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siga a estrada de tijolos amarelos: Sociedades Secretas & Conspirações Textos Conspiracionais Despertar dos Mágicos Alguns Anos no "Algures" Absoluto - Capítulo VIII

Alguns Anos no "Algures" Absoluto - Capítulo VIII


Louis Pauwels e Jacques Bergier

A Terra é côncava. - Vivemos no interior. - O Sol e a Lua estão no centro da Terra. - O radar ao serviço dos magos. - Uma religião nascida na América. - O seu profeta alemão era aviador. - O anti-Einstein. - Um trabalho de louco. - A terra côncava, os satédites artificiais e os alérgicos à noção do infinito. - Uma arbitragem de Hitler. - Para além da coerência.
 
Estamos em Abril de 1942. A Alemanha lança todas as suas forças na guerra. Nada, segundo parece, poderia afastar os técnicos, os sábios e os militares da sua tarefa imediata. No entanto uma expedição organizada, com a concordância de Goering, Himmler e Hitler, deixa o Reich em grande segredo. Os membros dessa expedição são alguns dos melhores especialistas do radar. Sob a orientação do doutor Heinz Fisher, conhecido pelos seus trabalhos sobre os raios infravermelhos, desembarcam na ilha báltica de Rügen. Tinham-nos munido dos mais aperfeiçoados aparelhos de radar. No entanto, esses aparelhos ainda são raros nessa época e estão divididos pelos pontos nevrálgicos da defesa alemã. Mas as observações a que se vão dedicar na ilha de Rügen são consideradas, pelo alto estado-maior da marinha, capitais para a ofensiva que Hitler prepara sobre todas as frentes.

Assim que chega, o doutor Fisher manda apontar os radares para o céu, sob um ângulo de 45 graus. Aparentemente, nada há a revelar na direcção escolhida. Os outros membros da expedição supõem que se trata de uma experiência. Ignoram o que esperam deles. O objectivo das investigações ser-lhes-á revelado mais tarde. Constatam, intrigados, que os radares continuam apontados durante vários dias. É então que recebem a seguinte notícia: o Führer tem bons motivos para supor que a Terra não é convexa, mas côncava. Nós não habitamos o exterior do globo, mas o interior. A nossa posição é comparável à de moscas a caminharem no interior de uma bola. O objectivo da expedição é demonstrar cientificamente essa verdade. Por reflexão de ondas de radar propagando-se em linha recta obter-se-ão imagens de pontos extremamente afastados no interior da esfera. O segundo objectivo da expedição é obter por reflexão imagens da armada inglesa ancorada em Scapaflow.

Martin Gardner narra essa louca aventura da ilha de Rügen no seu livro In the name of Science. O próprio doutor Fisher viria a referir-se-lhe, depois da guerra. O professor Gerard S. Kuiper, do observatório do monte Palomar, consagrou, em 1946, uma série de artigos à doutrina da Terra oca que presidira a essa expedição. Escrevia ele em Popular Astronomy: "Personalidades importantes da marinha alemã e da aviação acreditavam na teoria da Terra oca. Pensavam especialmente que ela seria útil para marcar a posição exacta da armada inglesa, visto que a curvatura côncava da Terra permitiria observar a grande distância, por intermédio dos raios infravermelhos, menos curvos que os raios visíveis." O engenheiro Willy Ley narra os mesmos factos no seu estudo de Maio de 1947: Pseudociências entre os Nazis.

É extraordinário, mas autêntico: altos dignitários nazis, peritos militares negaram pura e simplesmente o que parece uma evidência para uma criança do nosso mundo civilizado, como seja que a Terra é uma bola cheia e que nós estamos à superfície. Por cima de nós, pensa a criança, estende-se um Universo infinito, com as suas miríades de estrelas e as suas galáxias. Por baixo de nós estão os rochedos. Quer seja francesa, inglesa, americana ou russa, nesse ponto a criança está de acordo com a ciência oficial e também com as religiões e as filosofias admitidas. As nossas morais, as nossas artes, as nossas técnicas baseiam-se nessa visão que a experiência parece verificar. Se procuramos aquilo que melhor pode assegurar a unidade da civilização moderna, é na cosmogonia que o encontraremos. Sobre o essencial, quer dizer, sobre a situação do homem e da Terra no Universo, estamos todos de acordo, quer sejamos marxistas ou não. Só os nazis não estavam de acordo.

Para os partidários da Terra oca que organizaram a famosa expedição paracientífica da ilha de Rügen, habitamos no interior de uma bola presa numa grande quantidade de rochedo que vai até ao infinito. Vivemos agarrados sobre a superfície côncava. O céu está no centro dessa bola: é uma massa de gás azulada, com pontos de luz brilhante que tomamos por estrelas. Ali só há o Sol e a Lua, mas infinitamente mais pequenos do que dizem os astrónomos ortodoxos. O Universo limita-se a isso. Estamos sós, e envolvidos por rochedos.

Vamos ver como nasceu essa visão das lendas, da intuição e da imaginação. Em 1942, uma nação comprometida numa guerra na qual a técnica é soberana pede à ciência que alimente a mística, à mística que enriqueça a técnica. O doutor Fisher, especialista do infravermelho, recebe como missão a ordem de pôr o radar ao serviço dos magos.

Quer em Paris, quer em Londres, nós temos os nossos pensadores excêntricos, os nossos descobridores de cosmogonias extravagantes, os nossos profetas de toda a espécie de fantasias. Escrevem opúsculos, frequentam as lojas dos velhos livreiros, cavaqueiam em Hyde Park ou na "Sala de Geografia" do boulevar Saint-Germain. Na Alemanha hitleriana vemos pessoas dessa espécie mobilizar as forças da nação e a aparelhagem técnica de um exército em guerra. Vemo-las influenciar os altos estados-maiores, os chefes políticos, os sábios. É que estamos em presença de uma civilização completamente nova, baseada no desprezo pela cultura clássica e pela razão. Nessa civilização, a intuição, a mística, a inspiração poética são colocadas exactamente no mesmo plano que a investigação científica e o conhecimento racional. "Quando oiço falar de cultura pego no meu revólver", diz Goering. Esta frase terrível tem dois sentidos: o literal, onde se vê Goering-Ubu partir a cabeça aos intelectuais, e um sentido mais profundo e também mais verdadeiramente prejudicial àquilo a que chamamos a cultura, onde se vê Goering atirar balas explosivas que são a cosmogonia horbigeriana, a doutrina da Terra oca ou a mística do grupo Tule.
 
*

A doutrina da Terra oca nasceu na América no princípio do século xIx. A 10 de Abril de 1818, todos os membros do Congresso dos Estados Unidos, os directores das Universidades e alguns grandes sábios receberam a seguinte carta:

"São-Luís, Território do Missouri
América do Norte
10 de Abril

"Ao mundo inteiro,
Declaro que a Terra é oca e habitável interiormente. Ela contém diversas esferas sólidas, concêntricas, colocadas uma dentro da outra, e é aberta no pólo de 12 a 16 graus. Comprometo-me a demonstrar a realidade do que afirmo e estou pronto a explorar o interior da Terra se o mundo aceita auxiliar-me no meu empreendimento.

JNO. CLEVES SYMNES,
antigo capitão de infantaria de Ohio."
 
Sprague de Camp e Willy Ley, na sua bela obra Do Atlântico ao Eldorado, resumem da seguinte forma a teoria e a aventura do antigo capitão de infantaria:

"Symnes afirmou, visto tudo ser oco neste mundo, tanto os ossos como os cabelos, os caules das plantas, etc., que os planetas também o eram e que no caso da Terra, por exemplo, podiam distinguir-se cinco esferas colocadas umas no interior das outras, todas habitáveis, tanto no interior eomo no exterior e todas equipadas com vastas aberturas polares pelas quais os habitantes de cada esfera podem ir de qualquer ponto do interior para outro, ou para o exterior, como uma formiga que percorresse o interior e depois o exterior de uma taça de porcelana... Symnes organizava as suas tournées de conferências como se fossem campanhas eleitorais. Quando morreu deixou montões de notas e provavelmente o pequeno modelo de madeira do globo de Symnes, que se encontra actualmente na Academia das Ciências Naturais de Filadélfia. Seu filho, Americ Vespucius Symnes, era um dos seus adeptos e tentou, sem êxito, reunir essas notas num trabalho coerente. Acrescentou uma suposição segundo a qual, depois de os tempos mudarem, as Dez Tribos perdidas de Israel seriam descobertas, vivendo provavelmente no interior da mais exterior das esferas."

Em 1870, outro americano, Cyrus Read Teed, proclama por sua vez que a Terra é oca. Teed era um espírito de grande erudição, especializado no estudo da literatura alquímica. Em 1869 na altura em que trabalhava no seu laboratório e meditava sobre os Livros de Isaías, tivera uma inspiração. Compreendera que habitamos, não sobre a Terra, mas no interior. Como essa visão vinha dar crédito a antigas lendas, criou uma espécie de religião e divulgou a sua doutrina fundando um pequeno jornal: A Espada de Fogo. Em 1894 reunira mais de quatro mil fanáticos. A sua religião chamava-se o Koresháme. Morreu em 1908, depois de anunciar que o seu cadáver não entraria em putrefacção. Mas os seus adeptos tiveram de o mandar embalsamar ao fim de dois dias.
 
Essa ideia da Terra oca está ligada a uma tradição que se encontra em todas as épocas e em todos os locais. As mais antigas obras de literatura religiosa falam de um mundo separado, situado sob a crosta terrestre e que seria a morada dos mortos e dos espíritos. Quando Gilgamesh, herói lendário dos antigos Sumerianos e das epopeias babilónicas, vai visitar o seu antepassado Utnapishtim, desce às entranhas da Terra, e é ali também que Orfeu vai procurar a alma de Eurídice. Ulisses, ao atingir os limites do Ocidente, oferece um sacrifício a fim de que os espíritos dos antigos saiam das profundezas da Terra e o aconselhem. Plutão reina no fundo da Terra sobre os espíritos dos mortos. Os primeiros cristãos reúnem-se nas catacumbas e fazem dos abismos subterrâneos a morada das almas condenadas. As lendas germânicas exilam Vénus para o fundo da Terra. Dante coloca o inferno nos círculos inferiores. Os folclores europeus supõem haver dragões debaixo da terra e os japoneses imaginam nas profundezas da sua ilha um monstro cujos arrepios provocam tremores de terra.

Falámos de uma sociedade secreta pré-hitleriana, a Sociedade do Vril, que misturava essas lendas com as teses apresentadas pelo escritor inglês Bulwer Lytton no seu romance A Raça que nos há-de suplantar. Para os membros dessa sociedade, certos seres com um poder psíquico superior ao nosso habitam cavernas no centro da Terra. De lá sairão um dia para nos governar.

No fim da guerra de 1914, um jovem aviador alemão prisioneiro em França, Bender, descobre velhos exemplares do jornal de Teed, A Espada de Fogo, assim como brochuras de propaganda a favor da Terra oca. Atraído por esse culto e por sua vez inspirado, esclarece e desenvolve essa doutrina. De regresso à Alemanha, organiza um movimento, o Hohl welt Lehre. Prossegue a tarefa de outro americano, Marshall B. Gardner, que, em 1913 publicara um trabalho para demonstrar que o Sol não estava por cima da Terra, mas no centro da mesma, e emitia raios que exercem uma pressão capaz de nos manter sobre a crosta côncava.

Para Bender a Terra é uma esfera da mesma dimensão que na geografia ortodoxa, mas é oca e a vida acha-se encostada à face interna pelo efeito de certas radiações solares. Para além, o rochedo até ao infinito. A camada de ar, no interior, tem uma altura de sessenta quilómetros, depois rarefaz-se até ao vazio absoluto do centro, onde se encontram três corpos: o Sol, a Lua e o Universo fantasma. Esse Universo fantasma é uma bola de gás azulado na qual brilham grãos de luz a que os astrónomos chamam estrelas. É noite sobre uma parte da concavidade terrestre quando essa massa azul passa diante do Sol, e a sombra dessa massa sobre a Lua produz os eclipses. Acreditamos num Universo exterior, situado por cima de nós, porque os raios luminosos não se propagam em linha recta: são curvos, à excepeção dos infravermelhos. Esta teoria de Bender viria a tornar-se popular por volta de 1930. Dirigentes do Reich, oficiais superiores da Marinha e da Aviação acreditavam na Terra oca.
 
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Parece-nos absolutamente insensato que homens encarregados de dirigir uma nação possam, em parte, ter regulado a sua conduta segundo intuições místicas que negam a existência do nosso Universo. No entanto é necessário ver bem que, para o homem simples, para o alemão da rua cuja alma fora modelada pela derrota e pela miséria, a ideia da Terra oca, por volta de 1930, não era mais louca, no fim de contas, que a ideia segundo a qual um grão de matéria conteria fontes de energia ilimitada, ou que a ideia de um Universo com quatro dimensões. A ciência, a partir do final do século xIx, enveredava por um caminho que não era o do bom senso. Para espíritos primários, desgraçados e místicos, qualquer singularidade se tornava admissível e, de preferência, uma singularidade compreensível e consoladora como a da Terra oca. Hitler e os seus camaradas, homens saídos do povo e adversários da inteligência pura, deviam considerar as ideias de Bender mais admissíveis do que as teorias de Einstein, que punham a descoberto um Universo de infinita complexidade, de infinita delicadeza para quem quisesse abordá-lo. O mundo segundo Bender era aparentemente tão louco como o mundo de Einstein, mas para nele penetrar não era preciso mais do que uma loucura de primeiro grau. A explicação do Universo feita por Bender, embora tivesse premissas loucas, desenvolvia-se de maneira razoável. "O louco perdeu tudo excepto a razão".

O Hohl Wrelt Lehre, que fazia da humanidade a única presença inteligente do Universo, que reduzia esse Universo apenas às dimensões da Terra, que dava ao homem a sensação de estar envolvido, encerrado, protegido, como o feto no útero da mãe, satisfazia certas aspirações da alma infeliz, concentrada no orgulho e cheia de raiva contra o mundo exterior. Além disso a única teoria alemã que era possível opor ao judeu Einstein.

A teoria de Eirlstein baseia-se na experiência de Michelson e Morley, demonstrando que a velocidade da luz que se desloca no sentido da revolução terrestre é a mesma que a da luz perpendicular a essa revolução. Einstein deduz daí que não há portanto um meio que "conduza" a luz, mas que esta é composta por partículas independentes. A partir desse dado, Einstein apercebe-se de que a luz se contrai no sentido do movimento e que é condensação de energia. Ele estabelece a teoria da relatividade do movimento da luz. No sistema Bender, a Terra, sendo oca, não se desloca. Nada há ali a ver com Michelson. A tese da Terra oca, aparentemente, explica a realidade tão bem como a tese de Einstein. Nessa época, nenhuma verificação experimental viera ainda corroborar o pensamento de Einstein, a bomba atómica não viera justificar esse pensamento de forma absoluta e aterradora. Os dirigentes alemães aproveitaram a ocasião para negar qualquer valor aos trabalhos do genial judeu e a perseguição contra os sábios israelitas e contra a ciência oficial começou.

Einstein, Teller, Fermi e muitos outros grandes espíritos tiveram de se isolar. Receberam bom acolhimento nos Estados Unidos, dispuseram de dinheiro e de laboratórios bem equipados. A origem do poder atómico americano está nisso. Foi a subida das forças ocultas na Alemanha que concedeu a energia nuclear aos americanos.

O mais importante centro de estudos do exército americano encontra-se em Dayton, no Ohio. Em 1957 era anunciado que o laboratório que, nesse centro, é consagrado à domesticação da bomba de hidrogénio conseguira realizar uma temperatura de um milhão de graus. O sábio que levara a bom termo essa extraordinária experiência era o doutor Heinz Fisher, o homem que dirigira a expedição à ilha de Rügen para verificar a hipótese da Terra oca. Ele trabalhava livremente nos Estados Unidos desde 1945. Interrogado a respeito do seu passado pela imprensa americana, declarou: "Os nazis obrigavam-me a fazer um trabalho de louco, o que prejudicava consideravelmente as minhas investigações". Perguntamos a nós próprios o que teria acontecido e de que maneira teria evoluído a guerra se as pesquisas do doutor Fisher não tivessem sido interrompidas em proveito do místico Bender. . .
 
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Após a expedição da ilha de Rügen, a autoridade de Bender, aos olhos dos dignitários nazis, diminuiu, apesar da protecção de Goering, que sentia afecto por aquele antigo herói da aviação. Os horbigerianos, os partidários do grave Universo onde reina o gelo eterno. venceram-no. Bender foi mandado para um campo de concentração, onde morreu. Desta forma, a Terra oca teve o seu mártir.

No entanto, muito antes dessa louca expedição, os discípulos de Horbiger atormentavam Bender com sarcasmos e pediam que os livros a favor da Terra oca fossem proibidos. O sistema de Horbiger tem as dimensões da cosmologia ortodoxa, e não é possível acreditar simultaneamente no cosmos onde o gelo e o fogo prosseguem a sua luta eterna e no globo oco preso num rochedo que se prolonga até ao infinito. Foi pedida a arbitragem de Hitler. A resposta merece reflexão:

"Não temos a menor necessidade - disse Hitler - de uma concepção do mundo coerente. Ambos podem ter razão."

O que conta não é a coerência e a unidade do conjunto, mas sim a destruição dos sistemas provenientes da lógica, das formas de pensamento racional, é o dinamismo místico e a força explosiva da intuição. Há lugar, nas trevas cintilantes do espírito mágico, para mais de uma centelha.


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