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siga a estrada de tijolos amarelos: Vampirismo Vampirologia ŚIVA E KĀLĪ

ŚIVA E KĀLĪ


Shirlei Massapust

Kali MaaEnquanto fazia pesquisa de campo sobre rituais de sacrifício em meados do séc. XX o jornalista Jean-Paul Bourre constatou que os magos que reconhecem os poderes do sangue são raros e quando se mostram ao público “afastamo-nos deles, horrorizados” porque a maioria dos adeptos da magia prefere acender bastões de incenso e cobrir-se de flores cantando que o mundo é bom, luminoso e pacífico.[1] Os atuais devotos de Śiva jamais pensariam em praticar o suicídio coletivo descrito por Stanislas Guaita, no não tão distante séc. XIX, quando alguns eles se atiravam ao chão com alegria e entusiasmo esperando a mais horrenda das mortes:

>>O carro sagrado do deus, pesado, com quatro mós rolantes, vai dilacerar a carne, esmagar os ossos; eles sabem, e é com gritos de triunfo, com o clarão do livre sacrifício nos olhos que se deitam às dúzias no percurso do ídolo esmagador![2]<<

Ainda segundo Guaita, até o século XIX a Índia abrigava a sociedade secreta dos Thuggs cujos adeptos chegavam a expatriar-se quando necessário “para atacar as vítimas, marcadas de antemão e que, prevenidas a tempo para tomar um navio, pretendem escapar a seu mau destino”.[3] Durga, um famoso chefe capturado pela polícia inglesa e condenado à forca, resumiu sua doutrina da seguinte forma:

>>Nossos irmãos, — dizia o thugg a seus juízes — souberam que o estrangeiro de que vocês estão falando deveria partir com uma escolta de 50 homens. Formamos simplesmente uma tropa três vezes maior para esperá-los na floresta, onde havia justamente uma imagem da deusa Kālī. Como não é permitido por nossos sacerdotes entrar em combate, porque nossos sacrifícios só são agradáveis a Kālī quando as vítimas são surpreendidas pela morte, demos boa acolhida aos viajantes oferecendo para caminhar juntos e preservar-nos mutuamente de qualquer perigo. Eles aceitaram, sem desconfiança; depois de três dias éramos amigos... Cada estrangeiro marchava com dois thuggs. A noite não estava completamente escura: À luz do crepúsculo estrelado, dei o sinal a meus irmãos. Imediatamente um dos thuggs que guardava cada vítima pôs no seu pescoço o laço corredio, enquanto o outro o puxava pelas pernas, para virar. Esse movimento foi executado em cada grupo com a rapidez do relâmpago. Arrastamos os cadáveres para o leito de um rio próximo, depois dispersamos. Só um homem escapou; mas a deusa Kālī tem olhos abertos sobre ele: seu destino se cumprirá cedo ou tarde! Quanto a mim, eu era antes uma pérola no fundo do oceano, hoje sou cativo... A pobre pérola está acorrentada: receberá um furo para ser posta num fio e flutuará miseravelmente entre o céu e a terra. Assim quis a grande Kālī para punir-me por não lhe ter oferecido o número de cadáveres que lhe pertencia. Ó deusa negra, vossas promessas não são jamais vãs, vós cujo nome favorito é Koun-Kālī (a devoradora de homens), vós que bebeis sem cessar o sangue dos demônios e dos mortais.[4]<<

Fato é que os europeus pintavam os hindus em relatos de cores muito sombrias esquecendo de equacionar o fato de que tais reações de desespero pareciam ser frutos ou resquícios da política de opressão estrangeira. Embora os Vedas e Brahmanas funcionem como manuais de sacrifícios de grande complexidade, atualmente as ofertas são geralmente de alimentos, flores e pó colorido. Rapidamente o que era louvor transformou-se em horror e os altares de sacrifício de sangue desapareceram. O universo imaginativo da mitologia permanece repleto de estórias de batalhas heróicas ocorridas num mundo paralelo onde a guerra entre devas e asuras difere muito pouco do folclore cristão onde os anjos combatem diabos abstratos.
A mais ávida sugadora de sangue continua a ser Kālī: “Porque você sabe, e todo mundo sabe”, diz um conto temático, “que Kālī é a deusa das diabas e das bruxas, bem como dos santos e dos reis, e das pessoas comuns e dos pobres; de todo mundo”.[5] Ela apareceu pela primeira vez no Devī-Māhātmya, onde vence Raktabīja – entidade que possui a habilidade de se reproduzir com cada gota de sangue derramado – bebendo o líquido que pinga dos ferimentos e engolindo suas duplicatas. Kālī foi igualmente citada por volta do século VI em invocações pedindo sua ajuda nas guerras. Assim foi descrita como possuindo presas e usando uma guirlanda de cadáveres. Assim falou Vikramāditya, rei de Ujjain, num conto folclórico hindu de data recente, ao observar outro monarca dirigindo-se ao templo de Kālī:

>>“Se ele está indo visitar Kālī, deve ser boa gente”, pensou Vikram. Porque como você sabe, todos os reis são Kshatriyas, e Kshatriyas veneram Kālī, a deusa da guerra. Seja como Durga quando ela monta um tigre, ou como Chandi engolindo gotas do Demônio Maior, ou como Kālī dançando intoxicada com o sangue dos corpos dos demônios que ela matou. Seja como você a chama, ela é Poder. Mas quando é Kālī, ou Bhavani ou Chandi, adora sangue. Você sabe, quando você a vê com a língua pendurada, segurando um demônio decapitado, um colar de caveiras em torno do pescoço, e uma saia de mãos decepadas. A Terrível, a Destruidora, a Engolidora de Homens da cavernosa dentada dos dois lados. E por que não — o útero do mundo, a Criadora, o que ela pode expelir, pode sugar — por que não? Não é verdade? Uma vez ela escondeu uma espada lá, você sabe onde — mas seu Lord Śiva transformou a poderosa linga num raio! Que festanças têm esses dois! Eles fazem a Terra sacudir.[6]<<

Os templos de Kālī deveriam ser construídos longe das vilas e perto dos locais de cremação. Diversos séculos mais tarde, no Bhagavat-purana, ela e suas seguidoras, as ḍākinīs, avançaram sobre um bando de ladrões, decapitaram-nos e embebedaram-se em seu sangue. A adaptação de Richard Burton do Baital-Pachisi contém “vinte e cinco histórias de um vampiro que animava cadáveres e que podia ser visto pendurado de cabeça para baixo numa árvore, como um morcego”.[7] Nesta tradução livre a estátua aparece no santuário localizado no cemitério crematório. Quando o rei entra, ele a vê:

>>Ali estava Smashna-Kali, a deusa, em sua forma mais horrível. Era uma mulher muito preta e nua, com uma cabeça ferida, parcialmente decepada e pintada pendendo sobre seu ombro. Sua língua se enrolava em sua grande boca bocejante. Seus olhos eram vermelhos como os de um bêbado; suas sobrancelhas eram da mesma cor; seu cabelo grosso e áspero pendia como uma manta até os joelhos.[8]<<

Richard Burton comenta que “não podendo encontrar vítimas, essa agradável divindade, para satisfazer sua sede do curioso suco, cortou seu próprio pescoço para que o sangue jorrasse para sua boca”.[9] O antropólogo J. Gordon Melton afirma que Kālī tem um relacionamento ambíguo com o mundo: “Por um lado destruía os espíritos malignos e estabelecia a ordem. Entretanto, também servia como representante das forças que ameaçavam a ordem social e a estabilidade por sua embriaguez de sangue e subseqüente atividade frenética”.[10] Kālī se tornou a divindade dominante no hinduísmo tântrico, onde era louvada como a forma original das coisas e a origem de tudo o que existe.

>>No Tantra, o caminho da salvação se dava através das delicias sensuais do mundo – as coisas geralmente proibidas a um indiano devoto – tais como álcool e sexo. Kālī representava as ultimas realidades proibidas e dessa forma deveria ser abrigada no íntimo e sobrepujada no que seria o ritual da salvação. Ensinava que a vida se alimentava da morte, que a morte era inevitável para todos os seres e que, na aceitação dessas verdades – confrontando Kālī nos campos de cremação, demonstrando dessa forma coragem igual à sua terrível natureza – haveria libertação. Kālī, como muitas divindades vampíricas, simbolizava a desordem que aparecia continuamente entre todas as tentativas de se criar a ordem. A vida era, em última instância, indomável e imprevisível.[11]<<

Os espectros hematófagos, canibais, se multiplicaram. O vetāla (vampiro) e a ḍākinī (bruxa) possuem uma relação direta com o culto à Kālī, devorando os restos deixados pela deusa (o que não impedia que um vetāla subordinado recebesse oferendas em nome próprio). Porém, como veremos, Kālī e sua comitiva estão longe de serem os únicos consumidores de sangue e corpos vivos ou mortos.

Referências:

[1] BOURRE, Jean-Paul. O Culto do Vampiro. Trd. Cristina Neves. Portugal, Publicações Europa-América, p 47.
[2] STANISLAS, Guaita. O Templo de Satã. Trd. Celina C. Salles. São Paulo, Três, 1973, vol 1, p 28.
[3] STANISLAS, Guaita. Op cit, p 28.
[4] CHRISTIAN. Histoire de la Magie. Paris, Furne & Cia., p 39-40. In: STANISLAS, Guaita. Op cit, p 28-29.
[5] VIKRAM E O DAKINI. In: HUSAIN, Shahrukh (comp). O Livro das Bruxas. Trd. Edson Rocha Braga. Rio de Janeiro, Objetiva, 1995, p. 222.
[6] VIKRAM E O DAKINI. In: HUSAIN, Shahrukh (comp). Op cit. Rio de Janeiro, Objetiva, 1995, p. 222.
[7] McNALLY, Raymond & FLORESCU, Radu. Em Busca de Drácula e Outros Vampiros. Trd. Luiz Carlos Lisboa. São Paulo, Mercuryo, 1995, p 124.
[8] MELTON, J. Gordon. O Livro dos Vampiros: A Enciclopédia dos Mortos-Vivos. Trd. James F. Sunderlank Cook. São Paulo, Makron, 1996, p 403.
[9] MELTON, J. Gordon. Op cit, p 403.
[10] MELTON, J. Gordon. Op cit, p 428.
[11] MELTON, J. Gordon. Op cit, p 428-429.



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