Ir para o conteúdo. |

  • A Empresa
  • Apoie
  • Contato
  • Seções:
siga a estrada de tijolos amarelos: Satanismo Livros Satânicos A História do Satanismo O Diabo faz barulho

O Diabo faz barulho


Morbitvs Vividvs

pelada do capeta

Após o primeiro ano de sua criação a Church of Satan foi o centro das atenções de três acontecimentos que se tornaram a sensação nas manchetes ao redor do mundo: o casamento, o batismo e o funeral satânico. Isso aconteceu em uma fase de transformação do Satanismo, na qual LaVey percebeu a importância da cobertura da mídia e sabia que mesmo a má-fama podia ser usada a seu favor.

É preciso afirmar novamente que o Satanismo não foi uma doutrina revelada, portanto é natural que tenha evoluído aos poucos. Num primeiro momento os rituais da Church of Satan ainda não estavam organizados da forma como estão hoje, e eram de fato largamente celebrados para serem blasfêmias catárticas. Muitos dos elementos usados eram consistentes com os relatos de adoração ao demônio medievais descritos por Joris-Karl Huysman’s La Bas. Uma mulher nua no altar sempre foi usada, a música de fundo eram verdadeiras paródias dos tradicionais hinos eclesiásticos, a cruz era posta de cabeça para baixo, o nome de deus era recitado de trás para frente, hóstias negras eram consagradas ao serem inseridas na vagina sobre o altar, whiskey era usado no lugar do vinho, água benta era substituída por leite ou fluído seminal e os nomes das deidades infernais eram invocados em substituição ao deus cristão. Em outras palavras, era mais do que a maioria dos cristãos podia suportar. Alguns, dominados pela curiosidade, eram atraídos pelo espectáculo para logo em seguida correrem de volta para casa e abraçarem suas cruzes para se sentirem novamente protegidos dos demônios que haviam chamado.

Logo chegou o momento em que Lavey se cansou de simplesmente parodiar a cristandade e decidiu elevar seus rituais de uma blasfêmia passiva para algo satanicamente ativo. “Eu percebi que existe uma grande área cinza entre a psiquiatria e a religião, uma área que tem sido deixada amplamente vazia”, disse LaVey. Ele viu o potencial que seus rituais mágicos poderiam ter se feitos coletivamente, em uma poderosa combinação de psicodrama e direcionamento psíquico. No lugar de simplesmente desperdiçar sua força bioelétrica com cerimônias blasfêmias, a energia poderia ser estruturada, moldada e direcionada para objetivos específicos. Cansado de truques de salão, LaVey fez com que o seu próprio público aprendesse como usar magia real e aplicada, para seu próprio benefício.

Foi quando, aparentemente como se para comprovar a sinergia de sua Igreja, houve o verdadeiro casamento satânico, no qual o conhecimento de magia prática de Lavey se uniu com a filosofia materialista hedonista que ele havia criado. As cerimônias foram reescritas para, além de terem propósitos mágicos, também reafirmarem as bases da doutrina. Ritual e dogma sempre foram usados como uma forma de cativeiro mental, mas a partir de agora poderiam ser usados como ferramentas de cultivo da liberdade.

O Casamento Satânico

Realizado por parte de dois proeminentes membros da Igreja, em 1º de fevereiro de 1967. John Raymond, um jornalista político radical e Judith Case, socialite, filha de uma família bem conhecida de Nova Iorque. Apesar de este não ser o primeiro casamento satânico a ser celebrado por Anton LaVey, a fama de John e Judith, de virem de uma boa família, despertou interesse suficiente para o casamento ser uma verdadeira bomba na imprensa.

A noticia se espalhou rapidamente e no dia da cerimônia jornais de América e da Europa trouxeram seus repórteres e fotógrafos para a Califórnia. Ao Redor da Black House as testemunhas se acotovelavam para testemunhar esta suprema blasfêmia. Não se via tanta gente amontoada desde a inauguração da Gonden Gate, e a comoção foi tanta que a polícia teve que proteger a área com fitas de isolamento. Joe Rosenthal, fotógrafo conhecido por ter tirado a imortal foto nos marines levantando a bandeira em Iwo Jima, durantes a Segunda Grande Guerra, foi contratado pelo San Francisco Chronicle para registrar o momento. O Los Angeles Times, entre tantos outros jornais proeminentes dedicou quatro colunas da primeira página para a foto do casamento satânico tirada por Rosenthal.

O evento foi tão grandioso que existem filmes registrando a cerimônia disponíveis até os dias de hoje, você pode assistir a um deles clicando aqui.

As matérias davam destaques diferentes para o evento, por vezes destacando a presença de uma mulher nua como altar por vezes apontando a presença de importantes celebridades ou de Togare, o leão Nubiano que, agitado com a festa, rugia sonoramente de algum lugar nos fundos da casa. Foi nessa ocasião que LaVey foi batizado pela mídia de o “Papa Negro” e começou a dar entrevistas. Enquanto muitos artigos foram publicados em revistas masculinas graças ao altar nú, as publicações mais populares seguiram logo o alvoroço. Eventualmente as grandes revistas estavam fazendo matérias de capa sobre o recém avanço do Satanismo.


O Primeiro Batizado Satânico
 

LaVey decidiu então que o mundo estava pronto para testemunhar o primeiro batizado satânico público. As pessoas seriam forçadas a ver que o Satanismo não tinha nada haver com beber o sangue de recém nascidos ou sacrificar animais e sim com o oposto. Ele declarou: 

“Melhor do que limpar a criança de um pecado original, como é o batismo cristão impondo-lhe culpa desde a infância, nós glorificamos seus instintos e intensificamos sua luxúria pela vida".

Quem melhor para ser batizado em uma cerimônia pública do que sua filha de três anos, Zeena LaVey? Com seus cabelos loiros e seu sorriso encantador, ela logo cativou os repórteres como uma angélica criança a ser dedicada ao diabo. Enquanto muitas organizações cristãs e outros “cidadãos preocupados” ficaram ultrajados havia muito pouco que eles pudessem fazer. Alguns anos antes LaVey poderia ser linchado por isso, e alguns anos depois poderia ter sido processado por abuso satânico em alguns lugares dos Estados Unidos, mas em 1967 havia pouco suporte social para defender a histeria religiosa dos cristãos.

O batizado de Zeena foi marcado para Maio. Fotógrafos já estavam de plantão em frente à Black House às seis da manhã - apesar da cerimônia estar marcada para as três da tarde. Um dos membros da Church of Satan, Kurt Saxon, criou um amuleto para Zeena naquela ocasião. Era um Baphomet colorido com um sorvete, um pirulito e outros atrativos infantis ao redor do círculo. Sua mãe a vestiu em um brilhante robe vermelho e a colocou sentada na beira do altar enquanto ela brincava com os repórteres e posava para as fotografias que mais tarde estariam espalhadas pelos jornais, de Roma à Nova Yorque.

Na ocasião LaVey recitou uma impressionante invocação, mas tarde adaptada para o seu livro “The Satanic Rituals”:

“Em nome de Satã, Lucifer... Dêem boas vindas à senhorita Zeena, criatura de poderosa luz mágica. Seja bem vinda à nossa companhia, o caminho das trevas lhes dá as boas vindas. Não tenha medo. Acima de ti Satã pende seu corpo, no estrelado céu noturno, protegendo-a com suas grandes asas negras. 

Pequena feiticeira, a mais natural e verdadeira magista, tuas pequenas mãos tem o poder de trazer os céus para baixo e deles construir monumentos à tua própria e doce indulgência. Teus poderes fazem de ti uma verdadeira mestra deste mundo de homens guiados pelo medo, pela culpa e pelo remorso. Assim, em nome de Satã, nós colocamos vossos pés sobre o caminho da mão esquerda.

Zeena, nós a batizamos com a terra e com o ar, com a salmoura e com a flama que queima. E assim dedicamos tua vida ao amor, à paixão, à indulgência, à Satã e ao caminho das trevas. Hail Zeena! Hail Satã!”

Toda a cerimônia foi criada para a criança se sentir bem, dando-lhes boas vindas com visões, aromas e sons que a agradavam. Diferente do método de batismo cristão de jogar água na cabeça de uma criança assustada, Zeena foi agraciada com carinho e diversão durante todo o ritual e estava maravilhada com toda a aquela atenção dispensada por seus admiradores e pela imprensa.

O Funeral Satânico

Em dezembro do mesmo ano, Anton, foi procurado pela Senhora Edward Olsen, que queria que o Alto Sacerdotes da Church of Satan realizasse o funeral de seu marido recém falecido, . O oficial da marinha, morto em um acidente próximo à Treasure Island Station em São Francisco. Apesar de ter sido exposto à orientação batista desde a tenra infância o Sr. Olsen conheceu mais do mundo e do comportamento humano ao entrar para a marinha, cansando-se com uma sexy maruja e abraçou o Satanismo como uma forma mais realista de viver a vida. “Ele acreditava nesta Igreja”, disse a Senhora Olsen, “e é esta Igreja que ele gostaria que realizasse seu funeral.”

Apesar de estarrecidos, os oficiais na marinha não podiam fazer nada senão respeitar o desejo do falecido e da esposa, e concordaram com as determinações da família sem muita discussão, considerando como dever a realização do último pedido do Sr. Olsens. Na cerimônia estavam oficiais da marinha em traje de gala e satanistas vestidos com capuzes negros e medalhões com o sinal de Baphomet, ambos os grupos dispostos com rigidez militar. Os marinheiros estenderam a bandeira americana sobre o caixão negro cromado enquanto LaVey recitava uma ode enfatizando o comprometimento de Edward para com a vida e a liberdade ao escolher seguir o caminho do diabo na terra.

Ao final do funeral a guarda disparou uma salva de tiros com seus rifles em homenagem ao falecido e um músico da marinha começou a tocar uma música final após os celebrantes saudarem: “Hail Satã!” e “Hail Edward!”

Apesar do Arquebispo de São Francisco ficar enfurecido com a situação enviando imediatamente uma carta de reprovação ao presidente Johnson, a maioria dos moradores de São Francisco, incluindo oficiais da marinha, afirmavam que Olsen deveria receber a mesma consideração que qualquer outro oficial. A resposta da Casa Branca foi, bastante benéfica para a viúva e seu jovem filho. Olsen era um reparador de máquinas de terceira classe e foi erroneamente referido pela Casa Branca como “Chefe Sub oficial”. A Sr. Olsen podia usar agora aquela carta para exigir uma promoção póstuma para seu marido e receber benefícios superiores ao que já recebia. LaVey, com seu senso de oportunismo logo creditou intervenção demoníaca à boa fortuna do Sr. Olsen. Devido ao rápido crescimento de militares se declando satanistas, o Satanismo foi logo aceito como uma religião reconhecida pelo Chaplain’s Handbook das forças armadas americanas, que contém uma descrição religiosa atualizada de anos em anos pela Church of Satan.

 

Maldição Satânica

 

Além das cerimônias semanais, Anton conduzia Workshops e seminários sobre magia prática, bruxaria e Satanismo, que atraíam personalidades notáveis de toda costa californiana. A sexy symbol Jayne Mansfield, famosa por suas medidas e seu comportamento provocantes insistiu em encontrar-se pessoalmente com o Papa Negro. LaVey e Mansfield se entenderam quase que imediatamente cada um preenchendo as necessidades diabólicas do outro. Jayne tornou-se passionalmente obcecada por Anton, ligando para ele várias vezes por dia, de onde quer que estivesse e eventualmente engajando-se em tirar carteira de motorista em São Francisco, para poder dirigir sem a companhia se seu persistente advogado/namorado, Sam Brody. A fascinação de Jayne Mansfield por LaVey e sua dedicação à filosofia satânica continuou forte até sua morte em Juno de 1967. O acidente de trânsito que a matou destruiu também Sam Brody, a quem LaVey tinha formalmente amaldiçoado como resposta aos ciúmes e tentativas de Brody de causar-lhe descrédito.

LaVey avisou Jayne que ela estava em perigo constante sempre que se encontrasse na companhia de Brody. Infelizmente Jayne não deu ouvidos a Anton, e em 19 de Junho de 1967, enquanto viajava para Nova Orleans com Sam Brody, o carro que conduziam acidentou-se contra um camião tanque, vitimando ambos. 

Na noite da morte de Mansfield, LaVey estava na Black House, recolhendo material para a revista alemã Bild-Zeitung. Quando ele virou uma página que havia acabado de recordar de uma revista, ficou chocado ao ver que havia inadvertidamente cordado a foto de Jayne do outro lado da página bem no meio do pescoço. Quinze minutos depois uma repórter da New Orleans Associated Press ligou para Anton para registrar sua reação ao trágico acidente. Jayne havia sido praticamente decapitada pelo para brisas do carro.

Rituais ensandecidos, ritos de fertilidade, rituais de destruição, cerimônias de casamentos, rituais shibboleth, invocações de deuses endemoniados pela história, batismos e funerais, celebrações de Halloween, Walpurgisnacht e psicodramas na forma da Missa Negra foram criados para a participação e entretenimento do público todas as sextas à noite. Este período de rituais não foi somente um tempo de brincadeiras e blasfêmias, mas um desenvolvimento necessário de crescimento e descoberta que ajudou a gerar e concentrar a energia necessária para os experimentos dos próximos anos.


Quer publicar seu texto no Morte Súbita inc? Envie para nós.

Conteúdo relacionado