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siga a estrada de tijolos amarelos: Satanismo Livros Satânicos A História do Satanismo Order of Nine Angles - ONA

Order of Nine Angles - ONA


Morbitvs Vividus

David MyattO Pânico Satânico descrito no capítulo anterior, não desapareceu sem antes realizar algumas mudanças importantes no movimento satânico. Foi nesta época complicada que algumas pessoas aproveitaram a má fama do Satanismo para ganharem um pouco de destaque. Pastores, Psicólogos, Policiais... todos queriam aproveitar a febre do momento para ganhar um pouco de notoriedade. Todos, incluindo os próprios Satanistas. Como já se tornara uma fórmula dentro do Satanismo o estigma causador de medo não foi negado mas relido sob uma nova perspectiva. Quando a febre do Ritual de Abuso Satânico ganhou fama internacional, e numa época em que o Satanismo mais causava medo, veio a tona na Inglaterra o Satanismo agressivo da “Order of Nine Angles”, “Ordem dos Nove Ângulos” ou ONA como também é conhecida.

Uma das principais diferenças entre a ONA e o Satanismo anterior é a ênfase na auto-superação seja ela física, mental ou oculta. Em contrapartida ao Satanismo puramente hedônico que existia na América, a ONA inglesa defendia que não existe vitória sem luta e que em busca de se tornar alguém superior o prazer momentâneo deve ser muitas vezes trocado por experiências longas, desgastantes e trabalhosas. Isso não chega realmente a ir contra o Satanismo proposto por LaVey, pois é uma releitura de Epicuro,  mas servia de alerta para que o próprio satanismo não se tornasse um antro de compulsão hedônico e acomodada.

Apesar da antiguidade sugerida pelo grupo não existem registros de tais práticas anteriores ao final do século XX. Ao contrário é possivel traçar a transformação do grupo de bruxaria tradicional em uma ordem satânica por meio do trabalho  de seus protagonistas durante a década de 70. A gênese do grupo se deu quando três grupos (Camlad, Noctulius e Temple of Black Sun) se uniram com o propósito de praticar certas tradições ocultas. Neste momento o enfoque do grupo era a bruxaria tradicional e esta fusão foi liderada por uma mulher da qual sabemos pouco a respeito. Quando Thorold West (Anton Long), então um viajante endinheirado, conheceu esta mulher e foi apresentado por ela a estas tradições ele primeiramente as uniu com o que conhecia de Tantra e Vamachara e iniciou o desenvolvimento do que viria a ser o Caminho Setenário e publicou o "Livro Negro de Satan". A sacerdotisa mudou-se então para a Austrália e Anton Long passou a cuidar do grupo. Nesta época o grupo não chegava a vinte membros e todo material era datilografado e enviado pelo correio ou entregue pessoalmente.

É difícil afirmar exatamente quando o grupo passou a se considerar satanista  mas podemos especular algumas coisas uma vez que existem fontes do início dos anos 70 usando o termo "Satanismo Tradicional". Possivelmente o termo foi cunhado por Anton Long em contraposição ao Satanismo de Lavey que era mais conhecido e como referência a Bruxaria Tradicional que deu origem ao Caminho Setenário. Alguns anos depois David Myatt entra no grupo e usando vários pseudônimos (inclusive Anton Long!) para dar continuidade ao trabalho dando muito mais robustes a tradição. David deu mais forma ao grupo e criou a base de toda sua doutrina. Muitos rituais, cânticos, os Insight Roles, o Opfer, os trabalhos secretos, a hierarquia dos graus, o Star Game e as pesquisas do Acausal e dos Deuses vieram a tona graças a ele.

Foi graças a este trabalho de dabid que nos anos 80 o grupo conheceu uma grande expansão criativa e numérica crescendo por meio de em várias células, chamadas Nexions, espalhadas pela Europa e houve uma grande renovação quando o zine FENRIR passou a ser escrito e distribuído. O famoso “NAOS – Um Guia prático para a Magia Moderna” foi publicado em uma das edições deste zine que entre outras coisas também trouxe o tarot da ordem, ilustrado por Richard Moult (Christos Beest). Beest encabeçou a divulgaçãi da ordem com sua arte e foi o responsável pela "relações públicas" do grupo nesta época. Ele Também publicou neste tempo o intrigante "Diário de um Adepto Interno", relatando os anos que ele morou numa cabana com o Meat e outros membros. Sua permanência dura até 1996 quando deixa a divulgação da Ordem na mão do "Thernn" - mais conhecido hoje como Michael W. Ford, que permanece até o ano 2000 e então se retira para fundar a Order of Phosphorus.

Assim surgiu essa literatura instigante que logo ganhou  adeptos e que é distinguível pela complexidade de sua cosmologia, pela afirmação da sua ancestralidade e por saber tirar proveito de uma imagem sinistra numa época em que o medo pairava no ar. Entretanto o importante não e se a ONA é realmente um grupo milenar como alega ou se foi criado hoje de manhã. O fato é que muito de sua visão de mundo é indiscutivelmente um resgate de raízes e heranças que são encontradas em momentos bem distintos da história como o paganismo europeu pré-cristão e o Reich Alemão. O Templo de Set já se utilizara deste recurso ao identificar o culto do antigo deus egípcio com os princípios do Satanismo, mas a ONA levou esta ideia ao extremo ao estabelecer para os Satanistas não apenas um vislumbre do passado mas toda uma nova forma de se entender a história. 

Alektryon Christophoros, mostra muito bem este aspecto do grupo em seu artigo Satanismo Tradicional, Nacional-Socialismo, e o Aeon Faustiano, onde escreve:

“Uma das crenças básicas do Satanismo Tradicional baseia-se no facto de que a sociedade ocidental foi ‘envenenada’ ou empobrecida com valores judaico-cristãos que apenas vieram atrasar a evolução da Humanidade, e a inauguração do Aeon Faustiano: a Nova Ordem Mundial de natureza Elitista e Satânica, em que o poder será entregue à ‘Raça Superior’, a Raça Satânica constituída pelos melhores e mais fortes. Neste aspecto podemos ver uma flagrante correspondência com o Nacional-Socialismo, que em muitos aspectos pode ser visto com uma Religião do Sol, do Führer, do Líder e do Forte. Esta é a Lei Absolutista, a Lei contra o Cristianismo de que Friedrich Nietzsche tão apaixonadamente falou no seu fantástico livro ‘O Anticristo’.”

Estas idéias caíram como uma bomba entre os Satanistas da época que, estimulados com as drásticas mudanças sociais dos anos 60 e 70 e incomodados com o a atitude reacionária da época, queriam novamente ver a chama de Satã arder e transformar o mundo.

O Satanismo torna-se então algo mais grandioso, a preparação para o próximo estágio da humanidade no qual somente uma raça dominará. De todas as etnias, a Raça Satânica se formará e abrirá os portais do Inferno. Segundo tradução de Prmtn Kali & Prmtn Fobus, Anton Long escreve em Uma Introdução ao Satanismo Tradicional: “Para nós, Satanismo é a criação de indivíduos orgulhosos, fortes, de caráter pleno, compreensivos -  indivíduos que foram além da maioria e que representam assim, um tipo mais elevado. Os grupos Satânicos verdadeiros, não procuram seguidores servis, decadentes, fracos. Procuram criar uma elite real - quase uma raça nova de seres. Naturalmente, isto não é fácil - é realmente perigoso. Freqüentemente, novos Iniciados falham por causa da dificuldade ou porque falta-lhes o desejo essencial para ser bem-sucedido. Mas é como a evolução trabalha - os  fortes superam desafios e evoluem; os outros permanecem onde estão, caem, ou são destruídos.”

A Escatologia proposta pelo grupo é tão questionável quanto a de qualquer outra religião, mas ao contrário de muitas outras ela se traduz em algo extremamente prático. Para a Church of Satan, a Era Satânica já era um fato consumado mas para a ONA, esse Novo Mundo não chegaria numa bandeja, devia ser conquistado. Isso faz os satanistas deixam de ser expectadores passivos para se tornam agentes ativos que do campo político ao artístico, das relações pessoais às práticas rituais se preocupam em transformar a terra por meio da invocação das forças por eles chamadas de Deuses Obscuros.

Assim como Anton LaVey, os Satanistas da ONA e todos os Satanistas posteriores por eles influenciados viam nas mudanças sociais sintomas de uma “Nova Era Satânica”. Contudo ao contrário da Church of Satan, a ONA dizia que podíamos e devíamos invocar estas forças transformadoras para acelerar a destruição das coisas antigas e transformar definitivamente as civilizações de nosso planeta. Existe aqui uma certa semelhança com as visões de H.P. Lovecraft, mas também diferenças importantes. Seja como for ambos concordam com uma coisa: Não basta que as estrelas estejam alinhadas, é preciso abrir o portal. 

De modo a impulsionar esta missão o grupo desenvolveu um sistema conhecido como a Tradição Septenária organizada numa espécie de Cabala Satânica que levava não só o individuo, mas todo o planeta para o estabelecimento da super-humanidade. Este é outra grande diferença entre as organizações satânicas posteriores. Enquanto que na Church of Satan não havia qualquer preocupação em estabelecer um caminho iniciático no qual o Satanista pudesse se desenvolver e o Templo de Set ainda fornecia apenas uma organização hierarquizada e fechada aos seus membros, a ONA ofereceu abertamente toda uma forte tradição ritualística com a função clara de “guiar seus membros ao longo do caminho difícil e perigoso do desenvolvimento interior com o objetivo de criar um indivíduo totalmente novo”, usando aqui as palavras exatas de alguns documentos da própria ordem.

Isso é feito em primeiro lugar pela “Árvore de Wyrd” que pode ser vista como um mapa da consciência tanto individual como do universo, com chaves a serem ligadas e desligadas, obstáculos a serem vencidos e metas a serem cumpridas para que o domínio satânico possa ser adquirido. Cantos foram revelados, um Tarot sinistro passou a ser usado e toda uma vasta tradição começou a aparecer como apoio a cada um dos sete graus propostos pela organização. No mesmo texto acima citado Anton Long escreve:

“Cada estágio deste caminho tem associado a ele determinadas tarefas, determinadas experiências, que o indivíduo deve empreender por ele mesmo. Isto é, ele sozinho traz a introspecção, o domínio, a compreensão e a habilidade – todos ocultos e pessoais”.

Que contraste foi esse em relação ao Sacerdócio da Church of Satan pelo qual qualquer pessoa podia pagar para ganhar o título de Reverendo! O problema da vulgarizarão do Satanismo pela quantidade de adeptos enfrentado por LaVey foi solucionado pela ONA com a implementação dos Nexus e uma tradição em graus com testes e provações tão duros que simplesmente não podem ser alcançados por qualquer pessoa. Hoje a ONA não é apenas um grupo mas muitos grupos organizados separadamente e mesmo indivíduos isolados que perpetuam a tradição. Como Malachi Azi Dahaka bem colocou em seu artigo "Ordem dos 9 Ângulos I – Origens e Ideais":

"Apesar do nome, a ONA não é uma ordem, oficialmente falando. Ela é um método, um caminho, aplicado por grupos de tribos. Para ser da ONA, basta realizar as práticas e filosofias, mesmo que de forma solitária. Não há líderes, ninguém pra te dizer o que fazer, não há organização oficial, em hipótese alguma existem cobranças sexuais, monetárias ou ingresso de menores de idade (tendo em vista que só se pode exercer o caminho septnário a partir da maturidade). Não há também nenhum “conteúdo ultra secreto” relacionado, não há atividade “oculta na internet ou deepweb” ou algo do tipo. Todo material é aberto aos adeptos que desejarem ter acesso."

Isso não significa que o satanismo tradicional irá substituir o satanismo moderno. Mas a importância da Order of Nine Angles não pode ser negada. Embora por muito tempo tenha sido identificada com o Pânico Satânico de quem é contemporânea e assim criticada por alguns satanistas como um desvio, trata-se apenas de uma outra escola, com seu próprio valor. É difícil não fazer uma comparação com a história do rock: a América trouxe Elvis e LaVey ao mundo e a Inglaterra revidou com Beatles e Satanismo Tradicional. A invasão inglesa no Satanismo é sem igual não porque  os Deuses Obscuros existam como seres sencientes, nem porque o grupo resgatou tradições antigas e nem mesmo porque estão abrindo os “antigos portais”. Mas por um fato muito mais simples: Pela primeira vez o Satanismo deixou de ser uma visão individual e passou a ser um projeto de mundo.


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