelos: Psico Textos de Psicologia Bizarra As Portas da Percepção Conclusão - Comunhão com o Deus Vegetal

Conclusão - Comunhão com o Deus Vegetal


por Aldous Huxley

Parece extremamente improvável que a humanidade, de um modo geral, algum dia seja capaz de passar sem paraísos artificiais. A maioria dos homens e mulheres leva uma vida tão sofredora em seus pontos baixos e tão monótona em suas eminências, tão pobre  e  limitada,  que  os  desejos  de  fuga,  os  anseios  para  superar-se,  ainda  por  uns breves momentos, estão e têm estado sempre entre os principais apetites da alma. A arte e a religião, os carnavais e as saturnais, a dança e a apreciação da oratória, tudo isso tem servido, na frase de H. G. Wells, de Portas na muralha. E ha vida individual, para uso cotidiano,  sempre  houve  drogas  inebriantes.  Todos  os  sedativos  e  narcóticos  vegetais, todos os eufóricos derivados de plantas, todos os entorpecentes que se extraem de frutos ou   raízes,   todos,   sem   exceção,   são   conhecidos   e   vêm   sendo   sistematicamente empregados  pelos  seres  humanos,  desde  épocas  imemoriais.  E  a  esses  modificadores naturais da percepção, a ciência moderna adicionou sua cota de produtos sintéticos — o cloral, a benzedrina, os brometos e os barbituratos.

A  maior  parte  dessas  substâncias  não  pode  ser  atualmente  adquirida,  a não  ser mediante  prescrição  médica  ou  então  ilegalmente  e  com graves  riscos.  O  Ocidente  só permite  o  uso  irrestrito  do  fumo  e  do  álcool.  Todas  as  outras  Portas  químicas  na muralha são rotuladas como estupefacientes e seus consumidores ilegais são viciados.

Gastamos, hoje em dia, muito mais em cigarros e bebidas que em educação. E nada há de surpreendente nesse fato. O impulso para fugir a nós mesmos e ao que nos rodeia está presente em cada um de nós, quase todo o tempo. O estímulo para fazer algo pelas crianças só é forte nos pais, e, mesmo neles, tão-somente durante os poucos anos de vida escolar de seus filhos. Do mesmo modo, não nos surpreende a atitude geral com relação ao fumo e à bebida.

A   despeito   das   legiões   sempre   crescentes   de   alcoólatras   inveterados,   das centenas de milhares de pessoas que são anualmente mutiladas ou mortas por motoristas embriagados, os humoristas populares ainda armam situações jocosas girando em torno do álcool e dos que a ele se entregam. E, a despeito das provas ligando os cigarros ao câncer  do  pulmão,  praticamente  todo  o  mundo  encara  o  hábito  de  fumar  como  algo quase  tão  normal  e  natural  quanto  comer.  Do  ponto  de  vista  do  racionalista  utilitário, isto pode parecer estranho, mas, para o versado em história, não seria de esperar outra coisa.  Jamais  a  inabalável  convicção  na  existência  do  Inferno  conseguiu  evitar que os cristãos  fizessem  aquilo  que  lhes  sugeria  a  ambição,  a  luxúria  ou  a  cobiça.  O  câncer pulmonar,  os  acidentes  de  tráfego  e  os  milhões  de  criaturas  miseráveis  e  criadoras  de miséria  em  razão  do  alcoolismo  são  realidades  ainda  mais  positivas  que  o  Inferno  no tempo de  Dante.  Mas tudo  isso  é  remoto  e secundário,  se comparado com a realidade vivida e presente de uma ânsia por serenidade ou liberdade, por um cigarro ou uma taça.

Nossa  era,  entre  outras  coisas,  é  a  idade  do  automóvel  e  da  vertigem  da velocidade. O álcool é incompatível com a segurança nas estradas; e sua produção, bem como a do tabaco, condena praticamente à esterilidade muitos milhões de hectares dos mais férteis solos. Os problemas criados pelo álcool e pelo tabaco não podem ser — e isto  não  admite  contestação  —  resolvidos  pela  proibição.  O  impulso  universal  e permanente  para a autotranscendência não pode ser dominado pelo simples fechar das solicitadas  Portas  na  muralha.  A  única  política  razoável  seria  abrir  outras  portas melhores, na esperança de induzir os seres humanos a trocar seus velhos maus hábitos por  práticas  novas  e  menos  prejudiciais.  Algumas  dessas  novas  portas  seriam  de natureza  social  e  tecnológica,  outras  religiosas  ou  psicológicas,  e  outras  mais  seriam dietéticas,  atléticas  e  educacionais.  Mas  é  inevitável  que  perdure,  apesar  de  tudo,  a necessidade de freqüentes excursões químicas para longe da intolerável personalidade e dos  repulsivos  arredores  de  cada  um.  Precisar-se-ia,  pois,  de  uma  nova  droga  que aliviasse e consolasse nossos semelhantes que sofrem, sem lhes causar dano maior, após um período prolongado de tempo, do que o bem que ela lhes pudesse proporcionar de imediato.  Tal  droga  teria  de  ser  eficaz  em doses  diminutas,  e  sintetizável.  A  ausência dessas características faria com que sua produção, tal qual a do vinho, da cerveja, das bebidas  fortes  e  do  tabaco,  fosse interferir  com a produção  dos alimentos e  das fibras essenciais.  Teria  de  ser  menos  tóxica  que  o  ópio  ou  a  cocaína,  menos  propensa  a produzir  conseqüências  sociais  indesejáveis  que  o  álcool  ou  os  barbituratos,  menos prejudicial  ao  coração  e  aos  pulmões  que  o  alcatrão  e  a  nicotina  dos  cigarros.  E,  por suas   características   positivas,   deveria   produzir   modificações  mais  interessantes   na  percepção,  mais  intrinsecamente proveitosas  que  a mera ação  sedativa  ou  a propensão aos sonhos e às impressões de onipotência ou o escape às inibições.

A mescalina é quase que completamente inócua para a maioria das pessoas. Ao contrário  do  álcool,  ela  não  conduz  o  paciente  a  esse  tipo  de  ações  descomedidas  das quais resultam alterações, crimes violentos e acidentes de tráfego. Um indivíduo sob a influência da mescalina vive sossegadamente para si mesmo. Além do mais, o que então o absorve é uma experiência das mais esclarecedoras e que dele não exige, em troca (e isto  é  certamente  importante),  quaisquer  sensações  posteriores  de  angústia.  Pouco sabemos acerca das conseqüências remotas do uso sistemático da mescalina. Os índios que mascam pedaços de peiote não parecem ser física ou moralmente degradados pelo hábito. No entanto, as provas de que dispomos são ainda poucas e falhas [12].

Embora  indiscutivelmente  superior  à  cocaína,  ao  ópio,  ao  álcool  e  ao  fumo,  a mescalina ainda não é a droga ideal. De par com a maioria de indivíduos que encontram a satisfação na ingestão do alcalóide, há uma minoria a quem a droga só proporciona o inferno  ou  o  purgatório.  Além  disso,  para  um  produto  que  iria  ser  entregue,  como  o álcool,    ao    consumo    indiscriminado,    seus    efeitos    perduram    por    um    prazo exageradamente  longo.  Mas  a  química  e  a  fisiologia  são,  hoje  em  dia,  capazes  de realizar  praticamente  qualquer  coisa.  Se  os  psicologistas  e  sociologistas  chegarem  a definir  qual  seja  o  ideal,  pode-se  confiar  nos  neurologistas  e  farmacologistas  para descobrir os meios de atingi-lo ou, no mínimo, aproximar-se dele muito mais (mesmo porque, pela própria natureza das coisas, talvez jamais se consiga conceber inteiramente qual seja esse ideal) do que foi possível com o vinho do passado ou com o uísque, a maconha e os barbituratos do presente.

O  impulso  para  superar  a  personalidade  autoconsciente  é,  como  já o  disse,  um anseio capital da alma. Quando, seja por que razão, os seres humanos vêem baldados os seus esforços para superarem a si mesmos pelo culto, pelas boas ações e pela atividade intelectual, tornam-se propensos a recorrer às drogas substitutas da religião — o álcool e  as "pílulas inocentes" no moderno Ocidente, o álcool e o ópio no Oriente, o haxixe no mundo  maometano,  o  álcool  e  a  maconha  na  América  Central,  o  álcool  e  a  coca  nos Andes,  o álcool e  os barbituratos nas regiões mais adiantadas da América do Sul. Em Poisons sacrés, ivresses divines [Venenos sagrados, êxtases divinos], Philippe de Félice escreveu  exaustivamente,  e  com  riqueza  de  documentação,  sobre  os  laços  imemoriais que ligam a religião à ingestão de drogas. A seguir, ora resumindo, ora transcrevendo, apresento suas conclusões:

O  emprego,  para fins religiosos,  de  substâncias tóxicas,  é  "extraordinariamente difundido  [...]  As  práticas  estudadas  neste  volume  podem ser  observadas  em qualquer região da Terra, tanto entre os povos primitivos como no seio daqueles que já atingiram um  elevado  índice  de  civilização.  Não  estamos,  pois,  lidando  com  fatos  excepcionais que poderiam ser, com razão, postos à margem; mas com um fenômeno geral e, dentro da mais ampla acepção da palavra, humano; com um tipo de fenômeno que não pode ser desprezado por quem quer que busque descobrir que é a religião e quais as necessidades profundas a que ela tem de satisfazer".

Teoricamente,    cada    um    de    nós    deveria    ser    capaz    de    encontrar    a autotranscendência a partir de uma forma de religião pura ou aplicada.  Mas,  na  prática,  parece  ser  sumamente  improvável  que  esse  anseio pelo  apogeu  seja  algum  dia  realizável.  Há  (e  é  fora  de  dúvida  que  sempre  houve) homens  e  mulheres  virtuosos  e  pios,  para  quem,  infelizmente,  apenas  a  piedade  não basta.  O  falecido  G.  K.  Chesterton,  que  escrevia  com  lirismo  idêntico  tanto  sobre  a bebida quanto sobre a fé, pode servir de eloqüente exemplo desse grupo.

As  igrejas  modernas,  excluídas  umas  poucas  seitas  protestantes,  toleram  o álcool; no entanto, mesmo as mais tolerantes jamais procuraram converter a bebida ao cristianismo — isto é, sacramentar seu uso. O pio alcoólatra vê-se forçado a manter, em com-partimentos  estanques,  sua  religião  e  seu  substituto  para  ela.  E  talvez  isso  seja inevitável. A bebida  não pode ser incluída na liturgia, a não ser nas religiões que não dêem valor  ao  decoro.  O  culto  de  Baco  ou  da  divindade  celta  da cerveja  eram festins ruidosos e dissolutos. Os ritos cristãos são incompatíveis com a embriaguez, ainda que de cunho religioso. Isso não prejudica os fabricantes de bebidas, mas é muito mau para o cristianismo. Um sem-número de pessoas deseja experimentar a autotranscendência, e gostaria de encontrá-la no tempo. Mas "as ovelhas famintas voltam-se para o céu e não são  atendidas".  Tomam  parte  nos  ritos,  escutam  os  sermões,  repetem  as  orações;  mas sua  sede  não  se  aplaca.  Desapontadas,  voltam-se  para  a  garrafa.  Ao  menos  por  certo tempo,  e  de  certa  forma,  encontram  o  que  querem.  A  igreja  pode  continuar  a  ser freqüentada;  mas  já  não  será  mais  do  que  o  Banco  Musical  do  Erewhon [13] de  Butler. Deus pode continuar a ser reconhecido como tal, mas a Ele só será concedida divindade no campo verbalístico, apenas em sentido estritamente figurado. O verdadeiro objeto de culto  é  a  garrafa,  e  a  única  experiência  religiosa  é  aquele  estado  de  desregramen-to  e belicosa euforia que se segue à ingestão do terceiro aperitivo.

Vemos, pois, que o cristianismo e o álcool não se misturam nem poderiam fazê-lo.   Já   não   há   tanta   incompatibilidade   com   relação   à   mescalina.   Isso   tem   sido demonstrado por várias tribos de índios, desde o Texas até o Estado de Wisconsin. Entre essas  tribos,  encontram-se  algumas  filiadas  à  Igreja  Americana  Nativa,  seita  cujo principal  rito  é  uma  espécie  de  Ágape  Cristão  Primitivo  ou  Festa  do  Amor,  em  que fatias  de  peiote  substituem  o  pão  e  o  vinho  do  sacramento.  Esses  índios  americanos encaram  o  cacto  como  preciosa  dádiva  de  Deus  aos  índios  e  consideram  seus  efeitos manifestação do divino Espírito.

O professor J. S. Slotkin — um dos pouquíssimos homens brancos que, até hoje, participaram   dos   ritos   de   uma   congregação   peiotista   —   relata,   falando   de   seus companheiros de ritual, que eles "em absoluto ficam narcotizados ou embriagados [...] Jamais perdem o ritmo ou balbuciam, como aconteceria com indivíduos inebriados pelo álcool  ou  por  estupefacientes  [...]  São  todos  calmos,  corteses  e  respeitam-se  uns  aos outros.  Jamais  estive  em  qualquer  templo  de  homens  brancos  onde  pudesse  encontrar tanto  respeito  e  religiosidade".  Poderíamos  perguntar:  "Que  estariam  esses  devotos  e bem-comportados peiotistas sentindo?". Claro que não há de ser o brando sentimento de virtude que embala o comum dos freqüentadores do ofício dominical, durante noventa minutos   de   solidão.   Nem   mesmo   esses   fervorosos   sentimentos,   inspirados   pelos pensamentos  no  Criador,  no  Redentor,  no  Juiz  e  no  Espírito  Santo,  que  animam  os piedosos.  Para  esses  membros  da  Igreja  Americana  Nativa,  a  experiência  religiosa  é algo de mais direto e esclarecedor, de mais espontâneo, e tem muito menos de produto imperfeito  da  mente  superficial  e  restrita.  Por  vezes  (ainda  segundo  as  observações colhidas  pelo  dr.  Slotkin)  têm visões  que  podem ser  até  do  Próprio  Cristo. De outras, escutam a voz do Grande Espírito. Ainda em outras se apercebem da presença de Deus, bem como  de  suas falhas pessoais, as quais terão de ser corrigidas para que possa ser cumprida  Sua  vontade.  As  conseqüências  práticas  dessa  abertura  química  das  Portas para o Outro Mundo parecem ser excelentes. O dr. Slotkin testemunha que os peiotistas habituais  são,  em  geral,  mais  diligentes,  mais  temperantes  (muitos  são  completamente abstêmios) e mais pacíficos que os não-peiotistas. Uma árvore que apresente frutos tão bons não pode ser condenada como maléfica. Ao sacramentar o uso do peiote, os índios da  Igreja  Americana  Nativa  fizeram  algo  que  é,  a  um  só  tempo,  psicologicamente correto e historicamente respeitável. Nos primeiros séculos do cristianismo, muitos ritos e  festas  pagãos  foram,  por  assim dizer,  batizados  e  postos  ao  serviço  da  Igreja.  Essas festas nada tinham de edificantes, mas aliviavam uma certa fome psicológica; e, em vez de tentar suprimi-las, os primeiros missionários tiveram o bom senso de aceitá-las pelo que  de  útil  possuíam  —  permitir  à  alma  satisfazer  seus  impulsos  fundamentais  —  e incorporá-las ao código da nova religião. Em essência, idêntico foi o procedimento da Igreja Americana Nativa. Adotaram um costume pagão (por sinal bem mais inspirador e esclarecedor do que as sensuais orgias e mascaradas, retiradas ao paganismo europeu) e deram-lhe um significado cristão.

Embora  só  recentemente  tenham  sido  introduzidos  na  região  setentrional  dos Estados  Unidos,  o  consumo  do  peiote  e  o  culto  nele  baseado  tornaram-se  importantes símbolos  do  direito  do  índio  à  independência  espiritual.  Alguns  indígenas  reagiram  à hegemonia do branco tornando-se americanizados, enquanto outros se recolhiam a seus costumes  tradicionais.  Mas  um  terceiro  grupo  procurou  fazer  o  melhor  uso  das  duas civilizações e desses outros mundos de transcendental experiência onde a alma sabe que é  livre  e  tem  uma  essência  divina.  Daí  nasceu  a  Igreja  Americana  Nativa.  Nela,  dois grandes apetites da alma — o impulso para a independência e a autodeterminação, e o estímulo para a superação de si própria — fundiram-se e passaram a ser interpretados à luz de um terceiro — a necessidade de render culto, de justificar, perante o homem, as razões de Deus, de explicar o universo por meio de uma teologia coerente.

Lo, the poor Inâian, whose untutored mina Clothes him in front, but leaves him
bare behind. *

* [índio infeliz, a quem a alma falaz,/ Cobre-lhe a frente e o deixa nu por trás.]

Mas,  em  verdade,  somos  nós,  os  brancos  ricos  e  altamente  educados,  que ostentamos  a  nudez  de  nossas  costas.  Cobrimos  nossa  paradisíaca  aparência  anterior com alguma filosofia — cristão, marxista, físico-freudiana —, mas nos descuramos da outra  face,  deixando-a  à  mercê  de  todos  os  ventos  que  possam soprar.  O  pobre índio, por    outro    lado,    se    tem    valido    do    espírito    para    proteger-lhe    a    retaguarda, complementando    a    folha    de    parreira    teológica    com   a    tanga    da    experiência transcendental.

Não sou tão tolo a ponto de relacionar o que acontece sob o efeito da mescalina ou de qualquer outra droga, existente ou que possa vir a existir, com a compreensão do fim e do derradeiro objetivo da vida humana: a Luz, a Beatífica Visão. Tudo o que estou sugerindo pode ser assim resumido: a experiência com a mescalina é o que os teólogos católicos  chamam  de  "uma  graça  gratuita",  não  necessariamente  para  a  salvação,  mas potencialmente  valiosa e que, se realizada, será prazerosamente aceita. Ver-se livre da rotina  e  da  percepção  ordinária,  ser-lhe  permitido  contemplar,  por  umas  poucas  horas em  que  a  noção  de  tempo  se  esvai,  os  mundos  exterior  e  interior,  não  como  eles  se mostram ao animal dominado pela idéia de sobrevivência ou ao ser humano obcecado por  termos  e  idéias,  mas  tais  como  são  percebidos  pela  Onisciência  —  direta  e incondicionalmente   —,   eis   uma   experiência   de   inestimável   valor   para   qualquer indivíduo,  especialmente  para  o  intelectual,  pois  este  é,  por  definição,  o  homem  para quem, na frase de Goethe, "a palavra é essencialmente proveitosa". Ele é o homem para quem "o que percebemos pela visão nos é estranho e, pois, não nos deve impressionar profundamente".  Não  obstante,  embora  fosse  ele  mesmo  um  intelectual  e  um  dos supremos  mestres  da  linguagem,  Goethe  nem  sempre  concordou  com  sua  própria conceituação   da   palavra.   "Falamos   demais"   —   escreveu   ele   em   sua   madureza. "Deveríamos falar menos e desenhar mais. Eu, pessoalmente, gostaria de renunciar por completo à fala e, imitando a Natureza organizada, comunicar por esboços tudo o que tivesse   a   dizer.   Aquela   figueira,   esta   pequena   serpente,   o   casulo   aguardando serenamente  o  futuro  no  umbral  de  minha  janela,  tudo  isso  são  importantes  signos. Quem fosse capaz de decifrar corretamente seu significado poderia pôr inteiramente de lado  tanto  a  palavra  escrita  quanto  a  falada.  Quanto  mais  penso  nisso,  mais  encontro futilidade,  mediocridade  e  até  mesmo  (sou  levado  a  dize-lo)  fatuidade  na  palavra. Contrastando  com  isso,  como  nos  assombram  a  gravidade  e  o  silêncio  da  Natureza quando com ela deparamos face a face, concentrados diante de uma colina estéril ou da desolação de um outeiro que a erosão desgastou."

Jamais poderemos passar sem a  palavra  e os outros  sistemas de símbolos, pois foi  graças  a  eles,  e  somente  por  eles,  que nos elevamos acima  das bestas,  atingindo  o nível  de  seres  humanos.  Mas  poderemos  facilmente  nos  tornar  tanto  vítimas  como beneficiários  desses  sistemas.  Precisamos  aprender  como  manejar  eficientemente  as palavras mas, ao mesmo tempo, devemos preservar e, se necessário, intensificar nossa capacidade de olhar o mundo diretamente, e não através da lente semi-opaca das idéias, que distorce cada fato, diluindo-o no lugar-comum das denominações genéricas ou das abstrações explanatórias.

Literária   ou   científica,   liberal   ou   especializada,   toda   a   nossa   educação   é predominantemente verbalista e, pois, não consegue atingir plenamente seus objetivos. Em  vez  de  transformar  crianças  em  adultos  completamente  desenvolvidos,  ela  produz estudantes  de  ciências  naturais  que  não  têm  a  menor  noção  do  papel  primordial  da Natureza como elemento fundamental da experiência; entrega ao mundo estudantes de  humanidades que nada sabem sobre a humanidade, seja ela a sua ou a de quem mais for.

Os psicologistas adeptos do gestaltismo, tais como Samuel Renshaw, conceberam  métodos  para  ampliar  a  gama  e  aumentar  a  acuidade  das  percepções humanas; mas aplicá-los-ão nossos educadores? Não.

Mestres  de  todos  os  campos  das  atividades  psicofísicas  —  da  observação  ao tênis, do equilibrismo à reza — descobriram, pelo método das tentativas, as condições ideais   de   execução,   dentro   de   seus   setores   peculiares.   Mas   teria   alguma   grande Fundação  algum  dia  financiado  um  trabalho  destinado  a  coordenar  essas  descobertas empíricas  para  encontrar  as  bases  gerais,  teóricas  e  práticas,  do  aumento  do  poder criador?    Novamente,    tanto    quanto    me    é    dado    conhecer,    terei    de    responder negativamente.

Adivinhos   e   charlatães   de   todas   as   espécies   ensinam   um   sem-número   de métodos para aquisição de alegria, saúde, paz de espírito.

E,  para  muitos  de  seus  clientes,  a  maioria  desses  métodos  é  realmente  eficaz. Mas    acaso    vemos    psicologistas,    filósofos    e    sacerdotes    respeitáveis    descerem corajosamente a essas estranhas cavernas, por vezes infectas, no fundo das quais a pobre Verdade vê-se, tão amiúde, forçada a sentar-se? Mais uma vez, a resposta é "Não".

E,  agora,  examinemos  o  histórico  da  pesquisa  sobre  a  mescalina.  Há  setenta anos,  homens de  inegável  capacidade descreveram as transcendentais  experiências  por que  passaram  aqueles  que,  gozando  boa  saúde,  em  pleno  uso  de  suas  faculdades mentais,  e  sob  condições  adequadas,  ingeriram  a  droga.  Quantos  filósofos,  quantos teólogos, quantos educadores tiveram a curiosidade de abrir esta Porta na muralha? A resposta  é:  "Praticamente  nenhum".  Em  um  mundo  onde  a  educação  é  transmitida principalmente  por  meio  da  palavra,  às  pessoas  de  grande  instrução  torna-se  quase impossível dar séria atenção a quaisquer outras coisas que não sejam palavras ou idéias. Há sempre dinheiro a gastar, teses a serem defendidas, douta e insensata pesquisa a se orientar para aquilo que, na opinião dos eruditos, é o problema fundamental. "Que é que induziu  quem  a  dizer  tal  coisa  e  em  tal  ocasião?"  Mesmo  nesta  era  da  tecnologia,  as humanidades   verbalistas   são   dignificadas.   Os   conhecimentos   objetivos   que   nos permitem  tomar  contato  direto  com  determinados  fatos  de  nossa  existência  são  quase que  completamente  desprezados.  Um  catálogo;  uma  bibliografia;  as  obras  completas, palavra  por  palavra,  de  um  poetastro  de  terceira  classe;  um  estupendo  índice  que represente  a  última  palavra  em  índices  —  enfim,  qualquer  projeto  de  proporções grandiosas  obterá  fatalmente  aprovação  e  apoio  financeiro.  Mas,  quando  se  trata  de querer  saber  como  cada  um de  nós,  nossos  filhos  e  netos,  poderemos  nos  tornar  mais perceptíveis, mais intensamente cônscios da realidade interior e exterior, mais acessíveis ao Espírito, menos aptos a adoecer vítimas de nossos próprios erros psicológicos e mais capazes  de  controlar  nosso  sistema  nervoso  autônomo  —  quando,  pois,  se  trata  de qualquer  forma  de  educação  objetiva  mais  importante  (e,  portanto,  mais  provável  de alcançar  aplicação  prática)  que  a  ginástica  sueca,  não  haverá  pessoa  respeitável,  em qualquer universidade  ou igreja de renome, que faça qualquer coisa em seu benefício. Os   verbalistas   desconfiam   dos   não-verba-listas;   os   racionalistas   temem   os   fatos concretos,  não  racionais;  os  intelectuais  acham que  "o  que  percebemos  pela  visão  (ou por   qualquer   outra   forma)   nos   é   estranho   e,   pois,   não   nos   deve   impressionar profundamente".  Além  do  mais,  a  educação,  no  campo  dos  conhecimentos  objetivos, não se adapta a nenhum dos esquemas existentes. Não é religião, neurologia, ginástica, educação  moral  e  cívica,  nem  tampouco  psicologia  experimental.  Assim  sendo,  esse assunto simplesmente não existe, para fins acadêmicos e eclesiásticos, e bem pode ser completamente ignorado ou então relegado, com um sorriso condescendente, àqueles a quem  os  fariseus  da  ortodoxia  verbalista  chamam  maníacos,  impostores,  charlatães  e desprezíveis amadores.

"Sempre  achei"  —  escreveu  Blake  com  um  certo  amargor  —  "que  os  anjos possuem a vaidade de se considerarem os únicos sábios. E isso eles o fazem com uma insolência confiante que brota de um raciocínio sistemático."

Raciocínio  sistemático  é  algo  sem  o  qual  nós,  seja  como  espécie  ou  como indivíduo,  não  podemos  passar.  Mas  creio  que  tampouco  poderemos  prescindir  da percepção  direta  —  e  quanto  menos  sistemática  melhor  —  dos  mundos  interior  e exterior  que  nos  serviram  de  berço,  para  que  possamos  preservar  a  sanidade  mental. Essa realidade objetiva possui um sentido infinito que ultrapassa toda a compreensão e, no   entanto,   permite   ser   direta   e,   de   certa   forma,   totalmente   percebida.   É   uma transcendência  característica de outra ordem que não a humana, embora nos possa ser presente   como   uma   imanência   palpável,   como   experiência   de   que   houvéssemos participado. Ser esclarecido é ser sempre cônscio da realidade plena em sua diversidade intrínseca — ter ciência disso, sem deixar de velar por sua sobrevivência como animal, de pensar e sentir como ser humano, de recorrer, sempre que necessário, ao raciocínio sistemático.  Nosso  objetivo  é  provar  que  sempre  estivemos  onde  deveríamos  estar. Infelizmente,  tornamos  a  missão  excessivamente  difícil  para  nós  mesmos  Mas,  nesse meio-tempo, surgiram "graças gratuitas" sob a forma de realizações parciais e fugazes. Sob um sistema de educação mais realístico, menos verbalista que o nosso, deveria ser permitido a cada Anjo (na acepção que Blake dava a essa palavra), à guisa de repouso sabático — e, se necessário, dever-se-ia incitá-lo ou mesmo compeli-lo —, realizar um passeio,  vez  por  outra,  valendo-se  de  Portas  químicas  na  muralha,  no  mundo  da experiência  transcendental.  Se  isso  os  apavorasse,  seria  lamentável,  mas  ainda  assim talvez lhes fosse salutar. E melhor ainda seria se ela lhes proporcionasse, por uns breves momentos, que haveriam de parecer eternos, uma radiosa inspiração. Mas, em ambos os casos, o Anjo haveria de perder um pouco da confiante insolência nascida do raciocínio sistemático e da certeza de haver lido todos os livros.

Santo   Tomás   de   Aquino,   já   próximo   ao   fim   de   sua   vida,   conheceu   a Contemplação  Inspirada.  Daí  em  diante,  não  mais  prosseguiu  no  livro  que  iniciara. Comparado com isto, tudo mais que ele havia lido, e sobre o qual discutira e escrevera — Aristóteles e as Sentenças, as Questões, as Proposições, as magestosas Summas* —, valia tanto quanto o joio ou a palha. Para a maioria dos intelectuais, tal greve de braços cruzados  seria  desaconselhável  ou  mesmo  moralmente  errada.  Mas  o  Angélico  doutor havia praticado mais o raciocínio sistemático que uma dúzia de Anjos comuns reunidos, e já se achava próximo a seu fim. Conquistara o direito, nesses últimos meses de vida terrena, de trocar mera palha ou joio simbólico pelo pão da Verdade real e substancial. Anjos  de  categoria  inferior,  e  com  melhores  perspectivas  de  longevidade,  voltariam  à palha. Mas o homem que vem de cruzar de novo a Porta na muralha jamais será igual ao  que  partira  para  essa  viagem.  Será,  daí  por  diante,  mais  sábio,  embora  menos arraigado  em  suas  convicções,  mais  feliz,  ainda  que  menos  satisfeito  consigo  mesmo, mais  humilde  em  concordar  com  a  própria  ignorância,  embora  esteja  em  melhores condições para compreender a afinidade entre as palavras e as coisas, entre o raciocínio sistemático e o insondável mistério que ele procura, sempre em vão, compreender.


---

12 O professor   J.   S.   Slotkin,   em   sua   monografia   Menomini   peyotism   (O peiotismo entre os menomini), publicada em dezembro de 1952 nos Anais da American Philosophical  Society,  declara  que  "o  uso  costumeiro  do  peiote  não  parece  produzir qualquer  aumento  de  tolerância  ou  dependência.  Conheço  muitas  pessoas  que  são
peiotistas há quarenta ou cinqüenta anos. A quantidade de peiote que usam depende da maior  ou  menor  solenidade  emprestada  à  ocasião;  via  de  regra,  não  aumentam  as doses  que  costumavam  tomar  vários  anos  antes.  Além  disso,  ocorrem  por  vezes intervalos de um mês ou mais entre ritos consecutivos, e eles passam todo esse tempo sem fazer uso do peiote e sem sentir qualquer ânsia por ele. Eu próprio, mesmo após uma  série  de  ritos  em  quatro  fins  de  semana  consecutivos,  nem  aumentei  a  dose  de peiote, nem senti qualquer desejo continuado por ele". Há, evidentemente, boas razões para  que  "o  peiote  jamais  tenha  sido  legalmente  declarado  um  narcótico  ou  tenha sofrido  a  proibição  de  seu  uso  pelo  governo  federal".  Não  obstante  isso,  "durante  a longa história dos contatos entre índios e brancos, as autoridades brancas procuraram, repetidas  vezes,  proscrever  seu  uso,  por  crerem  que  isso  violava  seus  costumes  de civilizados.  Mas  todas  essas  tentativas  foram  infrutíferas".  Em  rodapé,  o  dr.  Slotkin acrescenta  que  "é  espantoso  ouvir  as  histórias  fantásticas  dos  efeitos  do  peiote  e  da natureza  do  ritual,  contadas  pelas  autoridades  brancas  e  índias  católicas  na  reserva dos menomini.  Nenhuma delas jamais teve a menor experiência pessoal com a planta ou com a religião, embora algumas se arvorem em autoridade no assunto e sobre ele redijam relatórios oficiais".

13 Erewhon, anagrama de nowhere ("lugar algum"), é o título abreviado de uma novela  fantástica de Samuel Butler, escrita em 1872, que descreve um pais cujo povo vira-se obrigado a destruir todas as máquinas para não ser por elas destruído.

14 Summa  theologica  e  Summa  contra  gentiles,  de  Santo  Tomás  de  Aquino, sínteses do conhecimento humano da época.


Quer publicar seu texto no Morte Súbita inc? Envie para nós.