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siga a estrada de tijolos amarelos: Vampirismo Vampirologia Vampiros e a teoria da evolução racial

Vampiros e a teoria da evolução racial


Shirlei Massapust

No parecer de Leadbeater os vampiros seriam “legados de raças primitivas” ou “relíquias horrorosas de um tempo em que o homem e o seu ambiente eram, sob muitos pontos de vista, diferentes do que o são hoje”. Esta teoria notoriamente racista enxerga a presença ou ausência de histórias de vampiros numa sociedade como divisor de águas que separa a raça ariana das etnias inferiores porque o elevado nível de civilização da “quinta grande raça” seria incompatível com “um tão terrível destino”. Os que não nascem arianos seriam geneticamente propensos a todo tipo de degradação moral e, por isso, caem vítimas do fado “principalmente em povos onde há ainda uma forte corrente de sangue da quarta raça, como na Rússia e na Hungria”. Ao longo dos séculos a ocorrência de casos correlatos vem diminuindo “considerável e constantemente” devido à extinção gradual das raças inferiores. Se os não-arianos fossem completamente extintos, com a total suplantação da quarta raça extinguir-se-iam também seus monstros, sua cultura e folclore.

Após a morte do Coronel Olcott a presidência da Sociedade Teosófica foi ocupada por Annie Besant (1847-1933), que exerceu o cargo de janeiro de 1907 até 20 de setembro de 1933. Em sua Autobiografia ela sustenta que “a natureza física se herda dos pais, e a sensibilidade das impressões psíquicas é propriedade do corpo físico”. Isso explicaria porque em sua família, como em muitas da Irlanda, é geral a crença nos espectros de todas as classes e porque sua mãe ouviu “o soluço da ban-shee (fada irlandesa) ao aproximar-se a hora da morte de um membro da família”. Guilherme Wood, pai de Annie Besant, morreu em 5 de outubro de 1852, vítima de “uma tísica galopante”. Após seu enterro no cemitério de Kensal Green, na Inglaterra, seu filho mais novo, Alfeu, caiu doente e sua esposa, Emília, teve visões do morto:

Outra prova de sua capacidade suprafísica no-la deu uma noite, poucos meses depois, tendo seu filhinho nos braços, o qual se definhava por falta do “papá”. Na manhã seguinte disse à sua irmã: “Alfeu morrerá”. O menino não tinha enfermidade alguma, além do seu definhamento crescente, dizendo-lhe, por isso, sua irmã que, com o retorno da primavera, seu filho recuperaria a saúde perdida no inverno. Mas minha mãe lhe respondeu: “Não, ele estava dormindo em meus braços na última noite; Guilherme chegou e me disse que ele necessitava de Alfeu consigo e que eu poderia ficar com os outros dois”. Em vão lhe asseguraram que ela sonhava, que era natural que sonhasse com seu esposo e que sua inquietação pelo menino havia provocado aquele sonho. Nada a persuadiu de que não havia visto meu pai e de que não era verdadeira a sua informação. Assim não a surpreendeu que, no mês seguinte, março, seus braços não pudessem já estreitar o menino e que seu lívido cadáver jazesse no berço.
 
Claro que a volta do pai da presidente da sociedade nunca foi equiparada aos casos de vampirismo, servindo o relato e a morte do menino apenas como prova da teoria do psiquismo hereditário. Em 21 de novembro de 1894, o Bispo Charles Webster Leadbeater palestrou sobre o plano astral na loja londrina da Sociedade Teosófica, na qual ocupava a posição de secretário. Seus apontamentos foram publicados na forma de livro, onde sustenta que apesar do exagero habitual as histórias sobre vampiros que “correm de boca em boca entre os camponeses da Europa Central” trazem consigo uma fagulha “de impressionante realismo”, a exemplo dos casos compilados por Blavastsk em Ísis sem Véu e do conto Carmilla, de Sheridan le Fanu. Leadbeater alega que o vampiro vive “na fronteira dos dois mundos” e define a prática como uma atividade híbrida desenvolvida simultaneamente nos planos físico e astral. Como tal condição só pode ser atingida concentrando os pensamentos e desejos “na parte mais grosseira da vida física” o vampiro “corresponde no plano astral aos Bórgias no físico”.

 Os leitores de literatura teosófica sabem que é possível viver-se de maneira tão degradante e egoísta, tão criminosa e brutal, que a mente inferior se encontre por completo encarcerada nos desejos e absolutamente separada da sua origem espiritual no Ego superior. E muitos haverá que supõem que este acidente é muito vulgar e que estamos expostos a encontrar pelas ruas dezenas dessas “criaturas sem alma”; mas, felizmente, isso não é verdade.

Para atingir tão baixo nível no mal, a ponto de perder completamente a personalidade, seria necessário que um homem tivesse abafado até ao último estertor o seu altruísmo e espiritualidade, e não tivesse nem a mais pálida sombra de uma boa qualidade. Ora, se até no mais ínfimo dos patifes se encontra freqüentemente qualquer coisa que não é de todo má, compreende-se que essas personalidades abandonadas pelo Ego constituem pequena minoria. Todavia, embora raras, existem; e é entre elas que se encontra a categoria ainda mais rara dos vampiros.

A entidade perdida achar-se-ia pouco tempo depois da morte incapaz de se demorar no mundo astral, e seria levada irresistivelmente para o “seu legítimo lugar”, a misteriosa oitava esfera, onde se desintegraria completamente depois de passar por provas que vale mais não descrever. Se, contudo, a entidade em questão pereceu de suicídio ou morte súbita, pode, em certas circunstâncias, especialmente se sabe alguma coisa da magia negra, escapar a essa terrível sorte, trocando-a por uma não menos horrível, a vida na morte, que tal se pode chamar a horrorosa existência do vampiro.

Como à oitava esfera só tem direito ao defunto considerado depois da desintegração do seu corpo físico, ele o mantém num estado cataléptico, servindo-se para isso do repugnante expediente da transfusão de sangue roubado a seres humanos pelo corpo astral parcialmente materializado, e assim retarda o seu destino final à força de assassinatos. E é precisamente o recurso apontado pela superstição popular — a exumação e cremação do corpo — o melhor remédio para tais casos, visto que assim se priva a criatura do seu ponto de apoio. Quando se procede à abertura do caixão, é vulgar encontrar-se o corpo fresco e sadio, mergulhado num lago de sangue. Nos países onde existe a cremação, esta espécie de vampirismo é naturalmente impossível.


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