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siga a estrada de tijolos amarelos: Miscelânia Textos Diversos 23 Razões para Agradecer (de joelhos) aos Católicos A Filosofia

A Filosofia

Santo AgostinhoNos anos finais do segundo século iniciou-se um importante momento da filosofia católica conhecido como Patrística, um momento de consolidação intelectual e apologia das certezas cristãs contra as objeções heréticas e pagãs, revelando-se  uma preciosa auxiliar aos dogmas da Igreja. A herança da filosofia greco-romana não foi esquecida, muito pelo contrário, serviu de base ao movimento. Contudo não se trata de uma mera repetição da filosofia antiga. Santo Agostinho reconheceu o grande valor dos ensinamentos neoplatónicos, mas soube ultrapassá-los enxergando criação onde só se via o monismo e a substancial distinção dos seres onde reinavam ideias Imanentistas. Outros pensadores representativos deste período estão Clemente de Alexandria e Origenes, São Gregório de Nanzianzo, Santo Ambrósio e Pseudo-Dionísio.

Mas seja você católico ou não deverá agradecer a Igreja de Roma a possibilidade  de conhecer e ainda hoje poder ler os antigos filósofos gregos e romanos, gigantes como Sócrates, Platão, Aristóteles, Cícero e Marco Aurélio. Com a queda de roma e as invasões bárbaras todo este acervo cultural estava ameaçado de desaparecer. É dito que foram os muçulmanos com sua sede de conhecimento que preservaram muitas destas obras, e realmente devemos reconhecer que neste sentido fizeram um ótimo trabalho.  Contudo o islamismo é fruto da segunda metade do século VI, e o império romano acabou no século V.

Por mais de cem anos, e por muitos anos depois a tradição ocidental foi salva pelo trabalho incansável dos monges copistas.  Descrevendo o acervo da coleção da Abadia de Santa Maria em York Santo Alcuíno citou obras de Aristóteles, Cícero, Lucano, Plínio, Estácio, Pompeu Trogo e Virgílio e em suas correspondências cita ainda Ovídio, Horácio, e Terêncio. Desidério, abade do Monte Cassino e que viria se tornar o papa Vítor III no século XI supervisionou pessoalmente a transcrição de Horácio e Seneca, Cícero e Ovídio. O fato é que se os monges copistas não tivessem diligentemente copiado a mão e preservado os clássicos nada saberiamos deles hoje em dia, pois mesmo os muçulmanos só puderam preservá-los graças ao intercâmbio e infelizmente saques aos mosteiros da Europa Oriental.

Este resgate e reconstrução da filosofia greco-romana foi naturalmente seguida de sua expansão por parte dos cristãos. O desenvolvimento destes conhecimentos e o gradual ganho de importância destas questões universais deu então origem a escolástica, cujo objetivo era justamente demonstrar que a fé cristã por meio do pensamento filosófico e de argumentação racional. Entre os principais nomes deste período estão São Tomás de Aquino, Santo Anselmo de Cantuária, Alberto Magno, Alexander de Hales, Robert Grosseteste, Godfrey de Fontaines, Henry de Ghent, Giles de Roma, Boaventura de Bagnoreggio, Pedro Abelardo, Bernardo de Claraval, João Escoto Erígena, João Duns Scoto, Jean Buridan, Nicole Oresme, William de Occam e Roger Bacon. Uma verdadeira constelação de pensadores.

No século XIV os filósofos individuais deram lugar as escolas de pensamento: a escola tomista baseada em São Tomás de Aquino, scotista baseada em João Duns Scoto e termista baseada em William of Occam. Este foi um período de decadência da escolástica, sendo que seu último pico aconteceu na espanha revelando gênios como Bañez, Francisco Suárez, Vasquez. Com o renascentismo filósofos católicos passam a estudar assuntos não diretamente ligados a teologia é a época de Thomas More e Nicolau de Cusa. Entre estes surgiram figuras importantes como Copérnico, Francis Bacon, René Descartes e Blaise Pascal que deram o impulso inicial para a formação da revolução científica que viria. (ver capítulo Método Científico).
O século seguinte tratou de transformar o empirismo de Francis Bacon no subjetivismo de David Hume. Este foi um período bastante conturbado para a Igreja, no qual o cenário da filosofia ganhou ares seculares e antropocêntrico que mais tarde culminaram tanto no marxismo como no existencialismo. Embora não receba o mesmo destaque de seus detratores houve neste momento uma série de pensadores católicos dentre os quais podemos destacar os tradicionalistas De la Mennais, Louis-Gabriel-Ambroise, Joseph de Maistre e Ferdinand d'Eckstein, os ontologistas Nicolas Malebranche, Antoine Arnauld e Casimir Ubaghs e os neoescolásticos Liberatore, Taparelli e Cornoldi. Este último é particularmente interessante pelo apoio que teve do Papa Leão XIII, tornou-se o pensamento dominante entre os filósofos católicos no século XIX, unia e superava o pensamento dos tomistas, ontologistas, tradicionalistas e do espiritualismo cartesiano buscando sintetizar toda herança do pensamento católica numa só.

A neo-escolástica foi uma grande realização e tornou-se como uma caixa blindada onde as propostas da filosofia católica se sentia a salvo de qualquer ataque e capaz de se opor ao positivismo, ao existencialismo e ao kantianismo de modo geral. Contudo apesar de gozar desta certeza e lucidez lógica a neoescolastica se distanciou do diálogo com o mundo real. Essa situação começou a mudar no século XX, ganhando força após a Segunda Guerra Mundial. A partir dai entendeu-se a filosofia como uma possibilidade de enriquecer a catequese, torná-la mais forte e dá-la uma terminolofia mais eficaz, mas não tomar-lhe o lugar. João Paulo II diz em sua encíclica Fides et Ratio de 1998, "A Igreja não propõe uma filosofia própria, nem canoniza uma das correntes filosóficas em detrimento de outras."

Em entrevista a revista 30 Dias, então cardeal Joseph Ratzinger, futuro Papa Bento XVI, fala sobre a importância do Concílio do Vaticano II neste aspecto: "A aventura que teve início no Concílio tirou a teologia desta caixa e a expôs ao ar fresco da vida de hoje e consequentemente expôs ao risco de novos desequilíbrios. Isso levou a teologia a buscar novos equilíbrios, no contexto de um diálogo aberto e vivaz com a realidade de hoje... Portanto um passo justo e necessário, mas também arriscado... Mas o risco faz parte de uma aventura necessária." Talvez por essa busca pelo diálogo, todos os papas que vieram ao trono de pedro depois do Concílio foram papas filósofos: João XXIII revitalizou a doutrina social da Igreja e os problemas próprios da Guerra Fria, Paulo V tratou dos problemas próprios da globalização que se intensificava, João Paulo II falou abundantemente sobre bioética e diálogo inter-religioso e Bento XVI realizou ume vedadeira cruzada contra o que chamou de "ditadura do relativismo" tendo publicado mais de 600 obras sobre os mais diferentes assuntos.

Coincidência ou não, no século XX houve uma verdadeira explosão de filósofos católicos, especialmente entre os leigos. No campo da lógica tempos Ludwig Wittgenstein, admirador confesso de Santo Agostinho que seguido por Elizabeth Anscombe, buscou esclarecer as condições lógicas que o pensamento e a linguagem devem atender para poder representar o mundo. No campo da política e economia temos G.K.Chesterton, brilhante apologista que junto de Hilaire Belloc criou uma teoria econômica baseada nos ensinamentos Papais, o Distributismo e Jacques Maritain, pai da Democracia Cristã. Destaque também para o internacionalismo social de Mthol Ferré, que influenciou grandemente a visão de mundo do Para Francisco.Nos domínios da epistemologia a principal figura é a de Henri Bergson que explorou os domínios da consciência, memória e intuição, Bernard Lonergan que no campo da epistemologia desenvolveu o Método Empírico Generalizado e Alexander Pruss com seu Princípio da Razão Sucifiente. Em ética temos a Ética Aplicada de David S. Oderberg e estudos de bioética de Edward Feser, John Finnis e Francis Beckwith lidando com as questões polemicas do aborto e da eutanásia. Alasdair MacIntyre por sua vez destacou-se por sua obra no campo da moral aplicada a filosofia politica. Como não poderia deixar de ser no campo próprio da teologia e metafísica surgiram figuras importantes como Brian Davies, Mika Aquilina, Scott Hahn, Karl Keeting, James F. Ross, Peter Kreeft e Dietrich von Hildebrand que foi chamado pelo papa Pio XII de Doutor da Igreja do século XX.

A filosofia assim está presente desde o início da Igreja e como um grão de mostarda cresceu para formar uma poderosa árvore com muitos ramos diferentes. Este amor pela verdade está baseado na fé que precede qualquer argumentação. A de que a verdade é ela mesma o amor.

23 Razões para Agradecer (de joelhos) aos Católicos