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siga a estrada de tijolos amarelos: Sociedades Secretas & Conspirações Textos Conspiracionais Despertar dos Mágicos Alguns Anos no "Algures" Absoluto - Capítulo IX

Alguns Anos no "Algures" Absoluto - Capítulo IX


Louis Pauwels e Jacques Bergier

Levam-nos água ao nosso horrível moinho. - O jornal dos Loiros. - O padre Lenz. - Uma circular da Gestapo. A última prece de Dietrich Eckardt. - A lenda de Tule. Um viveiro de médiuns. - Haushoffer o mágico. - Os silêncios de Hess. - A suástica e os mistérios da casa Ipatiev. Os sete homens que queriam modificar a vida. - Uma colónia tibetana. - As exterminações e o ritual. - Está mais escuro do que imaginais.
 
Vivia em Kiel, após a guerra, um honesto médico dos seguros sociais, perito junto dos tribunais, bem-humorado, que chamava Fritz Sawade. No final do ano de 1959, uma voz misteriosa preveniu o médico de que a justiça ia ser obrigada a prendê-lo. O médico fugiu, vagueou durante oito dias e depois rendeu-se. Tratava-se na realidade do "Obersturmbannführ" S.S. Werner Heyde. O professor Heyde fora o organizador médico do programa de eutanásia que, de 1940 a 1941, fez 200 vítimas alemãs e serviu de prefácio à exterminação dos estrangeiros nos campos de concentração.

A propósito dessa prisão, um jornalista francês, que é ao mesmo tempo um excelente historiador da Alemanha hitleriana
escreveu[1] :
 
"O caso Heyde, como muitos outros, assemelha-se aos icebergues cuja parte visível é a menos importante... A eutanásia dos fracos, dos incuráveis, o extermínio em massa de todas as comunidades susceptíveis de "contaminar a pureza do sangue germânico" foram realizados com uma obstinação patológica, uma convicção de natureza quase religiosa que parecia atingir a demência. A tal ponto que numerosos observadores dos processos alemães do após-guerra - autoridades científicas ou médicas pouco capazes de admitirem como provas mistificações - acabaram por pensar que a paixão política constituía uma explicação bastante fraca e que era necessário que entre tantos executantes e tantos chefes, entre Himmler e o último guarda de campo de concentração, tivesse imperado uma espécie de elo místico.

"A hipótese de uma comunidade iniciática, subjacente ao nacional-socialismo, impôs-se pouco a pouco. Uma comunidade verdadeiramente demoníaca, regida por dogmas ocultos, bem mais aperfeiçoados do que as doutrinas elementares de mein Kampf ou do Nlito do século xx, e servida por ritos cujos vestígios isolados não se notam, mas cuja existência parece incontestável para os analistas (e recordamos que se trata de sábios e de médicos) da patologia nazi." Eis a água para este horrível moinho.

Todavia não pensamos que se trate de uma única sociedade secreta, solidamente organizada e ramificada, nem de um dogma único, nem de um conjunto de ritos organicamente constituído. A pluralidade e a incoerência parecem-nos, bem pelo contrário, significativas dessa Alemanha subterrânea que tentamos descrever. A unidade e a coesão em qualquer assunto, mesmo místico, parece indispensável a um ocidental cheio de positivismo e de cartesianismo. Mas aqui estamos fora desse Ocidente; trata-se antes de um culto multiforme, de um estado de superespírito (ou de subespírito) absorvendo diversos ritos, crenças mal ligadas entre si. O importante é manter um fogo secreto, uma chama viva; tudo serve para a alimentar.

Nesse estado já nada é impossível. As leis naturais são interrompidas, o mundo torna-se fluido. Chefes S.S. declaravam que a Mancha é muito menos larga do que o indicam os Atlas. Para eles, como para os sábios hindus de há dois mil anos, como para o bispo Berkeley no século xvIII, o Universo não passava de uma ilusão e a sua estrutura podia ser modificada pelo pensamento activo dos iniciados.

O que para nós é possível é a existência de um puzzle mágico, de uma forte corrente luciferina a respeito da qual demos algumas indicações nos capítulos anteriores. Tudo isto pode servir para explicar um grande número de factos horríveis, de uma forma mais realista que a dos historiadores convencionais que apenas querem ver, atrás de tantos actos crueis e insensatos, a megalomania de um sifilítico, o sadismo de um grupo de neuróticos, a obediência servil de uma multidão de cobardes.

Segundo o nosso método, vamos agora apresentar informações e confirmações respeitantes a outros aspectos desprezados do "socialismo mágico": a sociedade Tule, vértice da Ordem Negra, e a sociedade Ahnenerbe. Conseguimos reunir uma documentação bastante volumosa, cerca de um milhar de páginas. Mas essa documentação deveria ser mais uma vez verificada e copiosamente completada se quiséssemos realizar um trabalho claro, poderoso completo. De momento, isso está fora das nossas ossibilidades: Para mais, não pretendemos tornar excessivamente pesado o presente volume, que só a título de exemplo do "realismo fantástico" se refere à história contemporânea. Eis portanto a seguir um breve resumo de algumas verificações esclarecedoras.
 
*

Num dia de Outono de 1923 morreu em Munique uma personagem singular, poeta, dramaturgo, jornalista, boémio, que o nome de Dietrich Eckardt. Com os pulmões queimados pela iperita, ele fizera, antes de entrar na agonia, a sua oração muito pessoal perante uma meteorite negra da qual dizia: "É a minha pedra de Kaaba", e que legou ao professor Oberth, um dos criadores da astronáutica. Acabava de enviar um longo manuscrito ao seu amigo Haushoffer. Os seus assuntos estavam em ordem. Ele morria, mas a "Sociedade Tule" continuaria a viver e em breve transformaria o mundo e a vida sobre a Terra.

Em 1920, Dietrich Eckardt e outro membro da sociedade tule o arquitecto Alfred Rosenberg, travaram conhecimento com Hitler. Marcaram-lhe uma primeira entrevista na casa de Wagner, em Baireute. Durante três anos rodearão sem cessar o pequeno caporal da Reichswehr, dirigindo-lhe os pensamentos e os actos. Konrad Heiden[2] escreve:"Eckardt empreende a formação espiritual de Adolfo Hitler." Ensina-lhe a escrever e a falar. Os seus ensinamentos desenvolvem-se sobre dois planos: a doutrina "secreta" e a doutrina de propaganda. Narrou algumas das conversas que teve com Hitler em relação à segunda num curioso folheto intitulado O bolchevismo de Moisés a Lenine. Em junho de 1923, esse novo mestre, Eckardt, será um dos sete membros fundadores do partido nacional-socialista. Sete: número sagrado. No Outono, por altura da sua morte, diz: "Sigam Hitler. Ele há-de dançar, mas a música foi escrita por mim. Nós concedemos-lhe os meios de comunicar com Eles... Não me lamentem: terei influenciado a história mais do que qualquer outro alemão..."

A lenda de Tule remonta às origens do germanismo. Tratar-se-ia de uma ilha desaparecida, em qualquer parte no Extremo Norte. Na Gronelândia? No Lavrador? Como a Atlântida. Tule teria sido o centro mágico de uma civilização submersa. Para Eckardt e seus amigos, nem todos os segredos de Tule se teriam perdido. Seres intermediários entre o homem e as inteligências do Exterior disporiam, para os iniciados, de um reservatório de forças onde as podiam ir buscar para dar de novo à Alemanha o domínio do Mundo, para fazer da Alemanha a nação anunciadora da super-humanidade futura, das mutações da espécie humana. Um dia agitar-se-ão legiões para destruir tudo o que constituiu obstáculo ao destino espiritual da Terra, e serão conduzidas por homens infalíveis, alimentados nas fontes da energia, guiados pelos Grandes Antigos. Tais são os mitos contidos na doutrina ariana de Eckardt e de Rosenberg, e que esses profetas de um socialismo mágico introduzem na alma mediumínica de Hitler. Mas a sociedade Tule talvez ainda não passe de uma bastante poderosa maquinazinha para misturar o sonho e a realidade. Depressa se transformará, sob outras influências e com outras personagens, num instrumento muito mais estranho: um instrumento capaz de alterar a própria natureza da realidade. Segundo parece, é com Karl Haushoffer que o grupo Tule vai adquirir o seu verdadeiro carácter de sociedade secreta de iniciados em contacto com o invisível, e se tornará o centro mágico do nazismo.

Hitler nasceu em Braunau-sobre-Inn, a 20 de Abril de 1889, às 17 e 30, no número 219 da Salzburger Vorstadt. Cidade fronteira austro-bávara, ponto de encontro de dois grandes estados alemães, foi mais tarde para o Führer uma cidade símbolo. A ela se liga uma singular tradição: é um viveiro de médiuns. É a cidade natal de Willy e Rudi Schneider, cujas experiências psíquicas fizeram sensação há perto de trinta anos. Hitler teve a mesma ama que Willy Schneider. Em 1940, Jean de Pange escrevia: "Baunau é um centro de médiuns. Um dos mais conhecidos é Madame Stokhammes que, em 1920, desposou em Viena o príncipe Joaquim da Prússia. Era de Braunau que um espirita de Munique o barão Schrenk-Notzing, mandava vir os seus auxiliares, e um deles era justamente primo de Hitler".

O ocultismo ensina que depois de terem conciliado forças ocultas, por meio de um pacto, os membros do grupo não podem evocar essas forças senão por intermédio de um mágico, o qual não poderá agir sem um médium. Tudo se passa como se Hitler tivesse sido o médium e Haushoffer o mágico.
 
Rauschning descreve assim o Führer: "Somos obrigados a pensar nos médiuns. A maior parte do tempo são seres vulgares, insignificantes. Subitamente, como que lhes caem do céu poderes que os elevam acima da medida comum. Esses poderes são exteriores à sua personalidade real. São visitantes oriundos de outros planetas. O médium está possesso. Uma vez libertado, volta a cair na mediocridade. É sem dúvida desta forma que certas forças atravessam Hitler. Forças quase demoníacas das quais a personagem chamada Hitler não é mais do que a vestimenta momentânea. Essa reunião do banal e do extraordinário, eis a insuportável dualidade de que nos apercebemos logo que entramos em contacto com ele. Este ser poderia ter sido inventado por Dostoievski. Tal é a impressão que provoca numa pessoa estranha a associação de uma confusão doentia e de um poder turvo".

Strasser: "Aquele que escuta Hitler vê surgir de súbito o Führer da glória humana... Aparece uma luz atrás de uma janela escura. Um senhor com um cómico bigode em vassoura transforma-se em arcanjo... Depois o arcanjo levanta voo: apenas resta Hitler, que se volta a sentar, alagado em suor, com os olhos vítreos".

Bouchez: "Examinara-lhe os olhos, uns olhos que se tinham tornado mediumínicos... Por vezes, qualquer coisa se passava, semelhante a um fenómeno de ectoplasma: qualquer coisa parecia habitar o orador. Emanava um fluido. . . Depois voltava a ser pequeno, medíocre, até vulgar. Parecia fatigado, completamente exausto".

François-Poncet (ex-embaixador na Alemanha): "Ele entrava numa espécie de transe mediumínico. O rosto reflectia um encantamento extático".

Atrás do médium, sem dúvida não está apenas um homem, mas um grupo, um conjunto de energias, uma central mágica. E o que nos parece fora de dúvida é que Hitler está animado por outra coisa além daquilo que exprime: por forças e doutrinas mal coordenadas mas infinitamente mais temíveis do que apenas a teoria nacional-socialista. Um pensamento muito maior do que o dele, que constantemente o excede, e do qual só dá ao povo, aos seus colaboradores, restos grosseiramente vulgarizados. "Ressoador potente, Hitler sempre foi o "tambor" que se gabava de ser no processo de Munique, e sempre continuou a ser um tambor. No entanto, só reteve e utilizou aquilo que, ao acaso das circunstâncias, servia a sua ambição de conquista do poder, o seu sonho de domínio do Mundo, e o seu delírio: a selecção biológica do homem-deus".

Mas há outro sonho, outro delírio: modificar a vida sobre todo o planeta. Por vezes abre-se, ou antes, o pensamento interior    excede-o, e filtra bruscamente por uma pequena abertura. Dizia a Rauschning: "A nossa revolução é uma nova etapa, ou antes a etapa definitiva da evolução que conduz à supressão da história..." Ou ainda: "Não sabem nada de mim, os meus camaradas do partido não fazem a menor ideia dos sonhos que faço e do edifício grandioso do qual pelo menos os alicerces estarão edificados quando eu morrer. . . Há uma curva decisiva do mundo, eis-nos na charneira dos tempos... Haverá uma alteração do planeta que vós, os não iniciados, são incapazes de compreender. . . O que se está a passar é mais do que o aparecimento de uma nova religião. . . "

Rudolf Hess fora o assistente de Haushoffer quando este professava na Universidade de Munique. Foi ele que estabeleceu o contacto entre Haushoffer e Hitler. (Fugiu de avião da Alemanha, para uma expedição delirante, depois de Haushoffer lhe ter dito que o vira voar, em sonhos, a caminho da Inglaterra. Nos raros momentos de lucidez que a sua inexplicável doença lhe permite, o prisioneiro Hess, último sobrevivente do grupo Tule, teria declarado formalmente que Haushoffer era o mágico, o mestre secreto.[4])

Após a revolta falhada, Hitler é encerrado na prisão de Landshurt. Levado por Hess, o general Karl Haushoffer visita quotidianamente Hitler, passa horas junto dele, desenvolve as suas teorias e delas extrai todos os argumentos favoráveis à conquista política. A sós com Hess, Hitler mistura para a propaganda externa as teses de Haushoffer e os projectos de Rosenberg, num conjunto imediatamente ditado para Mein Kamp.

Karl Haushoffer nasceu em 1869. Fez diversas estadias nas Índias e no Extremo-Oriente, foi enviado ao Japão e aí aprendeu a língua. Para ele a origem do povo alemão dera-se na Ásia Central e a permanência, a grandeza, a nobreza do mundo estavam asseguradas pela raça indo-germânica. No Japão, Haushoffer teria sido iniciado numa das mais importantes sociedades secretas budistas e ter-se-ia comprometido, em caso de malogro da sua "missão", a executar o suicídio cerimonial.

Em 1914, Haushoffer, jovem general, faz-se notar por um extraordinário poder de predizer os acontecimentos: horas de ataque do inimigo, locais onde cairão as bombas, tempestades, alterações políticas em países de que nada se sabe. Terá Hitler possuído também esse dom de clarividência ou seria Haushoffer que lhe murmura-a as suas próprias inspirações? Hitler redisse
com exactidão a data de entrada das suas tropas em Paris, a data da chegada a Bordéus dos primeiros arrombadores de bloqueio. Quando decide a ocupação da Renânia, todos os peritos da Europa, incluindo os alemães, estão persuadidos de que a França e a Inglaterra se oporão. Hitler prediz que não. Ele virá a anunciar a data da morte de Roosevelt.

Após a primeira grande guerra, Haushoffer retoma os seus estudos e parece dedicar-se exclusivamente à geografia política, funda a revista de Geopolítica e publica numerosos trabalhos. Muito curiosamente, esses trabalhos parecem baseados num realismo político acanhadamente materialista. Essa preocupação, em todos os membros do grupo, em empregar uma linguagem exotérica puramente materialista, em transportar para o exterior concepções pseudocientíficas baralha constantemente as cartas.

O geopolítico sobrepõe-se a outra personagem, discípulo de Schopenhauer, inclinado para o budismo, admirador de Inácio de Loiola tentado pelo governo dos homens, espírito místico em busca de realidades ocultas, homem de grande cultura e de grande psiquismo. Parece muito provável que tenha sido Haushoffer a escolher a cruz gamada para emblema.

Na Europa, como na Ásia, a suástica foi sempre considerada um signo mágico. Viram nele o símbolo do Sol, fonte de vida e de fecundidade, ou do trovão, manifestação da cólera divina, que é necessário esconjurar. Ao contrário da cruz, do triângulo, do círculo ou do crescente, a suástica não é um símbolo elementar que possa ter sido inventado e reinventado em qualquer época da humanidade e em todos os pontos do globo com uma simbólica sucessivamente diferente. É o primeiro signo traçado com uma intenção precisa. O estudo das suas migrações põe o problema das primeiras eras, das origens comuns nas diversas religiões, das relações pré-históricas entre a Europa, a Ásia e a América. O seu mais antigo rasto teria sido descoberto na transilvânia e remontaria ao final da época da pedra polida. Voltamos a encontrá-lo sobre centenas de fusos datando do século xIv antes de Cristo e nos vestígios de Tróia. Aparece na Índia no século Iv antes de Cristo e na China no século v da nossa era. Vemo-lo um século mais tarde no Japão, no momento da introdução do budismo, que dela faz um emblema. Constatação capital: é completamente desconhecido ou só aparece a título acidental em toda a região semítica, no Egipto, na Caldeia, na Assíria, na Fenícia. É um símbolo exclusivamente aríano. Em 1891, Ernest Krauss chama a atenção do público germânico para este facto: Guido List, em 1908. descreve a suástica nas suas obras de divulgação como um símbolo de pureza do sangue e, ao mesmo tempo, como um signo de conhecimento esotérico, revelado pela decifração da epopeia rúnica de Edda. Na corte da Rússia, a cruz gamada é introduzida pela imperatriz Alexandra Feodorovna. Teria sido sob a influência dos teósofos? Ou antes sob a do médium Badmaiev, estranha personagem formada em Lassa e que em seguida estabeleceu numerosas ligações com o Tibete? Ora o Tibete é uma das regiões do Mundo onde a suástica - orientada quer para a direita, quer para a esquerda - é de uso corrente. Vem agora a propósito uma história bastante espantosa.

Sobre a parede da casa Ipatieff, a czarina, antes da sua execução, teria desenhado uma cruz gamada, acompanhada de uma inscrição. Teria sido tirada uma fotografia dessa inscrição, que depois se apressaram a apagar. Koutiepoff teria estado de posse de uma fotografia feita a 24 de Julho, ao passo que a fotografia oficial data de 14 de Agosto. Teria igualmente recebido em depósito o ícone descoberto sobre o corpo da czarina, no interior do qual se encontraria outra mensagem em que se aludia à sociedade secreta do Dragão Verde. Segundo o agente de informações, que viria a ser misteriosamente envenenado e que nos seus romances usava o pseudónimo de Teddy Legrand, Koutitepoff desaparecera sem deixar rasto; teria sido raptado e assasinado no iate de três mastros do barão Otto Bautenas, igualmente assassinado mais tarde. Teddy Legrand escreve: "O grande barco branco chamava-se Asgard. Fora portanto baptizado - teria sido fortuitamente?com um vocábulo com que as lendas islandesas designam o Reino do Rei de Tule." Segundo Trebich Lincoln (que na realidade afirmava ser o lama Djordni Den), a sociedade dos Verdes, parente da sociedade Tule, tinha as suas origens no Tibete. Em Berlim, um monge tibetano, a quem chamavam "o homem das luvas verdes" e que por três vezes anunciou na imprensa, com precisão, o número dos deputados hitlerianos enviados ao Reichstag, recebia regularmente Hitler. Era, segundo os iniciados, "detentor das chaves que abrem o "reino de Agarthi".

Eis o que nos reconduz a Tule. Na altura em que Mein Kampf é publicado aparece também o livro do russo Ossendovski, Homens, Animais e Deuses, no qual, pela primeira vez, são revelados publicamente os nomes de Schamballah e Agarthi. Voltarão a ouvir-se esses nomes pronunciados pelos responsáveis da Ahnenerbe no processo de Nuremberga.

Estamos em 1925[5]. O Partido Nacional-Socialista começa a recrutar activamente. Horst Wessel, braço direito de Horbiger, organiza as tropas de choque. É abatido, no ano seguinte, pelos comunistas. O poeta Ewers compõe, em sua memória, um canto que se transformará no hino sagrado do movimento. Ewers, que é um Lovecraft alemão, inscreveu-se no partido cheio de entusiasmo, porque vê nele, a princípio, "a expressão mais forte das potências negras".

Essas potências negras, os sete homens fundadores, que sonham "modificar a vida", estão certos, física e espiritualmente certos, de serem impulsionados por elas. Se as informações que temos são exactas, o juramento que os une, o mito a que se referem para dele extrair energia, confiança e sorte, tem a sua origem numa lenda tibetana. Há trinta ou quarenta séculos existia no Gobi uma alta civilização. Em seguida a uma catástrofe, talvez atómica, o Gobi foi transformado num deserto e os que escaparam emigraram, uns em direcção ao extremo Norte da Europa, outros para o Cáucaso. O Deus Tor, das lendas nórdicas, teria sido um dos heróis dessa migração.

Os "iniciados" do grupo Tule estavam persuadidos de que esses emigrados do Gobi compunham a raça fundamental da humanidade, a cepa ariana. Haushoffer apregoava a necessidade de um "regresso às origens", quer dizer, a necessidade de conquistar toda a Europa oriental, o Turquestão, o Pamir, o Gobi o Tibete. A seu ver, esses países constituíam a "região-centro", e quem controlar essa região controla o globo.

Segundo a lenda, tal como sem dúvida foi contada a Haushoffer por volta de 1905, e tal como à sua maneira a conta René Guénon em Le Roi du Monde, após o cataclismo do Gobi, os mestres da alta civilização, os detentores do conhecimento, os filhos das Inteligências do Exterior instalaram-se num imenso sistema de cavernas sob o Himalaia. No centro dessas cavernas dividiram-se em dois grupos, um seguindo "a via da mão direita", o outro "a via da mão esquerda". A primeira via teria o seu centro em Agarthi, lugar de contemplação, cidade escondida do bem, templo da não-participação no mundo. A segunda passaria por Schamballah, cidade da violência e do poder, cujas forças comandam os elementos, as massas humanas, e activam a chegada da humanidade à "charneira dos tempos". Aos magos condutores de povos seria possível fazer um pacto com Schambllah, mediante juramentos e sacrifícios.

Na Áustria, o grupo Edelweiss anunciava em 1928 que nascera um novo messias. Na Inglaterra, sir Musely e Bellamy proclamavam em nome da doutrina horbigeriana que a luz atingira a Alemanha. Na América apareciam os "Caminhos de Prata" do coronel Ballard. Um certo número de nobres ingleses procuram alertar a opinião contra esse movimento, no qual vêem acima de tudo uma ameaça espiritual, a ascensão de uma religião luciferina. Kipling manda suprimir a cruz gamada que ornamenta a capa dos seus livros. Lord Tweedsmuir, que escreve com o pseudónimo de John Buchan, publica dois romances com personagens reais sob disfarce: O Julgamento da madrugada e Um Príncipe no Cativeiro, que contêm uma descrição dos perigos que pode representar para a civilização ocidental uma "central de energias" intelectuais, espirituais e mágicas, orientadas para o grande Mal. Saint-Georges Saunders denuncia, em Les Sept Dormeurs e Le Royaume Caché, as chamas lúgubres do esoterismo nazi e a sua inspiração "tibetana".

É em 1926 que se instala em Berlim uma pequena colónia hindu e tibetana. No momento da entrada dos russos em Berlim encontrar-se-á, entre os cadáveres, um milhar de voluntários da morte de uniforme alemão, sem papéis nem insígnias, de raça himalaia. Logo que o movimento, começa a dispor de grandes possibilidades financeiras organiza múltiplas expedições ao Tibete, que se sucederão praticamente sem interrupção até 1943.

Os membros do grupo Tule deviam alcançar o domínio material do Mundo, deviam ser protegidos contra todos os perigos, e a sua acção prolongar-se-ia durante mil anos, até ao próximo dilúvio. Comprometiam-se a procurar a morte por suas próprias mãos se cometessem qualquer falta que quebrasse o pacto, e a realizar sacrifícios humanos. O extermínio dos boémios (750000 mortos) não parece que tenha senão razões mágicas. Wolfram Sievers foi designado como o executor, o carrasco sacrificial, o degolador ritual. Voltaremos ao assunto mais adiante, mas é  bom esclarecer desde já, com a "luz interdita" que convém, um dos aspectos do pavoroso problema posto à consciência actual por esses extermínios. No espírito dos maiores responsáveis tratava-se de vencer a indiferença das Potências, de lhes chamar a atenção. Dos Maias aos Nazis, é esse o sentido mágico dos sacrifícios humanos. Espantou muitas vezes a indiferença dos chefes supremos do assassinato no decorrer do processo de Nuremberga. Uma bela e terrível frase que Merrit põe na boca de um dos seus heróis, no romance Os Habitantes da miragem, pode ajudar a compreender essa atitude: "Tinha esquecido, como as esquecia sempre, as vítimas do sacrifício, na lúgubre excitação do ritual..."
 
A 14 de Março de 1946, Karl Haushoffer assassinava a esposa. Marta, e suicidava-se, segundo a tradição japonesa. Nenhum monumento, nenhuma cruz marcam o seu túmulo. Acabava de saber da execução, no acampamento de Moabit, de seu filho Albrecht, preso juntamente com os organizadores da conspiração contra Hitler e do atentado falhado de 20 de Julho de 1941. Na algibeira do fato ensanguentado de Albrecht foi encontrado um manuscrito de poemas:
 
Para meu pai o destino pronunciara-se:
Dependia uma vez mais
De empurrar o demónio para o seu cárcere
meu pai quebrou o selo,
Não sentiu o bafo do maligno
E largou o demónio pelo mundo. . .
 
*

Toda esta exposição, na sua rapidez e fatal incoerência, apenas exprime um punhado de coincidências, de verificações, de signos e conjecturas. É escusado dizer que os elementos reunidos aqui de acordo com o nosso método não excluem; de forma alguma, as explicações do fenómeno hitleriano pela política e a economia. É também escusado dizer que nem tudo, no espírito e mesmo no inconsciente dos homens de que falámos, foi determinado por tais crenças. Mas as imagens loucas que descrevemos, tomadas como tais ou como realidades, povoaram os seus cérebros num momento ou noutro: isso pelo menos parece-nos certo.

Ora os nossos sonhos não se extinguem no fundo de nós próprios da mesma forma que as estrelas no céu quando nasce o dia. Continuam a brilhar atrás dos nossos sentimentos, dos nossos pensamentos, dos nossos actos. Há os factos, e há um subsolo dos factos: é o que nós exploramos.

Ou antes, assinalamos, com as poucas referências à nossa disposição, que haveria motivos para explorar. Só pretendemos e queremos dizer uma coisa: é que, nesse subsolo, há mais escuridão do que se imagina.



1 M. Nobécourt: no semanário Carrefour de 6 de Janeiro de 1960

2 Konrad Heiden: Adolph Hitler traduzido por A. Pierhal. Ed. Grasset.

3 Dr. Achine Delmas.

4 Jack Fishman: Os Sete Homens de Spandau

5 Em 1931 na sua obra Le symbolásme de la croix René Guénon põe uma nota em final de página:

"Assinalámos recentemente, num artigo do Journal des Débats, de 22 de Janeiro de 1929, a seguinte informação, que dir-se-ia indicar que as grandes tradições não estão tão completamente perdidas como se supõe:

"Em 1925, uma grande parte dos Índios Cuna revoltaram-se, mataram os polícias do Panamá que viviam no seu território, e aí fundaram a república independente de Tule, cuja bandeira é uma suástica sobre fundo alaranjado com orla vermelha. Essa república ainda existe actualmente."

"Notar-se-á sobretudo a associação da suástica com esse nome Tule, que é uma das mais antigas designações do centro espiritual supremo, depois aplicada a alguns dos centros subordinados."


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