Ir para o conteúdo. |

  • A Empresa
  • Apoie
  • Contato
  • Seções:
siga a estrada de tijolos amarelos: Satanismo Livros Satânicos A História do Satanismo Os sermões negros

Os sermões negros

Toca da SerpenteFoi na Fraternitas Templi Satanis que o Obito ganhou o apelido de Reverendo. Eu era conhecido como "o chato" e ele como "o louco" mas tínhamos algo em comum. Ambos achávamos que se o satanismo ficasse preso em grupos fechados ele não prosperaria. Em que pese o desenvolvimento de um satanismo nacional que amadureceu com a FTS, ele ainda era restrito aos seus membros

Poderíamos dizer que o impacto da Igreja de Lúcifer e da Fraternitas Templi Satanis só foi grande porque recebeu influências inesperadas de pessoas que de outra forma nunca se conheceriam. Se os grupos continuassem seletivos demais eles mesmo seriam privados de ideias e influências enriquecedores e acabariam estagnados. Eu poderia dizer tudo isso, mas a verdade é que éramos jovens com muito tempo livre e queríamos fazer algum barulho.

Além disso estavamos separados geograficamente da maior parte dos irmãos cariocas e como era no Rio de Janeiro que aconteciam os eventos internos da FTS queriamos fazer algo de valor em nossa região também. A primeira tentativa de fazer isso foi com a produção de alguns panfletos de cunho satanarquistas que eram distribuídos na galeria do rock em São Paulo e para algumas pessoas chaves que tínhamos contato. Destes panfletos evoluiu um livreto que chamávamos "Satanic Box" que continha os principais textos do Lavey seguidos por comentários nossos. Mais tarde este livreto evoluiu editorialmente para tornar-se o "Livro Branco do Satanismo" que circulou por algum tempo entre grupos do caminho da mão esquerda e seria no futuro inclusive dado de presente aos novos membros do Templo de Satã. Mas apesar da distribuição ainda era mera produção literária. Queríamos algo que fosse mais impactante.

Assim dia 18 de Abril de 2004 decidimos fazer algo que nunca tinha sido feito antes no Brasil, falar em público sobre o satanismo.  Neste dia cerca de 60 pessoas estavam reunidas sentadas em torno de uma figura vestida de preto com um sorriso tranqüilo e um olhar inteligente que falava para todos sobre um assunto dificilmente discutido abertamente. Foi o primeiro dos sermões onde, com muitas ideias e pouca noção do perigo falávamos do satanismo para quem quisesse ouvir.

O primeiro deles acotenceu no Parque Trianon em São Paulo junto do segundo encontro Pagão de São Paulo para o qual havia sido organizada a primeira palestra sobre Satanismo Moderno em território brasileiro e provavelmente em toda américa-latina. A figura central do primeiro sermão foi Obito, que falou por aproximadamente uma hora sobre a história, os preceitos e o modo de viver do Satanista. De cabelos compridos e mãos ao alto, um verdadeiro profeta urbano pregava o livre pensamento aos peregrinos do asfalto.

Curiosamente neste primeiro evento quando Obito começou a falar, como se combinado com a Natureza para aumentar a dramaticidade do momento, as nuvens literalmente se escureceram sobre ele como que marcando um momento de transição ou uma passagem do apocalipse. Nos outros dias geralmente éramos brindados com muito Sol, mas esse fato particular não saiu da minha cabeça. A palestra foi tão bem recebida que vimos que deveriam haver outras. Foi desta forma que nasceram os Sermões Negros.

Organizamos então nossos próprios eventos onde depois de confirmar umas 9 pessoas escolhíamos um dia e os assuntos que iriam ser discutidos. Via de regra sempre apareceram muito mais pessoas do que as que haviam confirmado. Depois do sermão, ora feitos por ele, ora por mim ocorria uma rodada de perguntas e respostas que as pessoas faziam sobre o Satanismo e logo era estabelecido um diálogo com o publico crescente que só ia embora se a conversa fosse interrompida pela chuva, se ficasse muito escura ou em caso de, acreditem, intervenção policial.

Foram sete sermões negros no total que fotam assistidos por uma platéia crescente formada em sua maioria por neopagãos e metaleiros. No primeiro dia lembro-me de haver apenas cinco Satanistas declarados.  O dia com mais pessoas houve cerca de 230 participantes destas 22 satanistas apenas. Estes momentos foram registrados em VHS em pequenas fitas de vídeo que estão bem guardadas entre os meus tesouros pessoais. O conteúdo de muitas delas se tornaram textos que foram publicados no projeto Morte Súbita inc do qual falarei mais para frente. Outro habitue nos sermões era Nashim Dajjal (que depois mudou deu motto para Legião) e que nos ajudava no esclarecimento das dúvidas e na organização dos eventos.

Os locais dos sermões variavam bastante. As vezes em parques, as vezes em auditórios alugados, as vezes em hotéis. Ainda não tínhamos o dinheiro e contatos que temos hoje e assim preferíamos lugares públicos porque nunca sabíamos quantas pessoas iam aparecer nem que tipo de pessoa ia ser. Todos os sermões com exceção do último aconteceram na cidade de São Paulo.

O primeiro sermão negro foi empolgante o bastante para continuarmos o projeto por mais de um ano.  Lembro-me que enquanto Obito falava houve um episodio interessante no fundo da platéia. Uma mulher que passeava pelo parque ficou interessada, sentou-se e começou a prestar atenção. A mulher estava de passagem em São Paulo e tinha vindo de Minas Gerais há poucos dias. Quando terminou ela comentou com aqueles que estavam do lado dela que: 

“Meu filho está envolvido com essa historia da Satanismo... por isso que fiquei assistindo... 

Mas que saber? Não estou mais preocupada. Estou orgulhosa de meu filho.”

A verdade é que alguns poucos participantes da platéia nos surpreendiam com perguntas inteligentes e olhares de sincera atenção e entendimento quanto ao que estava sendo exposto. Mas a grande maioria dos que assistiram saíam da mesma forma com que entraram e consideraram tudo aquilo que aconteceu como uma simples excentricidade... E era exatamente assim que deveria ser.

Morbitvs Vividvs

Conteúdo relacionado