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siga a estrada de tijolos amarelos: Miscelânia Textos Diversos Sobre Tolos Puros, Iluminados e Simples

Sobre Tolos Puros, Iluminados e Simples

Para Jujune e Papa Legba, assim como para mim mesmo.

Antes de se encomendar um Trabalho, deve-se responder à questão: - "Por que encomendá-lo?"

A passagem de Tolo Puro a Tolo Iluminado faz parte de nosso ocultismo. As Tradições se referem ao Tolo Puro, como se ele vivesse em um tipo de paraíso terrestre, até então não visitado e não confrontado por qualquer adversidade. O reino desse Tolo é de eterna puerilidade ou juventude. Por sua vez, o Tolo Iluminado tem toda a alegria do Tolo Puro, mas a sua posição já foi testada. O espírito do Tolo Iluminado passou pela forja das adversidades e encontra-se seguramente ancorado nos ensinamentos e na comunidade espiritual.

- "Ó Senhor, parece que chegamos ao céu. Não há dor nem sofrimento, e todos nós somos tão felizes!" Assim é o paradisíaco mundo do Puro Tolo. Apenas um completo idiota deixaria esse estado, a não ser por uma eventualidade muito específica.

O Puro Tolo vive num tipo de céu sobre a terra. Está afastado e é indiferente ao sofrimento, que é parte de nossa herença e de nossa condição de seres humanos. Esse seria o estado ideal, mas há uma grande probabilidade de que acabe, e esse fim vem acompanhado de um choque tão resonante quanto a bomba de Hiroshima.

A Morte não faz parte do mundo brilhante em que vive o Puro Tolo, mas - acredite - um dia a morte o visitará, e, então, ou seu mundo entrará em colapso, ou ele começará a se tornar um Tolo Iluminado.

O estado de Puro Tolo seria até preferível à entrada no caminho que leva ao Tolo Iluminado, se a destruição ocorresse uma só vez. Se apenas vivêssemos uma vez, seria preferível gozar desse tempo como um Puro Tolo. A transmigração das almas e a reincarnação são fatores críticos aqui. Uma interminável cadeia de encarnações como um Puro Tolo, que inclui um período inevitável de sofrimento e morte, não é o ideal. O Tolo Iluminado aprende como quebrar essa cadeia.

É certo que há uma certa pureza no Céu dos Puros Tolos, mas essa pureza tem um alto preço, que é a ignorância da comunidade e dos ensinamentos espirituais. O céu do Puro Tolo é um mundo pequeno e autocontido. Nesse tupo de "céu", não haveria qualquer ímpeto quanto a rituais ou outro tipo de prática espiritual. Toda gargalhada dos Barões e fome dos Guedes seriam desconhecidas para o Puro Tolo.

O Puro Tolo não tem condições de oferecer ajuda a outros, porque ele ou ela jamais experimentou o desejo ou a necessidade, sendo essa ausência uma de suas características.

A gentileza de Blanc Dan-i, Papa Legba e Mama Águas está além do entendimento do Puro Tolo.

O Puro Tolo é o ideal das culturas consumeristas ocidentais, tão liga das ao "eu": no mundo ideal do comercial clássico, todos são jovens e atraentes. Essa juventude e essa atratividade são associadas com um produto. Compra-se a juventude e a atração com o produto É assim que os efeitos carbônicos de um refrigerante se transformam em muito mais do que algo que irrita o estômago.

A história de Gautama, o Buda, é um exemplo clássico da passagem do Puro Tolo para o Tolo Iluminado. O pai de Gautama era um rei e ele cresceu em meio à luxúria. Seu pai quis que ele ficasse dentro dos muros do palácio e continuasse protegido das faces do sofrimento. Um dia, ele acidentalmente viu um cadáver e pôs-se na estrada do Tolo Iluminado.

"O mineiro explorado, os escravos nos campos, os colonos, as legiões de perseguidos ao redor do mundo - eles precisam daqueles que podem falar para comunicar o seu silêncio, ou estarão para sempre privados de esperança, e nós com eles.

Parece-me impossível sustentar essa idéia, e quem não pode sustentá-la não consegue deitar e dormir em sua torre. Não é pela virtude, mas por um tipo de intolerância orgânica, que você sente, ou não sente. De fato, eu vejo muitos que não a sentem, mas eu não invejo o seu sono."

(The Myth of Sisyphus, Camus)

- "Por que fazer um Trabalho em primeiro lugar?" O Vudu de Nova Orleans aparece com a percepção de que nós não vivemos vidas perfeitas em um mundo perfeito. Nosso Vudu não é uma tentativa de retorno ao sono do Tolo Puro. O estado do Puro Tolo é muito perigoso, muito imprudente em um mundo como o nosso. Há muito sofrimento para si mesmo e para os outros. Só podemos dar algum sentido a esse sofrimento se o usarmos como um isqueiro para clarear o caminho que nos levará ao estado de Tolo Iluminado e para tentar, de alguma maneira, mitigar o sofrimento dos outros. Parafraseando Allen Ginsberg, se alguém não acredita que a existência é sofrimento, então esse alguém deve pelo menos admitir que a existência é, às vezes, desconfortável. Nossa tradição é a de encontrar, quando muito, "desconforto" e, no mais das vezes, pura miséria.

O Que Vai Volta

Entre 1992 e 1999, rituais semanais de Vudu foram abertos ao público no Templo Espiritual de Vudu de Nova Orleans, na Rampart Street, área de Congo Square. Foi a primeira vez que isso aconteceu, desde os rituais de Marie Laveau e do Dr. John. Os rituais ainda são realizados, mas não em bases tão regulares e abertas.

O Vudu de Nova Orleans é uma tradição envolvente. Os loa se apresentam hoje da mesma forma poderosa que faziam nos tempos de Marie Laveau e Dr. John. Os loa falam de muitos modos e através de muitos cavalos. Esta é uma Ordem de Serviço que se desenvolveu através dessa série de rituais. Se esta Ordem de Serviço consegue aumentar o autoconhecimento e a compaixão, então ela terá servido bem aos loa e a nós mesmos.

Nem o Nascimento Nem a Morte

Quando eu conheci Houngan Oswan Chimani, ele estava falando em um programa de rádio. O outro convidado era um antropólogo que era, por algum motivo, argumentativo.

Parecia que o antropólogo acreditava que sua participaçãoi deveria se resumir a contestar o que Oswan dizia.

Oswan fez uma coisa e disse outra que me impressionaram. Primeiro ele pegou um baralho e começou a jogar solitária, o que quebrou a linha de pensamento do antropólogo.

Logo depois, o locutor perguntou qual a questão, qual a preocupação que ocasionava o impulso religioso. O antropólogo se referiu à necessidade de se entender a morte. Oswan interveio: "Oh, não, não. O nascimento, e não a morte, é o primeiro mistério."

O Primeiro Mistério: Uma Ordem de Serviço

A Casa é posta em Ordem - os devotos se põem em Ordem.

Toca-se o ritmo Bamboula. Este ritmo remonta às danças em Congo Square, no tempo de Marie Laveau e Dr. John. É o coração do atabaque de segunda linha. É o ritmo mais sagrado, e Bamboula é o nome do espírito honrado como o loa dos atabaques do templo durante o Serviço.

No passado, era tradição começar um trabalho com orações a Cristo e a outros santos católicos, mas nós não somos todos católicos romanos. Portanto, é melhor que cada um de nós chame pela deidade ou pelas deidades que mais incorporem nossa espiritualidade e peçamos suas bênçãos nesses rituais. Allah, Nuit, Jesus, Diana, Buda, Mama Águas, Shiva, e assim por diante,
todos podem trazer benefícios enormes para aqueles que encontram uma chave para o amor, a compaixão e o entendimento em seus ensinamentos. Assim, nós trazemos ordem para nós mesmos.

Se o ritual tem um sentido além do momento no qual é realizado, se é para agir sobre e dentro de nós de um modo relevante, então o Grande Loa deve ganhar o abraço espiritual dos Grandes Mestres. Estes Grandes Mestres são de Tradição Universal e podem ser encontrados em nosso Vudu ou em quaisquer outras Tradições. O indivíduo deve buscar e escolher livremente.

LEGBA/ELLEGUA - A Abertura do Portal - O início do Nascimento

O ritmo de Legba Aguator, Legba das Águas, é tocado com o ritmo de Ellegua. Os dois ritmos se complementam muito bem. O Velho Legba e a Jovem Ellegua caminham de mãos dadas.

O ritmo de Legba tem a tríplice batida de um homem caminhando com uma bengala. O de Ellegua tem um ritmo de saltos.

A Litania do Loa é entoada. Durante essa Litania, os nomes de diversos loas são chamados, finalizando com o nome de um Grande Mestre transcendente, que unifica a assembléia. A Litania é comumente realizada por um dos tocadores de atabaque. Uma vez completa, a Sacerdotisa faz a abertura, chamando Legba.

OGUM - Limpando Caminho Para o Nascimento

Dos Oguns, são apropriados para honrarias Ogun Balindio, com seu uso medicinal e curativo do aço, e Annie Natal, com sua imensa força. Esses Oguns usam o aço para limpar o caminho.

Os atabaques soam o primeiro e depois o segundo ritmo de Ogum, sem parar. Os ritmos mais tocados no Templo Espiritual do Vudu lembram o som de uma lâmina sendo batida com um martelo. A Sacerdotisa começa a dançar e a marcar o tempo.

MAMA ÁGUA - Fluem as Águas do Nascimento

Mama é um loa relativamente recente em Nova Orleans. O seu ritmo lembra o fluxo e refluxo do oceano.

Há uma linda música que a Sacerdotisa Miriam canta nesse ritmo, que é lento em comparação com os anteriores, o que serve para manter o foco do ritual. Se os dançarinos ou os participantes se aproximam muito rapidamente do espírito, o potencial total do loa acaba não sendo sentido. A impaciênciência dimunui o poder. Uma construção gradual parece mais apropriada para prolongar o êxtase religioso.

Os Ancestrais e Todos os Mortos - A Criança Aparece

Aqui o ritmo do atabaque mais usado é a Banda. Este ritmo é usado para honrar aos Barões, aqueles ancestrais cujos nomes são lembrados, e os Guedes, aqueles ancestrais cujos nomes foram esquecidos.

Os ancestrais e os mortos encontram o retorno através do recém-nascido.

Durante essa parte do ritual, os praticantes se perguntam do que precisam ou o que querem que nasça neles mesmos. Pode ser coragem, conhecimento, alguma habilidade.

É agor que as possessões, totais ou parciais, começam a aparecer, e às vezes se pode ver os movimentos da dança dos mortos.

O Loa a Ser Particularmente Honrado - A Personalidade da Criança

Se o ritual estiver sendo celebrado para um loa em particular, é aqui que o seu ritmo será tocado e sua presença será requerida. Tomam-se mais dançarinos e a cerimônia se torna mais intensa.

LE GRANDE ZOMBIE - O Cordão Umbilical é Esticado e Cortado

O zumbi é a Cobra do Templo, no contexto deste ritual, o cordão umbilical unindo o futuro ao presente e ao passado. O atabaque toca um Yenvelou. O Yenvelou usado no Templo foi muito influenciado por Don DuFrane, o mais velho percussionista, que morreu há dois anos.

Aqui todas as pessoas que assistem são convidadas a dançar. Freqüentemente uma linha é formada, com a Sacerdotisa Miriam dançando e segurando a Cobra do Templo.

Quando os loa tiverem acordado que receberam a honra e o respeito apropriados, a Sacerdotisa pára a dança/linha e pede silêncio. O ritual acaba e os praticantes do vudu carregam consigo o que receberam durante o ritual.

Um Aparte Sobre o Sacrifício Animal

Eu juntei o Vudu - religião de minha terra e cidade - ao Budismo, como muita gente de Burma, Tailândia etc o fez, por muitos séculos. Por causa disso, eu deixei de oferecer sacrifícios animais. Óleo de palmeira vermelha tem sido tão eficaz quanto a vida e o sangue de animais. Estas palavras não devem ser encaradas com um sentido de "certo" ou "errado". Eu só quero indicar algo que eu funcionou para mim e que me permite causar o mínimo de prejuízo possível.

Se a pessoa acredita em reincarnação, então deve considerar dois fatores antes de praticar sacrifícios animais.

O primeiro é a transmigração das almas, ou corrente da consciência. Nós somos humanos agora, mas fomos animais antes e seremos mil coisas diferentes em mil momentos diferentes. Então você não está apenas matando um animal, mas sim matando um ser que sente e que pode ter sido um humano. O segundo e mais importante é o número infinito de encarnações que nós temos. Por causa disso, o animal que sacrificado já teve uma relação especial com você. O animal foi sua mãe, ou seu pai, ou marido, ou mulher, ou seu melhor amigo. O animal, em outra encarnação, amou e protegeu você. Portanto, dizer que é "Ogum quem segura a faca, e não eu" não tem muito sentido. Se, ao invés desse animal, estivesse lá sua mãe, seu pai, sua mulher, ou seu marido, uma forte carga emocional ou intelectual fariam com que você parasse Ogum, ou quem quer que estivesse com a faca: espírito, loa ou humano.

Epílogo

Nenhuma pessoa nem loa criou esta Ordem de Serviço. Honra especial recaia sobre o loa Oswan Chimani, neste sexto aniversário de sua passagem.

Eu escrevo o que ouvi com meus ouvidos e com a minha Cabeça. Honra e respeito aos loa e a todos os devotos que têm participado destes ritos.

No ano do Soerguer do Milênio de Wedos no Céu
Na Ilha de Saint Rose no mar de Mar Assa

Por Louis Martinie' (trad. Frater Iskuros, Brasil)