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siga a estrada de tijolos amarelos: Sociedades Secretas & Conspirações Textos Conspiracionais Despertar dos Mágicos As Civilizações Desaparecidas - Capítulo III

As Civilizações Desaparecidas - Capítulo III


Louis Pauwels e Jacques Bergier

Antes de prosseguir, e para vos distrair um pouco, gostaríamos que lessem uma pequena história de que muito gostamos. É da autoria de Arthur Clarke, quanto a nós um bom filósofo. Traduzimo-la em vossa intenção. Repousemos portanto e vamos dar lugar às infantilidades explosivas!
 
OS NOVE BILIÕES DE NOMES DE DEUS
por Arthur C. Clarke
 
 
O doutor Wagner conseguiu reprimir-se. Era meritório. Depois disse:

- O seu pedido é um pouco desconcertante. Que eu saiba, a primeira vez que um mosteiro tibetano faz a encomenda de um calculador electrónico. Não quero ser curioso, mas estava longe de pensar que semelhante instituição pudesse necessitar desta máquina. Posso perguntar-lhe em que deseja utilizá-la?

O lama ajeitou a saia da sua túnica de seda e pousou sobre secretária a régua de calcular com a qual acabava de efectuar conversões libra-dólar.

- Com certeza. O calculador electrónico tipo 5 pode fazer, segundo diz o catálogo, todas as operações matemáticas até 10 decimais. No entanto, o que me interessa são letras, não números. Pedir-lhe-ei portanto que modifique o circuito de saída de forma que imprima letras em vez de colunas de números.

- Não compreendo muito bem. . .

- Desde que a nossa instituição foi fundada, há mais de três séculos, que nos consagramos a um determinado trabalho. É um trabalho que pode parecer-lhe estranho e peço-lhe que me escute com a maior largueza de espírito.

- De acordo.

- É simples. Tentamos organizar a lista de todos os nomes possíveis de Deus.

- Perdão?

O lama continuou imperturbavelmente:

- Temos excelentes motivos para crer que todos esses nomes incluem quando muito nove letras do nosso alfabeto.
 
- E ocuparam-se disso durante três séculos?
 
- Sim. Tínhamos calculado que precisaríamos de quinze mil anos para terminar o trabalho.

O doutor deu um assobio de vencido, e disse um pouco atordoado:
 
- O.K., agora compreendo porque deseja alugar uma das nossas máquinas. Mas qual é o objectivo da operação?
 
Durante uma fracção de segundo o lama hesitou e Wagner receou ter ofendido aquele estranho cliente que acabava de fazer a viagem Lassa-Nova Iorque com uma régua de calcular e o Catálogo da Companhia dos Contadores Electrónicos na algibeira da sua túnica cor de açafrão.

- Chame a isto um ritual, se quiser - disse o lama -, mas é uma das bases fundamentais da nossa religião. Os nomes do Ser Supremo, como seja Deus, Júpiter, Jeová, Alá, etc., não passam de etiquetas feitas pelos homens. Certas considerações filosóficas, demasiado complexas para que as possa expor agora, deram-nos a certeza de que, entre todas as permutas e possíveis combinações das letras, se encontram os verdadeiros nomes de Deus. Ora o nosso objectivo é descobri-los e escrevê-los todos.
 
- Já compreendo: Começaram por A.A.A.A.A.A.A.A.A., e acabarão por chegar a Z.Z.Z.Z.Z.Z.Z.Z.Z.
 
- Simplesmente utilizamos o nosso alfabeto. Evidentemente que lhe há-de ser fácil modificar a máquina de escrever eléctrica, de forma que ela utilize o nosso alfabeto. Mas um problema mais importante será o de preparar os circuitos esperiais de forma que eliminem antecipadamente as combinações múteis. Por exemplo, nenhuma das letras deve aparecer mais de três vezes sucessivamente.

- Três? Quer dizer duas.

- Não. Três. Mas a explicação completa exigiria imenso tempo, mesmo se o senhor compreendesse a nossa língua.

Wagner disse precipitadamente:

- Claro, claro. Siga, por favor.

- Ser-lhe-á fácil adaptar o calculador automático em função deste objectivo. Com um plano bem elaborado, uma máquina desse género pode trocar as letras umas a seguir às outras e imprimir um resultado. Desta forma, concluiu calmamente o lama, aquilo que nos levaria ainda quinze milénios estará terminado em cem dias.

O doutor Wagner sentia que ia perdendo o sentido das realidades. Através das janelas do edifício, os ruídos e as luzes de Nova Iorque perdiam a intensidade. Sentia-se transportado a um mundo diferente. Lá longe, no seu longínquo asilo montanhoso, geração após geração, os monges tibetanos há trezentos anos que elaboravam a sua lista de nomes desprovidos de sentido... Não havia então limite para a loucura dos homens? Mas o doutor Wagner não devia deixar transparecer os seus pensamentos. O cliente tem sempre razão...

E respondeu:

- Não duvido de que possamos modificar a máquina tipo 5, de forma a imprimir listas desse género. A instalação e a conservação é que mais me inquietam. Aliás, não será fácil enviá-la para o Tibete.

 - Nós trataremos disso. As peças separadas têm dimensões suficientemente pequenas para serem transportadas por avião. De resto, foi esse o motivo por que escolhemos a máquina. Enviem as peças para a Índia, que nós nos encarregaremos do resto.

- Deseja contratar dois dos nossos engenheiros?

- Sim, para montarem e vigiarem a máquina durante cem dias.

- Vou mandar instruções à direcção do pessoal - disse Wagner enquanto escrevia no bloco-notas. - Mas restam duas
questões a resolver. . .

Antes que tivesse podido terminar a frase, o lama tirou do bolso uma delgada folha de papel:

- Esta é a posição certificada da minha conta no Banco Asiático.

- Muito obrigado. Está muito bem... Mas, se me permite, a segunda questão é de tal maneira elementar que hesito em mencioná-la. Acontece muitas vezes esquecermos qualquer coisa evidente. . . Têm uma fonte de energia eléctrica?

- Temos um gerador "Diesel" eléctrico de 50 KW de potência 100 volts. Foi instalado há cinco anos e funciona bem. Facilita-nos a vida no convento. Comprámo-lo sobretudo para accionar os moinhos de orações.

- Ah, sim, evidentemente, eu devia ter pensado nisso...
 
 *
 
Do parapeito a vista era vertiginosa, mas habituamo-nos a tudo.

Tinham decorrido três meses e Jorge Hanley já não se impressionava com os seiscentos metros em vertical que separavam o mosteiro do quadriculado dos campos na planície. Apoiado sobre pedras que o vento arredondara, o engenheiro contemplava com olhar triste as montanhas longínquas de que ignorava o nome. "A operação nome de Deus", como a baptizara um humorista da Companhia, era sem dúvida a pior tarefa de louco em que jamais participara.

Semana após semana, a máquina tipo 5, modificada, cobrira milhares de folhas de uma incrível algaravia. Paciente e inexorável, o calculador reunira as letras do alfabeto tibetano em todas as combinações possíveis, esgotando série após série. Os monges recortavam certas palavras à saída da máquina de escrever eléctrica e colavam-nas com devoção em enormes registos. Dentro de uma semana acabariam.

Hanley ignorava quais seriam os obscuros cálculos que os tinham feito chegar à conclusão de que não deviam estudar conjuntos de dez, vinte, cem, mil letras, e nem pretendia sabê-lo. Nos seus pesadelos sonhava por vezes que o grande lama decidira bruscamente complicar um pouco mais a operação e que o trabalho continuaria até ao ano 2060. Aliás, aquele estranho homenzinho parecia perfeitamente capaz de o fazer.

A pesada porta de madeira soou. Chuk vinha ter com ele ao terraço. Chuk fumava, como de costume, um charuto: tornara-se popular entre os lamas distribuindo-lhes " havanos". Aqueles tipos seriam completamente chalados - pensou Hanley -, mas
não eram puritanos. As frequentes expedições à aldeia não tinham sido desprovidas de interesse. . .

- Ouve, Jorge - disse Chuk -, vamos ter aborrecimentos.

- A máquina escangalhou-se?
 
- Não.

Chuk sentou-se sobre o parapeito. Era espantoso, pois habitualmente receava ter vertigens:

- Acabo de descobrir o objectivo da operação.

- Mas já o sabíamos!

- Sabíamos o que os monges queriam fazer, mas não sabíamos porquê.

- Bah!, são uns loucos...

- Escuta, Jorge, o velho acaba de me explicar. Eles crêem que assim que tenham escrito todos aqueles nomes (e segundo pensam são cerca de nove biliões), o objectivo divino será atingido. A raça humana terá realizado a tarefa para que foi criada.

- Então e depois? Esperam que nos suicidemos?

- Inútil. Quando a lista estiver terminada, Deus intervirá e será o fim.

- Quando terminarmos, será então o fim do Mundo?

Chuk teve um risinho nervoso:

- Foi o que eu disse ao velho. Ele olhou-me de uma forma estranha, como um professor olha para um aluno particularmente estúpido, e disse-me: "Oh, não será assim tão insignificante!..."

Jorge reflectiu um instante.

- É um tipo que visivelmente tem ideias largas, mas, mesmo assim, que importância tem isso? Nós já sabíamos que eram uns loucos.
 
- Sim. Mas não vês o que pode acontecer? Se a lista fica pronta e se as trombetas do anjo Gabriel, versão tibetana, não tocam, eles podem decidir que é por nossa culpa. No fim de contas, era a nossa máquina que eles utilizavam. Não gosto disto. . .

- Estou a ver. . . - disse lentamente Jorge - mas eu já vi tanta coisa! Quando era garoto, na Luisiana, apareceu um pregador que anunciou o fim do Mundo para o próximo domingo. Houve centenas de tipos que o acreditaram. Alguns chegaram a vender as suas casas. Mas ninguém se enfureceu no domingo a seguir. As pessoas pensaram que ele apenas errara um pouco os cálculos, e muitas delas ainda o acreditam.

- Caso não te tenhas apercebido disso, faço-te notar que não estamos na Luisiana. Estamos os dois sozinhos, no meio de centenas de monges. Eu adoro-os, mas preferia estar longe quando o velho lama se aperceber de que a operação falhou.

- Há uma solução. Uma pequenina sabotagem inofensiva. O avião chega dentro de uma semana e a máquina acaba o trabalho dentro de quatro dias, à razão de 24 horas por dia. Basta-nos começar a reparar qualquer coisa durante dois ou três dias. Se calcularmos bem, podemos estar lá em baixo, no aeroporto, quando o último nome sair da máquina.
 
*

Sete dias mais tarde, enquanto os pequenos póneis das montanhas desciam o caminho em espiral, Hanley disse:

- Sinto um pouco de remorsos. Não fujo por medo, mas porque me faz pena. Não gostaria de ver a cara daqueles pobres homens quando a máquina parar.

- Na minha opinião - disse Chuk -, eles desconfiaram que fugimos, o que os deixou indiferentes. Agora já sabem até que ponto a máquina é automática, e que não precisa de vigilância. E supõem que não haverá nenhum depois.

Jorge voltou-se para trás e olhou.

Os edifícios do mosteiro apareciam em silhueta escura sobre o poente. De vez em quando brilhavam pequeninas luzes sob a massa sombria das muralhas, como as vigias de um navio singrando no mar. Lâmpadas eléctricas colocadas sobre o circuito
da máquina n.o 5. Que aconteceria ao calculador eléctrico? - pensou Jorge.

- Na sua fúria e desapontamento iriam os monges destruí-lo? Ou então recomeçariam tudo?

Como se ainda lá estivesse, via o que naquele momento se passava sobre a montanha atrás das muralhas. O grande lama e os seus assistentes examinavam as folhas, enquanto alguns noviços recortavam os nomes barrocos e os colavam no enorme caderno. E tudo aquilo era feito em religioso silêncio. Só se ouviam as teclas da máquina, batendo no papel como se fosse chuva miúda. O próprio calculador, que combinava milhares de letras por segundo, estava completamente silencioso...

A voz de Chuk interrompeu o seu devaneio:

- Lá está ele! Que grande alegria que dá!

Semelhante a uma minúscula cruz prateada, o velho avião de transportes D.C. 3 acabava de pousar lá em baixo no pequeno aeródromo improvisado. Aquela visão dava vontade de beber um grande copo de uísque gelado. Chuk começou a cantar, mas depressa se calou. As montanhas não o encorajavam. Jorge consultou o relógio.
 
- Estaremos lá dentro de uma hora - disse. E acrescentou: - Pensas que o cálculo já terminou?

Chuk não respondeu e Jorge levantou a cabeça. Viu o rosto de Chuk muito branco, voltado para o céu.

- Olha - murmurou Chuk.

Jorge, por sua vez, levantou os olhos.

Pela última vez, por cima deles, na paz das alturas, uma a uma as estrelas começavam a extinguir-se. . .


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