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siga a estrada de tijolos amarelos: Satanismo Livros Satânicos O Livro Negro do Satanismo Bem e Mal - prefácio

Bem e Mal - prefácio


Babu Sotito Jaideux

Deus e o Diabo constituem uma bipolaridade natural, concebida pela religião para explicar toda a estrutura dos fenômenos da natureza. A Deus são atribuídos todos os elementos bens, perfeitos e felizes, concedendo-se ao Diabo a malignidade, a perversão e a imperfeição.

Contudo, ainda hoje é difícil determinar o que se poderia designar como bem e como mal, pois que essas duas idéias se intercalam entre si e, apesar de opostas, perpetuam-se em suas atributos, alteram seus predicados numa inconstante e eterna interdependência.

O que agora pode ser apontado como “bom e bem”, dentro de alguns dias transformar-se-á num tremendo “mal” e, vice-versa, o que pode ser apontado por “mal e maldade”, determinará dentro em pouco um excelso “bem”.

Quando se toma uma injeção, tem-se a dor da agulhada; o ato de injetar o liqüido é, geralmente, doloroso; porém as conseqüências advindas deverão ser de cura, saúde, bem-estar, etc. Um sorvete tomado quando se está suando é um agradável benefício que anula o estado ressequido da garganta e nos satisfaz; todavia, essa satisfação pode trazer-nos gripe, dor de garganta ou enfermidade pior.

Essa transposição de bem e mal e vice-versa, no setor material, tem correspondência nos outros setores, moral e espiritual. Conforme os conceitos filosóficos, o Bem deve estar de acordo com o dever, a perfeição, a felicidade, a virtude, a honra, a justiça, a harmonia, e a utilidade, aos quais geralmente, são acrescidos, nem sempre corretamente, o amor, a beneficência, a conveniência e a vantagem, enquanto o Mal determina o que prejudica, causando pesar, aflição, calamidade, prejuízo e dor.

Todavia, perfeição e felicidade são conceitos morais inexistentes praticamente, e apenas aceitos num sentido ideal. Virtude, honra, justiça e dever representam idéias variáveis de acordo com a ocasião, conforme uma suposta necessidade, não existindo uma perfeita delimitação das mesmas.

Harmonia é um indicativo excessivamente vago que varia de homem para homem e de instante a instante. Utilidade, talvez o mais importante dos conceitos morais expostos, igualmente transgride o seu significado, diante de uma enorme quantidade de predicados. Os vocábulos seguintes (amor, beneficência, convivência e vantagem) são fundamentados num alicerce egoísta, no qual os interesses próprios são inexoráveis e também possuem variável determinação.

Num sentido geral, é preciso que algo seja encarado como “útil” para que seja um bem e esse predicado de utilidade varia conforme afeta ou beneficia os próprios interesses. O Bem é o objetivo mais alto para onde podem convergir os esforços reunidos da sensibilidade, vontade e inteligência, asseguram os moralistas. Pode ser dividido em:

1)     bem físico, fundamentado nos sentidos, determinando a satisfação, o prazer e o bem-estar;

2)     bem moral, alicerçado na vontade e no caráter, resultando uma virtude, ou hombridade;

3)     bem espiritual, baseado no intelecto e na fé, pretendendo trazer à razão a alta verdade e finalidade das coisas.

Os filósofos não estão de acordo quando à determinação do Bem. Arístipo, por exemplo, admite que o sumo bem é o prazer imediato; Epicuro considera-o um interesse pessoal. Aristóteles aponta-o como felicidade resultante da atividade humana; Augusto Comte apresenta-o como altruísmo; e os estóicos declaram-no uma virtude.

Conforme Nietzsche, a idéia do Bem varia de acordo com a pessoa que emite o juízo: "Perguntai aos escravos o que é mau e apontarão para o personagem que para a moral aristocrata é bom, isto é, o poderoso, o dominador!. Este filósofo ainda assegura que a expressão latina “bonus” (bom) pode ser traduzida por “guerreiro”, levando a voz à sua antiga forma “duonus”, de “duo” (disputa), de onde se formou “duellum” (duelo), e a palavra “bellum” (guerra) nos trouxe belo, beleza.

Afirma Nietzsche que as expressões “nobre e nobreza” são aceitas no sentido de “correto, bom, perfeito”, e têm fundamento nos próprios vocábulos que apresentam a aristocracia (governo dos escolhidos), as estirpes feudais, do mesmo modo que é encontrada no gaélico celta a voz “fin-gal”, significava “cabelos ruivos”, característica dos celtas-galos, povo que dominava os homens de cabelos negros, consequentemente, “servos, não-nobres, não-bons”.

O filósofo ainda afirma que o latim “malus” (mau) se relaciona com a voz grega “melas” (negro), designando o homem de pele negra ou de cor morena e cabelos pretos, sediado especialmente no Norte africano, de onde eram trazidos os escravos. Apresentou também o vocábulo “shlicht” (plebeu, simples, labrego). Aceita este pensador que todo o mal é justificado desde que um deus o aprove e se satisfaça contemplando-o .

Nas guerras primitivas, os nomes dos povos vencidos tornavam-se sinônimos de mal, mau, escravo. A voz “eslavo” tem raiz trechos nos quais Deus se compraz com a morte do vencido e, mesmo, ordena alterações ou inversão desses conceitos é encontrado na atitude do papa Inocêncio III, que se revoltava contra o nascimento de crianças e apresentava o catálogo das fraquezas e misérias do homem “na procriação impura, na nutrição nauseabunda no seio da mãe, na má qualidade da substância de onde provém o humano: mau cheiro, secreção de humores, urina, excrementos”.

Nietzche afirma categoricamente que todas as coisas tidas por boas já foram más em outros tempos e vice-versa.

Leibnitz apresenta três classes de mal: o moral, o chamado “pecado”; o físico, origem do sofrimento; e o metafísico, fundamentando na imperfeição inerente ao homem. Para a teologia, o mal é a privação do bem e este é a suma benção da divindade; assim, o mal seria a supressão da bênção divina.

Na teoria evolucionista, o mal se constitui numa fase necessária para a realização de melhor marchar progressiva, em demanda de um “mal-menor”, visto ser impossível alcançar-se o bem real. O monismo aceita a idéia de que o mal é naturalmente intrínseco no homem e o bem somente pode ser manifestado por um esforço especial.

Num sentido geral, o mal é a imperfeição, por três motivos: pela impossibilidade de alcançar o estado do bem; pela sua tentativa de adquirir alguma coisa ideal que nunca é alcançada ou concluída; pela oposição ao conceito da perfeição, que simboliza o bem, o qual a humanidade se interessa ou se dispõe a procurar. Se o mal não realiza, não conclui, não aperfeiçoa, torna-se o nada, visto que aquele que não faz, não tem.

Se Stuart Mill apresenta o bem como de interesse geral, deve-se admitir que o mal age de acordo com o interesse particular.

O fato de os primitivos personificarem as idéias determinou a simbólica existência de entidades que representavam qualquer fator demonstrativo de desagrado, sofrimento, derrota, doença, etc. O horror pelas coisas que determinariam temor (escuridão, desconhecimento, abismo, serpente, etc.) e pelas que causariam ou fomentariam dores (morte, espinhos, enfermidades, ferimentos) foi personificado em seres que se opunham aos desígnios dos supostos deuses protetores que, aos poucos, se tornaram símbolos de fatores benéficos (proteção, vitória, saúde, etc.)

É preciso lembrar que, quando o homem inventou as almas e os deus, descurou das suas qualidades morais. Uma alma poderia ter pretensões simultâneas de beneficiar e de trazer o mal aos crentes. Este pronunciado temos pelas “almas do outro mundo”, nos tempos atuais, tem seu fundamento nesse conceito. Na realidade, a idéia ambivalente do Bem-Mal, em todos os seus graus variáveis, somente foi separada quando se constituíram as religiões organizadas.

Pode-se mesmo aceitar que todos os deuses possuíam maiores propensões à prática do mal do que à do bem. Este era um prêmio raríssimo concedido a determinado grupo privilegiado de adoradores. A primitiva adoração tem fundamento no horror e temor emanados pelos deuses que os próprios homens inventaram (“Horrível coisa é cair nas mãos do Deus vivo”– Carta aos Hebreus, 10, 31). Talvez tenham passados alguns milhares de anos antes de o primitivo conceber a idéia de um deus justo e equânime, que premiava os seus adoradores e castigava os que não o adoravam. Ainda hoje se encontram povos que admitem a necessidade de prestar cultos aos deuses perversos em primeiro lugar para, em seguida, reverenciarem os numes tidos por bons. Os iêzidas, da Turquia Asiática, adoram Satã sob a figura de um pavão, afirmando que deus, por ser bom, não exige reverência e submissão, mas aquele, por ser mau, obriga-os a manter uma constante adoração. O candomblé, a umbanda, o vodu e outras linhas africanas mantêm o costume de reservar em primeiro lugar as comidas sagradas a Exu, Legbá e demais entidades de caráter vingativo. Somente depois de estas serem servidas, os crentes passam a reverenciar os outros orixás e lois.

Curiosamente, Satã não é apresentado, no Velho Testamento como um ser potente, mas como um servo obediente, inteiramente sob a vontade de Deus. Nas nove citações do Livro de Jó, sempre age de comum acordo com a divindade. As duas citações restantes (I Crôn. 21.1 e Zacarias 3: 1-2) ainda o mostram como um espírito tentador, sem demonstração da sua futura potência, que viria a adquirir com o aparecimento do cristianismo. No Novo Testamento sua personalidade se engrandece e seu valor se torna quase equivalente ao da própria divindade. A voz de Satanás, doze vezes citada no Velho Testamento, tem origem no nome Satã, de Sheitan (acusador, provocador). Alguns estudiosos acreditam que essa entidade foi incluída nos escritos judaicos somente depois da volta do Cativeiro de Babilônia. A Caldéia e Assíria possuíam em deus do Vento Norte que, quando assoprava, trazia miasmas e, quiçá, febres entre os povos que o temiam. Nomeado Stanu, pelos assírios, passou a ser chamado Satanu pelos babilônios. Deste apelativo originou-se a expressão Satan e, posteriormente, Satanás. No Novo Testamento encontra-se como sinônimo de anjo pervertido o nome Diabo, derivado de Diabolos (o que se opõe); a voz grega Aaimov (Denon), significando “espírito”, como o cristianismo passou a representar Satã e seus subalternos. Sabe-se que Asmodeu é um espírito perverso que teve origem entre os persas, que aceitavam a existência de Ashma-Daeva, um servo de Angro-Mainyus, o espírito das trevas ou mal. A realidade se impõe ao sustentar-se que o povo judeu, primitivamente, desconhecia uma entidade especificamente maléfica, pois para eles, Deus era o Senhor e poderia conceder o bem e, igualmente, o mal.

Com o advento do cristianismo, Satã alcançou imensos poderes e quase se tornou equivalente à divindade. Com o aparecimento do islamismo, este conceito foi incorporado à crença muçulmana e Sheitan se tornou uma entidade poderosa. A expressão alcarômica “Iblis”, aludindo a Satã, em origem na crença pré-islâmica da existência de um espírito maléfico com esse nome. Logo Sheitan e Iblis se fundiram, aumentando ainda mais a potência maligna.

O cristianismo adotou os vários tipos de infernos (inferius) das diversas religiões, e o islamismo, igualmente, aceitou essas mansões, que eram lugares de suplícios reservados aos malvados, como o céu (paraíso) era o local dos bem-aventurados. Fruto do paganismo egípcio-greco-romano, o inferno acabou por ser reino de Satã, o rival da Trindade, o tentador perpétuo dos crentes. Aceita a escatologia cristã, que nas proximidades da volta de Jesus à Terra, os anjos encetarão uma luta, na qual dominarão Satanás e seus asseclas, acorrentando-o por mil anos.

Hoje há uma infinidade de seres diabólicos, de poderes variáveis, porém terríveis e, muitas pessoas, temendo-os e respeitando-os, procuram evitar a sua cólera e sua vingança. Aos poucos tornaram-se veneradores do terrível deus maléfico e deixaram para trás as crenças nas divindades disseminadoras da luz. Estas, pela sua natural tolerância e misericórdia, não procuram prejudicar os entes humanos; por este motivo não exigem adoração ou adulação. Todavia, as entidades infernais não ciosas e se esforçam por serem veneradas, prometendo colaborar com os que as bajularem. Eis, em poucas linhas, o fundamento da crença e adoração aos espíritos maléficos.

Babu Sotito Jaideaux


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