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siga a estrada de tijolos amarelos: Psico Textos de Psicologia Bizarra Seu Cérebro é Deus Uma Bagunça Sagrada

Uma Bagunça Sagrada


Timothy Leary

A pesquisa no reflexo interpessoal em 1957, que me estabeleceu a esse hábito, e é descrito extensivamente na obra “Politics of Self-Determination”, demonstrou como os humanos fabricam e mantém seus próprios mundos pessoais. Por volta de 1966 essa mensagem de auto-responsabilidade foi expandida da secção interpessoal para a neurológica. Suas ações determinavam o ambiente que você habitava. A divindade estava dentro de cada um e a palavra “Deus” era entendida para se referir à Inteligência Elevada residente dentro do cérebro de cada um e dentro de cada DNA. O alvo era o de prover uma razão socialmente aceitável para alterar o seu próprio cérebro e elevar a inteligência.

Assim que os anos 60 se esfoliaram, a metáfora religiosa continuamente explodiu. Para o nosso desânimo. Jesus Cristo, que bagunça sagrada! Nós falavamos às pessoas que elas eram deuses — apenas os jovens ouviam. E nós publicamos dois livros e registros de dissertações e entrevistas empurrando o “Journey to the Eastern Lobes of the Brain”.

Funcionou por ser sedutor. Havia muito a se aprender com o Oriente antigo — a graça descalça, o sinuosidade do controle do corpo da yoga, o truque da mente de ver tudo do ponto de vista da eternidade. O último frescor do fatalismo.

O último sorriso largo hindu-junkie da passividade pomposa e auto-satisfeita. O confortável balbuciar de sílabas sem nexo dos mantras. Novas, coloridas e bizarras orações de Soberanos Hindus para mímicas de macaco. A maioria dos cultos e religiões que emergiu nos anos 60 e 70 recrutou dóceis “seguidores”. Os Manson, Moon, Jim Jones, os yogis, os Renascidos Pregadores, todos jogando no desejo primitivo e pré-científico perdedor de se submeter a uma figura autoritária parental. O conselho vivo transmitido em nossa teologia faça-você-mesmo era: Tome responsabilidade por fazer a sua própria vida bela.

 

O SÁBIO IMPOSTOR

 

As religiões orientais, como seus contrapartes ocidentais, são racionalizações elaboradas para evitar a mudança. As filosofias religiosas do Leste estão finalmente florescendo da grande sabedoria pré-científica que nos tirou das cavernas e nos ensinou tudo de bonito e harmonioso que poderia ser produzido por uma cultura de ferramentas manuais. Qualquer coisa que pudesse ser feita com o corpo, incluindo as cordas vocais, foi desenvolvido e poetizado por 100 gerações de adeptos Hindus e Budistas.

A filosofia oriental é profundamente pessimista, cínica, estóica e passiva. Antes da tecnologia científica moderna expandir, o escopo da percepção humana havia, de fato, nenhum lugar para ir e nada de novo. O mesmo velho ciclo do corpo — círculos de nascimento, envelhecimento e morte. Permaneça desprendido do mundo externo, porque não há nada que você possa fazer com a entropia demolidora e sem compaixão da idade. A postura Oriental é insuportavelmente convencida e clara. Nada faz diferença alguma, então esfrie a cabeça. Tudo é uma coisa só, e está tudo perdido. Os melhores gurus Indianos são sábios impostores que dominavam a única simples regra da entropia —Tudo está indo para o inferno, então ache para você um lugar confortável aqui e agora, e deixe os bobos que estão ainda procurando, virem e projetarem suas ilusões — e seu dinheiro — na nossa fachada calma e ponderada.

 

PRESENTES DOS MAGOS

 

Eu fiz a viagem obrigatória ao Leste, investiguei a cena dos gurus, captei a mensagem. A Índia é um país triste, liderado por burocratas. A mentalidade do Serviço Civil Britânico, junto ao último e irritante Brahmanismo pedante, deixou todos com um humor tenso e trivial. O antagonismo Hindu em relação à mudança, método científico ou qualquer solução ativa para os problemas, era depressivo. Foi deixado claro que por 2500 anos, os Indianos mais inteligentes, energéticos e atraentes acabaram por migrar para o Oeste. Índia não é um lugar para amantes da alegria, fanáticos esperançosos, entusiastas pró-vida. Mas a Índia ainda tem muito a ensinar a nós Ocidentais, e nós voltamos de Benares charios de presentes paradoxais dos Magos. Nós aceitamos e adotamos muito alegremente técnicas Orientais pagãs para seguir, mais efetivamente, futuros objetivos Ocidentais.

Nós aceitamos a noção anti-cristã básica do Hindu, de que o objetivo dessa vida é o contínuo auto-desenvolvimento, auto-domínio e auto-suficiência. A pessoa poderia se tornar um “mestre perfeito”, não de outros, mas de seu próprio corpo e cérebro. Nós usamos esse insight na nossa imagem. Traduzimos os ensinamentos Hindus básicos de que tudo é uma ilusão dentro da verdade moderna neurólogica de que tudo é um produto do seu próprio cérebro. Nós resolvemos fabricar a ilusão de que, pela ciência, poderíamos decifrar e descobrir — o que realmente significa criar — novos níveis de energia, novas realidades em camadas, novos estágios de evolução.

 

PAGANISMO BÁSICO

 

Nós compramos a noção Védica de reencarnação — atualizada pela genética moderna e expandida no futuro. O Neo-Lamarckanismo está de volta sob o pretexto da engenharia genética. Verdade, tudo que fazemos nessa vida fabrica nossas próximas encarnações, mas essas futuras realidades podem ser criadas em nosso tempo de vida. Ouça, eu vou falar algo para você sobre múltiplas reencarnações, eu naveguei em alta velocidade procurando pelos trovejantes anos 20, os chatos anos 30, os explosivos anos 40, os consumistas anos 50, os celestiais anos 60, os terrestres anos 70, o transicionais anos 80 e metade dos caóticos anos 90. E tudo que isso me ensinou sobre como pré-encarnar para anos futuros — era eu ainda em fronteira com meu corpo para vivê-los.

Tudo que fizemos nos anos 60 era desenhado para partir, e enfraquecer a fé e o conformismo na ordem social dos anos 50. Nosso alvo cirúrgico preciso era o poder monolito Judeo-Cristão, que impôs uma repressão culpada, abominável, anti-corpo e retraída na civilização Ocidental.

Nosso compromisso era o de abalar inesperadamente essa civilização puritana e julgadora. E funcionou. Pela primeira vez em 20 séculos, o bom e velho paganismo básico fez com que todos se movessem novamente. As pessoas brancas na verdade começaram a mover seus quadris, deixando os cabelos dos Marines crescer, adornando-se eroticamente em brincadeiras de Dionísio, sintonizadas à natureza.

O antigo espírito Celta-Pagão começou a varrer pela terra de Eisenhower e J. Edgar Hoover. Os membros de igrejas organizadas começaram a despencar. O Hedonismo, sempre o movimento dos indivíduos dominando suas próprias recompensas e prazeres, veio correndo rampante.

Milhares de americanos exaltaram a velha Singularidade Celta. Toda mulher uma rainha, todo homem um rei; Deus dentro de si. O paganismo clássico agora combinado com o merecimento americano do faça-você-mesmo, na desconfiança, na autoridade. Milhões de americanos escrevendo suas próprias Declarações de Independência — minha mulher, minha liberdade, meu interesse

na felicidade.

Milhões de maconheiros, adeptos em hatha yoga, e meditadores vivenciando níveis neurais de consciência — transcendendo símbolos e contatando a energia crua atingindo os fins de seus nervos. Pelo menos outro milhão de usuários de LSD, peyote e cogumelos contataram a consciência celular — tiveram experiências transcendendo ambos os jogos simbólicos e aparatos sensoriais. Depois tivemos aqueles que tomaram grandes doses de LSD, mescalina, DMT e tiveram contato com as energias moleculares e elementares dentro de estrutura celular, vivenciando a “luz branca”, “o vácuo”, “a luz interna”.

Se nós adicionarmos esses milhões de místicos institucionalizados que tiveram experiências psicodélicas involuntárias, esse grupo incha-se a proporções estrondosas. Cada um desses níveis psicodélicos — neural, celular, molecular — está além dos símbolos, incoerente para a mente simbólica. A maioria dos viajantes psicodélicos está a par das realidades sem limites no sistema nervoso, mas não há concepção do significado e uso desses potenciais. Infelizmente, a maioria desses exploradores não pôde lidar com a liberdade e a independência. A fome familiar por autoridade, a obsessão recorrente à submissão; e à dar responsabilidade para um mestre. George Harrisson rastejou em frente do Maharish. O pobre Bob Dylan se submeteu a Cristo. Peter Townsend balbuciou insanidades sobre Meher Baba. Um enxame de gurus e professores espirituais estava à volta anunciando seus novos mandos, novas proibições. A palavra “religião” lindamente se define, é claro. Ela traduz “atar”, do Latin — “re” significa atrás e “ligare” significa “amarrar”. Todas as religiões são camisas de força, forças para quem veste as camisas. Olhe para as caras dos seguidores — os Hare Krishnas, por exemplo — e você vai entender o ponto. Perdedores que não gostam de seus próprios visuais e não ter amor algum por sua própria singularidade.

 

FORÇAS PARA QUEM VESTE AS CAMISAS

 

Nós aprendemos muito. Nós ficamos desapontados que para cada novo cientista auto-confiante aparecendo na cena, havia 99 novos seguidores cult. Houve um período obscuro no qual me senti perplexo e culpado por ter encorajado esse atropelo às fronteiras do Leste.

A coisa do seguidor-dominador era particularmente chata. Eu desprezo seguidores de qualquer tipo, especialmente aqueles que me seguem. Como isso acontece, eu não estou sozinho nessa falta de gosto; ninguém realmente gosta de seguidores. Seguidores não gostam de si mesmos, é claro; é por isso que serpeam. E mestres não têm nada além de desprezo por seus subservientes, o que

explica suas imposições tão intimidantes e coloridas sobre eles.

 

LIBERDADE RELIGIOSA

 

Uma passada de olho na história americana é confortante. Desde os Peregrinos, os Tremedores, os Mormons, os Transcendentalistas Emersonianos, nosso país fronteiriço sempre zumbiu com loucos cultos e messias rachados. A maravilhosa independência religiosa, o fervor dos americanos sempre foi uma maravilhosa fonte de individualidade excêntrica.

Mas não havia, por fim, nenhum Testemunha de Jeová ou Hare Krishna correndo pela Espenha de Franco ou pela União Soviética. Eu estou também confortado pelo pensamento de que a nova religiosidade é parte de nosso belo consumismo aristocrático, o insaciável cérebro americano demandando novas sensações, novas surpresas, novos heróis, novos scripts da realidade.  


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