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siga a estrada de tijolos amarelos: Satanismo Livros Satânicos A História do Satanismo O Templo de Set

O Templo de Set

Aquino

Quando LaVey fechou as portas da Church of Satan para o grande público duas coisas aconteceram. Muitas pessoas que estavam de fora não puderam entrar, e algumas pessoas que estavam do lado de dentro quiseram sair.

Alguns membros que tinham uma visão menos materialista do Satanismo, ou que desejavam dar uma ênfase maior ao seu lado ritualístico e metafísico se viram de repente sem um "papa". E um grande público que desejava conhecer Satã não possuíam mais um contato direto com o inferno. Esta fome, por um lado, unida à vontade de comer, do outro, deu origem a um novo cardápio satânico, muito mais variado e curioso.

Este processo começou logo em 1975, quando os membros do Grotto de Louisville, Kentucky, reagiram à elitização da Church of Satan com a formação de uma nova organização, chamada Temple of Set (Templo de Set). Essa rebelião foi liderada por Michael Aquino, editor do periódico Cloven Roof, responsável pelo desenvolvimento de muito material - tanto filosófico quanto mágico da Church - e tenente-coronel do Exército dos Estados Unidos. Aquino e LavEy eram amigos pessoais e trocaram cartas por muitos anos que poderiam ser facilmente reunidas e publicadas como um excelente livro sobre satanismo.

Aquino liderava um grotto chamado Temple of Set e assim o novo grupo teria para sempre seu passado vinculado a Church of Satan, realmente todos os membros iniciais eram da organização fundada por LaVey, mas a partir de então declarou sua independência quanto ao seu futuro e recebeu reconhecimento estadual e federal, bem como isenção de impostos naquele mesmo ano.

Livre das amarras ideológicas LaVeyanas, o Templo de Set foi o primeiro grupo satânico que começou a desenvolver suas próprias ideias de como o Satanismo deveria ser, com a coragem de inclusive criticar alguns aspectos do trabalho prévio de LaVey. Um passo importante para o desenvolvimento da religião satânica já que foi o primeiro conjunto de críticas que o Satanismo recebia vindo não de cristãos ou de religiosos escandalizados com a religião de LaVey, mas de outros satanistas que desejavam mostrar que sua crença era muito mais ampla e profunda do que se supunha. O episódio resultou em alguns avanços e alguns atrasos na filosofia satânica, mas o importante aqui é entender que no Satanismo não existe nenhuma autoridade final.

Mesmo LaVey, seu criador, é questionado e suas obras básicas revistas o tempo todo por aqueles que o seguem. Como uma forma de organizar livres pensadores, esta segunda fase do Satanismo, que aparentemente foi fruto de desentendimentos, fez hoje da religião diabólica uma das filosofias mais diversificadas, dada à existência de infinitos pontos de vistas em sua própria estrutura e a tendência natural de seus membros de questionarem tudo que se assemelhe a um novo dogma. Opiniões diferentes tanto no campo da política, quanto da arte e da filosofia, convivem lado a lado, unidas pelo ideal da individualidade física, mental e filosófica.

O Templo de Set refletiu muito bem esta independência quando comparado com a Church of Satan. Talvez aquele que tenha sido o avanço mais ousado do Templo de Set, foi a afirmação de que Satã não era apenas um símbolo ou um arquétipo, mas uma entidade real e a incorporação da evolução espiritual juntamente com a física - mas sem nunca dar mais peso ao imaterial do que ao material. Esse posicionamento já podia ser vinslumbrado alguns anos antes quando Aquino, na época sacerdote da organização de LaVey., escreveu o Diabolicon. A verdade é que a compreensão do que é Satã varia até mesmo de satanista para satanista. No fundo não importa muito se é uma figura representativa ou uma força cósmica que impulsiona a evolução humana, os seus resultados prático na vida do satanista são os mesmos e é isso que importa.

As bases filosoficas e práticas do Templo podem ser lidas no 'The Crystal Tablet of Set' material fornecido logo no primeiro grau do Templo. A primeira coisa que se percebe é que o Templo de Set definitivamente supera qualquer necessidade de blasfêmia que existia, ainda que residualmente na Church of Satã. Enquanto a organização de LaVey ainda se apoiava em símbolos judaico/cristãos, Aquino se divorciou de qualquer vínculo com a crença, trabalhando com um arquétipo sombrio muito mais primordial, portanto muito anterior à Igreja Cristã, adotando como símbolo máximo a figura do deus egípcio. Assim, o Satã de Aquino não era exatamente o mesmo de LaVey, ele seria a figura que se transformou, com o desenvolvimento do cristianismo, na figura chifruda temida pela igreja. Ao invés de questionar a iconoclastia da igreja, Aquino passou a desenvolver o esoterismo egípcio. Uma forma ao meu ver, de passar de um desenvolvimento baseado no aspecto agressor de Satã para o aspecto de iniciador do mesmo, ele não buscava desconstruir mais nada e sim começar a criar coisas novas.

O coração de "individualismo esclarecido" contudo ainda está lá, e existe uma sincera e organizada forma de promoção e melhoria de si mesmo. Este processo, necessariamente diferente e distinto para cada indivíduo foi chamado dentro do Templo de "Xeper", no sentido de "vir a ser" ou "tonrar-se" ou mais precisamente "Eu venho a ser."

Esta preocupação com a melhoria pessoal - tanto mental quanto espiritual - deixou seu legado para as organizações posteriores. Enquanto o grupo de Anton LaVey seguia apenas uma hierarquização eclesiástica simplificada o grupo de Aquino adotou uma organização iniciática, inspirada nos modelos deixados por grupos ocultistas dos séculos anteriores. A grande importância desta mudança é que, desde então, as organizações satânicas começaram a dar mais ênfase à evolução pessoal do que a um reconhecimento coletivo. Desta forma todo um esquema de iniciação foi criado com a seguinte ordem:

Setiano ( Primeiro Grau)

Adepto ( Segundo Grau)

Sacerdote / Sacerdotiza ( Terceiro Grau)

Magister / Magistra Templi ( Quarto Grau)

Magus / Maga ( Quinto Grau)

Ipsissimus / Ipsissima ( Sexto Grau)

Existia agora um caminho a percorrer. Não bastava ser de família rica ou pagar 100 dólares para ser um sacerdote, como se tornou a realidade decadente da Church of Satan. Muito pelo contrário, suas políticas de adesão eram muito mais rigorosas, ainda hoje menos da metade de todos os candidatos são aceitos e é necessário um período de reconhecimento de dois anos. Em 2007 o grupo contava com apenas cerca de 200 membros que se reúnem em encontros anuais, quase sempre nos Estados Unidos. O sacerdócio da organização criada por Aquino era, e ainda é, restrito a membros de Terceiro Grau e  entre eles é formado um Conselho dos Nove aos moldes da Church of Satan. A liderança de todo o templo é escolhida periodicamente dentro deste Conselho que além de Michael Aquino já pertenceu a outras figuras importantes como Don Webb e Zeena Schreck (ex Zeena LaVey) e mais recentemente Patricia Hardy.

Mas talvez o resultado mais poderoso do templo criado por Aquino foi mostrar a outros satanistas que o Satanismo não só poderia existir sem a figura de LaVey e da Church of Satan como poderia se desenvolver em algo poderoso, saindo da sombra da organização mãe e se tornar uma crença ainda mais poderosa e autônoma. Assim, uma miríade de outros grupos independentes nasceriam. No fim, aquilo que no começo atrapalhou os planos de uma Igreja Satânica forte e centralizada contribuiu com a diversividade e mutabilidade do Satanismo posterior. Algo que, mesmo que não tenha percebido, foi advogado por LaVey desde o início: não queremos um grupo forte d eindivíduos fracos, desejamos um exército poderoso de indivíduos fortes. Assim cada novo grupo satânico se punha à prova, sendo aniquilado ou sobrevivendo e se tornando um poderoso representante de diferentes perspectivas do Satanismo.

Morbitvs Vividvs

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