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Tempo do Sonho: Dreamtime

Sempre que a humanidade esteve a beira da extinção, ela deu um salto quântico. Quando as coisas estão boas não há nenhuma necessidade para mudar. Creio que atualmente, nós estamos novamente neste umbral. E estamos redescobrindo as ferramentas neurológicas para fazer o pulo, tal como os xamãs fazem tão elegantemente, quando realizam esse salto quântico.

Aproximadamente cem mil anos atrás o cérebro humano quase dobrou em tamanho. Nós ganhamos um computador neural novo que nós ainda estamos aprendendo a usar. Eu estou falando sobre o neocórtex que é dividido no hemisfério esquerdo e direito do cérebro. Eu acredito que o despertar do neocórtex foi à força motriz de profetas, visionários, grandes cientistas, e grandes homens e mulheres da medicina nativa. Uma vez despertado este cérebro novo não fica preso as definições ordinárias de tempo e espaço. Este cérebro novo está despertando na nossa humanidade atualmente, e ao menos que nós aprendamos a dominar suas capacidades, começaremos a atrair para nós doenças e desordens psicossomáticas. Também está nos dando a habilidade para nos curar (criando a saúde psicossomática) e escolher nossos destinos individuais. Mas acima de tudo, está nos dando o poder para empenhar a totalidade do potencial humano de conhecimento, principalmente ao observar a natureza. O xamanismo é um antigo mapa para dominar estas capacidades.

O xamanismo oferece uma mitologia diferente da que nós aprendemos em nossa infância. A mitologia Judaíco-cristã não é de liberdade, mas de expiação. Até onde eu sei, é a única mitologia que nos expulsou do paraíso e que para voltarmos teremos que passarmos por muitas penitências. A Ecologia é uma coisa natural aos nativos e para o xamãs porque eles nunca foram expulsos do jardim. Não é algo você tem que fazer. É algo que você vive. É o princípio de “caminhar com beleza” na terra. O que está acontecendo é que nós estamos nos libertando de uma mitologia de controle e repressão, por uma de libertação. Um das razões que igreja e estado têm, durante séculos, caçado os curandeiros e curandeiras nativas é porque eles propõem uma mitologia de libertação. O xamanismo oferece uma comunhão direta com o divino e a possibilidade para influenciar o curso do nosso próprio destino. Xamanismo não é uma religião. Não há nenhum Cristo, nenhum Alá, ninguém que diz, “Siga meus passos”. No xamanismo damos os nossos próprios passos com coragem, compaixão, e visão. Requer apenas que aprendemos com a natureza. Ele nos ensina a conhecer o poder diretamente, abraça-lo e reivindica-lo para si.

O papel do xamã é baseado em cima de quatro papéis diferentes: o Curandeiro, feiticeiro, sacerdote, e o criador de mito. O sacerdote repete as velhas histórias e continua com a mitologia, já o xamã nos une diretamente para o conhecimento contido dentro do mito. Em algumas tribos da América do Norte o papel do xamã ainda está intacto, mas é mais provável encontra-los na Amazônia e nos Andes onde os nativos não foram limitados a reservas. Na concepção clássica, xamãs são os intermediários entre Céu e a Terra. Eles não dispensam a função de continuar curando. Este é o papel do curandeiro. O xamã diz que você não pode se curar até que você se torne um curandeiro, ou seja, se torne uma pessoa de poder. Se você está impossibilitado ou pouco disposto para se tornar um xamã, então você procura um curandeiro que lhe dará as ervas para você se curar. O sacerdote está interessado nas respostas, já o xamã está mais interessado em fazer as perguntas. O xamã lhe ajuda a aprender a sair do tempo linear que nós estamos familiarizados, para um tempo que pode parecer linear, mas desdobra adiante em si mesmo. Na maioria das culturas não ocidentais, vemos que o tempo e história se repetem. Se entendermos os ciclos da história, compreenderemos o futuro. Uma vez que se pode trazer a melodia com os ciclos de natureza, você pode começar a aprender a pisar fora de tempo ordinário, no Tempo do Sonho, Dreamtime. Não podemos levar nosso ego no Tempo do Sonho, só nosso intento. A personalidade não tem lugar ali. Muitas das técnicas xamânicas são projetadas para fortalecer e autorizar o intento de forma que possamos atravessar e penetrar outras dimensões da realidade. Estas dimensões são mundos que existem paralelo ao nosso e onde temos acesso direto ao conhecimento e informação.

Na Amazônia, antes de começar certas cerimônias, todo o mundo tem uma chance para compartilhar quem nós somos e porque estamos lá. A coisa interessante é que todo o mundo faz tudo ao mesmo tempo. Todo mundo fala simultaneamente. A meta é afinar o fluxo de informação para adquirir uma impressão da totalidade do propósito do grupo. Não é permitido começar a cerimônia até que saibamos o que cada pessoa está dizendo sem escutar individualmente o que eles exatamente estão falando.

Eu encaro isto como um modo de desenvolver um novo sentido. Não é uma questão de sentir sensação ordinária, mas a sensação de uma cruzada em busca de um desenvolvimento xamânico de forma que, por exemplo, eu possa ouvir algo que eu vejo. O que acontece é que os nossos cinco sentidos começam a trabalhar em conjunto, desenvolvendo um novo sentido. Músicos geralmente desenvolvem este novo sentido. Eles vêem um vôo de pássaros a três quilômetros e podem ouvir o bater das asas deles, ou eles ouvem música. Com este novo sentido podemos aprender a ver literalmente com nossa pele. Por exemplo, quando eu o olho no Tempo do Sonho, eu não estou olhando a face de uma pessoa como eu sou agora. Eu estou o olhando simultaneamente à frente, à parte de trás, e os lados. No Tempo do Sonho, percebemos tudo globalmente, é a chamada visão holística. É um tipo oceânico de percepção que está totalmente desorientando até que aprendemos a enfocar nosso intento. Uma vez que aprendemos a decifrar e controlar nosso novo sentido através dos outros cinco sentidos, começamos a perceber além do tempo ordinário. Podemos ouvir vozes que foram ditas há 3000 anos atrás. Ficamos sensíveis ao fluxo de informação que está ao nosso redor. No meu modo de ver as coisas, essa é uma sensação que se encontra latente em todo o mundo.

Os xamãs dizem que há dois tipos de pessoas: as pessoas que sonham e as pessoas que estão sendo sonhadas. Os sonhadores são esses que podem conduzir os seus sonhos conscientemente. Sonhar lucidamente é um modo excelente para entrar no Tempo do Sonho. Na maioria das tradições xamânicas é ensinado ver, usar nossa visão para ver nestas realidades. Vendo-as, nós podemos entrar nelas, e passamos a estar simultaneamente em duas realidades. Se nós podemos aprender a desenvolver a percepção deste novo sentido, que nós estávamos falando, então nós podemos ouvir inúmeros diálogos ao mesmo tempo. A percepção é a chave para entrar nestas realidades. Aprendemos a perceber e reconhecer o que está acontecendo ao nosso redor a todo minuto.

Eu costumo utilizar o sonho lúcido para controlar os meus atos nos meus sonhos. Castañeda escreveu sobre alcançar esta consciência olhando suas mãos durante seus sonhos. O que eu procuro fazer nos meus sonhos é manter comigo um pequeno cristal de quartzo que encontrei no Tempo do Sonho. Quando aquele cristal aparece no meu sonho, eu fico consciente que estou sonhando. Então procuro visitar determinados lugares de poder que eu visitei anteriormente, como Machu Picchu ou as Cachoeiras do Cerrado. No estado de sonho, a pessoa tem acesso a professores que não são compostos de matéria orgânica. Nem mesmo vivem no tempo em que vivemos. Podemos cruzar a cortina do tempo, e sentar aos pés de mestres moches, incas, maias, anasazis, e ouvir suas histórias.

Nas histórias contadas pelos aborígines australianos, houve uma época em que o mundo tangível pertencia ao Dreamtime. E que chegará o dia em que o nosso mundo será mais uma vez reabsorvido no Tempo do Sonho. Para os aborígines, o Tempo do Sonho torna-se parte do presente quando seus mitos da criação são revividos ao serem representados em cerimônias sagradas. Para eles como outras tradições, os caminhos percorridos pelos ancestrais são caminhos sagrados. Em cada lugar por onde o ancestral passou, deixou a marca sagrada de sua presença, num rochedo, num lago ou numa árvore. Pois o Tempo do Sonho não está somente no passado, pois é o eterno Agora. Entre cada batida do coração, o Tempo do Sonho pode voltar.

Dã Nãho!

Wagner Frota, o Lobo do Cerrado