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siga a estrada de tijolos amarelos: Sociedades Secretas & Conspirações Textos Conspiracionais Despertar dos Mágicos As Civilizações Desaparecidas - Capítulo II

As Civilizações Desaparecidas - Capítulo II


Louis Pauwels e Jacques Bergier

Uma hipótese para a fogueira. - Onde o eclesiástico e o biologista fazem o papel de cómicos. - Pede-se um Copérnico da antropologia. - Muitos espaços brancos sobre todos os mapas. - O doutor Fortune não é curioso. - O mistério da platina derretida. - Guitas que são divros. - A árvore e o telefone. - Um relativismo cultural. - E agora, uma boa historieta !
 
Acção militante para a maior amplidão de espírito possível, iniciação à consciência cósmica, a obra de Charles Fort vai inspirar directamente o maior poeta dos universos paralelos, H. P. Lovecraft, pai daquilo a que se chama geralmente ficção científica e que nos parece, na realidade, ao nível das dez ou quinze obras-primas do género, como a Ilíada e a Odisseia da civilização em marcha. Em certa medida, o espírito de Charles Fort inspira igualmente o nosso trabalho. Nós não acreditamos em tudo. Mas acreditamos que tudo deve ser examinado. Por vezes é a observação dos factos duvidosos que dá aos factos verdadeiros a sua mais ampla expressão. Não é pela prática da omissão que se atinge o todo. Como Fort, esforçamo-nos por rever um certo número de omissões, e aceitamos o risco de passar por anormais. Ficará para outros o cuidado de descobrir boas pistas na nossa floresta virgem.

Fort estudava tudo o que, aparentemente, caíra do céu. Nós estudamos todos os vestígios, prováveis ou menos prováveis, que algumas civilizações desaparecidas possam ter deixado sobre a Terra. Sem excluir a menor hipótese: civilização atómica bem anterior ao que chamamos a pré-história, ensinamento vindo dos habitantes de Algures, etc. Dado que o estudo científico do passado longínquo da humanidade foi iniciado há pouco e nele reina a maior confusão, estas hipóteses não são mais loucas nem têm menos fundamento do que as hipóteses vulgarmente aceites. O importante, para nós, é dar ao assunto o máximo de amplidão.

Não vamos apresentar ao leitor uma tese sobre as civilizações desaparecidas. Vamos simplesmente propor-lhe que encare o problema segundo um novo método: não inquisitorial.

Segundo o método clássico, há duas espécies de factos: os escandalosos e os outros. Por exemplo, as descrições de engenhos voadores em textos sagrados muito antigos, a prática de poderes parapsicológicos entre os "primitivos", ou a presença de níquel em moedas datando de 235 antes de Jesus Cristo[1] são factos escandalosos. Excluídos. Proibição de os examinar. E há duas espécies de hipóteses: as incómodas e as outras. Os frescos descobertos na gruta de Tassili, no Sara, representam, entre outras  personagens de capacetes com longos cornos, dos quais saem fusos desenhados por meio de milhares de pontos minúsculos. Dizem que se trata, possivelmente, de grãos de trigo, testemunhos de uma civilização pastoral. De acordo, mas não há disso prova alguma. E se se tratasse da representação de campos magnéticos? Horror! Pavorosa hipótese! Bruxaria! Loucura! Para a fogueira!

 Afinal, o método clássico, a que chamamos inquisitorial, dá resultados como este:

 
Um eclesiástico indiano, o reverendo Pravanananvanda, e um biologista americano, o doutor Strauss, da John Hopkins University, acabam de identificar o abominável homem das neves. Seria pura e simplesmente o urso pardo do Himalaia. Nenhum dos dois estimáveis sábios viu o animal. Mas, declaram eles, "a nossa hipótese, visto ser a única que não é fantástica, deve ser a autêntica". Portanto, ir-se-ia contra o espírito científico prosseguindo pesquisas supérfluas. Glória ao reverendo e ao doutor! Resta apenas comunicar ao Yéti que ele é o urso pardo do Himalaia.

O nosso método, de acordo com a nossa época (comparável, em vários pontos, com o Renascimento), apoia-se sobre o princípio da tolerância. Fora a inquisição. Recusamo-nos a excluir factos e a desprezar hipóteses. Escolher lentilhas é uma acção útil: as pedras são impróprias para consumo. Mas nada prova que certas hipóteses excluídas e certos factos "escandalosos" não sejam nutritivos. Nós não trabalhamos para os débeis, os alérgicos, mas para todos aqueles que têm, como se costuma dizer, bom estômago.

Estamos persuadidos de que existem no estudo das antigas civilizações inúmeras negações da evidência, exclusões a priori, execuções inquisitoriais. As ciências humanas progrediram menos do que as ciências físicas e químicas, e o espírito positivista do século xIx ainda reina ali, como senhor tanto mais exigente quanto pressente que a morte se aproxima.
 
*

A antropologia está à espera do seu Copérnico: Antes de Copérnico, a Terra era o centro do Universo. Para o antropologista clássico, a nossa civilização é o centro de todo o pensamento humano, no espaço e no tempo. Lamentemos o pobre primitivo, encerrado nas trevas da mentalidade pré-lógica. Quinhentos anos nos separam da Idade Média e mal principiamos a libertar essa época da acusação de obscurantismo. O século de Luís XV prepara a Europa moderna, e foram necessários os recentes trabalhos de Pierre Gaxotte para que esse século deixasse de ser considerado como uma barreira de egoísmo erguida contra o movimento da história. A nossa civilização como qualquer outra, é uma conspiração.

O Ramo de Oiro, de sirJames Frazer, é uma volumosa, obra revestida de autoridade. Ali se encontram reunidos os "folclores" de todos os países. Nem por instantes passa pela cabeça de sir Frazer que se poderia tratar de qualquer outra coisa além de comoventes superstições ou costumes pitorescos. Os selvagens atingidos por doenças contagiosas comem o cogumelo penicillum notatun: servindo-se da magia imitativa, eles procuram aumentar as suas forças ingerindo esse símbolo fálico. Continua a ser uma superstição o emprego da digitalina. A ciência dos antibióticos, as operações sob o efeito do hipnotismo, a obtenção da chuva artificial por meio da dispersão de sais de prata, por exemplo, deveriam ser suficientes para que certas práticas "primitivas" fossem retiradas da rubrica "ingenuidades".

Sir Frazer, profundamente convencido de fazer parte da única civilização digna desse nome, recusa-se a admitir que possam existir, entre os "inferiores", técnicas autênticas, mas de uma espécie diferente das nossas, e o seu Ramo de Oiro assemelha-se a esses mapas elaborados por iluminadores que apenas conheciam o Mediterrâneo: cobriam os espaços brancos com
desenhos e inscrições, "aqui o País dos Dragões", "aqui a Ilha dos Centauros"... Aliás, não é verdade que o século xIx se apressa, em todos os domínios, a camuflar todos os espaços em branco de todos os mapas? E mesmo nos mapas geográficos? Existe no Brasil, entre o rio Tapajos e o rio Xingu, uma terra desconhecida, vasta como a Bélgica. Também nenhum explorador se aproximou jamais de E1 Yafri, a cidade interdita da Arábia. Um dia, em 1943, na Nova Guiné, desapareceu sem deixar rasto uma divisão japonesa armada. E se as duas potências que entre si dividem o mundo chegarem a um acordo, o verdadeiro mapa do planeta reservar-nos-á algumas surpresas. Depois da bomba H, os militares procedem em segredo ao recenseamento das cavernas: extraordinário labirinto subterrâneo na Suécia, subsolo da Virgínia e da Checoslováquia, lago oculto sob as Baleares... Espaços em branco sobre o mundo dos homens. Nós não sabemos tudo a respeito dos poderes do homem, dos recursos da sua inteligência e do seu psiquismo, e inventámos ilhas de Centauros e países de Dragões: mentalidade pré-lógica, superstição, folclore, magia imitativa.

Hipótese: existiram civilizações que podem ter ido muitíssimo mais longe do que nós na exploração dos poderes parapsicológicos.
 
Resposta: não existem poderes parapsicológicos.

Lavoisier provara que não havia meteorites declarando: "Não podem cair pedras do céu, visto que não há pedras no céu". Simon Newcomb provara que os aviões não poderiam voar, visto que é impossível uma aeronave mais pesada do que o ar.

O doutor Fortune vai para a Nova Guiné para estudar os "Dobus". É um povo de mágicos, mas têm a particularidade de acreditar que as suas técnicas mágicas são válidas em toda a parte e para todos. Quando o doutor Fortune parte, um indígena oferece-lhe um feitiço que permite tornar-se invisível aos olhos dos outros. "Servi-me dele para roubar carne de porco em pleno dia. Siga à risca as minhas recomendações, e poderá fanar tudo o que quiser nas lojas de Sidney". - "Evidentemente, diz o doutor Fortune, nunca tentei". Lembrai-vos do nosso amigo Charles Fort: "Na topografia da inteligência poder-se-ia definir o conhecimento como a ignorância rodeada de risos".

No entanto, está prestes a aparecer uma nova escola de antropologia, e Lévi-Strauss não hesita em provocar indignação declarando que provavelmente os Negritos são mais fortes do que nós em matéria de psicoterapia. Pioneiro desta nova escola o americano William Seabrook, após a primeira guerra mundial, partiu para o Haiti para estudar o culto do T,audou. Não para o ver do exterior, mas para viver essa magia, entrar sem precaução nesse outro mundo. Paul Morand descreve-o magnificamente[2]:

 
"Seabrook talvez seja o único branco da nossa época que recebeu o baptismo de sangue. Recebeu-o sem cepticismo nem fanatismo. A sua atitude em relação ao mistério é a de um homem de hoje. A ciência dos últimos dez anos levou-nos à beira do infinito: ali tudo pode vir a acontecer, viagens interplanetárias, descoberta da quarta dimensão, T.S.F com Deus. É preciso reconhecer esta nossa superioridade em relação aos nossos pais: daqui em diante estamos prontos para tudo, somos menos crédulos e mais crentes. Quanto mais remontamos às origens do Mundo, quanto mais analisamos os primitivos, mais verificamos que os seus segredos tradicionais coincidem com as nossas actuais investigações. Só há pouco tempo é que a Via Láctea é considerada geradora dos mundos estelares: ora os astecas afirmaram-no e não foram acreditados. Os selvagens conservaram o que a ciência redescobre. Eles acreditaram na unidade da matéria muito antes que o átomo de hidrogénio tenha sido isolado. Eles acreditaram na árvore-homem, no ferro-homem muito antes de sir J. C. Bose ter medido a sensibilidade dos vegetais, e envenenado metal com veneno de cobra. "A fé humana, diz Huxley nos Ensaios de um Biologzsta, desenvolveu-se do Espírito para os espíritos, depois dos espíritos para os deuses e dos deuses para Deus." Poderia acrescentar-se que de Deus regressamos ao Espírito."

Mas para descobrir que os segredos tradicionais dos "primitivos" coincidem com as nossas actuais investigações, seria necessário que se estabelecesse uma circulação entre a antropologia e as ciências físicas, químicas e matemáticas recentes. O simples viajante curioso, inteligente e de formação histórico-literária, corre o risco de passar ao lado das mais importantes observações. Até agora a exploração não foi mais do que uma parte da literatura, um luxo da actividade subjectiva. Quando for mais qualquer coisa, talvez nos venhamos a aperceber da existência, há milhares de séculos, de civilizações dotadas de equipamentos técnicos tão consideráveis como os nossos, embora diferentes.

J. Alden Mason, antropologista eminente e muito oficial, afirma, com referências devidamente controladas, que foram descobertos sobre o planalto peruano ornamentos de platina fundida. Ora a platina derrete a 1730 graus, e para a trabalhar é necessária uma tecnologia comparável à nossa. O professor Mason compreende a dificuldade: supõe portanto que esses ornamentos foram fabricados a partir de pó calcinado, e não fundidos. Semelhante suposição prova uma verdadeira ignorância da metalurgia. Dez minutos de pesquisas no Tratado dos Pós Calcinados, de Schwartzkopf, ter-lhe-iam demonstrado que a hipótese era inadmissível. Porque não consultar os especialistas das outras disciplinas? Todo o processo da antropologia lá está. Com a mesma inocência, o professor Mason assegura que se encontra na mais longínqua civilização do Peru a soldadura dos metais à base de resina e de sais metálicos fundidos. O facto de que essa técnica está na base da electrónica e acompanha tecnologias excessivamente desenvolvidas parece escapar-lhe. Pedimos desculpa de fazer alarde de conhecimentos, mas voltamos a sentir aquela necessidade da "informação concomitante", tão intensamente pressentida por Charles Fort.

A despeito da sua atitude muito prudente, o professor John Alden Mason, Curator Emeritus do museu das Antiguidades Americanas da Universidade de Pensilvânia, na sua obra The Ancient Civilization of Peru, abre uma porta sobre o realismo fantástico quando fala dos Quipu. Os Quipu são guitas com nós muito complicados. Encontram-se entre os Incas e os pré-Incas. Tratar-se-ia de uma forma de escrita. Teriam servido para exprimir.
 
Outros mistérios da história das técnicas: o método da análise espectral foi recentemente utilizado pelo Instituto de Física Aplicada da Academia das Ciências chinesa para examinar um cinto enfeitado com pequenos furos, que data de há 1600 anos e foi descoberto enterrado no meio de muitos outros objectos no túmulo do famoso general dos Tsin do Oeste, Chou Chu, contemporâneo do final do império romano (265-316 depois de J. C.). Verificou-se que o metal desse cinto era composto por oitenta e cinco por cento de alumínio, 10 por cento de cobre e 5 por cento de manganês.

Ora, embora o alumínio esteja largamente espalhado sobre a Terra, é difícil de extrair. O processo de electrolização, que é até agora o único conhecido para extrair o alumínio da bauxita, só se desenvolveu a partir de 1808. Que os artífices chineses tenham sido capazes de extrair alumínio de uma tal bauxita, há 1600 anos, é por conseguinte uma importante descoberta na história mundial da metalurgia. (Horizons, n.o 89, Outubro de 1958). ideias, ou grupos de ideias abstractas. Um dos melhores especialistas dos Quipu, Nordenskield, vê neles cálculos matemáticos, horóscopos, diversos métodos de previsão do futuro. O problema é capital: podem existir outras formas de registar o pensamento além da escrita.

Vamos mais longe: o nó, base dos Quipu, é considerado pelos matemáticos modernos como um dos maiores mistérios. Ele só é possível num número ímpar de dimensões, impossível no plano e nos espaços superiores pares: 4, 6, 2 dimensões, e os topologistas só conseguiram estudar os nós mais simples. Portanto não é improvável que se encontrem inscritos nos Quipu
conhecimentos que nós ainda não possuímos.

Outro exemplo: a reflexão moderna sobre a natureza do conhecimento e as estruturas do espírito poderia enriquecer-se com o estudo da linguagem dos Índios Hopi da América Central. Essa linguagem presta-se melhor do que a nossa às ciências exactas. Não contém palavras-verbo e palavras-substantivos, mas sim palavras-acontecimentos, portanto mais intimamente aplicáveis ao contínuo espaço-tempo no qual agora sabemos que vivemos. Mais ainda, a palavra-acontecimento possui três modos: certeza, probabilidade, imaginação. Em vez de dizer: um homem atravessava a ribeira numa lancha, o Hopi empregará o conjunto homem-ribeira-canoa em três combinações diferentes conforme se tratar de um facto observado pelo narrador, contado por outrem, ou sonhado.

O homem verdadeiramente moderno, no sentido em que Paul Morand o entende e que é também o nosso, descobre que a inteligência é una, através de estruturas diferentes, como a necessidade de viver sob abrigo é una, através de mil arquitecturas. E descobre que a natureza do conhecimento é múltipla, como a própria Natureza.

*

Pode ser que a nossa civilização seja o resultado de um longo esforço para obter da máquina certos poderes que o homem antigo possuía: comunicar à distância, elevar-se no espaço, libertar a energia da matéria, anular o peso, etc. Pode também acontecer que no final das nossas descobertas nos venhamos a aperceber de que esses poderes são manejáveis com um equipamento tão reduzido que a palavra "máquina" terá outro sentido. Teremos ido, nesse caso, do espírito para a máquina, e da máquina para o espírito, e certas civilizações longínquas parecer-nos-ão muito menos afastadas.

No seu discurso de recepção na Universidade de Oxford, em 1946, Jean Cocteau conta a seguinte anedota:

"O meu amigo Pobers, professor de uma cadeira de parapsicologia em Utreque, foi enviado em missão para as Antilhas a fim de estudar o papel da telepatia, correntemente usada entre os selvagens. Se desejam corresponder-se com o marido ou o filho, na cidade, as mulheres dirigem-se a uma árvore e pai ou filho respondem ao que lhes é perguntado. Um dia em que Pobers assistia a este fenómeno e perguntava à camponesa por que motivo se servia de uma árvore, a sua resposta foi surpreendente e apta a resolver todo o problema moderno dos nossos instintos atrofiados pelas máquinas, nas quais o homem delega todo o esforço. Eis a pergunta: "Porque se dirige a uma árvore?" E eis a resposta: "Porque sou pobre. Se fosse rica, teria o telefone".

Certos electroencefalogramas de Yogis em êxtase apresentam curvas que não correspondem a nenhuma das actividades cerebrais conhecidas em estado de vigília ou de sono. Há muitos brancos com bonecos de fantasia sobre o mapa do espírito civilizado: precognições, intuição, telepatia, génio, etc. No dia em que a exploração destas regiões estiver realmente desenvolvida e se tiverem aberto pistas através de diversos estados de consciência ignorados pela nossa psicologia clássica, o estudo das civilizações antigas e dos povos considerados primitivos revelará talvez verdadeiras tecnologias e aspectos essenciais do conhecimento. A um centralismo cultural sucederá um relativismo que nos apresentará a história da humanidade sob uma luz nova e fantástica. O progresso não está em reforçar os parêntesis, mas em multiplicar os traços de união.
 
*

Antes de prosseguir, e para vos distrair um pouco, gostaríamos que lessem uma pequena história de que muito gostamos. É da autoria de Arthur Clarke, quanto a nós um bom filósofo. Traduzimo-la em vossa intenção. Repousemos portanto e vamos dar lugar às infantilidades explosivas!
 
OS NOVE BILIÕES DE NOMES DE DEUS
por Arthur C. Clarke
 
 
O doutor Wagner conseguiu reprimir-se. Era meritório. Depois disse:

- O seu pedido é um pouco desconcertante. Que eu saiba, a primeira vez que um mosteiro tibetano faz a encomenda de um calculador electrónico. Não quero ser curioso, mas estava longe de pensar que semelhante instituição pudesse necessitar desta máquina. Posso perguntar-lhe em que deseja utilizá-la?

O lama ajeitou a saia da sua túnica de seda e pousou sobre secretária a régua de calcular com a qual acabava de efectuar conversões libra-dólar.

- Com certeza. O calculador electrónico tipo 5 pode fazer, segundo diz o catálogo, todas as operações matemáticas até 10 decimais. No entanto, o que me interessa são letras, não números. Pedir-lhe-ei portanto que modifique o circuito de saída de forma que imprima letras em vez de colunas de números.

- Não compreendo muito bem. . .

- Desde que a nossa instituição foi fundada, há mais de três séculos, que nos consagramos a um determinado trabalho. É um trabalho que pode parecer-lhe estranho e peço-lhe que me escute com a maior largueza de espírito.

- De acordo.

- É simples. Tentamos organizar a lista de todos os nomes possíveis de Deus.

- Perdão?

O lama continuou imperturbavelmente:

- Temos excelentes motivos para crer que todos esses nomes incluem quando muito nove letras do nosso alfabeto.
 
- E ocuparam-se disso durante três séculos?
 
- Sim. Tínhamos calculado que precisaríamos de quinze mil anos para terminar o trabalho.

O doutor deu um assobio de vencido, e disse um pouco atordoado:
 
- O.K., agora compreendo porque deseja alugar uma das nossas máquinas. Mas qual é o objectivo da operação?
 
Durante uma fracção de segundo o lama hesitou e Wagner receou ter ofendido aquele estranho cliente que acabava de fazer a viagem Lassa-Nova Iorque com uma régua de calcular e o Catálogo da Companhia dos Contadores Electrónicos na algibeira da sua túnica cor de açafrão.

- Chame a isto um ritual, se quiser - disse o lama -, mas é uma das bases fundamentais da nossa religião. Os nomes do Ser Supremo, como seja Deus, Júpiter, Jeová, Alá, etc., não passam de etiquetas feitas pelos homens. Certas considerações filosóficas, demasiado complexas para que as possa expor agora, deram-nos a certeza de que, entre todas as permutas e possíveis combinações das letras, se encontram os verdadeiros nomes de Deus. Ora o nosso objectivo é descobri-los e escrevê-los todos.
 
- Já compreendo: Começaram por A.A.A.A.A.A.A.A.A., e acabarão por chegar a Z.Z.Z.Z.Z.Z.Z.Z.Z.
 
- Simplesmente utilizamos o nosso alfabeto. Evidentemente que lhe há-de ser fácil modificar a máquina de escrever eléctrica, de forma que ela utilize o nosso alfabeto. Mas um problema mais importante será o de preparar os circuitos esperiais de forma que eliminem antecipadamente as combinações múteis. Por exemplo, nenhuma das letras deve aparecer mais de três vezes sucessivamente.

- Três? Quer dizer duas.

- Não. Três. Mas a explicação completa exigiria imenso tempo, mesmo se o senhor compreendesse a nossa língua.

Wagner disse precipitadamente:

- Claro, claro. Siga, por favor.

- Ser-lhe-á fácil adaptar o calculador automático em função deste objectivo. Com um plano bem elaborado, uma máquina desse género pode trocar as letras umas a seguir às outras e imprimir um resultado. Desta forma, concluiu calmamente o lama, aquilo que nos levaria ainda quinze milénios estará terminado em cem dias.

O doutor Wagner sentia que ia perdendo o sentido das realidades. Através das janelas do edifício, os ruídos e as luzes de Nova Iorque perdiam a intensidade. Sentia-se transportado a um mundo diferente. Lá longe, no seu longínquo asilo montanhoso, geração após geração, os monges tibetanos há trezentos anos que elaboravam a sua lista de nomes desprovidos de sentido... Não havia então limite para a loucura dos homens? Mas o doutor Wagner não devia deixar transparecer os seus pensamentos. O cliente tem sempre razão...

E respondeu:

- Não duvido de que possamos modificar a máquina tipo 5, de forma a imprimir listas desse género. A instalação e a conservação é que mais me inquietam. Aliás, não será fácil enviá-la para o Tibete.

 - Nós trataremos disso. As peças separadas têm dimensões suficientemente pequenas para serem transportadas por avião. De resto, foi esse o motivo por que escolhemos a máquina. Enviem as peças para a Índia, que nós nos encarregaremos do resto.

- Deseja contratar dois dos nossos engenheiros?

- Sim, para montarem e vigiarem a máquina durante cem dias.

- Vou mandar instruções à direcção do pessoal - disse Wagner enquanto escrevia no bloco-notas. - Mas restam duas
questões a resolver. . .

Antes que tivesse podido terminar a frase, o lama tirou do bolso uma delgada folha de papel:

- Esta é a posição certificada da minha conta no Banco Asiático.

- Muito obrigado. Está muito bem... Mas, se me permite, a segunda questão é de tal maneira elementar que hesito em mencioná-la. Acontece muitas vezes esquecermos qualquer coisa evidente. . . Têm uma fonte de energia eléctrica?

- Temos um gerador "Diesel" eléctrico de 50 KW de potência 100 volts. Foi instalado há cinco anos e funciona bem. Facilita-nos a vida no convento. Comprámo-lo sobretudo para accionar os moinhos de orações.

- Ah, sim, evidentemente, eu devia ter pensado nisso...
 
 *
 
Do parapeito a vista era vertiginosa, mas habituamo-nos a tudo.

Tinham decorrido três meses e Jorge Hanley já não se impressionava com os seiscentos metros em vertical que separavam o mosteiro do quadriculado dos campos na planície. Apoiado sobre pedras que o vento arredondara, o engenheiro contemplava com olhar triste as montanhas longínquas de que ignorava o nome. "A operação nome de Deus", como a baptizara um humorista da Companhia, era sem dúvida a pior tarefa de louco em que jamais participara.

Semana após semana, a máquina tipo 5, modificada, cobrira milhares de folhas de uma incrível algaravia. Paciente e inexorável, o calculador reunira as letras do alfabeto tibetano em todas as combinações possíveis, esgotando série após série. Os monges recortavam certas palavras à saída da máquina de escrever eléctrica e colavam-nas com devoção em enormes registos. Dentro de uma semana acabariam.

Hanley ignorava quais seriam os obscuros cálculos que os tinham feito chegar à conclusão de que não deviam estudar conjuntos de dez, vinte, cem, mil letras, e nem pretendia sabê-lo. Nos seus pesadelos sonhava por vezes que o grande lama decidira bruscamente complicar um pouco mais a operação e que o trabalho continuaria até ao ano 2060. Aliás, aquele estranho homenzinho parecia perfeitamente capaz de o fazer.

A pesada porta de madeira soou. Chuk vinha ter com ele ao terraço. Chuk fumava, como de costume, um charuto: tornara-se popular entre os lamas distribuindo-lhes " havanos". Aqueles tipos seriam completamente chalados - pensou Hanley -, mas
não eram puritanos. As frequentes expedições à aldeia não tinham sido desprovidas de interesse. . .

- Ouve, Jorge - disse Chuk -, vamos ter aborrecimentos.

- A máquina escangalhou-se?
 
- Não.

Chuk sentou-se sobre o parapeito. Era espantoso, pois habitualmente receava ter vertigens:

- Acabo de descobrir o objectivo da operação.

- Mas já o sabíamos!

- Sabíamos o que os monges queriam fazer, mas não sabíamos porquê.

- Bah!, são uns loucos...

- Escuta, Jorge, o velho acaba de me explicar. Eles crêem que assim que tenham escrito todos aqueles nomes (e segundo pensam são cerca de nove biliões), o objectivo divino será atingido. A raça humana terá realizado a tarefa para que foi criada.

- Então e depois? Esperam que nos suicidemos?

- Inútil. Quando a lista estiver terminada, Deus intervirá e será o fim.

- Quando terminarmos, será então o fim do Mundo?

Chuk teve um risinho nervoso:

- Foi o que eu disse ao velho. Ele olhou-me de uma forma estranha, como um professor olha para um aluno particularmente estúpido, e disse-me: "Oh, não será assim tão insignificante!..."

Jorge reflectiu um instante.

- É um tipo que visivelmente tem ideias largas, mas, mesmo assim, que importância tem isso? Nós já sabíamos que eram uns loucos.
 
- Sim. Mas não vês o que pode acontecer? Se a lista fica pronta e se as trombetas do anjo Gabriel, versão tibetana, não tocam, eles podem decidir que é por nossa culpa. No fim de contas, era a nossa máquina que eles utilizavam. Não gosto disto. . .

- Estou a ver. . . - disse lentamente Jorge - mas eu já vi tanta coisa! Quando era garoto, na Luisiana, apareceu um pregador que anunciou o fim do Mundo para o próximo domingo. Houve centenas de tipos que o acreditaram. Alguns chegaram a vender as suas casas. Mas ninguém se enfureceu no domingo a seguir. As pessoas pensaram que ele apenas errara um pouco os cálculos, e muitas delas ainda o acreditam.

- Caso não te tenhas apercebido disso, faço-te notar que não estamos na Luisiana. Estamos os dois sozinhos, no meio de centenas de monges. Eu adoro-os, mas preferia estar longe quando o velho lama se aperceber de que a operação falhou.

- Há uma solução. Uma pequenina sabotagem inofensiva. O avião chega dentro de uma semana e a máquina acaba o trabalho dentro de quatro dias, à razão de 24 horas por dia. Basta-nos começar a reparar qualquer coisa durante dois ou três dias. Se calcularmos bem, podemos estar lá em baixo, no aeroporto, quando o último nome sair da máquina.
 
*

Sete dias mais tarde, enquanto os pequenos póneis das montanhas desciam o caminho em espiral, Hanley disse:

- Sinto um pouco de remorsos. Não fujo por medo, mas porque me faz pena. Não gostaria de ver a cara daqueles pobres homens quando a máquina parar.

- Na minha opinião - disse Chuk -, eles desconfiaram que fugimos, o que os deixou indiferentes. Agora já sabem até que ponto a máquina é automática, e que não precisa de vigilância. E supõem que não haverá nenhum depois.

Jorge voltou-se para trás e olhou.

Os edifícios do mosteiro apareciam em silhueta escura sobre o poente. De vez em quando brilhavam pequeninas luzes sob a massa sombria das muralhas, como as vigias de um navio singrando no mar. Lâmpadas eléctricas colocadas sobre o circuito
da máquina n.o 5. Que aconteceria ao calculador eléctrico? - pensou Jorge.

- Na sua fúria e desapontamento iriam os monges destruí-lo? Ou então recomeçariam tudo?

Como se ainda lá estivesse, via o que naquele momento se passava sobre a montanha atrás das muralhas. O grande lama e os seus assistentes examinavam as folhas, enquanto alguns noviços recortavam os nomes barrocos e os colavam no enorme caderno. E tudo aquilo era feito em religioso silêncio. Só se ouviam as teclas da máquina, batendo no papel como se fosse chuva miúda. O próprio calculador, que combinava milhares de letras por segundo, estava completamente silencioso...

A voz de Chuk interrompeu o seu devaneio:

- Lá está ele! Que grande alegria que dá!

Semelhante a uma minúscula cruz prateada, o velho avião de transportes D.C. 3 acabava de pousar lá em baixo no pequeno aeródromo improvisado. Aquela visão dava vontade de beber um grande copo de uísque gelado. Chuk começou a cantar, mas depressa se calou. As montanhas não o encorajavam. Jorge consultou o relógio.
 
- Estaremos lá dentro de uma hora - disse. E acrescentou: - Pensas que o cálculo já terminou?

Chuk não respondeu e Jorge levantou a cabeça. Viu o rosto de Chuk muito branco, voltado para o céu.

- Olha - murmurou Chuk.

Jorge, por sua vez, levantou os olhos.

Pela última vez, por cima deles, na paz das alturas, uma a uma as estrelas começavam a extinguir-se. . .



1 As moedas bactrianas, cunhadas pelo rei Euthydémus II, 235 anos antes de Cristo (Scientific American, Janeiro de 1960).

2 Prefácio à Ilha Mágica, de William Seabrook (Firmin-Didot editor, Paris, 1932).


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