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siga a estrada de tijolos amarelos: Sociedades Secretas & Conspirações Textos Conspiracionais Despertar dos Mágicos As Civilizações Desaparecidas - Capítulo I

As Civilizações Desaparecidas - Capítulo I


Louis Pauwels e Jacques Bergier

Onde os autores descrevem o extravagante e maravilhoso Senhor Fort. - O incêndio do sanatório das incidências exageradas. - O Senhor Fort vítima do conhecimento universal. - Quarenta mil notas sobre as tempestades de pervincas, as chuvas de rãs e os aguaceiros de sangue. O Livro dos Danados. - Um certo professor Kreyssler. - Elogio e álustração do intermediarismo. - O eremita do Bronx ou o Rabelais cósmico. - Onde os autores visitam a catedral de Santo-Algures. - Bom apetite, senhor Fort!
 
Em Nova Iorque, no ano de 1910, num pequeno apartamento burguês do Bronx, habitava um homenzinho de idade indefinida, que parecia uma foca tímida. Chamava-se Charles Hoy Fort. Tinha umas manápulas redondas e gordas, barriga e rins avantajados, o pescoço muito curto, a cabeça enorme, de cabeleira rala, um largo nariz asiático, óculos com aros de metal e um bigode à Gurdjieff. Dir-se-ia também um professor menchevíque. Nunca saía, excepto para se dirigir à Biblioteca Municipal, onde examinava uma quantidade de jornais, revistas e anais de todos os Estados e de todas as épocas. Em redor da sua velha secretária amontoavam-se caixas de sapatos vazias e pilhas de periódicos: o American Almanach de 1833, o London times dos anos 1880-93, o Annual Record of Science, vinte anos de Philosophical Magazáne, Les Annales de la Société Entomologique de France,
 a Monthly Theather Review, o Observatory, o Meteorological Journal, etc. Ele usava uma viseira verde, e, quando a mulher acendia o fogão para o almoço, ia à cozinha ver se não havia perigo de que ela incendiasse a casa. Era apenas isso que aborrecia a senhora Fort, em solteira Anna Filan, que ele escolhera devido à sua total ausência de curiosidade intelectual, de quem gostava muito e que por sua vez o amava com ternura.
 
Até à idade de trinta e quatro anos, Charles Fort, filho de uns merceeiros de Albany, vegetara graças a um medíocre talento de jornalista e a uma certa habilidade no embalsamamento de borboletas. Mortos os pais e vendida a mercearia, arranjara uns minúsculos rendimentos que finalmente lhe permitiam dedicar-se em exclusivo à sua paixão: acumular notas sobre acontecimentos extraordinários e no entanto reconhecidos.
 
No dia 2 de Novembro de 1819, chuva vermelha sobre Blan kenberghe, no dia 14 de Novembro de 1902, chuva de lama na Tasmânia. Flocos de neve do tamanho de pratos em Nashville, a 24 de Janeiro de 1891. Chuva de rãs em Birmingham a 30 de Junho de 1892. Aerólitos. Bolas de fogo. Pegadas de um animal fabuloso no Devonshire. Discos voadores. Marcas de ventosas sobre as montanhas. Engenhos no céu. Caprichos de cometas. Desaparecimentos estranhos. Cataclismos inexplicáveis. Inscrições sobre meteorites. Neve preta. Luas azuis. Sóis verdes. Aguaceiros de sangue.

E assim reuniu vinte e cinco mil notas, que arrumou em caixas de cartão. Factos que, assim que eram mencionados, imediatamente caíam no esquecimento. Contudo, eram factos. Ele chamava a isso o seu "sanatório das coincidências exageradas".

Factos sobre os quais as pessoas se recusavam a falar. Parecia-lhe que saía dos seus ficheiros "um verdadeiro clamor de silêncio". Começara a sentir uma espécie de ternura por essas realidades incongruentes, expulsas do domínio do conhecimento, às quais ele dava asilo no seu pobre escritório de Bronx e que acariciava ao arrumá-las. "Pequenas prostitutas, anões, corcundas, bobo" e no entanto o seu desfile em minha casa terá a impressionante solidez das coisas que passam, e tornam a passar, e não cessam de passar".

Quando se sentia cansado de reunir os factos que a Ciência entendeu que devia pôr de parte (Um icebergue voador cai em pedaços sobre Ruão no dia 5 de Julho de 1853. Carcaças de viajantes celestes. Seres alados a uma altitude de 8000 metros sobre Palermo, a 30 de Novembro de 1880. Rodas luminosas no mar. Chuvas de enxofre, de carne. Restos de gigantes na Escócia. Caixões de pequenos seres vindos de algures, sobre os rochedos de Edimburgo...), quando se sentia fatigado, repousava o espírito jogando sozinho intermináveis partidas de superxadrez, sobre um tabuleiro da sua invenção, que era composto por 1600 casas.

Depois, um dia, Charles Hoy Fort apercebeu-se de que aquele formidável trabalho não servia para nada. Era inutilizável. Duvidoso. Uma simples ocupação de maníaco. Compreendeu que só ficara no limiar daquilo que procurava, e que não fizera nada daquilo que realmente tinha a fazer. Não era uma investigação, apenas a sua caricatura. E ele, que tanto receava os incêndios, lançou fogo às caixas e às fichas.

Acabava de descobrir a sua verdadeira natureza. Aquele fanático das realidades singulares era um fanático das ideias gerais. O que começara ele inconscientemente a fazer, durante esses anos mais ou menos perdidos? Encolhido no fundo da sua gruta de borboletas e papéis velhos, na verdade trabalhara contra uma das grandes potências do século: a certeza que os homens civilizados têm de saber tudo a respeito do Universo em que vivem. Porque se escondera, como que envergonhado, Charles Hoy Fort? É que a menor alusão ao facto de que possam existir no Universo domínios imensos de Desconhecido perturba desagradavelmente os homens. No fim de contas, Charles Hoy Fort conduzira-se como um erotomaníaco: conservemos secretos os nossos vícios, a fim de que a sociedade se não enfureça ao saber que deixou por explorar a maior parte dos terrenos da sexualidade. Tratava-se, agora, de passar da mania à profecia, do gozo solitário à declaração de princípio. De futuro, tratava-se de fazer uma obra autêntica, quer dizer, revolucionária.

O conhecimento científico não é objectivo. Assim como a civilização, é uma conspiração. Repudiam-se uma quantidade de factos porque eles alteram os raciocínios correntes. Vivemos sob um regímen de inquisição em que a arma mais frequentemente utilizada contra a realidade "discordante" é o desdém acompanhado de risos. O que é o conhecimento em tais condições?

"Na topografia da inteligência, diz Fort, poder-se-ia definir o conhecimento como a ignorância envolvida em risos". Será por tanto necessário reclamar um acréscimo às liberdades que a Constituição garante: a liberdade de duvidar da ciência. Duvidar da evolução (e se a obra de Darwin fosse pura ficção?), da rotação da Terra, da existência de uma velocidade da luz, da gravitação, etc. De tudo, excepto dos factos. Dos factos não seleccionados, tais como se apresentam, nobres ou não, bastardos ou puros com o seu séquito de estranhezas e as suas concomitâncias incongruentes. Não excluir nada do real: uma ciência futura descobrirá relações desconhecidas entre os factos que nos parecem sem qualquer afinidade entre si. A ciência precisa de ser sacudida por um espírito ávido, embora crédulo, novo, selvagem. O mundo precisa de uma enciclopédia dos factos excluídos, das realidades condenadas. "Receio bem que seja necessário apresentar à nossa civilização novos mundos em que as rãs brancas terão o direito de viver".

Em oito anos, a foca tímida de Bronx julgou-se na obrigação de aprender todas as artes e todas as ciências - e de inventar cerca de meia dúzia para uso próprio. Possuído pelo delírio enciclopédico, empenha-se nessa tarefa gigantesca que consiste não tanto em aprender como em tomar consciência da totalidade dos seres vivos. "Espantava-me que alguém se sentisse satisfeito por ser apenas romancista, alfaiate, industrial ou varredor  de ruas". Princípios, fórmulas, leis, fenómenos foram digeridos na Biblioteca Municipal de Nova Iorque, no Museu Britânico e também graças a uma enorme correspondência com as maiores bibliotecas e livrarias do Mundo. Quarenta mil notas, divididas em trezentas secções, escritas a lápis sobre minúsculos cartões, numa linguagem estenográfica da sua invenção. Sobre este louco empreendimento brilha o dom de considerar todos os assuntos sob o ponto de vista de uma inteligência superior que só agora soube da existência deles:
 
A astronomia.

"Um guarda nocturno vigia meia dúzia de lanternas vermelhas numa rua interceptada. Há bicos de gás, lampadários e janelas iluminadas no bairro. Riscam-se fósforos, acendem-se fogos, declarou-se um incêndio, há sinais de néon e faróis de automóveis. Mas o guarda nocturno cinge-se ao seu acanhado sistema. . . "

Ao mesmo tempo retoma as suas pesquisas sobre os factos rejeitados, mas sistematicamente, e esforçando-se por verificar cautelosamente cada um deles. Submete a sua empresa a um plano que engloba a astronomia, a sociologia, a psicologia, a morfologia, a química, o magnetismo. Já não faz uma colecção: tenta obter o desenho da rosa-dos-ventos exteriores, fabricar a bússola para a navegação sobre os oceanos do outro lado, reconstituir o puzzle dos mundos escondidos atrás deste mundo. Necessita de cada folha que estremece na árvore imensa do fantástico: o céu de Nápoles é atravessado por bramidos no dia 22 de Novembro de 1821; vindos das nuvens, caem peixes sobre Singapura em 1861; em Indre-et-Loire, num certo 10 de Abril, há uma catarata de folhas secas; juntamente com uma faísca abatem-se sobre Sumatra achas de pedra; quedas de matéria viva; piratas do espaço cometem raptos; destroços de mundos errantes circulam sobre nós... "Sou inteligente e por isso sou muito diferente dos ortodoxos. Como não possuo o desdém aristocrático de um conservador noviorquino ou de um feiticeiro esquimó, sou obrigado a conceber outros mundos..."
 
A senhora Fort não sente o menor interesse por tudo isso. Ele não fala dos seus trabalhos, a não ser a raros amigos maravilhados. Não mostra empenho em vê-los. Escreve-lhes de tempos a tempos. "Tenho a sensação de me dedicar a um novo vício recomendado aos amadores de pecados inéditos. Ao princípio, alguns dos meus raciocínios eram tão pavorosos ou tão ridículos que as pessoas os detestavam ou desprezavam ao lê-los. Agora, tudo está melhor: há um pouco de lugar para a piedade".

A sua vista começa a estar cansada. Vai ficar cego. Pára e medita várias vezes, alimentando-se apenas de pão escuro e queijo. Depois de ter repousado os olhos, resolve expor a sua visão pessoal do Universo, antidogmática, e de excitar a compreensão dos outros com grandes golpes de humor. "Por vezes, eu próprio me surpreendia a não pensar aquilo em que preferia acreditar". À medida que progredira no estudo das diversas ciências, progredira na descoberta das suas insuficiências. É preciso demoli-las pela base: é o espírito que não está certo. É necessário recomeçar tudo, voltando a introduzir os factos excluídos a respeito dos quais reuniu uma documentação ciclópica. Antes de mais reintroduzi-los. Em seguida explicá-los, se possível. "Creio que não faço do absurdo um ídolo. Creio que nas primeiras tentativas não é possível averiguar o que mais tarde será aceitável. Se um dos pioneiros da zoologia (que está por fazer) ouvisse falar de pássaros que crescem sobre as árvores, deveria assinalar que ouviu falar de pássaros que crescem sobre as árvores. E em seguida deveria, mas só nessa altura, verificar escrupulosamente e seleccionar esses dados".

Assinalemos, assinalemos, e um dia acabaremos por descobrir que qualquer coisa nos faz sinal.
 
*

São as próprias estruturas do conhecimento que devem ser revistas. Charles Hoy Fort sente palpitar em si próprio numerosas teorias que têm todas as asas do anjo do bizarro. Vê a Ciência como um automóvel muito civilizado lançado sobre uma auto-estrada. Mas de cada lado dessa maravilhosa pista, toda ela betume e néon, estende-se um país selvagem, cheio de prodígios e de mistérios. Stop. Examinai esse país também em largura! Extraviai-vos! Ziguezagueai! É portanto necessário fazer grandes gestos desordenados, grotescos até, como os que se fazem para tentar fazer com que um automóvel pare. Pouco importa que sejamos um pouco ridículos: é urgente. Charles Hoy Fort, eremita de Bronx, deseja realizar o mais rápida e ruidosamente possível um certo número de "macaquices" absolutamente necessárias Persuadido da importância da sua missão e liberto da sua documentação, resolve reunir em trezentas páginas os seus melhores explosivos. "Queimem-me o tronco de um pinheiro, folheiem-me as páginas de falésias de calcário, multipliquem-me por mil e substituam a minha imodéstia fútil por uma megalomania de Titã, e só então talvez me seja possível escrever com a amplidão que o meu trabalho reclama".

Compõe a sua primeira obra, O Livro dos Danados, onde, segundo diz, são apresentadas "um certo número de experiências em matéria de estrutura do conhecimento". Este trabalho apareceu em Nova Iorque em 1919. Produziu uma verdadeira revolução nos meios intelectuais. Antes das primeiras manifestações do dadaísmo e do surrealismo, Charles Fort introduzia na Ciência aquilo que Tzara, Breton e os seus discípulos viriam a introduzir nas artes e na literatura: a terminante recusa de entrar num jogo em que todos fazem batota, a colérica afirmação de que "há mais qualquer coisa". Um enorme esforço, não talvez para entender o real na sua totalidade, mas para impedir que o real seja entendido de uma forma falsamente coerente. Uma ruptura essencial. "Sou um moscardo que perturba o cérebro do conhecimento para o impedir de dormir".

O Livro dos Danados? "Um Ramo de Oiro para os chalados"[1], declarou John Winterich. "Uma das monstruosidades da literatura", escreveu Edmund Pearson. Para Ben Hecht, "Charles Fort é o apóstolo da excepção e o sacerdote mistificador do improvável". Martin Gardner, no entanto, reconhece que "os seus sarcasmos estão de acordo com as críticas mais válidas de Einstein e de Russel". John Campbell afirma que "há nesta obra os gérmenes de, pelo menos, seis novas ciências". "Ler Charles Fort é cavalgar sobre um cometa," confessa Maynard Shiplev, e Theodore Dreiser vê nele "a maior figura literária depois de Edgar Poe".

Só em 1955 é que O Livro dos Danados é publicado em França[2] por minha iniciativa, que sem dúvida não foi suficientemente diligente. A despeito de uma excelente tradução e apresentação de Robert Benayoun e de uma mensagem de Tiffany Thayer, que é presidente nos Estados Unidos da Sociedade dos Amigos de Charles Fort2, esta obra extraordinária passou quase despercebida. Eu e Bergier consolámo-nos dessa desdita.

Depois de O Livro dos Danados, Fort publicou, em 1923, Terras Novas. Publicados após a sua morte: Lo! em 1931, e Talentos Selvagens, em 1932. Estas obras gozam de uma certa celebridade na América, na Inglaterra e na Austrália.

Extraí numerosos dados do estudo de Robert Benayoun.

O Sr. Tiffany Thayer declarava, em particular:

"As qualidades de Charles Fort seduziram um grupo de escritores americanos que decidiram prosseguir, em honra dele, o ataque aos grandes sacerdotes do novo deus: a Ciência, bem como a todas as formas de dogmas. Neste intuito foi fundada a Sociedade Charles Fort, a 26 de Janeiro de 1931.

"Entre os seus fundadores estavam Theodore Dreiser, Booth Tarkington, Ben Hecht, Harry Leon Wilson, John Cowper Powys, Alexander Woolcott, Burton Rascoe, Aaron Sussman e o secretário, autor destas linhas, Tiffany Thayer.

"Charles Fort morreu em 1932, nas vésperas da publicação da sua quarta obra Talentos Selvagens. As inúmeras notas que recolhera nas bibliotecas de todo o Mundo, graças a uma correspondência internacional, foram legadas à Sociedade Charles Fort: hoje constituem o núcleo dos arquivos desta sociedade que vão crescendo de dia para dia devido à contribuição dos membros de quarenta e nove países, além dos Estados Unidos, a Alasca e as ilhas Hawai.

"A sociedade publica uma revista trimestral, Doubt (A Dúvida). Esta revista é também como que um refúgio para todos os factos "malditos," quer dizer, os que a ciência ortodoxa não pode ou não quer admitir: por exemplo, os discos voadores. De facto, as informações e estatísticas que a sociedade possui sobre o assunto constituem o conjunto mais antigo, mais vasto e mais completo que existe actualmente.

"A revista Doubt também publica as notas de Fort." de um dos nossos mais queridos mestres imaginando-o a gozar, do fundo do supermar dos Sargaços celestes, onde sem dúvida reside, este clamor do silêncio que do país de Descartes sobe até ele.
 
*

O nosso ex-embalsamador de borboletas odiava o estabelecido, o classificado, o definido. A ciência isola os fenómenos e as coisas para os observar. O grande pensamento de Charles Fort é que nada é isolável. Toda a coisa isolada deixa de existir.

Uma borboleta suca um goivo: é uma borboleta mais o suco de goivo; é um goivo menos um apetite de borboleta. Toda a definição de uma coisa em si é um atentado contra a realidade. "Entre as tribos consideradas selvagens, os pobres de espírito são rodeados de respeitosas atenções. Reconhecem geralmente a definição de uma coisa em termos próprios como um sinal de fraqueza de espírito. Todos os sábios iniciam os seus trabalhos por este género de definição, e entre as nossas tribos os sábios são rodeados de respeitosas atenções ".

Eis Charles Hoy Fort, amador do insólito, escriba dos milagres, empenhado numa formidável reflexão sobre a reflexão. Pois é à estrutura mental do homem civilizado que ele se agarra. Já não concorda com o motor a dois tempos que alimenta o raciocínio moderno. Dois tempos: o sim e o não, o positivo e o negativo. O conhecimento e a inteligência modernas assentam sobre este funcionamento binário: exacto, falso, aberto, fechado, vivo, morto, líquido, sólido, etc. O que Fort reclama contra Descartes é uma concepção do geral a partir da qual o particular poderia ser definido nas suas relações com ele, e cada coisa reconhecida como intermediária de outra. O que ele reclama é uma nova estrutura mental, capaz de reconhecer como reais os estados intermediários entre o sim e o não, o positivo e o negativo. Quer dizer, um raciocínio superior ao binário. De certa maneira, um terceiro olho da inteligência. Para exprimir a visão deste terceiro olho, a linguagem, que é um produto do binário (uma conjura, uma limitação organizada), não é suficiente. Portanto Fort precisa de utilizar adjectivos com duplo sentido nos epítetos bicéfalos "real-irreal," "imaterial-material," "solúvel-insolúvel".

Um dos nossos amigos, num dia em que Bergier e eu almoçámos com ele, inventara com a maior minúcia um grave professor austríaco, filho do dono de um hotel de Madeburgo chamado "Dos Dois Hemisférios," com o apelido de Kreyssler, Herr professor Kreyssler, de quem nos falou demoradamente, dedicara uma obra gigantesca à refundição da linguagem ocidental. O nosso amigo ambicionava publicar numa revista séria um estudo sobre "o verbalismo de Kreyssler," o que teria sido uma mistificação muito útil. Portanto, Kreyssler tentara pôr em liberdade as estruturas da linguagem, a fim de que esta se enriquecesse finalmente com os estados intermédios desprezados pela nossa actual estrutura mental. Tomemos um exemplo. O atraso e o avanço. Como poderia eu definir o atraso sobre o avanço que desejava tomar? Não há palavra para isso. Kreyssler propunha avraso. E o avanço sobre o atraso que tinha. O atranço. Não se trata aqui senão de caracteres intermediários do tempo. Penetremos nos estados psicológicos. O amor e o ódio. Se amo cobardemente, amando-me a mim próprio através do outro,  desta forma encaminhando-me para o ódio, tratar-se-á de amor?  É apenas amódio. Se odeio o meu inimigo, sem no entanto perder o fio da unidade de todos os seres, cumprindo o meu dever de inimigo mas conciliando ódio e amor, não se trata de ódio, mas de òdimor. Passemos aos caracteres intermédios fundamentais. O que é morrer e o que é viver? Tantos estados intermédios que recusamos ver! Há virver, que não é viver, que é apenas evitar a morte. Há viver realmente, a despeito de ser obrigado a morrer, que é viver. Observai por fim os estados de consciência. Como a nossa consciência oscila entre dormir e velar! Quantas vezes a minha consciência não faz senão vemir: acreditar que vela quando se deixa dormir! Queira Deus que, sabendo-se tão pronta a adormecer, ela tente velar, e é então dorlar.

O nosso amigo acabava de ler Fort quando nos apresentou esta farsa genial: "Em termos metafísicos, diz Fort, creio que tudo a que vulgarmente se chama "existência", e a que eu chamo carácter intermédio, é uma quase-existência, nem real, nem irreal, mas a expressão de uma tentativa para atingir o real ou uma existência real". Esta empresa não tem precedentes nos tempos modernos. Anuncia a grande transformação da estrutura do espírito que as descobertas de certas realidades físico-matemáticas actualmente exigem. Ao nível da partícula, por exemplo, o tempo circula simultaneamente nos dois sentidos. Há equações a um tempo verdadeiras e falsas. A luz é simultaneamente contínua e irregular.

"Aquilo a que se chama Ser é o movimento: nem todo o movimento é a expressão de um equilíbrio, mas de uma tentativa de equilíbrio ou do equilíbrio ainda não atingido. E o simples facto de ser manifesta-se no carácter intermediário entre equilíbrio e desequilíbrio." Isto data de 1919 e lembra as reflexões contemporâneas de um físico biologista como Jacques Ménétrier sobre a inversão da entropia. "Todos os fenómenos, no nosso estado intermédio ou quase-estado, representam uma tentativa para a organização, a harmonização, a individualização, quer dizer, uma tentativa para atingir a realidade. Mas toda a tentativa é levada a uma situação crítica pela continuidade, ou pelas forças exteriores, pelos factos excluídos, contíguos aos inclusos". Isto antecipa uma das operações mais abstractas da física quântica: a normalização das funções, operação que consiste em estabelecer a função que descreve um objecto físico de tal forma que haja uma possibilidade de reencontrar esse objecto no Universo inteiro.

"Concebo todas as coisas como ocupando gradações, etapas seriais entre a realidade e a irrealidade." É a razão por que, para Fort, pouca importância tem apoderar-se deste ou daquele facto para começar a descrever a totalidade. E por que motivo escolher um facto tranquilizador para a razão, em vez de um facto perturbante? Por que motivo excluir? Para calcular um círculo, pode começar-se não importa onde. Ele assinala, por exemplo, a existência de objectos voadores a partir dos quais se pode começar a apreender a totalidade. Mas, diz ele logo em seguida, uma tempestade de pervincas teria a mesma utilidade".

"Não sou um realista. Não sou um idealista. Sou um intermediarista". Se nos opomos à raiz da compreensão, à própria base do espírito, como nos poderemos fazer compreender? Por uma aparente excentricidade que é a linguagem-choque do génio verdadeiramente centralista: procura as suas imagens tanto mais longe quanto está certo de as reconduzir ao ponto fixo e profundo da sua meditação. De certo modo, o nosso camarada Charles Hoy Fort procede à maneira de Rabelais. Faz um alarido de humorismo e de imagens capaz de acordar os mortos.

"Colecciono notas sobre todos os assuntos dotados de qualquer diversidade, como seja os desvios da concentricidade na cratera lunar Copérnico, a súbita aparição de Britânicos cor de púrpura, os meteoros estacionários, ou o súbito nascimento de cabelos sobre a cabeça calva de uma múmia. No entanto, o meu maior interesse não tem como objecto os factos, mas as relações entre os factos. Meditei muito a respeito das supostas relações a que chamamos coincidências. E se não houvesse coincidências?"

*

"Outrora, quando eu era um doidivanas especialmente perverso, condenavam-me a trabalhar ao sábado na loja paterna, onde era obrigado a raspar as etiquetas das latas de conservas concorrentes para nelas colar as dos meus pais. Um dia em que dispunha de uma autêntica pirâmide de conservas de frutos e de legumes, só me restavam etiquetas de pêssegos. Colei-as sobre as latas de pêssegos, até que cheguei às de damascos. E pensei: os damascos não serão pêssegos? Nessa altura comecei, por brincadeira ou cientificamente, a colar as minhas etiquetas de pêssegos sobre as latas de ameixas, de cerejas, de feijões e de ervilhas. Por que motivo? Ignorava-o então, pois ainda não decidira se era um sábio ou um humorista."
 
*

"Surge uma nova estrela; até que ponto ela se diferencia de certas gotas de origem desconhecida que acabam de ser descobertas sobre um algodoeiro do Oklahoma?"
 
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"Tenho neste momento um espécimen de borboleta particularmente ruidoso: uma esfinge com cabeça de morto. Guincha como um rato e o som parece-me vocal. Dizem da borboleta Kalima, por ela se assemelhar a uma folha seca, que imita a folha seca. Mas a esfinge com cabeça de morto será que imita as ossadas?"
 
*

"Se não existem diferenças positivas, não é possível definir seja o que for como positivamente diferente de outra coisa. O que é uma casa? Uma granja é uma casa, contanto que lá viva alguém. Mas se a residência constitui a essência de uma casa, mais do que o estilo da arquitectura, então um ninho de ave é uma casa. A ocupação humana não estabelece o critério, visto que os cães têm a sua casa; nem a matéria, visto que os esquimós têm casas de neve. E duas coisas tão positivamente diferentes como a Casa Branca de Washington e a concha de um caranguejo ermita revelam-se contíguas."
 
*

"Ilhas de coral branco sobre um mar de um azul-escuro. "a sua aparência de distinção, a sua aparência de individualidade ou a diferença positiva que os separa não são mais do que a projecção do mesmo fundo oceânico: a diferença entre terra e mar não é positiva. Em toda a porção de água há um pouco de terra, em toda a porção de terra há um pouco de água. De forma que todas as aparências são enganadoras. Visto que fazem parte de um espectro comum. Um pé de mesa não tem nada de positivo, não passa de uma projecção de qualquer coisa. E nenhum de nós é um ser, visto que fisicamente somos contíguos daquilo que nos cerca, visto que psiquicamente nada nos acontece que não seja a expressão das nossas relações com tudo o que nos cerca.

"A minha disposição é a seguinte: todas as coisas que parecem possuir uma identidade individual não passam de ilhas, projecção de um continente submarino, e não possuem contornos reais."
 
*

"Como beleza, designarei o que parece completo. O incompleto ou o mutilado é totalmente feio. A Vénus de Milo. Uma criança achá-la-ia feia. Se um espírito puro a imagina completa, tornar-se-á bela. Uma mão concebida sob o ponto de vista de uma mão pode parecer bela. Abandonada sobre um campo de batalha, já o não é. Mas tudo o que nos cerca é uma parte de qualquer coisa, e esta parte de outra: neste mundo não há nada belo, só as aparências são intermediárias entre a beleza e a fealdade. Só a universalidade é completa, só o completo é belo."
 
*

O profundo pensamento do nosso mestre Fort é portanto a unidade subjacente de todas as coisas e de todos os fenómenos. Ora o pensamento civilizado do passado século xIx coloca parêntesis um pouco por toda a parte, e a nossa forma de raciocínio binária, só encara a dualidade. Eis o louco-sensato do Bronx em revolta contra a Ciência exclusivista do seu tempo, e também contra a própria estrutura da nossa inteligência. Parece-lhe necessária outra forma de inteligência: uma inteligência de certa maneira mística, excitada em presença da totalidade. A partir do que ele sugere outros métodos de conhecimento. Tornar-se-á bela. Uma mão concebida sob o ponto de vista de uma mão pode parecer bela. Abandonada sobre um campo de batalha, já o não é. Mas tudo o que nos cerca é uma parte de qualquer coisa, e esta parte de outra: neste mundo não há nada belo, só as aparências são intermediárias entre a beleza e a fealdade. Só a universalidade é completa, só o completo é belo."
 
*

O profundo pensamento do nosso mestre Fort é portanto a unidade subjacente de todas as coisas e de todos os fenómenos. Ora o pensamento civilizado do passado século xIx coloca parêntesis um pouco por toda a parte, e a nossa forma de raciocínio binária, só encara a dualidade. Eis o louco-sensato do Bronx em revolta contra a Ciência exclusivista do seu tempo, e também contra a própria estrutura da nossa inteligência. Parece-lhe necessária outra forma de inteligência: uma inteligência de certa maneira mística, excitada em presença da totalidade. A partir do que ele sugere outros métodos de conhecimento.

Para nos preparar para isso, realiza cortes, fendas nos nossos hábitos de pensamento. "Atirar-vos-ei às portas que abrem para outra coisa".

No entanto, Fort não é um idealista. Ele insurge-se contra a nossa falta de realismo: recusamos o real quando é fantástico. Fort não prega uma nova religião. Antes pelo contrário, apressa-se a erguer uma barreira em volta da sua doutrina para impedir que os espíritos fracos ali entrem. Que "tudo esteja em tudo", que o Universo esteja contido num grão de areia, é a sua teoria. Mas esta certeza metafísica só pode brilhar no mais alto nível da reflexão. Não pode descer até a um ocultismo primário sem se tornar ridícula. Não poderia permitir os delírios do pensamento analógico, tão do agrado dos esoteristas duvidosos que constantemente explicam um facto com outro facto: a Bíblia pelos números, a última guerra pela Grande Pirâmide, a Revolução pela cartomância, o meu futuro pelos astros que em tudo vêem sinais a respeito de tudo. "Provavelmente existe uma relação entre uma rosa e um hipopótamo, no entanto nunca passará pela cabeça de um jovem a ideia de oferecer à noiva um ramo de hipopótamos." Mark Twain, ao denunciar o mesmo vício de pensamento, declarava com certa graça que HA Canção da Primavera" pode ser explicada pelas Tábuas da Lei, visto que Moisés e Mendelssohn são nomes idênticos: basta substituir Moisés por endelssohn. E Charles Fort volta à carga com a seguinte caricatura: "Pode identificar-se um elefante a um girassol: ambos possuem uma comprida haste. Não é possível distinguir um camelo de um amendoim, se só tivermos em conta as bossas."

Tal é o homenzinho, sólido e alegremente sabedor. Vejamos agora o seu pensamento adquirir uma amplidão cósmica.
 
*

E se a própria Terra não fosse real sob esse ponto de vista? Se não passasse de qualquer coisa intermédia no cosmos? Talvez a Terra não seja de forma alguma independente, e a vida sobre a Terra talvez não seja de forma alguma independente de outras vidas, de outras existências nos espaços.

Quarenta mil notas sobre toda a espécie de chuvas que tem caído sobre a Terra há muito "que levaram Charles Fort a admitir a hipótese de que a maior parte delas não são de origem terrestre. "Proponho que se admita a ideia de que há, para além do nosso mundo, outros continentes dos quais caem objectos, da mesma forma que os destroços da América vêm ter à Europa".

Digamo-lo imediatamente: Fort não é um ingénuo. Ele não acredita em tudo. Apenas se insurge contra o hábito de negar a priori. Não aponta com o dedo as verdades: desfere golpes para demolir o edifício científico da sua época, constituído por verdades tão parciais que dir-se-iam erros. Ri? É que não compreendemos por que motivo o esforço humano em relação ao conhecimento não poderia por vezes ser entrecortado pelo riso, que é igualmente humano. Inventa? Sonha? Rabelais cósmico? Ele concorda. "Este livro é uma ficção, como As Viagens de Gulliver, a Orágem das Espécies e, aliás, a Bíblia.

"Chuvas e neves pretas, flocos de neve negra como azeviche. Escórias de fundição tombam do céu sobre o mar da Escócia. São encontradas em tal quantidade que o produto poderia representar o rendimento global de todas as fundições do Mundo. Penso numa ilha vizinha de um trajecto comercial transoceânico. Ela poderia receber várias vezes por ano detritos provenientes de navios de passagem." Porque não destroços ou resíduos de navios interestelares?

Chuvas de substância, de matéria gelatinosa, acompanhadas de um forte odor de podridão. "Admitir-se-á que nos espaços infinitos flutuam vastas regiões viscosas e gelatinosas?" Tratar-se-ia de carregamentos alimentares depositados no céu pelos Grandes Viajantes de outros mundos? "Tenho a impressão de que por cima das nossas cabeças uma região estacionária, na qual as forças de gravidade da Terra, bem como as meteorológicas, são relativamente inertes, recebe do exterior produtos análogos aos nossos".
 
Chuvas de animais vivos: peixes, rãs, cágados. Vindos de algures? Nesse caso, os seres humanos é provável que também tenham vindo ancestralmente de algures. . . A menos que se trate de animais arrancados à Terra devido a furacões, a trombas, e depositados numa região do espaço sem gravitação, espécie de câmara fria onde se conservam indefinidamente os produtos desses raptos. Arrancados à Terra e tendo ultrapassado a porta que dá para o além, reunidos num supermar dos Sargaços do céu. "Os objectos revolvidos pelos furacões podem ter atingido uma zona de suspensão situada por cima da Terra, flutuar um ao lado do outro durante muito tempo, e por fim cair..." "Aqui estão os dados, fazei deles o que vos aprouver..." "Para onde vão as trombas, de que são elas feitas?..." "Um supermar dos Sargaços: destroços, detritos, velhos carregamentos dos naufrágios interplanetários, objectos atirados para aquilo a que se chama espaço, devido às convulsões dos planetas vizinhos, relíquias do tempo dos Alexandres, dos Césares e dos Napoleões de Marte, Júpiter e Neptuno. Objectos revolvidos pelos nossos ciclones: granjas e cavalos, elefantes, moscas, pterodáctilos, moas[3], folhas de árvores recentes ou da idade carbonífera, tudo isto com tendência a desintegrar-se em lamas ou em poeiras homogéneas, vermelhas, negras ou amarelas, tesouros para paleontologistas ou arqueólogos, acumulações de séculos, furacões do Egipto, da Grécia, da Assíria..."

"Os raios provocam a queda de pedras. Os camponeses acreditaram nas meteorites, a Ciência excluiu-as. Os camponeses acreditam nas pedras de raio, a Ciência exclui-as. É inútil sublinhar que os camponeses percorrem os campos, enquanto os sábios se encerram nos seus laboratórios e nas salas de conferência".
 
Pedras de raio facetadas. Pedras cheias de marcas, de sinais. E se outros mundos tentassem desta forma, e de outras, comunicar connosco, ou pelo menos com alguns de nós? "Com uma seita, talvez uma sociedade secreta, ou certos habitantes muito esotéricos desta terra?" Há milhares e milhares de testemunhos dessas tentativas de comunicação. "A minha prolongada experiência da supressão e da indiferença faz-me pensar, mesmo antes de entrar no assunto, que os astrónomos viram esses mundos, que os meteorólogos, os sábios, os observadores especializados os vislumbraram diversas vezes. Mas que o Sistema excluiu todos esses dados".

Lembremos uma vez mais que isto foi escrito por volta de 1910.Actualmente,Russos e Americanos constroem laboratórios para estudo dos sinais que nos poderiam ser transmitidos de outros mundos.

E não teremos sido visitados num passado longínquo? E se a paleontologia fosse falsa? E se as grandes ossaturas descobertas pelos sábios exclusionistas do século xIx tivessem sido arbitrariamente reunidas? Restos de seres gigantescos,visitantes ocasionais do nosso planeta? No fundo,quem nos obriga a acreditar na fauna pré-humana de que nos falam os paleontologistas que não sabem mais do que nós? "Seja qual for a minha natureza optimista e crédula cada vez que visito o Museu Americano da História Natural o cinismo apodera-se de mim na secção dos "Fósseis". Ossaturas gigantescas, reconstruídas de maneira a formarem dinossauros "verosímeis".No andar de cima há uma reconstituição do "Dodo".É pura ficção como tal apresentada. Mas edificada com tal amor,tal ânsia de convencer..." "Se já fomos visitados,qual o motivo por que deixámos de o ser?

"Pressinto uma resposta simples e imediatamente aceitável:

"Se o pudéssemos fazer,educaríamos e civilizaríamos porcos, patos e vacas? Atrever-nos-íamos a estabelecer relações diplomáticas com a galinha, que funciona para nos satisfazer com o seu sentido absoluto de aperfeiçoamento?

"Creio que somos bens imobiliários,acessórios,gado.

"Creio que fazemos parte de qualquer coisa.Que outrora a Terra era uma espécie de no man's land que outros mundos exploraram, colonizaram e disputaram entre si.

"Actualmente,há qualquer coisa que possui a Terra e dela afastou todos os colonos.Nada nos apareceu vindo de algures, tão abertamente como um Cristóvão Colombo desembarcando em S. Salvador ou Hudson subindo o rio que tem o seu nome. Mas, quanto às visitas sub-reptícias feitas ao planeta, muito recentemente ainda, quanto aos viajantes emissários vindos talvez de outro mundo e que mostram o maior interesse em nos evitar, teremos disso provas convincentes.

"Ao empreender esta tarefa, serei por minha vez obrigado a pôr de parte certos aspectos da realidade. Parece-me difícil, por exemplo, englobar num único volume todas as maneiras possíveis de se servir da humanidade numa forma diferente de existência, ou mesmo justificar a ilusão lisonjeira que pretende que somos úteis a qualquer coisa. Os porcos, os patos e as vacas devem antes de mais descobrir que os possuímos, depois preocupar-se em saber por que motivo os possuímos. Talvez nós sejamos utilizáveis, talvez se tenha operado uma coordenação entre diversas partes: qualquer coisa tem sobre nós direito legal pela força, depois de ter pago para obter o equivalente das quinquilharias que lhe reclamava o nosso proprietário precedente, mais primitivo. E essa transacção é conhecida desde há vários séculos por alguns de nós, cabecilhas de um culto ou de uma ordem secreta cujos membros, como escravos de primeira classe, nos dirigem segundo as instruções recebidas, e nos encaminham para a nossa misteriosa função.

"Outrora, muito antes que a posse legal ficasse estabelecida, habitantes de uma imensidade de Universos aterraram sobre a Terra, por ela deambularam, voaram, navegaram a todo o pano, arrastados, empurrados para as nossas costas, isoladamente ou em grupos, visitando-nos ocasional ou periodicamente, por razões de caça, de permuta ou de sondagem, talvez para rechearem os seus haréns. Fundaram as suas colónias, perderam-se ou tiveram de partir. Povos civilizados ou primitivos, seres ou coisas, formas brancas, negras ou amarelas."
 
*

Nós não estamos sós, a Terra não está só, "somos todos insectos e ratos, e apenas expressões diferentes de um enorme  queijo universal" do qual apercebemos vagamente as fermentações e o cheiro. Há outros mundos atrás do nosso, outras vidas para além daquilo a que chamamos vida. Abolir os parêntesis do exclusionismo para dar acesso às hipóteses da Unidade fantástica.

E paciência se nos enganamos, se desenhamos, por exemplo, um mapa da América sobre o qual o Hudson se dirige directamente à Sibéria: o essencial, neste momento de renascimento do espírito e dos métodos de conhecimento, é que tenhamos a firme convicção de que os mapas devem ser refeitos, que o Mundo não é aquilo que pensávamos que fosse, e que nós próprios nos devemos transformar, no seio da nossa própria consciência,
em qualquer coisa de diferente do que éramos.

Outros mundos comunicam com a Terra. Há provas disso. As que julgamos ver talvez não sejam as autênticas. Mas existem. As marcas de ventosas sobre as montanhas: serão provas? Ignoramo-lo. Mas despertarão o nosso espírito para que encontre outras melhores.

"Essas marcas parecem-me simbolizar a comunicação.

"Mas não meios de comunicação entre habitantes da Terra. Tenho a impressão de que uma força exterior cobriu de símbolos os rochedos da Terra, e isto de muito longe. Não creio que as marcas de ventosas sejam comunicações inscritas entre diversos habitantes da Terra, pois parece inaceitável que os habitantes da China, da Escócia e da América tenham todos concebido o mesmo sistema. As marcas de ventosas são uma série de impressões sobre a rocha que obrigam irresistivelmente a pensar em ventosas. Por vezes são rodeadas por um círculo, outras por um simples semicírculo. Encontram-se mais ou menos por toda a parte, em Inglaterra, em França, na América, na Argélia, no Cáulcaso e na Palestina, por toda a parte excepto talvez no Grande Norte. Na China, as falésias estão cheias dessas marcas. Sobre uma falésia próxima do lago de Como existe um labirinto dessas marcas. Na Itália, em Espanha e nas Índias encontram-se em quantidade inacreditável. Suponhamos que uma força, digamos análoga à energia eléctrica, possa de longe marcar os rochedos da mesma forma que o selénio pode, a centenas de quilómetros, ser marcado pelos telefotógrafos, mas eu sou o homem de dois espíritos.

"Exploradores perdidos vindos de qualquer parte. De qualquer outro sítio tentam comunicar com eles, e um frenesim de mensagens chove em catadupa sobre a Terra, na esperança de que algumas delas marquem as montanhas, perto dos exploradores perdidos. Ou ainda, em qualquer parte sobre a Terra, há uma superfície rochosa de um género muito especial, um receptor, uma construção polar, ou uma colina abrupta e cónica sobre a qual há séculos que se inscrevem as mensagens de outro mundo. Mas, por vezes, essas mensagens perdem-se e marcam superfícies situadas a milhares de quilómetros do receptor. Talvez as forças dissimuladas atrás da história da Terra tenham deixado sobre os rochedos da Palestina, da Inglaterra, da China e das Índias arquivos que um dia serão decifrados, ou instruções mal dirigidas destinadas a ordens esotéricas, aos franco-mações e aos jesuítas do espaço."

Nenhuma imagem será louca demais, nenhuma hipótese será excessiva: aríetes para arrombar a fortaleza. Há engenhos voadores, há exploradores no espaço. E se eles apanhassem, à passagem, para os examinar, alguns organismos vivos deste  mundo? "Creio que nos pescam. Será que somos muito apreciados pelos feitores das esferas superiores? Sinto-me encantado por supor que, afinal de contas, posso ser útil a qualquer coisa.  Estou certo de que flutuaram diversas redes na nossa atmosfera, e que foram identificadas a trombas ou a furacões. Creio que nos pescam, mas apenas o menciono de passagem..."
 
Eis atingidas as profundezas do inadmissível, murmura com tranquila satisfação o nosso amável precursor Charles Hoy Fort. Retira a sua viseira verde, esfrega os olhos cansados, alisa o bigode de foca, e vai à cozinha ver se a sua boa esposa, Ana, ao cozer os feijões do jantar, não corre o risco de lançar fogo à barraca, aos cartões, às fichas, ao museu da coincidência, ao conservatório do improvável, ao salão dos artistas celestes, ao gabinete dos objectos caídos, a essa biblioteca dos outros mundos, a essa catedral de Santo-Algures (Universo pressentido, onde o fantástico se torna provável), ao cintilante, fabuloso trajo
de Loucura que usa a Sabedoria.

Ana, minha boa amiga, é melhor que apague o seu fogão.

Bom apetite, Senhor Fort!


1 Alusão à obra do etnólogo e filósofo sir James Frazer, publicada em 1890. (N. da T.)
2 Edições "Deux Rives," Paris, Colecção "Luz Interdita," dirigida por Louis Pauwels.
3 Espécie, hoje extinta, de aves da Nova Zelândia, parecidas com a avestruz. (N. da T.)


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