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siga a estrada de tijolos amarelos: Sociedades Secretas & Conspirações Textos Conspiracionais Despertar dos Mágicos Alguns Anos no "Algures" Absoluto - Capítulo X

Alguns Anos no "Algures" Absoluto - Capítulo X


Louis Pauwels e Jacques Bergier

Himmler e o problema ao contrário. - A curva decisiva de 1934. - A Ordem Negra no poder. - Os monges guerreiros com emblemas Himmler e o problema ao contrário. - A curva decisiva de 1934. - A Ordem Negra no poder. - Os monges guerreiros com emblemas de caveira. - A iniciação nos Burgs. - A última prece de Sievers. - Os estranhos trabalhos da Ahnenerbe. - O grande-sacerdote Frederico Hielscher. - Um apontamento esquecido de Jünger. O sentido de uma guerra e de uma vitória.
 
Era no cruel Inverno de 1942. Os melhores soldados alemães e a fina flor da S.S., pela primeira vez, já não avançavam, bruscamente petrificados nos buracos da planície russa. A Inglaterra, obstinada, preparava-se para futuros combates e a América agitar-se-ia em breve. Numa manhã desse Inverno, em Berlim, o corpulento doutor Kersten, de mãos carregadas de fluido, encontrou o seu cliente, o Reichsführer Himmler, triste e acabrunhado.
 
"Caro senhor Kersten, estou numa terrível angústia."

Começaria ele a duvidar da vitória? Claro que não. Desabotoou as calças para receber massagens no ventre, e começou a falar, enquanto permanecia estendido, de olhos no tecto. Explicou: o Führer compreendera que não haveria paz sobre a Terra enquanto continuasse com vida um único judeu que fosse... "Então, acrescentou Himmler, ordenou-me que liquidasse imediatamente todos os judeus em nosso poder". As suas mãos, longas e secas, repousavam sobre o divã, inertes, geladas. Depois calou-se.

Kersten, estupefacto, via transparecer um sentimento de piedade no mestre da Ordem Negra e o seu terror foi atravessado
por uma esperança:

- Sim, sim - respondeu -, sei que no fundo da sua consciência não aprova essa atrocidade... compreendo a sua tristeza
horrível.

- Mas não se trata disso! De forma nenhuma! - exclamou Himmler erguendo-se. - Não está a perceber!

Hitler convocara-o. Pedira-lhe que suprimisse imediatamente cinco a seis milhões de judeus. Era uma pesada tarefa e Himmler estava fatigado; além disso, de momento tinha imenso que fazer. Era desumano que exigissem dele um redobrar de esforços nos próximos dias. Verdadeiramente desumano. Fora o que dera a entender ao seu chefe bem-amado e o chefe bem-amado não ficara satisfeito, encolerizara-se e agora Himmler sentia-se muito triste por se ter deixado arrastar por um momento de esgotamento e de egoísmo.[1]

Como compreender essa formidável inversão de valores? Não o conseguiríamos invocando apenas a loucura. Tudo se passa num universo paralelo ao nosso, cujas estruturas e leis são radicalmente diferentes. O físico George Gamov imagina um universo paralelo no qual, por exemplo, a bola de bilhar japonês entrasse em dois buracos ao mesmo tempo. O universo em que vivem homens como Himmler é pelo menos tão estranho ao nosso como o de Gamov. O homem verdadeiro, o iniciado de Tule, está em comunicação com as Potências e toda a sua energia está dirigida para uma modificação da vida sobre o globo.
 
 
O médium pede a um homem verdadeiro que liquide alguns milhões de falsos homens? De acordo, mas o momento foi mal escolhido. É absolutamente indispensável? Imediatamente? Pois bem, de acordo. Elevemo-nos ainda um pouco mais acima de nós próprios, sacrifiquemo-nos ainda mais...

A 20 de Maio de 1945 foi preso por soldados britânicos, na ponte de Beruweverde, a 25 milhas a oeste de Lüneburg, um homem alto, de cabeça redonda e ombros estreitos, portador de papéis em nome de Hitzinger. Levaram-no à polícia militar. Estava à paisana e tinha uma pala sobre o olho direito. Durante três dias, os oficiais britânicos tentaram descobrir a sua verdadeira identidade. Por fim, já cansado, ele tirou a pala e disse: "Chamo-me Heinrich Himmler." Não o acreditaram. Ele insistiu. Para o porem à prova obrigaram-no a despir-se. Depois deram-lhe a escolher entre vestuários americanos e um cobertor. Enrolou-se no cobertor. Um investigador pretendeu certificar-se de que não dissimulava nada na intimidade do seu corpo. Outro pediu-lhe que abrisse a boca. Então, o prisioneiro quebrou uma ampola de cianeto escondida num dente e caiu. Três dias mais tarde, um comandante e três oficiais subalternos tomaram conta do corpo. Dirigiram-se à floresta próxima de Lüneburg, cavaram uma fossa, atiraram o cadáver lá para dentro e depois aplainaram cuidadosamente o solo. Ninguém sabe exactamente onde repousa Himmler, sob que ramadas chilreantes acaba de se decompor a carne daquele que supunha ser a reincarnação do imperador Henrique I, cognominado o Passarinheiro.

Se Himmler fosse vivo e tivesse sido arrastado para o processo de Nuremberga, que poderia ter dito em sua defesa? Não tinha uma linguagem comum com os membros do júri. Ele não habitava este lado do mundo. Pertencia inteiramente a outra ordem das coisas e do espírito. Era um monge combatente de outro planeta. "Ainda não foi possível explicar de maneira satisfatória, diz o cronista Poetel, os secretos níveis psicológicos que originaram Auschwitz e tudo o que este nome pode representar. No fundo, o processo de Nuremberga não esclareceu grande coisa e a abundância das explicações psicanalíticas, que declaravam sem cerimónia que nações inteiras podiam perder o equilíbrio mental da mesma forma que indivíduos isolados, só serviram para complicar o problema. O que se passava no cérebro de pessoas como Himmler e seus semelhantes, quando davam ordens de extermínio, ninguém o sabe." Situando-nos ao nível daquilo a que chamamos o realismo fantástico, supomos que começamos a sabê-lo.
 
*

Denis de Rougemont dizia a respeito de Hitler: "Certas pessoas crêem, por o terem sentido na sua presença, por uma espécie de sagrado arrepio de horror, que ele é o alicerce de uma Dominação, de um Trono ou de uma Potência, tal como São Paulo designa os espíritos de segunda categoria, que podem igualmente caber num corpo de homem vulgar e ocupá-lo como uma guarnição. Ouvi-o pronunciar um dos seus grandes discursos. De onde lhe vem o poder sobre-humano que desenvolve? Semelhante energia, sente-se muito bem que não é do indivíduo, e até que se não poderia manifestar, excepto no caso em que o indivíduo não conte; é apenas o suporte de uma potência que escapa à nossa psicologia. O que aqui digo seria romantismo da mais baixa categoria se a obra realizada por esse homem - e creio que por essa potência através dele - não fosse uma realidade que provoca o espanto do século".

Ora, durante a subida ao poder, Hitler, que recebeu os ensinamentos de Eckardt e de Haushoffer, parece ter pretendido servir-se das Potências postas à sua disposição, ou que antes passavam através dele, no sentido de uma ambição política e nacionalista no fim de contas bastante limitada. É na origem um homenzinho agitado por uma intensa paixão patriótica e social. Dedica-se mas num grau inferior: o seu sonho tem fronteiras. Milagrosamente, ei-lo arrastado para a frente, e tudo lhe corre bem. Mas o médium através do qual circulam energias não compreende necessariamente a sua amplitude e direcção. Ele dança ao som de uma música que não lhe pertence. Até 1934 julga que os passos que executa são os que devem ser. Ora não está bem dentro do ritmo. Supõe que não tem mais que fazer do que servir-se das Potências. Mas não nos servimos das Potências: servimo-las. Tal é o significado (ou um dos significados) da alteração fundamental que surgiu durante e imediatamente    após a expurgação de Junho de 1934. O movimento que o próprio Hitler supôs que devia ser nacional e socialista transforma-se    no que devia ser, segue mais intimamente a doutrina secreta. Hitler jamais ousará pedir contas a respeito do "suicídio" de Strasser, e mandam-no assinar a ordem que eleva a S.S. à categoria de organização autónoma, superior ao partido. Joachim Gunthe escreve numa revista alemã, após a derrota: "A ideia vital que animava a S.A. foi vencida a 30 de Junho de 1934 por uma ideia puramente satânica, a da S.S." "É difícil precisar o dia em que Hitler concebeu o sonho da mutação biológica," disse o doutor Delmas. A ideia da mutação biológica é apenas um dos aspectos do aparelho esotérico ao qual o movimento nazi melhor se adapta a partir dessa época em que o médium se torna, não um louco total, como o supõe Rauschning, mas um instrumento mais dócil e o tambor de uma marcha infinitamente mais ambiciosa do que a marcha para o poder de um partido, de uma nação e mesmo de uma raça.
 
Foi Himmler o encarregado da organização da S.S., não como uma companhia policial, mas como uma verdadeira ordem   religiosa, hierarquizada, dos irmãos leigos aos superiores. Nas altas esferas encontram-se os responsáveis conscientes de uma Ordem Negra, cuja existência aliás nunca foi oficialmente reconhecida pelo governo nacional-socialista. Mesmo no centro do partido falava-se daqueles que "sabiam do círculo interior," mas nunca foi dada uma designação oficial. Parece certo que a doutrina, jamais completamente explicada, se baseava na crença absoluta em poderes que ultrapassam os poderes humanos vulgares. Nas religiões distingue-se a teologia, considerada uma ciência, da mística, intuitiva e incomunicável. Os trabalhos da sociedade Ahnenerbe, a que nos referiremos mais adiante, representam o aspecto teológico, a Ordem Negra o aspecto místico da religião dos Senhores de Tule.

O que é necessário compreender é que a partir do momento em que toda a obra de reunião e excitação do partido hitleriano muda de direcção, ou antes, é mais severamente orientada no sentido da doutrina secreta (mais ou menos bem compreendida e aplicada, até aqui, pelo médium colocado nos postos de propaganda), já não estamos em presença de um movimento nacional e político. Na prática, os temas serão os mesmos, mas tratar-se-á apenas, da linguagem exotérica dirigida às multidões, de uma descrição dos objectivos imediatos, atrás dos quais há outros objectivos. "Nada mais contou excepto a perseguição infatigável de um sonho pavoroso. Dali em diante, se Hitler tivesse tido à sua disposição um povo que pudesse, melhor do que o povo alemão, servir a exaltação do seu pensamento supremo, não teria hesitado em sacrificar o povo alemão". Não "o seu pensamento supremo", mas o supremo pensamento de um grupo mágico agindo através dele. Brasillach reconhece "que ele sacrificaria toda a felicidade humana, a sua e ainda por cima a do seu povo se o misterioso dever ao qual obedecia lho ordenasse".

"Vou confiar-lhe um segredo, disse Hitler a Rauschning: estou a fundar uma ordem." Evoca os Burgs onde se realizará uma primeira iniciação. E acrescenta: "É de lá que sairá a segunda categoria, a do homem medida e centro do mundo, do homem-deus. O homem-deus, a figura esplêndida do Ser, será como uma imagem do culto... Mas existem outras categorias de que me não é permitido falar..."
 
*

Central de energia edificada em redor da central principal, a Ordem Negra isola do mundo todos os seus membros, seja qual for o grau iniciático a que pertençam. "Bem entendido, escreve Poetel, não era mais do que um pequeno círculo de altos graduados e de grandes chefes S.S. que estavam ao corrente das teorias e das reivindicações essenciais. Os membros das diversas formações "preparatórias" só foram informados quando lhes foi imposto, antes de contraírem matrimónio, que  pedissem autorização aos seus chefes, ou quando os colocaram sob uma jurisdição própria da Ordem, extremamente rigorosa aliás, mas cujo efeito era de os subtrair à competência da autoridade civil. Verificaram então que fora das leis da Ordem não tinham qualquer outro dever e que já não havia para eles existência privada".

Os monges[2] combatentes, os S.S. com o emblema da caveira (que é preciso não confundir com outras organizações como a Waffen S.S., compostas por irmãos leigos ou por terciários da Ordem, ou ainda por mecânicas humanas construídas à semelhança o verdadeiro S.S como reproduções côncavas do modelo) receberão a primeira iniciação em Burgs. Mas primeiro terão passado pelo seminário, a Napola. Ao inaugurar uma dessas Napola, ou escolas preparatórias Himmler reduz a doutrina ao seu mais pequeno denominador comum: "Crer, obedecer, combater e é tudo."

São escolas onde, como diz o Schwarze Korps de 26 de Novembro de 1942, "se aprende a dar e a receber a morte"

Mais tarde, se disso são dignos, os cadetes recebidos nos Burgs compreenderão que "receber a morte" pode ser interpretado no sentido de "matar o seu eu". Mas se não são dignos, é a morte física que receberão sobre os campos de batalha. "A tragédia da grandeza é ter de pisar cadáveres." E que importa? Nem todos os homens têm existência verdadeira e há uma hierarquia da existência, do homem-fingido ao grande mago. Mal sai do nada o cadete volta para lá, depois de vislumbrar, para a sua salvação, o caminho que conduz à figura esplêndida do Ser... Era nos Burgs que se pronunciavam os votos, e que se entrava num "destino sobre-humano irreversível". A Ordem Negra traduz em actos as ameaças do doutor Ley: "Aquele a quem o partido retirar o direito à camisa negra - é preciso que cada um de nós o saiba -, não só perderá as suas funções como ainda será aniquilado, na sua pessoa, nas pessoas da sua família, de sua mulher e de seus filhos. Tais são as duras leis, as leis implacáveis da nossa Ordem."
 
Eis-nos fora do mundo. Já não se trata da Alemanha eterna ou do Estado nacional-socialista, mas da preparação mágica, para a vinda do homem-deus, do homem-após-o-homem que as Potências enviarão sobre a Terra, quando tivermos modificado o equilíbrio das forças espirituais. A cerimónia em que se recebia a runa S.S. devia assemelhar-se bastante ao que descreve Reinhold Schneider quando evoca os membros da Ordem Teutónica na grande sala do Remter de Marienburg, inclinando-se sob os votos que dali para o futuro fariam deles a Igreja Militante: "Eles vinham de países de aspectos diversos, vinham de uma vida agitada. Entravam na austeridade limitada deste castelo e abandonavam os seus brasões pessoais cujas armas tinham sido usadas pelo menos por quatro antepassados. Agora, o seu brasão seria a cruz que impõe o combate mais grave deste mundo e assegura a vida eterna." Aquele que sabe não fala: não existe qualquer descrição da cerimónia iniciática nos Burgs, mas sabe-se que tal cerimónia se realizava. Chamavam-lhe "a cerimónia da Atmosfera Densa", em alusão à atmosfera extraordinariamente tensa que reinava e não se dissipava senão depois de os votos terem sido pronunciados. Alguns ocultistas como Lewis Spence pretenderam ver nela uma missa negra na pura tradição satânica. Pelo contrário, Willi Frieschauer, no seu trabalho sobre Himmler interpreta "a Atmosfera Densa" como o momento de embrutecimento absoluto dos participantes. Entre estas duas teses há lugar para uma interpretação mais realista e portanto mais fantástica.
 
Destino irrevogável: foram concebidos planos para isolar o S.S. do mundo dos "homens-fingidos" durante toda a sua vida. Projectaram a criação de cidades, de vilas de veteranos repartidas através do Mundo e que dependessem unicamente da administração e da autoridade da Ordem. Mas Himmler e os seus "irmãos" conceberam um sonho mais grandioso ainda. O mundo teria por modelo um Estado S.S. soberano. "Na conferência da paz, diz Himmler, em Março de 1943, o mundo ficará a saber que a velha Borgonha vai ressuscitar, esse país que outrora foi a terra das ciências e das artes e que a França relegou para a categoria de apêndice conservado em vinho fraco, O Estado soberano de Borgonha, com o seu exército, as suas leis, a sua moeda, os seus correios, será o Estado S.S. modelo. Compreenderá a Suíça francesa, a Picardia, a Champanha, o Franco-Condado, o Hainaut[3] e o Luxemburgo. A língua oficial será o alemão, bem entendido. O Partido Nacional-Socialista não terá ali qualquer autoridade. Só a S.S. governará, e o mundo ficará ao mesmo tempo assombrado e maravilhado com esse Estado onde as concepções do mundo S.S. serão aplicadas".
 
*

O verdadeiro S.S. de formação "iniciática" situa-se, a seus próprios olhos, para além do bem e do mal. "A organização de Himmler não conta com o auxílio fanático de sádicos que procuram a voluptuosidade do assassínio: conta com homens novos." Fora do "círculo interior", que inclui os S.S. com o emblema da caveira, isto é, os chefes mais próximos da doutrina secreta, segundo a sua categoria, e cujo centro é Tule, o santuário, há o S.S. de tipo médio, que não passa de uma máquina sem alma, um autómato de serviço. É obtido com um fabrico "standard", a partir de "qualidades negativas". A sua produção não depende da doutrina, mas de simples métodos de preparação. "Não se trata de suprimir a desigualdade entre os homens, mas pelo contrário de a ampliar e dela fazer uma lei protegida por barreiras intransponíveis, diz Hitler... Que aspecto terá a futura ordem social? Meus camaradas, vou dizer-lhes: haverá uma classe de senhores, haverá a multidão dos diversos membros do partido classificados hierarquicamente, haverá a grande massa dos anónimos, a colectividade dos servidores, dos perpetuamente menores e, mais abaixo ainda, a classe dos estrangeiros conquistados, os modernos escravos. E, acima de tudo isto, uma nova alta nobreza de que não posso falar. . . Mas estes planos devem ser ignorados pelos simples militantes..."
 
O mundo é uma matéria a transformar para que dela emane uma certa energia, concentrada por magos, uma energia psíquica susceptível de atrair as Potências do Exterior, os Superiores Desconhecidos, os Mestres do Cosmos. A actividade da Ordem Negra não corresponde a nenhuma necessidade política ou militar: corresponde a uma necessidade mágica. Os campos de concentração provêm da magia de iniciação: são um acto simbólico, uma maqueta. Todos os povos serão arrancados às suas raízes, transformados numa imensa população nómada, numa matéria bruta sobre a qual será lícito agir, da maneira que se quiser, e da qual brotará a flor: o homem em contacto com os deuses. É o modelo côncavo (como dizia Barbey d'Aurevilly: o inferno é o céu em côncavo) do planeta tornado o campo dos labores mágicos da Ordem Negra.

No ensinamento dos Burgs, uma parte da doutrina secreta é transmitida pela seguinte fórmula: "Não existe senão o Cosmos, ou o Universo, ser vivo. todas as coisas, todos os seres incluindo o homem, não passam de formas diversas ampliando-se no decorrer das eras do universal vivo". Nós próprios não estaremos vivos enquanto não tomarmos consciência desse Ser que nos cerca, nos engloba e prepara através de nós outras formas. A criação não está terminada, o Espírito do Cosmos não encontrou o repouso, estejamos atentos às suas ordens, que nos serão transmitidas por deuses, a nós, magos bárbaros, padeiros da sangrenta e cega massa humana! Os fornos de Auschwitz: ritual.
 
*

O coronel S.S. Wolfram Sievers, que se limitara a uma defesa puramente racional, pediu, antes de entrar para a sala de enforcamento, que o deixassem celebrar, uma última vez o seu culto, murmurar misteriosas orações. Depois entregou o pescoço ao carrasco, Impassível.

Ele fora o administrador-geral da Ahnenerbe e como tal foi condenado à morte em Nuremberga. A sociedade de estudo para a herança dos antepassados, a Áhnenerbe, fora fundada a título privado pelo mestre espiritual de Sievers, Frederico Hielscher, místico amigo do explorador sueco Sven Hedin, o qual mantinha relações estreitas com Haushoffer. Sven Hedin, especialista do Extremo-Oriente, vivera muito tempo no Tibete e fora um intermediário importante na criação das doutrinas esotéricas nazis. Frederico Hielscher nunca foi nazi e chegou mesmo a manter relações com o filósofo judeu Martin Buber. Mas as suas teses profundas lembravam as posições "mágicas" dos grandes mestres do nacional-socialismo. Himmler, em 1935, dois anos depois da fundação, fez da Ahnenerbe uma organização oficial, ligada à Ordem Negra. Os objectivos declarados eram: "Investigar a localização, o espírito, os actos, a herança da raça indo-germânica e comunicar ao povo, sob uma forma interessante, os resultados dessas investigações. A execução dessa missão deve fazer-se empregando métodos de precisão científica". Toda a organização racional alemã posta ao serviço do irracional. Em Janeiro de 1939, a Ahnenerbe estava pura e simplesmente incorporada à S.S. e os seus chefes integrados no estado-maior de Himmler. Nessa altura, ela dispunha de cinquenta institutos dirigidos pelo professor Wurst, especialista dos antigos textos sagrados e que ensinara o sânscrito na Universidade de Munique.

Parece que a Alemanha gastou mais dinheiro com as investigações da Ahnenerbe do que a América com o fabrico da primeira bomba atómica. Essas investigações iam da actividade científica propriamente dita até ao estudo das práticas ocultas, da vivissecção praticada nos prisioneiros até à espionagem das sociedades secretas. Fizeram-se conferências com Skorzeny para organizar uma expedição cujo objectivo era roubar o Santo Graal, e Himmler criou uma secção especial, um serviço de informações encarregado "dos domínios do sobrenatural".
 
A lista dos relatórios dispendiosamente estabelecidos pela Ahnenerbe confunde a imaginação: presença da confraria Rosa-Cruz, simbolismo da abolição da harpa no Ulster, significado oculto das torres góticas e dos chapéus altos de Eton, etc. Quando as tropas se preparam para evacuar Nápoles, Himmler multiplica as ordens para que não se esqueçam de levar a grande pedra tumular do último imperador Hohenstoffen. Em 1943, após a queda de Mussolini, o Reichsführer reúne numa vivenda dos arredores de Berlim os seis maiores ocultistas da Alemanha para descobrir o local onde o Duce está prisioneiro. As conferências de estado-maior principiam com uma sessão de concentração lógica. No Tibete, por ordem de Sievers, o doutor Scheffer estabelece múltiplos contactos com os lamas. Leva para Munique, para os estudos "científicos," cavalos "arianos" e abelhas "arianas" cujo mel tem virtudes particulares.

Durante a guerra, Sievers organiza, nos campos de deportados, as horríveis experiências que desde então serviram de tema a vários livros negros. A Ahnenerbe "enriqueceu-se" com um "instituto de investigações científicas de defesa nacional" que dispunha "de todas as possibilidades concedidas em Dachau". O professor Hirt, que dirige esses institutos, arranja uma colecção de esqueletos tipicamente israelitas. Sievers encomenda ao exército invasor na Rússia uma colecção de crânios de comissários judeus. Quando, em Nuremberga, se evocam esses crimes, Sievers mantém-se alheio a qualquer sentimento humano normal, estranho a qualquer piedade. Está distante. Escuta outras vozes.

Hielscher representou sem dúvida um papel importante na elaboração da doutrina secreta. Fora dessa doutrina, a atitude de Sievers, tal como a dos outros grandes responsáveis, mantém-se incompreensível. Os termos "monstruosidade moral", "crueldade mental", loucura, nada explicam. A respeito do mestre espiritual de Sievers, quase nada se sabe. Mas Ernst Jünger refere-se-lhe no diário que manteve durante os seus anos de ocupação em Paris. O tradutor francês não reparou numa nota, a nossos olhos capital. É que de facto o sentido da mesma só se torna evidente dentro da explicação "realista-fantástica" do fenómeno nazi. A 14 de Outubro de 1943, Jünger escreve:

"À noite, visita de Bogo. (Por prudência, Jünger dissimula as altas personalidades sob pseudónimos. Bogo é Hielscher, assim como Kniebolo é Hitler). Numa época tão pobre em forças originais, ele surge-me como uma das pessoas das minhas relações a respeito das quais mais reflecti sem conseguir formar uma opinião. Supus outrora que ele entraria na história da nossa época como uma dessas personagens pouco conhecidas, mas de extraordinária subtileza de espírito. Agora penso que terá um papel mais importante. Muitos, se não a maior parte dos jovens intelectuais da geração que se tornou adulta após a grande guerra, sofreram a sua influência e muitas vezes passaram pela sua escola... Ele confirmou uma suspeita que há muito tempo alimento, a de que fundou uma igreja. Situa-se actualmente para lá da dogmática e já avançou muito na liturgia. Mostrou-me uma série de cantos e um ciclo de festas, "o ano pagão", que engloba uma ordenança completa de deuses, de cores, animais, iguarias, pedras e plantas. Vi ali que a consagração da luz se celebra a 2 de Fevereiro. . . "

E Jünger acrescenta, confirmando a nossa tese:

"Pude constatar em Bogo uma modificação fundamental que me parece característica de todo o nosso escol: arremessa-se impetuosamente para os domínios metafísicos, com todo o entusiasmo de um pensamento formado pelo racionalismo. Isto já me tinha impressionado em Spengler e está entre os presságios favoráveis. Poderia dizer-se que o século xIx foi um século racional e que o século XX é o dos cultos. O próprio Kniebolo (Hitler) vive deles, daí a total incapacidade dos espíritos liberais em conceberem nem que seja uma pequena ideia do seu universo."

Hielscher, que não fora incomodado, depôs a favor de Sievers no processo de Nuremberga. Limitou-se, perante os juízes, a diversões políticas, expôs opiniões voluntariamente absurdas sobre as raças e as tribos ancestrais. Pediu licença para acompanhar Sievers ao patíbulo, e foi com ele que o condenado fez as orações particulares de um culto a que este nunca se referiu durante os interrogatórios. Depois voltou à sombra.
 
*

Eles pretendiam modificar a vida e misturá-la com a morte de uma forma diferente. Preparavam a vinda do Supremo desconhecido. Tinham uma concepção mágica do mundo e do homem. A isso sacrificaram toda a juventude do seu país e ofereceram aos deuses um oceano de sangue humano. Tinham feito tudo para se porem de acordo com a vontade das Potências. Odiavam a moderna civilização ocidental, quer fosse burguesa ou operária, aqui o seu humanismo insípido e além o seu materialismo limitado. Tinham de vencer, pois eram portadores de uma chama que os seus inimigos, capitalistas ou marxistas, há muito tinham deixado extinguir-se dentro deles, repousando sonolentos sobre uma concepção do destino inexpressiva e limitada. Seriam os mestres durante um milenário, porque estavam do lado dos magos, dos grandes sacerdotes, dos demiurgos... E ei-los vencidos, espezinhados, julgados, humilhados por pessoas ordinárias que mastigam "chewing-gum" ou bebem vodka; pessoas sem qualquer espécie de inspiração sagrada, de crenças limitadas e com objectivos sem grandeza. Pessoas do mundo da superfície, positivas, racionais, morais, homens simplesmente humanos. Milhões de homenzinhos de boa vontade punham em posição crítica a vontade dos cavaleiros das trevas resplandecentes. A Leste, esses papalvos mecanizados, a Oeste, esses puritanos de esqueleto mole tinham construído em quantidades superiores tanques, aviões, canhões. E possuíam a bomba atómica, eles que não sabiam nada a respeito das grandes energias ocultas! E agora, como os caracóis depois da tempestade, saídos da chuva de ferro, juízes de óculos, professores de direito humanitário, de virtude horizontal, doutores em mediocridade barítonos do Exército de Salvação, carregadores da Cruz Vermelha, ingénuos porta-vozes dos "amanhãs que cantam"[4] iam a Nuremberga dar lições de moral primária aos Senhores, aos monges combatentes que tinham assinado um pacto com as Potências, aos Sacrificadores que liam no espelho negro, aos aliados de Schamballah, aos herdeiros do Graal! E enviavam-nos para a forca acusando-os de criminosos e loucos enraivecidos!
 
O que não podiam compreender os acusados de Nuremberga e os seus chefes que se haviam suicidado, é que a civilização que acabava de triunfar era, também ela e com maior certeza, uma civilização espiritual, um formidável movimento que, de Chicago a Tachkent, arrasta a humanidade para um destino mais alto. Eles tinham posto em dúvida a Razão e substituíram-lhe a magia. É que de facto a Razão cartesiana não engloba o todo do homem, o todo do seu conhecimento. Tinham-na posto a dormir. Ora o sono da razão gera os monstros. O que se passava no partido adversário é que a razão, de forma nenhuma adormecida, mas pelo contrário exaltada ao máximo, alcançava por um caminho mais alto os mistérios do espírito, os segredos da energia, as harmonias universais. À força de racionalidade exigente, o fantástico aparece e os monstros gerados pelo sono da razão não passam da sua negra caricatura. Mas os juízes de Nuremberga, mas os porta-vozes da civilização vitoriosa não sabiam que aquela guerra fora uma guerra espiritual. Não tinham uma visão suficientemente elevada do seu próprio mundo. Apenas acreditavam que o Bem vencera o Mal, sem ter visto a profundidade do mal vencido e a grandeza do bem triunfante. Os místicos guerreiros alemães e japoneses julgavam-se mais mágicos do que na realidade eram. Os civilizados que os tinham vencido não tomaram consciência do superior sentido mágico que o seu próprio mundo adquiria. Eles falavam da Razão, da Justiça, da Liberdade, do Respeito pela Vida, etc., num plano que já não era o dessa segunda metade do século XX na qual o conhecimento se transformou, onde a passagem para outro estado da consciência humana se tornou perceptível.

É verdade que os nazis deviam ganhar, se o mundo moderno não passasse do que ainda é aos olhos da maior parte de nós: a herança pura e simples do século xIx, materialista e cientista, e do pensamento burguês que considera a Terra um local onde devemos desfrutar o maior prazer possível. Existem dois diabos. Aquele que transforma a ordem divina em desordem, e o que transforma a ordem noutra ordem não divina. A Ordem Negra devia vencer uma civilização que ela supunha caída ao nível dos apetites apenas materiais, dissimulados sob uma moral hipócrita. Mas ela não era apenas isso. Um rosto novo surgia durante o martírio que os nazis lhe infligiam, como o Rosto sobre o Santo Sudário. Do aumento da inteligência nas massas à física nuclear, da psicologia dos vértices da consciência aos foguetões interplanetários, uma alquimia se operava, esboçava-se a promessa de uma transmutação da humanidade, de uma ascensão do ser vivo. Talvez isso não se constatasse de forma evidente, e alguns espíritos medianamente profundos lamentavam os tempos muito antigos da tradição espiritual, mantendo desta forma um certo pacto com o inimigo no mais ardente de si próprios, devido à sua revolta contra este mundo no qual só viam uma mecanicidade cada vez mais invasora. Mas, ao mesmo tempo, homens como Teilhard de Chardin, por exemplo, tinham os olhos mais abertos. Os olhos da inteligência superior e os olhos do amor descobrem a mesma coisa sobre planos diferentes. O impulso dos povos a caminho da liberdade, o canto de confiança dos mártires continham em gérmen essa grande esperança arcangélica. Essa civilização, tão mal interpretada do exterior pelos místicos adeptos do passado como do interior pelos progressistas primários, devia ser salva. O diamante risca o vidro. Mas o "borazon", cristal sintético, risca o diamante. A estrutura do diamante é mais ordenada que a do vidro. Os nazis podiam vencer. Mas a inteligência alerta pode ter uma acção criadora, edificando figuras da ordem mais puras do que as que brilham nas trevas.

"Quando me esbofeteiam não apresento a outra face e também não dou um murro: atiro um raio". Era necessário que essa batalha entre os Senhores das camadas inferiores e os homenzinhos da superfície, entre as Potências obscuras e a humanidade em progresso, terminasse em Hiroshima com o sinal evidente da Potência sem discussão.



1 Cf. Memórias de Kersten e o livro de Joseph Kessel: Les Mains du Miracle, Gallimard, editor.

2 Monge = grego monos = só

3 Antigos nomes de províncias francesas. (N. da T.)

4 Alusão à célebre fórmula do Partido Socialista. (N. da Z)


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