Ir para o conteúdo. |

  • A Empresa
  • Apoie
  • Contato
  • Seções:
siga a estrada de tijolos amarelos: Sociedades Secretas & Conspirações Textos Conspiracionais Despertar dos Mágicos Alguns Anos no "Algures" Absoluto - Capítulo VI

Alguns Anos no "Algures" Absoluto - Capítulo VI


Louis Pauwels e Jacques Bergier

Um ultimato aos sibãos. - O profeta Horbiger Copérnico do século xx. - A teoria do mundo gelado. - História do sistema solar. - O fim do Mundo. - A Terra e as suas quatro luas. - Aparição dos gigantes. - As luas, os gigantes e os homens. - A civilização da Atlântida. As cinco cidades de há 300 000 anos. - De Tiahuanaco às múmias tibetanas. - A segunda Atlântida. - O Dilúvio. - Degenerescência e cristandade. - Aproximamo-nos de outra era. - A lei do gelo e do fogo.
 
Numa manhã de Verão de 1925, o carteiro entregou uma carta em casa de todos os sábios da Alemanha e da Áustria. Apenas o tempo de a abrir: a ideia da ciência tranquila morrera, os sonhos e os gritos dos condenados enchiam de súbito os laboratórios e as bibliotecas. A carta era um ultimato:

"Agora é preciso escolher, estar connosco ou contra nós. Ao mesmo tempo que Hitler limpará a política, Hans Horbiger expulsará as falsas ciências. A doutrina do gelo eterno será o sinal da regeneração do povo alemão! Atenção! Coloquem-se do nosso lado antes que seja demasiado tarde!"

O homem que assim ousava ameaçar os sábios, Hans Horbiger, tinha sessenta e cinco anos. Era uma espécie de profeta furioso. Usava uma imensa barba branca e tinha uma letra capaz de desencorajar o melhor grafólogo. A sua doutrina começava a ser conhecida por um vasto público sob o nome de well. Era uma explicação do cosmos em contradição com a astronomia e as matemáticas oficiais, mas que justificava antigos mitos. No entanto Horbiger considerava-se a ele próprio como um sábio. "A ciência

Mas a ciência devia mudar de via e de métodos.
 
Objectiva é uma invenção perniciosa, um totem de decadência". Pensava, como Hitler, "que a questão prévia a qualquer actividade científica é saber quem quer saber". Só o profeta pode reclamar a ciência, pois ele é, em virtude da inspiração, elevado a um nível superior de consciência. Era o que pretendia dizer o iniciado Rabelais ao escrever: "Ciência sem consciência é apenas ruína da alma." Ele pretendia dizer: ciência sem consciência superior. Tinham falsificado a sua mensagem, em proveito de uma pequena consciência humanista primária. Quando o profeta  quer saber, pode então tratar-se de ciência, mas é uma coisa diferente daquilo a que vulgarmente se chama ciência. Por isso Hans Horbiger não podia suportar a menor dúvida, o menor esboço de contradição. Agitava-o um furor sagrado: "Têm confiança nas equações e não têm em mim!, berrava. De quanto tempo precisarão ainda para compreender que as matemáticas representam uma mensagem sem valor?"
 
Na Alemanha do Herr Doktor, cientista e técnico, Hans Horbiger, com gritos e murros, abria caminho ao saber inspirado, ao conhecimento irracional, às visões. Não era o único; mas nesse domínio era o que mais se distinguia. Hitler e Himmler tinham-se unido a um astrólogo, mas não o divulgavam. Esse astrólogo chamava-se Führer. Mais tarde, após a tomada do poder, e como que para afirmar a sua vontade, não só de reinar, como de "modificar a vida", eles próprios ousariam provocar os sábios. Nomeariam Führer "plenipotenciário das matemáticas, da astronomia e da física" .

De momento, Hans Horbiger organizava, nos domínios da inteligência, um sistema comparável ao dos agitadores políticos.

Parecia dispor de grandes possibilidades financeiras. Agia como um chefe de partido. Criava um movimento, com serviços de informações, recrutamento e quotizações, propagandistas e "agentes" escolhidos entre a juventude hitleriana. As paredes estavam cobertas de cartazes, inundavam os jornais de editais, distribuíam panfletos em massa, organizavam-se "meetings". As reuniões e conferências de astrónomos eram interrompidas pelos partidários que gritavam: "Fora os sábios ortodoxos! Sigam Horbiger!" Os professores eram molestados nas ruas. Os directores dos institutos científicos recebiam cartões: "Quando ganharmos, o senhor e os seus semelhantes irão mendigar pelos passeios". Homens de negócios, industriais, antes de contratarem um empregado obrigavam-no a assinar uma declaração: "Juro ter confiança na teoria do gelo eterno". Horbiger escrevia aos grandes engenheiros: "Ou aprenderá a acreditar em mim, ou será tratado como inimigo".

Em poucos anos, o movimento publicou três grandes volumes de doutrina, quarenta livros populares, centenas de brochuras. Editavam um magazine mensal de grande tiragem: A Chave dos Acontecimentos Mundiais. Já recrutara dezenas de milhares de aderentes. Viria a representar um papel importante na história das ideias e na própria história.

Ao princípio, os sábios protestavam, publicavam cartas e artigos para demonstrar as impossibilidades do sistema Horbiger. Depois alarmaram-se quando a wel tomou proporções de um vasto movimento popular. A seguir à subida ao poder de Hitler a resistência diminuiu, embora as universidades continuassem a ensinar a astronomia ortodoxa. Sábios de renome aderiram à doutrina do gelo eterno, como, por exemplo, Lenard, que, juntamente com Roentgen, descobrira os raios X, o físico Oberth, e Stark, cujas investigações sobre a espectroscopia eram mundialmente conhecidas. Hitler protegia abertamente Horbiger e acreditava nele.

"Os nossos antepassados nórdicos tornaram-se fortes devido à neve e ao gelo, declarava um panfleto popular da wel, e é esse motivo por que a crença no gelo mundial é a herança natural do homem nórdico. Um austríaco, Hitler, expulsou os políticos judeus, um segundo austríaco, Horbiger, expulsará os sábios judeus. Com a sua própria vida, o Führer provou que um amador é superior a um profissional. Foi preciso outro amador para nos dar uma compreensão completa do Universo."

Hitler e Horbiger "os dois maiores austríacos," encontraram-se várias vezes. O chefe nazi escutava aquele sábio visionário com deferência. Horbiger não admitia que o interrompessem no seu discurso e respondia com firmeza a Hitler: "Maul Zum Cala a boca! Levou ao extremo a convicção de Hitler: o povo alemão, no seu messianismo, era envenenado pela ciência ocidental, tacanha, debilitante, separada da carne e da alma. Criações recentes, como a psicanálise, a serologia e a relatividade eram máquinas de guerra dirigidas contra o espírito de Parsifal. A doutrina do gelo mundial forneceria o contraveneno necessário. Essa doutrina destruía a astronomia aceite: o resto do edifício desmoronar-se-ia em seguida por si próprio, e era preciso que se desmoronasse para que renascesse a magia, único valor dinâmico. Os teóricos do nacional-socialismo e os do gelo eterno reuniram-se em conferências: Rosenberg e Horbiger, rodeados pelos seus melhores discípulos.

A história da humanidade, tal como Horbiger a descrevia, com os grandes dilúvios e as migrações sucessivas, com os seus gigantes e os seus escravos, os seus sacrifícios e as suas epopeias, correspondia à teoria da raça ariana. As afinidades do pensamento de Horbiger com os temas orientais das eras antediluvianas, dos períodos de salvação da espécie e os períodos de punição apaixonaram Himmler. À medida que o pensamento de Horbiger se definia, revelavam-se correspondências com as visões de Nietzsche e a mitologia wagneriana. As origens fabulosas da raça ariana, que descera das montanhas habitadas pelos super-homens de outra era, destinada a mandar no planeta e nas estrelas, estavam estabelecidas. A doutrina de Horbiger associava-se intimamente ao pensamento do socialismo mágico, aos movimentos místicos do grupo nazi. Vinha fortalecer muito o que Jung viria a chamar mais tarde "a líbido do sem-razão". Ela trazia algumas dessas "vitaminas da alma" contidas nos mitos.
 
*

Foi em 1913 que um certo Philipp Fauth[1], astrónomo amador especializado na observação da Lua, publicou com alguns amigos um enorme livro de mais de oitocentas páginas: A Cosmogonia Glacial de Horbiger. A maior parte da obra era escrita pelo próprio Horbiger.

Horbiger, nessa época, administrava com negligência os seus negócios pessoais. Nascido em 1860, de uma família conhecida no Tirol desde há séculos, fizera os estudos na Escola de Tecnologia de Viena, e um estágio prático em Budapeste. Desenhador na fábrica de máquinas a vapor Alfredo Collman, entrara em seguida como especialista dos compressores na fábrica de Land, em Budapeste. Foi aí que inventou, em 1894, um novo sistema de torneira para bombas e compressores. A licença fora vendida a poderosas sociedades alemãs e americanas, e Horbiger vira-se de súbito na posse de uma grande fortuna que a guerra em breve dispersaria.

Horbiger era apaixonado pelas aplicações astronómicas das mudanças de estado da água: líquido, gelo, vapor, que tivera ocasião de estudar no seu trabalho. Pretendia explicar com isso toda a cosmografia e toda a astrofísica. Bruscas inspirações, intuições fulgurantes tinham-lhe aberto as portas, dizia ele, de uma ciência nova que continha todas as outras ciências. Ia transformar-se num dos grandes profetas da Alemanha messiânica e, como viriam a escrever depois da sua morte: "Um descobridor de génio abençoado por Deus".
 
 *

A doutrina de Horbiger deve o seu poder a uma visão completa da história e da evolução do cosmos. Ela explica a formação do sistema solar, o aparecimento da Terra, da vida e do espírito. Descreve todo o passado do Universo e anuncia as suas futuras transformações. Responde às três interrogações essenciais: O que somos nós? De onde vimos? Para onde vamos? E responde de forma exaltante.

Tudo assenta na ideia da luta perpétua, nos espaços infinitos, entre o gelo e o fogo e entre a força de repulsão e a força de atracção. Essa luta, essa tensão variando entre princípios opostos, essa eterna guerra no céu, que é a lei dos planetas, rege também a Terra e a matéria viva e determina a história humana. Horbiger pretende revelar o mais longínquo passado do nosso globo bem como o seu mais longínquo futuro, e introduz noções fantásticas a respeito da evolução das espécies vivas. Altera aquilo que geralmente pensamos da história das civilizações, da aparição e do desenvolvimento do homem e das suas sociedades. Não descreve, a esse respeito, uma elevação contínua, mas uma série de ascensões e de quedas. Ter-nos-iam precedido, há centenas de milhares de anos, e talvez biliões de anos, homens-deuses, gigantes, civilizações fabulosas. Aquilo que eram os antepassados da nossa raça talvez nós o voltemos a ser, através de cataclismos e mutações extraordinárias, no decurso de uma história que, sobre a Terra como no cosmos, se desenrola por ciclos. Pois as leis do céu são as mesmas que as da Terra e o Universo inteiro participa do mesmo movimento, é um organismo vivo onde tudo se repercute sobre tudo. A aventura dos homens está ligada à aventura dos astros, o que se passa no cosmos passa-se sobre a Terra, e reciprocamente.

Como se vê, esta doutrina dos ciclos e das relações quase mágicas entre o homem e o Universo fortifica o pensamento tradicional mais remoto. Volta a introduzir as antiquíssimas profecias, os mitos e as lendas, os antigos temas do Génesis, do Dilúvio, dos Gigantes e dos Deuses.

Esta doutrina, como melhor se compreenderá mais adiante, está em contradição com todos os dados da ciência admitida. Mas, dizia Hitler, "há uma ciência nórdica e nacional-socialista que se opõe à ciência judaico-liberal". A ciência admitida no Ocidente, como aliás a religião judaico-cristã que aí encontra cumplicidades, é uma conspiração que é preciso destruir. É uma conspiração contra o sentido da epopeia e do mágico que reside no coração do homem forte, uma vasta conspiração que fecha para a humanidade as portas do passado e do futuro para além do curto espaço das civilizações recenseadas, que a despoja das suas origens e do seu destino fabuloso, e que a priva do diálogo com os seus deuses.
 
*

Os sábios admitem geralmente que o nosso universo foi criado por uma explosão, há três ou quatro biliões de anos. Explosão de quê? Talvez o cosmos inteiro estivesse contido num átomo, ponto zero da criação. Esse átomo teria explodido e estaria desde então em constante expansão. Estariam contidas nele toda a matéria e todas as forças hoje empregadas no Universo. Mas, aceitando a hipótese, não se pode dizer, no entanto, que se trata do começo absoluto do Universo. Os teóricos da expansão do Universo a partir desse átomo omitem o problema da sua origem. No fim de contas, a esse respeito a ciência não faz declarações mais precisas do que o admirável poema índio: "No intervalo entre a dissolução e a criação, Vishnu-Cesha repousava na sua própria substância, luminoso de energia dormente, entre os gérmenes das vidas futuras".

No que se refere ao nascimento do nosso sistema solar, as hipóteses também são vagas. imaginaram que os planetas teriam brotado de uma explosão parcial do Sol. Um grande corpo astral teria passado perto, arrancando uma parte da substância solar, que se teria dispersado no espaço e como que condensado em planetas. Depois, o grande corpo, o superastro desconhecido, continuando o seu percurso, ter-se-ia perdido no infinito. Imaginaram ainda a explosão de um gémeo do nosso Sol. O professor H.-N. Roussel, resumindo a questão, escreveu com humor: "Até que saibamos como é que a coisa aconteceu, o que há realmente de certo é que o sistema solar se produziu de uma certa maneira".

Quanto a Horbiger, ele pretende saber como a coisa aconteceu. Conhece a explicação definitiva. Numa carta ao engenheiro Willy Ley confirma que essa explicação lhe saltou à vista na juventude. "Tive a revelação, diz ele, quando, jovem engenheiro, observei um dia uma corrente de aço fundido sobre a terra molhada e coberta de neve: a terra explodia com certo atraso e grande violência". É tudo. A partir daí, a doutrina de Horbiger desenvolver-se-á e começará a dar frutos. É a maçã de Newton.

Havia no céu um enorme corpo de alta temperatura, milhões de vezes maior do que o nosso Sol actual. Esse corpo entrou em colisão com um planeta gigante constituído por uma acumulação de gelo cósmico. Essa massa de gelo penetrou profundamente no supersol. Nada se produziu durante centenas de milhares de anos. Depois, o vapor de água fez explodir tudo.

Alguns fragmentos foram projectados tão longe que se perderam no espaço gelado.

Outros tornaram a cair sobre a massa central de onde partira a explosão.

Outros finalmente foram atirados para uma zona média: são os planetas do nosso sistema. Havia trinta. São blocos que a pouco e pouco se cobriram de gelo. A Lua, Júpiter, Saturno são de gelo e os canais de Marte são fendas do gelo. Só a Terra não está inteiramente tomada pelo frio: aí mantém-se a luta entre o gelo e o fogo.

A uma distância igual a três vezes a de Neptuno encontrava-se, no momento dessa explosão, um enorme anel de gelo. E ali se encontra ainda. É o que os astrónomos oficiais teimam em chamar a Via Láctea, porque algumas estrelas semelhantes ao nosso Sol brilham através dele. Quanto às fotografias de estrelas individuais, cujo conjunto daria uma Via Láctea, trata-se de truques fotográficos.

As manchas que se observam no Sol e que mudam de forma e de lugar todos os onze anos continuam inexplicáveis para os sábios ortodoxos. Elas são produzidas pela queda de blocos de gelo que se desagregam de Júpiter. E Júpiter fecha o seu círculo em redor do Sol todos os onze anos.  Na zona média da explosão, os planetas do sistema de que nós fazemos parte obedecem a duas forças:

- A força primeira da explosão, que os afasta;

- A gravitação, que os atrai em direcção da massa mais forte situada nas proximidades.

Estas duas forças não são iguais. A força da explosão inicial vai diminuindo, pois o espaço não está vazio: há uma matéria ténue, feita de hidrogénio e de vapor de água. Além disso, a água que atinge o Sol enche o espaço de cristais de gelo. Assim, a força inicial, de repulsão, acha-se cada vez mais travada. Em contrapartida, a gravitação é constante. É o motivo por que cada planeta se aproxima do planeta mais próximo que o atrai. Aproxima-se dando voltas em redor, ou antes, descrevendo uma espiral que se vai estreitando. Desta forma, mais cedo ou mais tarde, todo o planeta cairá sobre o que estiver mais próximo, e todo o sistema acabará por cair novamente em gelo no Sol. E dar-se-á então uma nova explosão, e um novo recomeço.

Gelo e fogo, repulsão e atracção estão permanentemente em luta no Universo. Essa luta determina a vida, a morte e o perpétuo renascimento do cosmos. Um escritor alemão. Elmar Brugg, escreveu em 1952 uma obra em homenagem a Horbiger, na qual dizia:

"Nenhuma das doutrinas de representação do Universo punham em jogo o princípio de contradição, de luta entre duas forças contrárias, e de que, no entanto, a alma do homem se alimenta há milénios. O mérito imperecível de Horbiger é ter ressuscitado poderosamente o conhecimento intuitivo dos nossos antepassados por meio do conflito eterno do fogo e do gelo, cantado por Edda. Ele expôs esse conflito ante os olhos dos seus contemporâneos. Fundou cientificamente essa imagem grandiosa do mundo ligado ao dualismo da matéria e da força, da repulsão que dispersa e da atracção que torna a reunir".

É então certo: a Lua acabará por cair sobre a Terra. Há um momento, algumas dezenas de milénios, em que a distância
de um planeta a outro parece fixa. Mas poderemos constatar que a espiral se estreita. Pouco a pouco, no decorrer dos tempos, a Lua aproximar-se-á. A força de gravitação que ela exerce sobre a Terra aumentará. Então as águas dos nossos oceanos juntar-se-ão numa maré permanente, e aumentarão de volume, cobrindo as terras, submergindo os trópicos e cercando as mais altas montanhas. Os seres vivos achar-se-ão progressivamente libertos do seu peso. Crescerão. Os raios cósmicos tornar-se-ão mais poderosos. Agindo sobre a génese e os cromossomas provocarão mutações. Ver-se-ão surgir novas raças, animais, plantas
e homens gigantescos.

Depois, ao aproximar-se ainda mais, a Lua explodirá, girando a grande velocidade, e transformar-se-á num imenso anel de rochedos, de gelo, água e gás, girando cada vez mais depressa. Por fim, esse anel cairá sobre a Terra, e então será a Queda, o Apocalipse anunciado. Mas se sobreviverem alguns homens, os mais fortes, os melhores, os eleitos, estar-lhes-ão reservados estranhos e formidáveis espectáculos. E talvez o espectáculo final.

Após milénios sem satélite, durante os quais a Terra terá conhecido extraordinárias imbricações de raças antigas e modernas, civilizações vindas dos gigantes, recomeços para além do Dilúvio e de imensos cataclismos, Marte, mais pequeno do que o nosso globo, acabará por se lhe reunir. Atingirá a órbita da Terra. Mas é demasiado grande para ser capturado, para se tornar, como a Lua, um satélite. Passará muito perto da Terra, roçá-la-á ao cair sobre o Sol, atraído por ele, aspirado pelo fogo. Então a nossa atmosfera achar-se-á de um momento para o outro tragada, arrastada pela gravitação de Marte, e abandonar-nos-á para se perder no espaço. Os oceanos agitar-se-ão aos borbotões à superfície da Terra, lavando tudo, e a crosta terrestre estalará. O nosso globo, morto, continuando a girar em espiral, será apanhado por planetóides gelados que vagueiam pelo céu, e transformar-se-á numa enorme bola de gelo que por sua vez se precipitará sobre o Sol. Após a colisão haverá o grande silêncio, a grande imobilidade, enquanto o vapor de água se acumulará, durante milhões de anos, no interior da massa chamejante. Finalmente haverá uma nova explosão para outras criações na eternidade das forças ardentes do cosmos.

Tal é o destino do nosso sistema solar na visão do engenheiro austríaco que os dignitários nacionais-socialistas chamavam "O Copérnico do século xx". Vamos agora descrever essa visão aplicada à história passada, presente e futura da Terra e dos homens. É uma história que, através dos "olhos de tempestade e batalha" do profeta Horbiger, se assemelha a uma lenda, cheia de revelações fabulosas e formidáveis estranhezas.
 
*

Estava-se em 1948, eu acreditava em Gurdjieff e uma das suas fiéis discípulas convidara-me amavelmente a passar alguns dias em sua casa, com minha família, na montanha. Essa mulher tinha uma grande cultura, uma formação de química, inteligência viva e temperamento firme. Auxiliava os artistas e os intelectuais. Depois de Luc Dietrich e René Daumal, eu viria a contrair em relação a ela uma dívida de reconhecimento. Nada tinha da discípula louca e os ensinamentos de Gurdjieff; que por vezes se instalava em sua casa, penetravam-na através do crivo da razão. No entanto, um dia, apanhei-a, ou julguei apanhá-la em flagrante delito de insensatez. Abriu-me de súbito os abismos do seu delírio, e eu fiquei mudo e aterrado diante dela, como perante uma agonia. Uma noite fria brilhava sobre a neve e nós conversávamos tranquilamente, encostados à varanda da casa. Olhávamos os astros, como os olhamos na montanha, sentindo uma solidão absoluta que noutros sítios é angustiante, mas ali purificante. Os relevos da Lua viam-se nitidamente.

- Seria melhor dizer-se uma lua - disse a minha hospedeira -, uma das luas. . .

- O que quer dizer?

- Houve outras luas no céu. Esta é simplesmente a última...

- O quê?! Teria havido outras luas além desta?

- Decerto. O Sr. Gurdjieff sabe-o, e sabem-no outras pessoas.

- Mas, enfim, os astrónomos...

- Oh!, se acredita em cientistas!..

O seu rosto estava calmo e sorria com um pouco de comiseração. A partir desse dia deixei de me sentir em harmonia com certos amigos de Gurdjieff a quem estimava. Tornaram-se, a meus olhos, seres frágeis e inquietantes e senti que um dos elos que me ligavam a essa família acabava de se romper. Alguns anos mais tarde, ao ler o livro de Gurdjieff As Narrativas de Belzebu, e ao descobrir a cosmogonia de Horbiger, compreendi que aquela visão, ou antes aquela crença, não era uma simples incursão pelo fantástico. Havia uma certa coerência entre essa extraordinária história de luas e a filosofia do super-homem, a psicologia dos "estados superiores da consciência," a mecânica das mutações. Essa história, aliás, encontrava-se nas tradições orientais, bem como a ideia de que existiram homens, há milénios, que puderam observar um céu diferente do nosso, outras constelações, outro satélite.

Não teria Gurdjieff feito mais do que inspirar-se em Horbiger, que certamente conhecia? Ou então ter-se-ia inspirado em fontes antigas de saber, tradições ou lendas, que Horbiger corroborara como que casualmente no decorrer das suas inspirações pseudo-científicas?

Eu ignorava, sobre aquela varanda da casa de montanha, que a minha hospedeira exprimia uma crença que fora a de milhares de homens na Alemanha hitleriana ainda sepultada sob ruínas, nessa hora ainda sangrenta, ainda chamejante, entre os destroços dos seus grandes mitos. E a minha hospedeira naquela noite clara e tranquila, também o ignorava.
 
*

Portanto, na opinião de Horbiger, a Lua, aquela que nós vemos, não passaria do último satélite captado pela terra, o quarto. O nosso globo, no decurso da sua história, já teria captado três. Três massas de gelo cósmico errando no espaço teriam, sucessivamente, alcançado a nossa órbita. Teriam começado a girar em espiral à volta da Terra, aproximando-se, depois ter-se-iam abatido sobre nós. A nossa Lua actual também se precipitará sobre a Terra. Mas, desta vez, a catástrofe será maior, pois este último satélite gelado é maior que os precedentes. Toda a história do globo, a evolução das espécies e toda a história humana encontram a sua explicação nesta sucessão das luas do nosso céu.

Há quatro épocas geológicas, pois houve quatro luas. Estamos no quaternário. Antes de cair, uma lua explode e, girando cada vez mais depressa, transforma-se num anel de rochedos de gelo e de gás. É esse anel que cai sobre a Terra, recobrindo em círculo a crosta terrestre e fossilizando tudo o que fica por baixo. Os organismos enterrados não se fossilizam em período normal: apodrecem. Só se fossilizam no momento em que cai uma lua. Eis o motivo por que nos foi possível recensear uma época primária, uma época secundária e uma época terciária. No entanto, como se trata de um anel, só possuímos testemunhos muito fragmentários a respeito da história da vida sobre a Terra. Ao longo dos tempos puderam nascer e desaparecer outras espécies animais e vegetais, sem que delas ficassem vestígios nas camadas geológicas. Mas a teoria das luas sucessivas permite imaginar as modificações sofridas no passado pelas formas vivas. Permite igualmente prever as modificações futuras.

Durante o período em que o satélite se aproxima, há um momento de algumas centenas de milhares de anos em que ele gira em volta da Terra a uma distância de quatro a seis raios terrestres. Em comparação com a distância da nossa Lua actual está ao alcance da mão. A gravitação está portanto consideravelmente alterada. Ora é a gravitação que dá aos seres o seu  tamanho. Eles só aumentam de tamanho em função do peso que podem suportar.

No momento em que o satélite está próximo há portanto um período de gigantismo.

No final do primário: os vegetais imensos, os insectos gigantescos.

No final do secundário: os diplódocos, os iguanodontes, os animais de trinta metros. Produzem-se mutações bruscas, pois os raios cósmicos são mais poderosos. Os seres, libertos do seu peso, erguem-se, as caixas cranianas dilatam-se, os animais começam a voar. talvez tenham aparecido, no final do segundo período, mamíferos gigantescos. E talvez os primeiros homens criados por mutação. Seria preciso situar esse período no final[2] do secundário, no momento em que a segunda lua gira nas proximidades do globo, há cerca de quinze milhões de anos. É a era do nosso antepassado, o gigante. Madame Blavatsky, que pretendia ter recebido comunicação do Livro dos Dzyan, texto que seria o mais antigo da humanidade e contaria a história das origens do homem, afirmava igualmente que uma primeira raça humana, gigantesca, teria surgido no secundário: "O homem secundário será descoberto um dia, e com ele as suas civilizações há muito submersas".

Numa noite dos tempos infinitamente mais espessa do que nós o imaginamos, eis portanto, sob uma lua diferente, num mundo de monstros, esse primeiro homem que mal se nos assemelha e cuja inteligência é diferente da nossa. O primeiro homem, e talvez o primeiro par humano, gémeos expulsos de uma matriz animal por um prodígio das mutações que se multiplicam quando os raios cósmicos são gigantescos. O Génesis diz-nos que os descendentes desse antepassado viviam entre quinhentos a novecentos anos: é que o alívio de peso diminui o desgaste do organismo. Ele não nos fala de gigantes,   mas as tradições judaicas e muçulmanas compensam abundantemente essa omissão. Enfim, os discípulos de Horbiger afirmam que fósseis do homem secundário teriam sido descobertos recentemente na Rússia.

Quais teriam sido as formas de civilizações do gigante há quinze milhões de anos? Imaginam-se assembleias e maneiras de ser decalcadas sobre os insectos gigantes vindos do primário e de que os nossos insectos de hoje, ainda muito estranhos, são os descendentes degenerados. Imaginam-se grandes poderes de comunicação à distância, civilizações fundadas sobre o modelo das centrais de energia psíquica e material que formam por exemplo as termiteiras, as quais põem ao observador tantos problemas perturbantes acerca dos domínios desconhecidos das infra-estruturas - ou das superestruturas - da inteligência.
 
*
 
Essa segunda lua vai ainda aproximar-se, explodir em anel e cair sobre a Terra, que sofrerá um novo e longo período sem satélite. Nos espaços longínquos, uma formação glaciária em espiral alcançará a órbita da Terra, que desta forma captará uma nova lua. Mas, durante esse período em que nenhuma grande bola brilhará sobre as cabeças, só sobrevivem alguns espécimes das mutações que se produziram no final do secundário e que vão subsistir diminuindo de tamanho. Há ainda gigantes que se adaptam. Quando a lua terciária aparece já se formaram homens vulgares, mais pequenos, menos inteligentes: os nossos verdadeiros antepassados. Mas os gigantes oriundos do secundário têm atravessado os cataclismos, ainda existem, e são eles que vão civilizar os pequenos homens.

A ideia de que os homens, partindo da bestialidade e da selvajaria, evoluíram lentamente até à civilização é uma ideia recente. É um mito judaico-cristão, imposto às consciências para expulsar um mito mais poderoso e mais revelador. Quando a humanidade estava mais fresca, mais perto do seu passado, no tempo em que nenhuma conspiração bem urdida a expulsara ainda da sua própria memória, ela sabia que descendia dos deuses, dos reis gigantes que lhe tinham ensinado tudo. Lembrava-se de uma idade de ouro em que os superiores, nascidos antes dela, lhe ensinavam a agricultura, a metalurgia, as artes, as ciências e o manejo da Alma. Os gregos evocavam a época de Saturno e o reconhecimento que os seus antepassados votavam a Hércules. Os egípcios e os mesopotâmios conservavam as lendas dos reis gigantes iniciadores. As povoações a que nós hoje chamamos "primitivas", os indígenas do Pacífico, por exemplo, juntam à sua religião, sem dúvida adulterada, o culto dos bons gigantes do princípio do Mundo. Na nossa época, em que todos os dados do espírito e do conhecimento foram alterados, os homens que realizaram o tremendo esforço de escapar às formas de pensar estabelecidas tornam a encontrar, na origem da sua inteligência, a nostalgia dos tempos felizes da alvorada dos séculos, de um paraíso perdido, a recordação velada de uma iniciação primordial.

Da Grécia à Polinésia, do Egipto ao México e à Escandinávia, todas as tradições dizem que os homens foram iniciados por
gigantes. É o período de ouro do terciário, que dura vários milhões de anos durante os quais a civilização moral, espiritual e talvez técnica atinge o seu apogeu sobre o globo. Quando os gigantes ainda estavam misturados aos homens.

*

A lua terciária, cuja espiral se estreita, reaproxima-se da Terra. As águas sobem, aspiradas pela gravitação do satélite, e os homens, há mais de novecentos mil anos, sobem para os mais altos cumes montanhosos com os gigantes, seus reis. Sobre esses cumes, por sobre os oceanos revoltados que formam um anel em redor da Terra, os homens e os seus Superiores vão fundar uma civilização marítima mundial na qual Horbiger e o seu discípulo inglês Bellamy vêem a civilização atlântida.

Bellamy assinala, nos Andes, a quatro mil metros, vestígios de sedimentos marinhos que se prolongam durante setecentos quilómetros. As águas do final do terciário chegavam até ali e um dos centros civilizados desse período teria sido Tiahuanaco, perto do lago Titicaca. As ruínas de Tiahuanaco testemunham uma civilização centenas de vezes milenária, e que em nada se assemelha às civilizações posteriores[3]. Os vestígios dos gigantes ali estão, para os horbigerianos, visíveis, assim como os seus inexplicáveis monumentos. Ali se encontra, por exemplo, uma pedra de nove toneladas, entalhada com seis chanfraduras de três metros de altura, as quais continuam incompreensíveis para os arquitectos, como se o seu papel tivesse sido esquecido depois por todos os construtores da história. Pórticos com três metros de altura e quatro de largura, talhados numa pedra única, com portas, janelas falsas e esculturas talhadas a cinzel, pesando no conjunto dez toneladas. Lanços de muros, ainda de pé, pesam sessenta toneladas, e são sustentados por blocos de grés de cem toneladas, enterrados na terra como cunhas. Entre essas ruínas fabulosas erguem-se estátuas gigantescas de que só uma foi retirada e colocada no jardim do Museu de La Paz. Tem oito metros de altura e pesa vinte toneladas. tudo convida os horbigerianos a ver nessas estátuas retratos de gigantes, executados por eles próprios.

"Das feições do rosto chega a nossos olhos, e mesmo até ao nosso coração, uma expressão de soberana bondade e soberana sabedoria. Uma harmonia de todo o ser emana do conjunto do colosso, cujas mãos e o corpo maravilhosamente estilizados são concebidos com um equilíbrio que tem uma qualidade moral. Emana do maravilhoso monolítico tranquilidade e paz. Se ele representa o retrato de um dos reis gigantes que governaram esse povo, não se pode deixar de pensar neste princípio de frase de Pascal: "Se Deus nos desse mestres das suas mãos..."

Entre essas esculturas figuram estilizações de um animal, o todoxon, cujos ossos foram descobertos nas ruínas de Tiahuanaco. Ora nós sabemos que o todoxon só pôde viver no terciário. Finalmente, nessas minas que teriam precedido em cem mil anos o final do terciário, enterrado no lodo ressequido, há um pórtico de dez toneladas cujas decorações foram estudadas pelo arqueólogo alemão Kiss, discípulo de Horbiger, entre 1928 e 1937. Tratar-se-ia de um calendário realizado segundo as observações dos astrónomos do terciário. Esse calendário exprime dados científicos rigorosos. É dividido em quatro partes separadas pelos solstícios e os equinócios que marcam as estações astronómicas. Cada uma dessas estações é por sua vez dividida em três secções, e nessas doze subdivisões a posição da Lua é visível para cada hora do dia. Além disso, os dois movimentos do satélite, o seu movimento aparente e o seu movimento real, tendo em consideração a rotação da Terra, estão indicados nesse fabuloso pórtico esculpido, de tal forma que somos levados a pensar que os realizadores e os utilizadores tinham uma cultura superior à nossa.

Tiahuanaco, a mais de quatro mil metros nos Andes, era portanto uma das cinco grandes cidades da civilização marítima do fim do terciário, construídas pelos gigantes condutores de homens. Os discípulos de Horbiger vêem nela os vestígios de um grande porto, com os seus cais enormes, de onde os atlantas, visto que se trata sem dúvida da Atlântida, partiam, a bordo de naus aperfeiçoadas, para dar a volta ao Mundo pela orla dos oceanos e tomar contacto com os outros quatro grandes centros: Nova Guiné, México, Abissínia, Tibete. Portanto essa civilização ter-se-ia estendido a todo o globo, o que explica as semelhanças entre as mais antigas tradições recenseadas da humanidade.

No extremo grau da unificação, do refinamento dos conhecimentos e dos meios, os homens e os seus reis gigantes sabem que a espiral dessa terceira lua se estreita e que o satélite cairá finalmente, mas eles têm consciência das relações de todas as coisas no cosmos, das afinidades mágicas do ser com o Universo, e servem-se sem dúvida de certos poderes, certas energias, individuais e sociais, técnicas e espirituais, para retardar o cataclismo e prolongar essa era atlantidiana, cuja recordação esfumada se manterá através dos milénios.
 
*

Quando a lua terciária cair, as águas baixarão bruscamente, mas as alterações precursoras já terão danificado essa civilização. Os oceanos tendo já baixado de nível, as cinco grandes cidades, entre as quais essa Atlântida dos Andes, desaparecerão, isoladas, asfixiadas pela queda das águas. Os vestígios são mais nítidos em Tiahuanaco, mas os horbigerianos descobrem-nos noutros sítios.

No México, os Tolteques deixaram textos sagrados que descrevem a história da Terra de acordo com a tese de Horbiger.  Na Nova Guiné, os indígenas malekula continuam, sem saberem muito bem o que fazem, a erigir imensas pedras esculpidas com mais de dez metros de altura, que representam o antepassado superior, e a sua tradição oral, que faz da Lua a criadora do género humano, anuncia a queda do satélite.

Da Abissínia teriam vindo os gigantes mediterrâneos após o cataclismo, e a tradição faz desse altiplano o berço do povo judeu e a pátria da rainha do Sabá, detentora das antigas ciências.

Por fim, sabe-se que o Tibete é um reservatório de antiquíssimos conhecimentos baseados no psiquismo. Surgindo como que para confirmar a visão dos horbigerianos, em 1957 apareceu em Inglaterra e em França um curioso trabalho. Essa obra, intitulada Le Troisième euil (o Terceiro Olho), é assinada por Lobsang Rampa. O autor afirma ser um lama que atingiu o último grau de iniciação. Podia dar-se o caso de ser um dos alemães enviados em missão especial ao Tibete pelos chefes nazis[4]. Descreve a sua descida, sob a orientação de três grandes  metafísicos, a uma cripta de Lassa onde residiria o verdadeiro  segredo do Tibete.

"Vi três túmulos de pedra negra decorados com gravuras e inscrições curiosas. Não estavam fechados. Ao olhar para o  interior perdi o fôlego.

"- Olha, meu filho - disse-me o decano dos Abades. Eles viviam como deuses no nosso país, na época em que ainda não havia montanhas. Percorriam as nossas terras quando os mares banhavam as nossas margens e outras estrelas brilhavam no nosso céu. Olha bem, pois só os iniciados os viram.

"Obedeci, e sentia-me a um tempo fascinado e aterrado. Três corpos nus, cobertos de ouro, estavam estendidos sob os meus olhos. Cada uma das suas feições era fielmente reproduzida pelo ouro. Mas eram imensos! A mulher media mais de três metros e o maior dos homens não menos de cinco. Tinham cabeças grandes, ligeiramente cónicas na parte superior, maxilar  estreito, boca pequena e lábios finos. O nariz era longo e afilado, os olhos direitos e profundamente encovados... Examinei a tampa de um dos túmulos. Um mapa dos céus, com estrelas muito estranhas, ali estava gravado.

Os jornais ingleses, na altura da publicação de O Terceiro Olho, interrogaram-se a respeito da personalidade dissimulada sob o nome de Lobsang Rampa, sem terem conseguido chegar a uma conclusão, devido aos serviços de informação oficiais nada dizerem. Ou se trata de um autêntico lama iniciado, dizendo-se o autor filho de um dos altos dignitários do antigo governo  de Lassa, e portanto obrigado a disfarçar o nome, ou então de um dos alemães das missões tibetanas realizadas entre 1928 e o final do regime hitleriano. Neste caso, dá provas de estar de posse, ou de autênticas descobertas, ou de conceitos transmitidos, ou de teses horbigerianas e nacionais-socialistas às quais dá uma ilustração fantástica. No entanto é preciso notar que não pôde ser dado pelos especialistas do Tibete qualquer desmentido categórico ao conjunto das suas "revelações".

E escreve ainda, após essa descida à cripta:

"Outrora, há milhares e milhares de anos, os dias eram mais curtos e mais quentes. Edificaram-se civilizações grandiosas e os homens eram mais sábios do que na nossa época. Do espaço exterior surgiu um planeta que embateu obliquamente na Terra. Os mares foram agitados por ventos e, sob o impulso de pressões de gravitações diversas, alagaram as terras. A água cobriu o Mundo, que foi sacudido por tremores de terra, e o Tibete deixou de ser um país quente, uma estação marítima."
 
*

Bellamy, arqueólogo horbigeriano, descobre em redor do lago Titicaca os vestígios das catástrofes que precederam a queda da lua terciária: cinzas vulcânicas, depósitos provenientes de inundações repentinas. É o momento em que o satélite vai estoirar em anel e girar loucamente muito perto da Terra antes de cair. Em volta de Tiahuanaco há ruínas que evocam estâncias subitamente abandonadas, utensílios dispersos. A alta civilização atlantidiana sofre, durante alguns milhares de anos, os ataques dos elementos, e vai-se esterilizando. Depois, há cento e cinquenta mil anos, o grande cataclismo produz-se, a lua cai, a terra é atingida por um pavoroso bombardeamento. A atracção cessa, a orla dos oceanos desce de repente, os mares retiram-se, baixam novamente. Os cumes que eram grandes estações marítimas acham-se isolados até ao infinito por pântanos. O ar rarifica-se, o calor desaparece. A Atlântida não morre submersa, mas, pelo contrário, abandonada pelas águas. Os navios são arrastados e destruídos, as máquinas extinguem-se ou explodem, os alimentos que vinham do exterior faltam, a morte absorve miríades de seres, os sábios e as ciências desapareceram, a organização social é destruída. Se a civilização atlantidiana tinha atingido o mais alto grau possível de perfeição social e técnica, de hierarquia e unificação, pôde volatilizar-se num ápice, sem quase deixar vestígios. Imagine-se o que poderia ser a destruição da nossa própria civilização dentro de algumas centenas de anos, ou mesmo de alguns anos. Os instrumentos emissores de energia, assim como os instrumentos transmissores, simplificam-se cada vez mais e os difusores multiplicam-se. Dentro em breve cada um de nós possuirá difusores de energia nuclear, por exemplo, ou viverá nas proximidades desses difusores: fábricas ou máquinas, até ao dia em que bastará um acidente no manancial para que tudo se volatilize ao mesmo tempo sobre a imensa cadeia desses difusores: homens, cidades, nações. O que seria poupado seria justamente o que não tem contacto com essa alta civilização técnica. E as ciências-chaves, da mesma forma que as chaves do poder, desapareceriam de um golpe, devido justamente ao extremo grau das especializações. São as mais perfeitas civilizações que desaparecem de um momento para o outro, sem nada transmitirem. Essa visão é irritante para o espírito, mas é muito provável que seja verdadeira. Desta forma pode supor-se que as centrais e as difusoras da energia psíquica, que estava talvez na base da civilização do terciário, explodem de uma só vez, enquanto descampados de lodo cercam esses cumes agora esfriados e onde a atmosfera se torna irrespirável. Mais simplesmente, a civilização marítima, com os seus Superiores, os seus navios, os seus contactos, desaparece no meio do cataclismo.

Resta aos sobreviventes descer em direcção às planícies pantanosas que o mar acaba de deixar a descoberto, às turfeiras do novo continente, mal liberto ainda pela retirada das águas tumultuosas, e onde só dentro de milénios aparecerá uma vegetação utilizável. Os reis gigantes estão no fim do seu reinado; os homens tornaram-se outra vez selvagens, e mergulham com os seus últimos deuses em decadência nas profundas noites sem lua que o globo irá conhecer.
 
*

Os gigantes que, desde há milhões de anos, habitavam este Mundo, semelhantes aos deuses que povoarão mais tarde as nossas lendas, perderam a sua civilização. Os homens sobre os quais reinavam tornaram-se novamente uns brutos. Essa humanidade caída, atrás dos seus mestres já sem poder, dispersa-se em bandos pelos desertos de lodo. Essa queda dataria de há cento e cinquenta mil anos, e Horbiger cALcUla que o nosso globo se manteve sem satélite durante cento e trinta e oito mil anos. Durante esse enorme período renascem civilizações sob o comando dos últimos reis gigantes. Estabelecem-se em planícies elevadas, entre o quadragésimo e o sexagésimo grau de latitude norte, ao passo que sobre os cinco altos cumes do terciário se mantém qualquer coisa da longínqua idade do ouro. Teriam existido portanto duas Atlântidas: a dos Andes, brilhando sobre o Mundo, com os seus quatro outros pontos. E a do Atlântico Norte, muito mais modesta, fundada muito tempo após a catástrofe pelos descendentes dos gigantes. Esta tese das duas Atlântidas permite integrar todas as tradições e antigas narrativas. É dessa segunda Atlântida que Platão fala.

Há doze mil anos, a Terra captou um quarto satélite: a nossa Lua actual. Uma nova catástrofe se produz. O nosso globo toma a sua forma levemente inchada nos trópicos. Os mares do Norte e do Sul retrocedem para o Equador e as eras glaciárias recomeçam ao Norte, sobre as planícies descarnadas pelas correntes de ar e de água da Lua iniciante. Então a segunda civilização atlantidiana, mais pequena que a primeira, desaparece numa noite, tragada pelas águas do Norte. É o Dilúvio de que fala a nossa Bíblia. É a Queda de que se recordam os homens expulsos ao mesmo tempo do paraíso terrestre dos trópicos. Para os horbigerianos, os mitos do Génesis e do Dilúvio são simultaneamente recordações e profecias, visto que os acontecimentos cósmicos se reproduzirão. E o texto do Apocalipse, que nunca foi explicado, seria uma fiel tradução das catástrofes celestes e terrestres observadas pelos homens no decorrer dos tempos, e conformes com a teoria horbigeriana.

Neste novo período de lua alta, os gigantes vivos degeneram. As mitologias estão cheias de lutas de gigantes entre si, de combates entre homens e gigantes. Aqueles que tinham sido reis e deuses, esmagados agora pelo peso do céu, esgotados, tornam-se monstros que é preciso expulsar. Caem tanto mais baixo quanto tinham subido mais alto. São os ogros das lendas. úrano e Saturno devoram os filhos. David mata Golias. Vêem-se, como diz Vítor Hugo:

... horríveis gigantes muito estúpidos vencidos por anões cheios de espírito É a morte dos deuses. Os hebreus, quando atingirem a Terra Prometida, descobrirão a cama de ferro monumental de um rei gigante desaparecido:

"E vede, o seu leito era de ferro, com nove côvados de comprimento e quatro de largura" (Deuteronómio).

O astro de gelo que ilumina as nossas noites foi captado pela Terra e gira a volta dela. A nossa Lua nasceu há doze mil anos e de então para cá não cessámos de lhe render um culto vago, carregado de inconscientes recordações, de lhe prestar uma inquieta atenção de que não compreendemos muito bem o sentido. Não deixamos de sentir, ao contemplá-la, qualquer coisa que se agita no fundo da nossa memória, mais vasta que nós próprios. Os antigos desenhos chineses representam o dragão lunar ameaçando a Terra. Lê-se nos Números (XIII, 3j): "E, além, vimos os gigantes, os filhos de Anak que descendem dos gigantes, e sentíamo-nos diante deles como gafanhotos - e aos olhos deles nós éramos como gafanhotos." E Jo (vI, 5) evoca a destruição dos gigantes e exclama: "Os seres mortos estão debaixo de água, e os antigos habitantes da Terra..."

Um mundo está submerso, um mundo desapareceu, os antigos habitantes da Terra sumiram-se, e nós iniciámos a nossa vida de homens isolados, de pequenos homens abandonados, na expectativa das mutações, dos prodígios e dos cataclismos futuros, numa nova noite dos tempos, sob esse novo satélite que vem até nós dos espaços onde se perpetua a luta entre o gelo e o fogo.

Um pouco por toda a parte, os homens repetem como cegos os gestos das civilizações extintas, erguem sem já saber porquê monumentos gigantescos, repetindo, em degenerescência, os trabalhos dos mestres antigos: são os imensos megálitos de Malékula, os menires célticos, as estátuas da ilha de Páscoa. Povoações a que hoje chamamos "primitivas" não passam, provavelmente, de restos degenerados de impérios desaparecidos, que repetem sem os compreender, e abastardando-os, actos outrora determinados por administrações racionais.

Em certos países, no Egipto, na China, muito mais tarde na Grécia, erguem-se grandes civilizações humanas, mas que se recordam dos Superiores desaparecidos, dos reis gigantes iniciadores. Após quatro mil anos de cultura, os egípcios do tempo de Heródoto e de Platão continuam a afirmar que a grandeza dos Antigos é devida ao facto de terem aprendido as suas artes e as suas ciências directamente dos deuses.

Após múltiplas degenerescências, outra civilização vai nascer no Ocidente. Uma civilização de homens separados do seu passado fabuloso, limitando-se no tempo e no espaço, reduzidos a si próprios e procurando consolações míticas, exilados das suas origens e inconscientes da imensidade do destino das coisas vivas, ligado aos vastos movimentos cósmicos. Uma civilização humana humanista: a civilização judaico-cristã. É minúscula. É residual. E no entanto esse resíduo da grande alma passada tem possibilidades ilimitadas de dor e entendimento. É o que constitui o milagre dessa civilização. Mas está no fim. Aproximamo-nos de outra era. Vão produzir-se mutações. O futuro vai dar novamente a mão ao passado mais recuado. A Terra verá novamente gigantes. Haverá outros dilúvios, outros apocalipses, e outras raças governarão. "A princípio guardámos uma recordação relativamente clara do que havíamos visto. Depois, esta vida actual ergueu-se em volutas de fumo e obscureceu rapidamente todas as coisas, à excepção de algumas grandes linhas gerais. Presentemente, tudo nos volta ao espírito com maior clareza do que nunca. E no Universo, onde tudo se repercute sobre tudo, produziremos profundas vagas".
 
*

Tal é a tese de Horbiger e tal é o clima espiritual que ela propaga. Esta tese é um poderoso fermento da magia nacional-socialista, e evocaremos mais adiante os seus efeitos sobre os acontecimentos. Ela vem acrescentar súbitas revelações às intuições de Haushoffer, dá asas ao pesado trabalho de Rosenberg, precipita e prolonga as inspirações do Führer.

Segundo Horbiger, estamos portanto no quarto ciclo. A vida sobre a Terra conheceu três apogeus, durante os três períodos de luas baixas, com mutações bruscas, aparições gigantescas. Durante os milénios sem lua surgiram as raças anãs e sem prestígio e os animais que rastejam, como a serpente que recorda a Queda. Durante as luas altas, as raças medianas, sem dúvida os homens comuns do terciário, os nossos antepassados. É ainda preciso lembrar que as luas, antes da sua derrocada, giram em círculo à volta da Terra, criando condições diferentes nas partes do globo que não estão sob esse circuito. De forma que, após vários ciclos, a Terra oferece um espectáculo variado: raças em decadência, raças em evolução, seres intermédios, degenerados e aprendizes do futuro, anunciadores das mutações a vir e escravos de ontem, anões das antigas noites e Senhores de amanhã. Precisamos de distinguir no meio de tudo isso os caminhos do sol com um olhar tão implacável quão implacável é a lei dos astros. O que se produz no céu determina o que se produz sobre a Terra, mas há reciprocidade. Como o segredo e a ordem do Universo residem o menor grão de areia, o movimento dos milénios está contido, de certa maneira, no curto espaço da nossa passagem pelo globo e nós devemos, na nossa alma individual assim como na nossa alma colectiva, repetir as quedas e as ascensões passadas, e preparar os apocalipses e elevações futuras.Nós sabemos que toda a história do cosmos reside na luta entre o gelo e o fogo e que essa luta tem poderosos reflexos neste mundo. No plano humano, no plano dos espíritos e dos corações, quando o fogo não é alimentado, vem o gelo. Sabemo-lo por nós próprios e pela humanidade inteira que está eternamente colocada perante a escolha do dilúvio e da epopeia.

Eis a base do pensamento horbigeriano e nazi. Vamos agora estudar as suas consequências.




1 Philipp Fauth nasceu a 19 de Março de 1867 e morreu a 4 de Janeiro de 1941. Engenheiro e construtor de máquinas, as suas investigações sobre a Lua deram-lhe uma certa notoriedade: traçara dois mapas da Lua, e uma cratera dupla, ao sul da cratera de Copérnico, tem o nome de Fauth por decisão da União Internacional de 1935. Foi nomeado professor em 1939, por medida especial do Governo nacional-socialista.

2 Nos tempos em que ninguém falava escreve Vítor Hugo com intuição extraordinária.

3 O arqueólogo alemão Von Hagen, autor de um trabalho publicado em francês sob o título Au royaume des Incas (Plon, 1950), recolheu perto do lago Titicaca uma tradição oral dos Índios locais segundo a qual "Tiahuanaco foi construída antes que as estrelas existissem no céu". homens, se as esculturas de uma extrema abstracção, de uma estilização tão avançada que confunde a nossa própria inteligência, foram na verdade executadas por esses Superiores, nelas encontramos a origem dos mitos segundo os quais as artes foram concedidas aos homens por deuses, e a chave das diversas místicas da inspiração estética.

4 Voltaremos a referir-nos demoradamente às estranhas relações mantidas por Hitler e os seus íntimos com o Tibete.


5 Há que notar que foi descoberto numa caverna do Bohistão, na base do Himalaia, um mapa do céu muito diferente dos mapas oficiais de hoje. Os astrónomos são de opinião que se trata de observações que podem ter sido feitas há treze mil anos. Esse mapa foi publicado pelo National Geographical Magazine, em 1925.



Quer publicar seu texto no Morte Súbita inc? Envie para nós.