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siga a estrada de tijolos amarelos: Sociedades Secretas & Conspirações Textos Conspiracionais Despertar dos Mágicos A Conspiração em Pleno Dia - Capítulo IV

A Conspiração em Pleno Dia - Capítulo IV


Louis Pauwels e Jacques Bergier

O saber e o poder ocultam-se. - Uma visão da guerra revolucionária. - A técnica ressuscita as Guildas. O regresso à idade dos Adeptos. - Um romancista falara verdade: existem " Centrais de Energia". - Da monarquia à criptocracia. - A sociedade secreta, futura forma de governo. - A própria inteligência é uma sociedade secreta. - Batem à porta.
 
Num artigo muito estranho, mas que, segundo parece reflectia a opinião de muitos intelectuais franceses, Jean-Paul Sartre recusava pura e simplesmente à bomba H o direito de existência. A existência, na teoria daquele filósofo, precede a essência. Mas surge um fenómeno cuja essência não lhe convém: e ele recusa a existência. Singular contradição! "A bomba H, escrevia Jean-Paul Sartre, é contra a história". De que forma um facto de civilização poderia ser "contra a história"? O que é a história? Para Sartre é o movimento que deve necessariamente conduzir as multidões ao poder. O que é a bomba H? Uma reserva de poder manejável por alguns homens. Uma sociedade muito limitada de sábios, técnicos, políticos, que pode decidir da sorte da humanidade. Aspira a ser dirigente complica ao máximo o sistema que deseja destruir para o chamar a si sem reacções de defesa, da mesma forma que a aranha envolve a presa. Os homens ditos "de poder," possessores e governantes, não passam de intermediários numa época que é igualmente intermediária.

"- Ao passo que as armas soberanas se multiplicam, a guerra muda de aspecto. Trava-se um combate sem interrupção, sob a forma de guerrilhas, de revoluções palacianas, de emboscadas, de maquis, de artigos, de livros, de discursos. A guerra revolucionária substitui a guerra simples. Esta mudança de formas de guerra corresponde a uma mudança de objectivos da humanidade. As guerras eram feitas para "o haver". A guerra revolucionária é feita para "o ser".

Outrora a humanidade dilacerava-se pela divisão da terra e para nela viver o melhor possível. Para que alguns dividam entre si os bens terrenos e deles gozem. Agora, através deste incessante combate que se assemelha à dança dos insectos que apalpam mutuamente as suas antenas, tudo se passa como se a humanidade procurasse a união, o ajuntamento, a unidade para modificar a Terra. Ao desejo de gozar substitui-se o propósito de realizar. Os homens de ciência, que também aperfeiçoaram as armas psicológicas, não são estranhos a esta profunda alteração. A guerra revolucionária corresponde ao aparecimento de um espírito novo: o espírito operário. O espírito dos oQerários da Terra. É neste sentido que a história é um movimento messiânico das massas. Esse movimento coincide com a concentração do saber. Tal é a fase que atravessamos, na aventura de uma hominização crescente, de uma contínua assunção do espírito.
 
*

Detenhamo-nos nos factos aparentes. Achar-nos-emos transportados à época das sociedades secretas. Quando atingirmos  os factos mais importantes, e portanto menos visíveis, chegaremos à conclusão de que penetramos igualmente na época dos Adeptos. Os Adeptos irradiavam a sua sabedoria sobre um conjunto de sociedades organizadas com o fim de manter secretas as técnicas. Não é impossível imaginar um mundo muito próximo construído à base deste modelo. Tendo em conta, porém, que a história não se repete. Ou antes, quando passa por um período idêntico, é num grau mais elevado da espiral.

Historicamente, a conservação das técnicas foi um dos fins das sociedades secretas. Os sacerdotes egípcios guardavam zelosamente as leis da geometria plana. Recentes pesquisas revelaram a existência, em Bagdade, de uma sociedade que conserva o segredo da pilha eléctrica e o monopólio da galvanoplastia há dois mil anos. Na Idade Média, em França, na Alemanha, na Espanha, formaram-se corporações de técnicos. Observai a história da Alquimia. Vede o segredo da coloração do vidro em vermelho devido à introdução do ouro no momento da fusão. Vede o segredo das misturas incendiárias o óleo de linhaça com a gelatina antecessor do napalm. Nem todos os segredos da Idade Média foram encontrados: o do vidro mineral flexível, o do processo simples para obter a luz fria, etc. Hoje assistimos igualmente ao aparecimento de grupos de técnicos que não divulgam os segredos de fabricação, quer se trate de técnicas artesanais, como a fabricação das harmónicas, dos berlindes de vidro, ou de técnicas industriais, como a produção de gasolina sintética. Nas grandes fábricas atómicas americanas, os físicos usam distintivos indicando o seu grau de saber e de responsabilidade. Só é permitido dirigir a palavra ao portador do mesmo distintivo. Existem clubes e as amizades e os amores formam-se no interior de cada categoria. Desta forma constituem-se círculos fechados semelhantes às corporações da Idade Média, quer se trate de aviação a jacto, de ciclotrões ou de electrónica. Em 1956, trinta e cinco estudantes chineses, saídos do Instituto de Tecnologia de Massachusetts, pediram para regressar a casa. Não tinham trabalhado em problemas militares, no entanto pensou-se que sabiam demais. O regresso foi-lhes proibido. O governo chinês, muito desejoso de recuperar esses jovens esclarecidos, propôs, em troca, aviadores americanos detidos sob a acusação de espionagem.

A vigilância das técnicas e segredos científicos não pode ser confiada à polícia. Ou antes, actualmente, os especialistas da segurança são obrigados a estudar as ciências e as técnicas que têm como missão vigiar. Ensina-se a esses especialistas a trabalhar nos laboratórios nucleares, e aos físicos nucleares a assegurarem, eles próprios, a sua segurança. Desta forma vemos surgir uma casta mais poderosa do que os governos e as polícias políticas.

Enfim, o quadro ficará completo se pensarmos nos agrupamentos de técnicos dispostos a trabalhar para os países que
melhor pagam. São os novos mercenários. São "as espadas que se alugam" da nossa civilização, em que o condottière usa blusão branco. A África do Sul, a Argentina, a Índia são os seus melhores terrenos de acção. Aí constroem verdadeiros impérios.
 
*

Voltemos aos factos menos visíveis, mas mais importantes. Neles veremos o regresso à época dos Adeptos. "Não há no Universo coisa alguma que possa "resistir ao ardor convergente de um número suficientemente grande de inteligências agrupadas e organizadas", dizia, confidencialmente, Teilhard de Chardin a Georges Magloire.

Há mais de cinquenta anos, John Buchan, que representou, em Inglaterra, um papel importante como político, escrevia um romance que era ao mesmo tempo uma mensagem dirigida a certos espíritos esclarecidos. Nesse romance intitulado, e não sem motivo, A Central de Energia, o herói encontra um senhor distinto e discreto que lhe diz, num tom de conversa de golfo, frases bastante desconcertantes:

"- Evidentemente, disse eu, há inúmeras vigas-mestras na civilização, e se as destruíssemos seria o seu desmoronamento. Mas elas aguentam-se bem.

"- Não muito... Pense que a fragilidade da máquina se torna cada vez maior. À medida que a vida se complica, o mecanismo torna-se mais inextricável e por consequência mais vulnerável. As vossas supostas sanções multiplicam-se tão desmedidamente que cada uma delas é precária. Nos séculos de obscurantismo existia uma força única: o medo de Deus e da sua Igreja. Actualmente há uma infinidade de pequenas divindades, igualmente delicadas e frágeis e cuja única força é devida ao nosso tácito consentimento em não as discutir.

"- Esquece-se de uma coisa, repliquei, o facto de que os homens estão realmente de acordo em manter a máquina em andamento. Era isso a que eu há pouco chamava a "boa vontade cávilizada".

"- Pôs o dedo sobre o único ponto importante. A civilização é uma conspiração. Para que serviria a vossa polícia se cada criminoso encontrasse um asilo do outro lado do mar, ou os seus tribunais, se houvesse outros que não reconhecessem as suas decisões? A vida moderna é o pacto não formulado dos possessores para manter as suas pretensões. E esse pacto será eficaz até ao dia em que se fizer outro que os despoje.

"- Não discutiremos o indiscutível, disse eu. Mas eu supunha que o interesse geral levava os espíritos mais esclarecidos a fazer parte daquilo a que chama uma conspiração.

"- Não sei, disse ele lentamente. São de facto os espíritos mais esclarecidos que aderem a esse pacto? Examine a conduta do governo. Bem vistas as coisas, somos dirigidos por amadores e por pessoas de segunda categoria. Os métodos das nossas administrações arrastariam para a falência qualquer empresa particular. Os métodos do Parlamento - desculpe-me - fariam vergonha a qualquer assembleia de accionistas. Os nossos dirigentes simulam adquirir a sabedoria por meio da experiência, mas estão longe do que seria capaz de fazer um homem de negócios, e quanto à sabedoria, quando a adquirem, não têm coragem de a pôr em prática. Qual é o atractivo que vê, para um homem de génio, em vender o cérebro aos nossos miseráveis governantes?

"E no entanto o saber é a única força - agora e sempre. Um pequeno dispositivo mecânico afundará esquadras completas. Uma nova combinação química poderá alterar todas as leis de guerra. E o mesmo se passa no comércio. Bastarão algumas pequeníssimas alterações para reduzir a Grã-Bretanha ao nível da República do Equador, ou para dar à China a chave da riqueza mundial. E no entanto não desejamos imaginar que estas alterações sejam possíveis. Tomamos os nossos castelos de cartas pelas muralhas do Universo.

"jamais tive o dom da palavra, mas admiro-o nos outros. Um discurso neste género produz um encantamento nocivo, uma espécie de embreaguez, que quase nos envergonha. Sentia-me interessado e meio seduzido.

"- mas, vejamos, disse eu, o primeiro cuidado do inventor é tornar pública a sua invenção. Como deseja honras e glória, pretende receber dinheiro por essa invenção. Ela passa a fazer parte integrante da ciência mundial e por consequência todo o resto se modifica. Foi o que se passou com a electricidade. Chamais à nossa civilização uma máquina, mas ela é bem mais dócil do que uma máquina. Possui o poder de adaptação de um organismo vivo.

"- Aquilo que diz seria verdade se a nova ciência se tornasse realmente propriedade de todos. Mas acha que é possível? Leio de vez em quando numa ou noutra revista que um sábio eminente fez uma descoberta. Participa-a à Academia das Ciências, aparecem a esse respeito artigos de fundo, e a fotografia do sábio ornamenta os jornais. O perigo não vem desse homem. Ele não passa de uma roda da máquina, um aderente ao pacto. É com os homens que se mantêm afastados dele que é preciso contar, os artistas em descobrimentos que só utilizarão a sua ciência na altura em que puderem produzir o máximo de efeito. Acredite-me, os grandes espíritos estão fora daquilo a que se chama civilização.

"Pareceu hesitar um instante e continuou:

"- Há-de ouvir várias pessoas dizer que os submarinos já suprimiram o couraçado, e que a conquista do ar aboliu o domínio dos mares. Pelo menos os pessimistas afirmam-no. Mas acha que a ciência disse a sua última palavra apenas com os nossos vulgares submarinos ou os nossos frágeis aviões?

"- Não duvido que se venham a aperfeiçoar, disse, mas os processos de defesa hão-de progredir paralelamente.

"Ele meneou a cabeça.

"- É pouco provável. Por enquanto a ciência que permite realizar os grandes engenhos de destruição é muito maior do que as possibilidades defensivas. É necessário não ver apenas as invenções de pessoas de segunda categoria, ansiosas por conquistar riqueza e glória. A verdadeira ciência, a ciência temível, ainda continua secreta. Mas, acredite-me, meu caro, ela existe.

"Calou-se um momento e vi o contorno ténue do.fumo do seu charuto perfilar-se na escuridão. Depois citou-me vários exemplos, calmamente como se receasse ir longe demais.

"Foram esses exemplos que me despertaram. Eram de vária espécie: uma grande catástrofe, uma ruptura súbita entre dois povos, uma doença que destrói uma colheita importante, uma guerra, uma epidemia. Não os enumerarei. De momento não o acreditei, e hoje ainda menos o acredito. Mas eram terrivelmente surpreendentes, expostos nessa voz calma, naquela sala sem luz, numa escura noite de Junho. Se dizia a verdade, aqueles flagelos não eram obra da natureza ou do acaso, mas sim de uma arte. As inteligências anónimas de que ele falava, trabalhando secretamente, revelavam de vez em quando a sua força por meio de qualquer manifestação catastrófica. Recusava-me a acreditá-lo, mas, enquanto ele desenvolvia o seu exemplo, apresentando a evolução do jogo com estranha nitidez, não faz o mínimo protesto.
 
"No final, recuperei a palavra.

"- O que me acaba de descrever é a superanarquia. E no entanto não serve para nada. Qual o móbil a que obedeceriam
essas inteligências?

Ele riu-se.

"- Como quer que eu o saiba? Sou apenas um modesto investigador, e as minhas investigações proporcionam-me curiosos documentos. Mas não seria capaz de precisar os motivos. Vejo apenas que existem enormes inteligências anti-sociais. Admitamos que elas suspeitam da Máquina. A menos que se trate de idealistas que pretendem criar um mundo novo, ou simplesmente de artistas, desejosos apenas de alcançarem a verdade. Se tivesse de formular uma hipótese, diria que foram necessárias estas duas últimas categorias de indivíduos para provocar resultados, pois os segundos encontram a ciência e os primeiros desejam empregá-la.

"Então recordei um facto. Estava nas montanhas do Tirol, num prado cheio de sol. Num prado coberto de flores e ao norte de um curso de água saltitante, almoçava após uma manhã passada a escalar as brancas falésias. Encontrara no caminho um alemão, de pequena estatura e com aspecto de professor, que me deu a honra de partilhar as sandes comigo. Falava rapidamente um inglês incorrecto e era um nietzshiano, um impetuoso revoltado contra a ordem estabelecida. "A desgraça, exclamou, é que aqueles que sabem são indolentes demais para tentar reformas. Virá o dia em que o saber e a vontade se hão-de unir, e então o mundo progredirá."

"- Está a mostrar-nos um quadro pavoroso, disse eu. Mas se essas inteligências anti-sociais são assim tão poderosas, por que motivo produzem tão pouco? Um vulgar agente da polícia, com a Máquina atrás dele, fica em posição de fazer troça da maior parte das tentativas anarquistas.

"- Sem dúvida, respondeu, e a civilização triunfará até que os seus adversários saibam por ela própria qual a verdadeira importância da Máquina. O pacto deve durar até que haja um antipacto. Veja os processos dessa tolice a que actualmente se chama niilismo ou anarquia. Do fundo de uma mansarda parisiense, alguns vagos iletrados lançaram um desafio ao mundo, e ao fim de oito dias ei-los na cadeia. Em Genebra, uma dúzia de "intelectuais" russos exaltados combinam derrubar os Romanos, e ei-los cercados pela polícia da Europa. Todos os governos e as suas pouco inteligentes forças policiais dão-se mutuamente as mãos e, pronto, acabam-se os conspiradores. Pois a civilização sabe utilizar as energias de que dispõe, ao passo que as infinitas possibilidades dos não-oficiais se desfazem em fumo. A civilização triunfa porque é uma aliança mundial; os seus inimigos fracassam porque não passam de uma panelinha. Mas imagine...

" Calou-se novamente e ergueu-se do cadeirão. Aproximou-se de um interruptor e inundou a sala de luz. Ofuscado, levantei o olhar para o meu hóspede e vi-o sorrir-me amavelmente com toda a cortesia de um velho "gentleman".

"- Gostaria de ouvir o final das suas profecias, declarei. Dizia. . .

"- Dizia o seguinte: Imagine a anarquia instruída pela civilização e tornada internacional. Oh, não falo desses bandos de imbecis que se intitulam com grande estrépito a União Internacional dos Trabalhadores, e outras parvoíces no género. Quero dizer que a verdadeira substância pensante do Mundo viria então a ser internacionalizada. Suponha que os elos do cordão civilizado sofram a pressão de outros elos constituindo uma cadeia muito mais poderosa. A Terra está repleta de energias incoerentes e de inteligência desorganizada. Já alguma vez pensou no caso da China? Ela encerra milhares de cérebros pensantes asfixiados por actividades ilusórias. Não têm nem directrizes, nem energia condutora, tanto assim que o resultado dos seus esforços é igual a zero, e que o mundo inteiro se ri da China. A Europa concede-lhe de tempos a tempos um empréstimo de alguns milhões, e ela, em paga, reclama cinicamente as orações da cristandade. Mas, dizia eu, suponha...

"- Isso é uma perspectiva atroz, exclamei, e, graças a Deus, não a creio realizável. Destruir para destruir, forma um ideal demasiado estéril para que possa tentar um novo Napoleão, e sem ele nada podereis fazer.

"- Não seria uma destruição completa, replicou ele suavemente. Chamemos iconoclastia a essa abolição das fórmulas que sempre ligaram uma multidão de idealistas. E não será necessário um Napoleão para a realizar. É apenas preciso uma direcção, a qual pode vir de homens muito menos dotados do que Napoleão. Numa palavra, bastaria uma Central de Energia para inaugurar a era dos milagres".
 
*

Se pensarmos que Buchan escrevia estas linhas por volta de 1910, e se pensarmos na confusão mundial a partir dessa  época e nos movimentos que alastram actualmente através da China, da África, das Índias, perguntaremos a nós próprios se não entraram de facto em acção uma ou várias "Centrais de Energia". Esta visão só aos observadores superficiais parecerá romanesca, quer dizer, aos historiadores vítimas da vertigem da "explicação pelos factos", a qual não passa, afinal, de uma forma de escolher entre os factos. Faremos a descrição, noutro capítulo do nosso trabalho, de uma central de energia que se malogrou, mas só depois de mergulhar o mundo no fogo e no sangue: a central fascista. Não é possível duvidar da existência de uma Central de Energia comunista, da sua prodigiosa  eficácia. "Nada no Universo poderia resistir ao impulso convergente de um número suficientemente grande de inteligências agrupadas e organizadas". Repito esta citação: a sua verdade explode aqui.

Nós fazemos, a respeito das sociedades secretas, uma ideia primária. Vemos de forma banal os factos estranhos. Para compreender o mundo que surge ser-nos-ia necessário corrigir, refrescar, revigorar a ideia de sociedade secreta por meio de um estudo mais profundo do passado e pela descoberta de um ângulo do qual fosse visível o movimento da história de que fazemos parte.

É possível, até é provável, que a sociedade secreta seja a futura forma de governo no mundo novo do espírito operário. Observai rapidamente a evolução dos factos. As monarquias pretendiam ter um poder de origem sobrenatural. O rei, os fidalgos, os ministros, os responsáveis empenham-se em sair da normalidade, em causar espanto com os seus vestuários, as suas residências, as suas maneiras. Tudo fazem para se tornar notados. Ostentam o maior fausto possível. E estão presentes em todas as ocasiões. Extraordinariamente abordáveis e infinitamente diferentes. "Segui sempre, todos vós, o meu penacho branco!"[1]

E, por vezes, no Verão, Henrique IV toma banho nu no Sena, em pleno coração de Paris. Luís XIV é um sol, mas qualquer pessoa pode entrar no palácio e assistir às suas refeições. Constantemente expostos a todos os olhares, semideuses carregados de ouro e de plumas, sempre a chamar as atenções, simultaneamente "à parte" e públicos. Após a Revolução, o poder impregna-se de teorias abstractas e o governo oculta-se. Os responsáveis empenham-se em passar por pessoas "como as outras", e ao mesmo tempo põem-se a certa distância. Tanto no plano humano como no plano dos factos torna-se difícil definir com exactidão o governo. As democracias modernas prestam-se a mil interpretações "esotéricas". Vêem-se pensadores assegurar que a América obedece unicamente a alguns chefes de indústria, a Inglaterra aos banqueiros da "City," a França aos franco-mações, etc. Com os governos procedentes da guerra revolucionária o poder oculta-se quase completamente. As testemunhas da revolução chinesa, da guerra da Indochina, da guerra da Argélia, os especialistas do mundo soviético sentem-se impressionados com a entrada do poder nos mistérios da humanidade, com o segredo em que mergulham as responsabilidades, com a impossibilidade de saber "quem é que" e "quem decide que". Entra em acção uma verdadeira criptocracia. Aqui não temos tempo para analisar esse fenómeno, mas haveria um trabalho a escrever sobre o nascimento daquilo a que chamamos criptocracia. Num romance de Jean Lartéguy, que participou da revolução de Azerbaijão, da guerra da Palestina e da guerra da Coreia, um capitão francês é feito prisioneiro após a derrota de Dien-Bien-Phu:

"Glatigny voltou a encontrar-se num abrigo em forma de túnel, longo e estreito. Estava sentado no chão, com as costas nuas apoiadas à terra da parede. Na sua frente, um nha-quê acocorado sobre os calcanhares fumava um tabaco infecto enrolado em velho papel de jornal.

"O nha-quê está com a cabeça nua. Usa um fato de fazenda caqui sem insígnias. Não tem alparcatas e os dedos dos seus pés espalham-se voluptuosamente sobre a lama tépida do abrigo. Entre duas baforadas pronunciou algumas palavras, e um bô-doi, de movimentos ágeis e ondulantes de boy inclinou-se para Glatigny:

"- O chefe batalhão pergunta a você onde está comandante francês que comandava ponto de apoio.

"Glatigny tem um reflexo de oficial de tradição; não pode acreditar que aquele nha-quê acocorado, que fuma tabaco ordinário, comandasse, como ele, um batalhão, tivesse a mesma categoria e as mesmas responsabilidades. . . É então um dos responsáveis da divisão 308, a melhor, a mais bem preparada de todo o Exército Popular; foi aquele camponês saído do seu arrozal que o bateu, a ele, Glatigny, descendente de uma das grandes dinastias militares do Ocidente..."

Paul Mousset, jornalista célebre, correspondente de guerra na Indochina e na Argélia, dizia-me: "Sempre tive a impressão de que o boy, o pequeno lojista talvez fossem os grandes responsáveis... O mundo moderno disfarça os seus chefes, como os insectos que parecem ramos de árvores, ou folhas..."

Após a queda de Staline, os árbitros políticos não conseguem ficar de acordo quanto à identidade do verdadeiro governante da U.R.S.S. No momento em que esses árbitros nos asseguram finalmente que é Béria, vem a saber-se que este acaba de ser executado. Ninguém poderia designar exactamente os verdadeiros chefes de um país que controla um bilião de homens e metade das terras habitáveis do globo...

A ameaça de guerra revela a verdadeira forma dos governos.

Em Junho de 1955, a América previra uma "operação alerta" durante a qual o governo abandonava Washington para ir trabalhar "em qualquer parte nos Estados Unidos". No caso de esse refúgio ser destruído, estava previsto um processo que permitiria a esse governo transferir os seus poderes para as mãos de um governo fantasma (a expressão textual é "governo de sombras") já designado. Esse governo inclui senadores, deputados e peritos cujos nomes não podem ser divulgados. E assim é oficialmente anunciada a passagem para a criptocracia num dos países mais poderosos do planeta.

Em caso de guerra, veríamos sem dúvida os governos aparentes serem substituídos por esses "governos de sombras", possivelmente instalados nas cavernas da Virgínia, para os Estados Unidos, numa estação flutuante do Árctico, para a U.R.S.S.

E, a partir desse momento, seria crime de traição desvendar a identidade dos responsáveis. Munidos de cérebros electrónicos, para reduzir ao mínimo o pessoal administrativo, as sociedades secretas organizariam o gigantesco combate dos dois blocos da humanidade. Nem sequer está excluída a hipótese de que esses governos possam residir fora do nosso mundo, em satélites artificiais que girariam ao redor da Terra.

Não estamos a fazer ficção filosófica nem ficção histórica. Fazemos realismo fantástico. Somos cépticos sobre muitos pontos em que espíritos que passam por "razoáveis" o são muito menos do que nós. Não procuramos de forma alguma chamar a atenção para qualquer inútil ocultismo, para qualquer interpretação mágico-delirante dos factos. Não propomos qualquer religião. Apenas acreditamos na inteligência. Pensamos que, em determinado nível, a própria inteligência é uma sociedade secreta. Achamos que o seu poder é ilimitado quando chega a desenvolver-se por inteiro, como um carvalho em boa terra, em vez de definhar como num vaso.

É em função das perspectivas que acabamos de descobrir, e de outras ainda, mais estranhas, que em breve se manifestarão sob os nossos olhos, que convém portanto reconsiderar a ideia de sociedade secreta. Apenas podemos, tanto aqui como noutros capítulos, esboçar o trabalho de pesquisas e de reflexões. Sabemos muito bem que a nossa visão das coisas se arrisca a parecer louca: é porque dizemos, rápida e brutalmente o que temos a dizer, da mesma forma que se bate à porta de um dorminhoco quando o tempo urge.


1 Célebre "grito de guerra" do rei de França Henrique IV. (N. da T.)


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