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siga a estrada de tijolos amarelos: Sociedades Secretas & Conspirações Maçonaria Manual do Aprendiz Franco Maçon A Iniciação Simbólica

A Iniciação Simbólica

A cerimônia através da qual são recebidos os candidatos em nossa Associação, é uma pura fórmula arbitrária ou existe nela um significado e uma importância que escapam à observação superficial, e se revelam a uma consideração mais cuidadosa e a um estudo mais profundo?

Está pergunta cada maçom tem o privilégio de responder individualmente na proporção de seu entendimento, e a iniciação, assim como a Maçonaria de modo geral, serão para ele o que ele mesmo nelas reconhecer e realizar. Será esta uma sociedade mundana, e aquela uma simples cerimônia exterior, para quem as considerar com espírito profano e mundano. Será uma Instituição Iniciática e uma cerimônia simbólica (cuja compreensão despertará seu espírito) para quem a estudar e considerar com o propósito de encontrar a verdade: Realidade profunda que constantemente se oculta sob a aparência exterior das coisas.

Para isto é necessário examinar e estudar os diferentes elementos que compõem esta cerimônia, buscando o íntimo significado de cada um deles e seu valor em termos de vida, para aplicação operativa no místico Caminho da existência ao qual deve ser relacionado, para que a cerimônia possa ser individualmente vivida e realizada, e para que aquele que foi recebido Maçom, de uma forma puramente formal e simbólica, se torne efetivamente isso, transformando-se, com o esforço individual, de pedra bruta em pedra lavrada ou filosófica, do estado de homem escravo de seus vícios, erros e paixões, em Obreiro Iluminado da Inteligência Criativa que mora em seu coração, e no do mundo exterior.

Por intermédio deste estudo veremos como as duas características fundamentais de nossa Instituição (a iniciática e simbólica) estão perfeitamente expressadas na cerimônia de recepção do Aprendiz, e como, neste grau, se resume todo o programa da Maçonaria. Assim, na mesma cerimônia, encontram-se alegoricamente reunidos todos aqueles elementos cuja íntima compreensão e prática realização fazem operativa a cerimônia da iniciação.

SIGNIFICADO DA INICIAÇÃO

Ao alcançarmos este ponto, a primeira coisa que se faz necessária é compreender o significado da palavra iniciação e como deve ser interpretada.

Iniciação é uma palavra oriunda do latim initiare, que tem a mesma etimologia de initium, "início ou começo", provindo as duas de interesse, "ingresso em" e de "começo ou princípio de" uma nova coisa. Em outras palavras, iniciação é a porta que conduz a adentrar num novo estado moral ou material, no qual se inicia ou começa uma nova maneira de ser ou de viver.

Este novo estado, esta maneira de ser e viver, é que caracterizam o "iniciado" e o distinguem do profano, enquanto o primeiro, tendo nele ingressado, conhece-o por dentro, enquanto fica fora dele, fora do Templo da Sabedoria ou de um real conhecimento da Verdade e da Virtude, das quais reconhece unicamente os aspectos profanos ou exteriores que constituem a moeda corrente do mundo.

Assim pois, esta admissão não é nem pode considerar-se unicamente como material; não é nem ser e somente a recepção ou aceitação de uma determinada associação, ao contrário, deve considerar-se, inicial e fundamentalmente, como o ingresso em um novo estado de consciência, e num modo de ser interior, do qual a vida exterior é efeito e conseqüência.

É necessária, em outros termos, uma palingenesia, um nascimento ou renascimento interior, uma transformação ou transmutação do íntimo estado de nosso ser, para efetivamente iniciar-se, ou ingressar numa nova visão da realidade: aquela nova maneira de pensar, viver, falar e agir que caracteriza o Iniciado e o Maçom verdadeiro.

Por esta razão, o símbolo fundamental da iniciação é o da morte, como preliminar para uma nova vida; a morte simbólica para o mundo ou para o estado "profano" necessário para o renascimento iniciático; ou seja a negação dos vícios, erros e ilusões que constituem os "metais" grosseiros ou qualidades inferiores da personalidade, para a afirmação da Verdade e da Virtude, ou da íntima Realidade, que constitui o ouro puro do Ser, a Perfeição do Espírito que em nós habita e se expressa em nossos Ideais e em nossas Aspirações mais elevadas.

A CÂMARA DAS REFLEXÕES

A Câmara das reflexões não representa unicamente a preparação preliminar do candidato para sua recepção, mas é principalmente aquele ponto crítico, aquela crise interior, onde começa a palingenesia que conduz à verdadeira iniciação, à realização progressiva, ao mesmo tempo especulativa e operativa, de nosso ser e da Realidade Espiritual que nos anima, simbolizada pelas viagens.

A Câmara das reflexões, com seu isolamento e com suas negras paredes, representa um período de obscuridade e de maturação silenciosa da alma, por meio de uma meditação e concentração em si mesma, que prepara o verdadeiro progresso efetivo e consciente que depois tornar-se-á manifesto à Luz do dia. Por esta razão, encontram-se nela os emblemas da morte e uma lâmpada sepulcral, e acham-se sobre suas paredes, inscrições destinadas a pôr à prova a sua firmeza de propósitos e a vontade de progredir que tem de ser selada num testamento.

Ao ingressar neste quarto (símbolo evidente de um estado de consciência correspondente), o candidato tem de despojar-se dos metais que porta consigo e que o Experto recolhe cuidadosamente. Tem de voltar a seu estado de pureza original - a nudez adâmica - despojando-se voluntariamente de todas aquelas aquisições que lhe foram úteis para chegar até o seu estado atual, mas que constituem outros tantos obstáculos para seu progresso ulterior.

Deve cessar de depositar sua confiança e cobiça nos valores puramente exteriores do mundo, para poder encontrar em si mesmo, realizar e tornar efetivos os verdadeiros valores, que são os morais e espirituais. Deve cessar de aceitar passivamente as falsas crenças e as opiniões exteriores, com o objetivo de abrir seu próprio caminho para a verdade.

Isto não significa absolutamente que tem de despojar-se de tudo o que lhe pertence e adquiriu como resultado de seus esforços e prêmio de seu trabalho, mas, unicamente, que deve deixar de dar a estas coisas a importância primária que pode torná-lo escravo ou servidor delas, e que deve pôr, sempre em primeiro lugar, sobre toda a consideração material ou utilitária, a fidelidade aos Princípios e às razões espirituais. Este despojo tem por objetivo conduzir-nos para sermos livres dos laços que de outra forma impediriam todo nosso progresso futuro. Trata-se, portanto, em essência, do despojo de todo apego às considerações e laços exteriores, com a finalidade de que possamos ligar-nos à nossa íntima Realidade Interior, e abrir-nos à sua mais livre, plena e perfeita expressão.

"LIVRE E DE BONS COSTUMES"

Ser "livre e de bons costumes" é a condição preliminar que é pedida ao profano para poder admiti-lo em nossa Ordem, condição necessária tanto de todo progresso moral como espiritual, de toda evolução na senda da Verdadeira Luz, ou ainda, da Verdade e da Virtude.

Livre dos preconceitos e dos erros, dos vícios e das paixões que embrutecem o homem e fazem dele um escravo da fatalidade. De bons costumes por ter orientado sua vida para aquilo que é mais justo, mais elevado e perfeito. Estas duas condições tornam latente em cada homem a qualidade do maçom e a possibilidade de fazer-se ou "ser feito" como tal, enquanto em sua plenitude, o caracteriza essa mesma qualidade. Na medida de sua liberdade interior e da orientação ideal de sua vida, o homem é e "se faz" um verdadeiro maçom, um obreiro da Inteligência Construtora do Universo.

O despojo dos metais é assim, o despojo voluntário da alma, de suas qualidades inferiores, de seus vícios e paixões, dos apegos materiais que turvam a pura - luz do Espírito; o abandono das qualidades e aquisições que brilham com luz ilusória na inteligência e impedem a visão da Luz Maçônica, a Realidade que sustenta o Universo e o constrói incessantemente.

O intelectual deve igualmente despojar-se de suas crenças e preconceitos, as crenças e prejulgados científicos e filosóficos tanto quanto as superstições e preconceitos religiosos e vulgares, para que diante de seus olhos possa abrir-se o Caminho da Luz e da Verdade, aonde prepara para assentar seus pés.

Como o maçom deve aprender a pensar por si mesmo, atingindo a certeza e o conhecimento direto da Verdade, de nada lhe servem as crenças e prejulgados que constituem a moeda corrente do mundo, as aquisições materiais, como as quais nunca a Verdade pode ser paga ou comprada, e a qual o maçom deve alcançar pelo seu esforço individual.

SIGNIFICADO DA CÂMARA

A Câmara de reflexões, como o seu nome o indica, representa antes de tudo aquele estado de isolamento do mundo exterior que é necessário para a concentração ou reflexão íntima, com a qual nasce o pensamento independente e é encontrada a Verdade. Aquele mundo interior para o qual devem dirigir-se nossos esforços e nossas análises para chegar, pela abstração, a conhecer o mundo transcendente da Realidade. É o "gnothi seautón" ou "conhece-te a ti mesmo" dos iniciados gregos e hindus, como único meio direto e individual para poder chegar a conhecer o Grande Mistério que nos circunda e envolve nosso próprio ser.

Isto, e a cor negra do quarto, trazem-nos à mente a antiga fórmula alquímica e hermética do Vitríolo: "Visita Interiora Terrae, Rectificando Invenies Occultum Lapidem", Visita ao interior da Terra: retificando encontrarás a pedra escondida". Isto é: desce às profundezas da terra, sob a superfície da aparência exterior que esconde a realidade interior das coisas e a revela; retificando teu ponto de vista e tua visão mental com o esquadro da razão e o discernimento espiritual, encontrarás aquela pedra oculta ou filosofal que constitui o Segredo dos Sábios e a verdadeira Sabedoria.

A representação da Verdade final e fundamental por uma pedra, não demonstra nada de estranho se imaginarmos que deve constituir a base sobre a qual descansa o edifício de nossos conhecimentos, que transformar-se-á na Igreja ou Templo de nossas aspirações, e o critério ou medida sobre a qual, e a cuja imagem, devem enquadrar-se ou retificar-se todos os nossos pensamentos.

Os ossos e as imagens da morte que se encontram representadas nas paredes da câmara, além de indicar a morte simbólica que é pedida ao candidato para que complete seu novo nascimento, mostram os fragmentos esparsos e desunidos da Realidade morta e dividida na aparência exterior, cuja Vida e Unidade ele deverá buscar e encontrar interiormente, reconhecendo-a sob a aparência e dentro dela.

O GRÃO DE TRIGO

O quarto de reflexões constitui a prova da terra - a primeira das quatro provas simbólicas dos elementos - e, através de sua analogia, conduz-nos aos Mistérios de Elêusis, nos quais o iniciado era simbolizado pelo grão de trigo atirado e sepultado no solo, para que germinasse abrisse, por seu próprio esforço, um caminho para a luz.

A semente, na qual se encontra em estado latente ou potencial toda a planta, representa muito bem as possibilidades latentes do indivíduo que devem ser despertadas e manifestadas à luz do dia, no mundo dos efeitos. Todo ser humano, é, efetivamente, um potencial espiritual ou divino, idêntico ao potencial latente da semente, que deve ser desenvolvido ou reduzido à sua mais plena e perfeita expressão, e este desenvolvimento é comparável, em todos os sentidos, ao desenvolvimento natural e progressivo de uma planta.

Assim como a semente, para poder germinar e produzir a planta, deve ser abandonada ao solo, onde morre como semente, enquanto o germe da futura planta começa a crescer, assim também, o homem, para manifestar as possibilidades espirituais que nele se encontram em estado latente, deve aprender a concentrar-se no silêncio de sua alma, isolando-se de todas as influências externas, morrendo para seus defeitos e imperfeições a fim de que o germe da Nova Vida possa crescer e manifestar-se.

Uma vez que o Germe espiritual, a Divina Semente de nosso ser, é imortal e incorruptível, esta morte - como toda forma de morte, sob um ponto de vista mais profundo - é simplesmente o despojo de uma forma imperfeita e a superação de um estado de imperfeição, que foram no passado um degrau indispensável ao nosso progresso, mas que a atualidade transformaram-se numa limitação e ao mesmo tempo numa necessidade; na oportunidade e na base para um novo passo adiante.

Essa imperfeição ou limitação que deve ser superada - os estreitos limites em que se acha enclausurado nosso pensamento e nosso ser espiritual pelos erros e falsas crenças assimiladas na educação e na vida profana - é o que simboliza a casca da semente, produzida por esta como proteção necessária em seu período de crescimento, e inteiramente análoga à casca mental de nosso próprio caráter e personalidade.

O PÃO E A ÁGUA

Essa semente, que deve morrer na terra para produzir a nova vida da planta, cuja perfeição encerra em estado potencial, morreu efetivamente no pão que está sobre a mesa da câmara de reflexões, para simbolizá-la. Esta pão, representa além disso a substância que constitui o meio pelo qual a vida se manifesta em todas as suas formas, a matéria prima continuamente o mecanismo incessante da renovação orgânica, passando de um a outro estado, de uma a outra forma de existência.

Ao lado do pão, encontra-se um copo com água, ou seja aquele elemento úmido - outro aspecto da própria Substância Mãe - que é fator e condição indispensável de crescimento, germinação, maturação, reprodução e regeneração. Como a Vênus Anadiômera, que se transforma em Vênus Genitrix; a Mãe Universal, também a Vida somente pode nascer do seio das águas, enquanto que a terra mitologicamente simbolizada por Géa e Deméter (às quais estavam consagradas os Mistérios de Elêusis) converte-se na nutris.

Estas duas formas complementares da Substância Una, atuam constantemente uma sobre a outra, como podemos observar em todos os processos biológicos; em seu estado primitivo, o pão representa o carbono que sob a forma de ácido carbônico, é encontrado na atmosfera, e que a vida vegetal transforma nos hidrocarbonatos, substâncias básicas que constituem todas as partes da planta, das quais nascem posteriormente as proteínas. Todas estas produções necessitam como base o elemento úmido, que pode comparar-se à Matriz - Templo e Oficina de toda a atividade orgânica.

Finalmente, o pão e a água possuem moralmente fundamentos de sobriedade e sensibilidades indispensáveis para a vida do iniciado, e juntamente com o despojo dos metais, este demonstra seu discernimento, que o faz buscar unicamente o essencial - os verdadeiros Valores da existência, que só podem nos dar paz, felicidade e satisfação, fazendo-se fatores de nosso progresso interior em Sabedoria e Virtude -, eliminando todas as superfluidades e complicações da vida profana, em cuja busca o homem ordinário perde suas melhores energias.

O SAL E O ENXOFRE

Uma vasilha de sal e uma de enxofre encontram-se também sobre a mesa, junto com o pão e a água. Ainda que o primeiro seja habitualmente conhecido como um condimento, sua associação simbólica com o segundo não deixa de parecer algo estranho e misterioso. O que significam pois, estes dois novos elementos, este novo casal hermético, que se une ao anterior?

Trata-se de um novo tema de meditação que é apresentado ao candidato, sobre os meios e elementos com os quais deve se preparar para uma nova Vida, iluminada pela Verdade e concebida, ativa e fecunda com a prática da Virtude, a que se referem o Enxofre e o Sal em sua mais elevada acepção.

Como tal, indica o primeiro a Energia Ativa, que se torna a Força Universal, o princípio criador e a eletricidade vital que produzem e animam todo crescimento, expansão, independência e irradiação. Enquanto que o segundo é o princípio atrativo que constitui o magnetismo vital, a força conservadora e fecunda que inclina à estabilidade e produz toda maturação, a capacidade assimilativa que tende para a cristalização, o princípio da resistência e a reação centrípeta que se opõe à ação ativa da força centrífuga.

Assim pois, da mesma maneira que no pão e na água vimos os dois aspectos da Substância cósmica e vital, nestes dois novos elementos temos os dois aspectos ou polaridades da Energia Universal, dirigido o primeiro de dentro para fora, aparecendo exteriormente como direito (ou destro), e o segundo de fora para dentro, manifestando-se como esquerdo (ou sinistro).

São respectivamente, rajas tamas - os dois primeiros gunas (ou qualidades essenciais) da filosofia hindu -, e o impulso ativo que produz toda mudança e variação, e engendra no homem o entusiasmo e o amor à atividade, o desejo e a paixão. A tendência passiva para a inércia e a estabilidade é inimiga de mudanças e variações, produzindo em nosso caráter, firmeza e persistência, e com seu domínio da mente, a ignorância, a inconsciência e o sentido da materialidade, que nos prendem às necessidades e preocupações exteriores e aos instintos destinados à proteção da vida em suas primeiras etapas.

O primeiro nos impele constantemente para cima e para a frente, anima-nos e nos dá firmeza em todos nossos passos, dá-nos o ardor, a iniciativa, o espírito de conquista, a vontade e a capacidade de satisfazer nossos desejos e conseguir o objetivo de nossas aspirações; mas, dá-nos também, a inquietude, a inconstância e o amor das mudanças e novidades, a impulsividade que nos inclina para ações inconsideradas, fazendo-nos recolher frutos maduros e perder os melhores e mais desejáveis resultados de nossos esforços.

O segundo é aquele que nos refreia e desalenta; faz com que nos recolhamos em nós mesmos, dá-nos o temor e a reflexão, faz-nos abraçar e estabelecer igualmente o erro e a verdade, os hábitos viciosos e virtuosos faz-nos fiéis e perseverantes, firmes em nossa vontade e tenazes em nossos esforços; dá-nos a capacidade de atrair aquilo com o que estamos interiormente sintonizados por nossos desejos, pensamentos, convicções e aspirações. Dá-nos a desilusão e o discernimento, afasta-nos das mudanças e de toda ação irrefletida, mas também, de todo progresso, esforço e superação.

São as duas colunas ou tendências que se achar constantemente ao nosso lado, em cada um de nossos passos sobre o caminho da existência, e nossa felicidade, paz e progresso efetivo baseiam-se em nossa capacidade de manter em cada momento um justo e perfeito equilíbrio entre estas tendências opostas, conservando-nos a igual distância de uma e de outra, sem deixar que nenhuma das duas adquira um predomínio indevido sobre nós, mas que trabalhem em perfeita harmonia, dando-nos, cada uma delas, suas melhores qualidades: o ardor reflexivo e a paciência iluminada, o entusiasmo perseverante e a serenidade inalterável, o esforço vigilante e a firmeza incansável, que também simbolizam sobre a parede da câmara, o galo e a clepsidra.

O MERCÚRIO VITAL

A ação e interação entre estas duas tendências opostas, é pois, destinada a produzir em nós, ativando o estado latente que se encontra dentro de nosso Germe Espiritual, o mercúrio vital ou princípio da Inteligência e Sabedoria, que corresponde ao salva da filosofia hindu: o ritmo da natureza, produzido pela lei de Harmonia e Equilíbrio.

O pensamento em todos seus aspectos, nasce pois, naturalmente no indivíduo, da ação e relação entre suas tendências ativas e passivas, entre o amor e o ódio, a atração e a repulsão, a simpatia e a antipatia, o desejo e o temor. Cresce e adquire sempre maior força, independência e vigor quando lutam entre si o instinto e a razão, a vontade e a paixão, o entusiasmo e a desilusão. Eleva-se e floresce, sempre mais livre, claro e luminoso, conforme aprende a seguir seus ideais e aspirações mais elevadas, e quando estas conseguem sobrepor-se à sua ignorância, erros e temores, assim como às demais tendências passionais e instintivas.

Em outros termos, o pensamento nasce, cresce, se eleva e sublima, conseguindo alcançar horizontes sempre mais altos, amplos e iluminados, conforme predomine na mente e em toda a personalidade o elemento ou vibração sátvica, o princípio do equilíbrio e da harmonia, que produz a Música das Esferas e engendra toda a criação e concepção caracterizada por sua genialidade e formosura. Pois este mercúrio sublimado é o único que pode perceber a Verdadeira Luz, que se torna, com seu reflexo mental luz criadora, simbolizada pela Vênus Celestial, antiga divindade da Luz, e portanto da beleza que a acompanha.

O fogo rajásico, aceso no homem, inicialmente pelos desejos e paixões, e depois pela vontade, o entusiasmo e suas mais nobres aspirações (que constituem o enxofre em seus diferentes aspectos), agindo sobre a substância tamásica dos instintos, temores e tendências conservadoras (o sal da reflexão), que constitui a matéria-prima de nosso caráter, faz fermentar, ferver e sublimar esta massa heterogênea no crisol da vida individual, produzindo finalmente esse mercúrio refinado ou elemento sátvico, ou seja a Sabedoria, nascida da transmutação - por meio da sublimação e refinamento - da ignorância, do erro, do temor e da ilusão.

O TESTAMENTO

O novo nascimento ou regeneração ideal que indica, em todos seus aspectos, a câmara de reflexões, tem finalmente o seu selo e concretiza-se por um testamento, que é fundamentalmente um atestado ou reconhecimento de seus "deveres", ou seja de sua tríplice relação construtiva, com o princípio interior (individual e universal) da vida, consigo mesmo como expressão individual da Vida Una, e com seus semelhantes, como expressão exterior da própria Vida Cósmica.

Trata-se de um testamento iniciático bem diferente do testamento ordinário ou profano. Enquanto este último é uma preparação para a morte, o testamento simbólico pedido ao recipiendário, antes de sua admissão às provas, é uma preparação para a vida - para a nova vida do Espírito para a qual deve renascer.

Morte e nascimento são na realidade, dois aspectos intimamente entrelaçados e inseparáveis de toda mudança que se verifica na forma expressão, interior e exterior, da Vida Eterna do Ser. Na economia cósmica, e da mesma forma na vida individual, a morte, cessação ou destruição de um aspecto determinado da existência subjetiva e objetiva, é constantemente acompanhada de uma forma de nascimento. Assim pois, só em aparência os consideramos como aspectos opostos da Vida, ou como seu princípio e fim, enquanto indicar simplesmente, uma alteração ou transformação, e o meio no qual se efetua um progresso sempre necessário, ainda que a destruição da forma não seja sempre sua condição indispensável.

Como emblema da morte do homem profano, indispensável para o nascimento do iniciado, o testamento que faz o candidato é um testamento do qual ele mesmo será posteriormente chamado a converter-se em executor, um Programa de Vida que deverá realizar com uma compreensão mais luminosa de suas relações com todas as coisas.

A primeira relação ou "dever" do testamento é a do próprio indivíduo com o Princípio Universal da Vida, uma relação que tem de reconhecer-se e estabelecer-se interiormente, e não sobre a base das crenças ou prejuízos, sejam positivos ou negativos. Não se pergunta ao candidato se crê ou não em Deus, nem qual é seu credo religioso ou filosófico; para a Maçonaria todas as "crenças" são equivalentes, como outras tantas máscaras da Verdade que se encontram atrás ou sob a superfície delas e somente à qual aspira a conduzir-nos.

O que é de importância vital é nossa íntima e direta relação com o Princípio da Vida (qualquer que seja o nome que lhe dê externamente, e o conceito mental que cada um possa ter formado ou dele venha a formar, uma relação que é estabelecida na consciência, além do plano da inteligência ou mentalidade ordinária, sendo só diretamente nela onde pode manifestar-se aquela Luz "que ilumina a todo homem que vem a este mundo".

A consciência desta relação, que é Unidade e Individualidade, traduz-se no sentido da primeira pergunta do testamento: "Quais são os vossos deveres para com Deus?" A segunda: "Quais são os vossos deveres para vós mesmos?" nada mais é do que a conseqüência da primeira. Tendo-se reconhecido, no íntimo de seu próprio ser, naquela solidão da consciência que está simbolizada pela câmara de reflexões como uma manifestação ou expressão individual do Princípio Universal da Vida, o candidato é chamado a reconhecer o modo pelo qual sua vida exterior se encontra intimamente relacionada com o que ele mesmo é interiormente, e como a compreensão desta relação tem em si o poder de dominá-la e dirigi-la construtivamente.

O homem é, como manifestação concreta, o que ele mesmo se fez e faz constantemente, com seus pensamentos conscientes e subconscientes, sua maneira de ser e sua atividade. Seu primeiro dever para consigo mesmo é realizar-se e chegar sempre a ser a mais perfeita expressão do Princípio de Vida que nele busca. E encontra uma especial diferente e necessária manifestação, deduzindo ou fazendo aflorar à luz do dia, as possibilidades latentes do Espírito, aquela Perfeição que existe imanente, mas que só se manifesta no tempo e no espaço, na medida do íntimo reconhecimento individual.

Quanto aos deveres para com a humanidade, estes representam um sucessivo reconhecimento íntimo que é complemento necessário dos dois primeiros: tendo-se reconhecido como a manifestação individual do Princípio Único da Vida, e sabendo que ele é por fora o que realiza por dentro, deve acostumar-se a ver em todos os seres outras tantas manifestações do próprio Princípio. Deste reconhecimento, brota como conseqüência necessária o seu dever ou relação para com a humanidade, que não pode ser outra coisa que a própria fraternidade.

A compreensão desta tríplice relação é o princípio da iniciação, o início efetivo de uma nova vida, o testamento ou doação que é feita para si próprio, preparando-se para executá-lo. É a preparação necessária para as viagens ou etapas sucessivas do progresso que o aguardam.

A PREPARAÇÃO

Antes de ser admitido no Templo, é necessário que seja feito um preparo físico correspondente ao preparo moral que o candidato fez na câmara de reflexões: os olhos devem ser vendados, coloca-se-lhe uma corda no pescoço e descobre-se o lado esquerdo de seu peito, o joelho direito e o pé esquerdo.

Que significa esta preparação?

A venda que lhe cobre os olhos não é simplesmente o símbolo do estado de ignorância ou cegueira, de sua incapacidade para perceber a verdadeira Luz. Como preparação para ser admitido no Templo, é evidente a necessidade de uma constituição da obscuridade da câmara de reflexões, uma cegueira voluntária, um isolamento das influências do mundo exterior e da luz ilusória dos sentidos como meio para chegar à percepção espiritual da Verdade.

O cordão que lhe cinge o colo, lembra-nos o dos frades, assim como o cordão umbilical que une o feto à mãe no período de sua vida intra-uterina. Além de indicar o estado de escravidão as suas paixões, erros e preconceitos, em que o homem se encontra nas trevas do mundo profano, o jugo da fatalidade que pesa sobre ele, mostra seu desejo, vontade e capacidade de libertar-se deste jugo e desta escravidão, aceitando voluntariamente as provas da vida e cooperando com a sua disciplina. desta forma, os próprios obstáculos, dificuldades e contrariedades, convertem-se em graus e meios de progresso.

Finalmente, o triângulo da nudez, que constitui o terceiro elemento desta simbólica preparação, é um novo despojo voluntário de tudo o que não é estritamente necessário e constituiria um obstáculo ao progresso posterior - o despojo de todo convencionalismo que impede a sincera manifestação de seus sentimentos e de suas aspirações mais profundas (nudez do peito esquerdo); do orgulho intelectual, que impede o reconhecimento da Verdade (nudez do joelho direito); da insensibilidade moral, que impede a prática da Virtude (nudez do pé esquerdo).

A perfeita sinceridade das aspirações é, pois a primeira condição de todo progresso; mas faz-se necessário com ela um bem compreendido espírito de humildade (que não deve confundir-se com um falso desprezo de si mesmo, nem com a ignorância das divinas possibilidades que se encontram em nós mesmos), dado que nosso progresso deve desenvolver-se num plano superior à ilusão da personalidade. Com a primeira destas duas qualidades abrimos nosso coração, e com a segunda nossa inteligência ao sentimento e à percepção daquela Realidade que Jesus chamou o Reino dos Céus, meta de toda iniciação.

Enquanto a nudez do pé esquerdo - o instrumento do caminhar que abre nossa marcha para a frente - indica a faculdade do discernimento que devemos usar em cada passo de nosso caminho e que nos permite reconhecer a verdadeira natureza dos obstáculos e provas do caminho, nos quais podemos tropeçar.

Com este preparo, o candidato encontra-se em condições de bater à porta do Templo, de pedir, buscar e encontrar a Luz da Verdade.

A PORTA DO TEMPLO

A porta tem sido desde as mais antigas épocas, o símbolo natural de toda passagem ou entrada, e em particular, de toda iniciação. Além disso, a porta já é por si mesma um Templo (um Templo rudimentar) e o ternário de suas duas colunas com a arquitrave, constitui o elemento fundamental de toda construção arquitetônica. Assim pois, o momento de franquear a Porta do Templo depois de dupla preparação moral e física de que acabamos de falar, é um dos mais importantes da cerimônia de iniciação.

O candidato é introduzido, depois de três fortes golpes, golpes desordenados que revelam uma mão todavia inexperta ou profana. Por esta razão, seus golpes produzem alarma no interior do Templo, alarma que se repete por três vezes, como eco dos mesmos. Isto relaciona-se com as palavras evangélicas: buscai e encontrareis (a Verdade), pedi e vos será dada (a luz), batei e vos será aberta (a Porta do Templo).

Ao ser recebido no Templo, com os olhos vendados, somente sente sobre o seu peito nu, a ponta de uma arma cortante. Isto serve unicamente para fazê-lo entender que ainda que não veja, pode sentir, e o sentimento da Verdade será o Guia que o conduzirá em seu progresso e em seus esforços para a Luz.

O Guia interior, que conduz individualmente a todo o se que se torna receptivo à sua influência no Caminho da Verdade e da Vida, acha-se materializado exteriormente pelo Experto (ou seja quem for, que por tê-lo já percorrido, conhece bem o Caminho e pode assim servir de guia ao inexperiente), sem o qual seria impossível ao candidato preencher devidamente as condições que lhe são pedidas para a sua admissão.

É o guia quem responde por ele à pergunta: "Quem é o temerário que se atreve a perturbar nossos pacíficos trabalhos e tenta forçar a Porta do Templo?, dizendo que "É um profano desejoso de conhecer a Luz Verdadeira da Maçonaria o que solicita humildemente por ter nascido livre e de bons costumes".

Do significado iniciático desta dupla condição, já tratamos por ocasião do despojo dos metais. Este requisito é de fundamental importância uma vez que, em virtude do mesmo abre-se-lhe a primeira porta do Templo, assim como as três portas simbólicas, representadas pelas três Luzes, depois de cada uma das viagens.

A ponta da espada, apoiada sobre o coração, é o símbolo da Verdade, através da sua intuição que ocorre ou se manifesta diretamente no íntimo de nosso ser, ao adentrarmos ao Templo, isto é, num particular estado de devoção receptiva, tendo-nos isolado das influências exteriores e fechado nossos olhos à vista profana e à consideração ordinária, puramente objetiva das coisas.

Ainda que não vejamos, sentimos; ainda que não saibamos explicar a nós mesmos o por que e a razão dos acontecimentos, percebemos intuitivamente alguma coisa que reconhecermos diretamente como Verdade e que se manifesta em nossa consciência pela forma repentina e violenta da qual a espada apoiada sobre nosso peito constitui símbolo muito expressivo.

INTERROGATÓRIO DO CANDIDATO

O interrogatório a que se submete o candidato em seu primeiro ingresso no Templo, é de certa maneira a continuação e a expressão de suas meditações na câmara de reflexões.

As perguntas que lhe são feitas, versam inicialmente sobre suas próprias respostas às perguntas do testamento, pedindo-se-lhe os necessários esclarecimentos sobre os conceitos ali expressos a respeito de como entende sua relação e portanto seus deveres, "para com Deus, para si mesmo e para com a humanidade".

Uma vez esclarecido este ponto, e como necessária conseqüência da compreensão desta relação e destes deveres (cujo reconhecimento faz o maçom, enquanto põe o homem em harmonia com o Princípio Construtivo ou Lei Evolutiva do Universo), pode-se-lhe que expresse suas idéias sobre o vício e a virtude.

Um claro discernimento entre o vício e a virtude é o que torna operativo o reconhecimento dos deveres e conduz o homem a progredir sobre o caminho da Liberdade. O vício é, pois, como o diz a própria etimologia da palavra, um "vínculo, laço ou liame", uma corrente que escraviza o homem e impede ou dificulta o seu progresso, reduzindo ou atrofiando seus esforços para a expressão de suas possibilidades mais elevadas.

O homem escravo do vício nunca poderá ser um verdadeiro maçom, uma vez que lhe falta o requisito essencial, com o qual pode tornar-se virtuoso: ser livre e de bons costumes.

Assim como na idéia do vício está implícita a idéia de escravidão, sujeição, passividade e debilidade, sendo o inferior aquele que domina e limita o superior, assim na idéia de virtude está implícita a idéia de "força" que faz do humanus (o filho de Humus ou Bhumi, a terra), um vir ou vira, isto é, um "herói", um Hércules, no sentido moral e etimológico do homem que por meio de seus "esforços pessoais" ou fadigas, domina e supera suas próprias debilidades.

Estabelecer o domínio do superior sobre o inferior, do espiritual sobre o material, do Ideal sobre as imperfeições manifestas, heis aqui o programa de todo verdadeiro maçom, de todo iniciado na Verdade e na Virtude. Por esta razão, uma clara definição deste ponto é preliminarmente necessária para a efetivação de todo o progresso posterior.

AS VIAGENS

Toda possibilidade de progresso, tanto interior como exterior, baseia-se no reconhecimento de um caminho como algo que está diante de nós, e no discernimento de uma determinada direção, rumo a uma meta que percebemos com maior ou menor clareza.

Nossos pés físicos, assim como nossos pensamentos, que de uma maneira análoga, passo a passo, parecem dirigir-se em certo sentido, marcham precisamente de forma espontânea e automática, naquela exata direção na qual se fixa nosso olhar, ou melhor, nossa visão interior. Se nosso olhar e nossa visão se fixam em algum obstáculo, dificuldade, contrariedade e condição indesejável, no temor ou pressentimento de algo desagradável, não devemos pois, estranhar se formos dar direta e precisamente nesse obstáculo, ou, no objeto de nossos temores.

Além disso, uma percepção ou visão obscura e indefinida e dificulta nossa marcha e faz nossos passos incertos e vacilantes, pelo que tropeçamos continuamente com os obstáculos que aparecem no caminho, enquanto que ao divisarmos adiante de nós perfeitamente nossa senda, com toda clareza e discernimento, nossa marcha é fácil, rápida, direta e segura, e superarmos facilmente todos os obstáculos que possamos encontrar.

O mesmo sucede com nossa marcha intelectual em direção à Verdade e com a marcha moral rumo a um ideal de perfeição, que se revela sempre com maior clareza conforme avançamos na senda que deve conduzir-nos à sua realização. A essa mesma Lei obedecem nossos esforços dirigidos para um particular objetivo, para o qual tendem e no qual se concentram nossos desejos e aspirações: a marcha é mais fácil, rápida e direta conforme aprendemos a concentrar nesse objeto as melhores energias de nosso pensamento e, sobretudo, a contemplá-lo, vê-lo e discerni-lo com perfeita clareza.

A concentração de nossas energias interiores em direção a uma meta determinada é, em todo caso, a base indispensável de todo esforço que possamos fazer e de todo passo que possamos dar nessa direção.

A cerimônia de recepção do candidato no primeiro grau, consiste essencialmente de três viagens que sintetizam admiravelmente todo seu progresso maçônico nos três graus. Cada viagem representa assim um novo estado, um período diferente e uma nova etapa de seu progresso.

A PRIMEIRA VIAGEM

A primeira viagem apresenta-se cheia de dificuldades, de ardis e perigos, e completa-se em meio aos ruídos mais fortes e variados, que representam o desencadeamento das tempestades e dos ventos, símbolos das falsas crenças, opiniões e correntes contrárias do mundo, como as que temos que enfrentar. É a prova do ar das antigas iniciações, como é demonstrado pela purificação pelo ar que coroa esta viagem.

A direção desta viagem, como das sucessivas, é aquela que é indicada silenciosamente pelo guia invisível que o conduz, e que ele tem de seguir com docilidade e confiança. Essa docilidade (palavra derivada de docere, "ensinar", que por sua vez tem evidente analogia com ducere, "conduzir"), é a que o faz receptivo e o coloca em condições de aprender. No que diz respeito ao guia, representa, como já dissemos, o sentido íntimo, do justo, do bom e do verdadeiro, pois é o guia invisível e silencioso de todo homem, o único que pode realmente conduzir-nos pelo caminho do progresso.

Essa direção é de Ocidente a Oriente pelo lado do Norte. O que significam estes pontos cardeais?

Aqui abrangemos uma das fases mais profundas e instrutivas do segredo maçônico: da mística doutrina que se esconde e se revela em seu simbolismo.

DO OCIDENTE AO ORIENTE

O Ocidente é o lado ou aspecto do mundo aonde o Sol se põe, isto é, onde a luz que o ilumina declina, se oculta e se torna invisível ainda que faça entrever sua presença, no último resplandecer do ocaso, antes de deixar o mundo submergido nas escuras trevas da noite. É portanto, uma imagem muito expressiva do mundo sensível, da realidade visível que constitui o aspecto material, fenômeno ou objetivo do Universo, no qual a verdadeira luz que o ilumina, a Essência ou Realidade invisível que o suporta, ocultou-se na aparência, sob o velame comparativamente ilusório de sua realidade exterior.

O Real não é o que aparece, senão o que se esconde e revela atrás da aparência. Reconhecer essa Realidade constitui a substância de toda a iniciação, que consiste essencialmente em ingressar em sua percepção intuitiva, em adquirir consciência da mesma com um progressivo e sempre mais perfeito discernimento entre o que é e o que parece. É a Doutrina Iniciática de todos os tempos: a Realidade se oculta na aparência, na qual se acha, como Isis, velada e revelada, desvelando-se unicamente para o iniciado que tenha chegado individualmente, por seus próprios esforços, ao estado de consciência em que se torna manifesta sua natureza essencial.

Quanto à Essência ou Realidade íntima, Imanente e Transcendente, é a que se acha representada simbolicamente pelo lado oposto, o Oriente, o aspecto do mundo de onde nos vem, nasce e emana a Luz. Onde a realidade aparece e brilha por seu próprio resplendor, esclarecendo e fazendo fugir as trevas da noite.

Partindo do Ocidente, ou do conhecimento objetivo da realidade exterior, o homem encaminha-se pela fria escuridão do Setentrião - a razão pura - em busca daquela Realidade que constitui a essência mais permanente e profunda do Universo, e que não pode ser encontrada senão caminhando para o Oriente, dos efeitos às Causas, desde os fenômenos aos números, Leis e Princípios que os regem.

Esta busca numa obscuridade inicial, que irá depois esclarecendo-se conforme avança no caminho, está representada pela região fria e tenebrosa do Norte, que deve ser atravessada com passo firme e perseverante, sem deixar que ela assuste ou desvie, pelas dificuldades e obstáculos que se encontram no caminho que conduz "da Ilusão" à Realidade".

DO ORIENTE AO OCIDENTE

No curso desta primeira viagem, não pode o candidato deter-se no Oriente pois deve retornar imediatamente ao Ocidente, passando, desta vez, pelo caminho mais luminoso e agradável do Meio-dia. Isto quer dizer que uma vez atingida a primeira percepção, ocorrido o primeiro vislumbre da Realidade profunda das coisas, não deve o candidato nela deter-se, mas deve prosseguir seu caminho, voltando outra vez ao Ocidente da aparência sensível, mas com a consciência iluminada pelo reflexo desta aquisição, estado que simboliza o Meio-dia.

Ou seja, uma vez atingido o conhecimento rudimentar das causas que regem os efeitos do mundo visível, e das Leis e Princípios que governam o mundo, deve completar o esforço indutivo, que o fez chegar a este conhecimento, com um análogo esforço dedutivo, no qual encontra a oportunidade e lhe é imposta a necessidade de uma aplicação fecunda e construtiva dos conhecimentos adquiridos.

Como a dedução não é geralmente mais difícil que a indução, o caminho de regresso não está menos semeado de obstáculos e dificuldades. Entretanto, a certeza já adquirida em sua passagem pelo Oriente, permite-lhe enfrentar com mais serenidade as crenças, opiniões e preconceitos do mundo, que já não tem poder para fazê-lo desviar-se do seu caminho. Esta é a purificação pelo ar que deve sofrer ao chegar ao término desta primeira viagem, próximo ao altar do 2° Vigilante.

Também simboliza esta viagem as provas da vida que temos de enfrentar constantemente em seus primeiros esforços desde o material até o Ideal, dominando seus instintos, paixões e desejos, assim como as circunstâncias contrárias que o confrontam, por meio do discernimento da realidade profunda da vida e do íntimo propósito de todas suas experiências, buscando a Verdade e servindo-se da mesma como remédio para todos seus males, conforme ensina Pitágoras em seus Versos Áureos:

"Mas existe uma estirpe divina entre os mortais,
Da qual se chegares a ser partícipe,
Conhecerás as coisas que te ensino,
E servindo-lhe delas como remédio,
Do muitos males, farás livre tua alma!"

A SEGUNDA VIAGEM

A segunda viagem diferencia-se da primeira por sua maior facilidade: desapareceram os obstáculos, e os ruídos violentos deixaram seu lugar ao tinido argênteo das espadas que os presentes fazem entrechocar.

Esta maior facilidade é conseqüência direta dos esforços feitos na primeira viagem. À medida em que aprendemos a superar os obstáculos que se encontram em nosso caminho, estes progressivamente desaparecem, pois já não tem razão de existir, uma vez desenvolvida em nós a capacidade de superá-los, com as qualidades que nos faltavam.

O choque das espadas é o emblema das lutas que travam ao redor do candidato, assim como da luta individual que ele deve empreender com suas próprias paixões, pensamentos, hábitos e tendências negativas: todo pensamento deve ser retificado, todo erro resolvido e convertido em Verdade. Indica sobretudo a negação do erro (ainda que tenha a força da aparente evidência exterior), na luz da Superior Realidade, da qual tem-se percebido os primeiros vislumbres.

A segunda viagem pretende relacionar-se com esta hora de incessante transmutação, com esta progressiva catarse da palavra inferior, que requer uma constante atenção e vigilância, que representa simbolicamente a prova da água, isto é, aquela espécie de batismo filosófico que consiste em limpar ou libertar a alma de seus erros, vícios e imperfeições que constituem a raiz ou causa interior de todo mal ou dificuldade exterior.

A primeira viagem representa os primeiros esforços na busca da luz ou da Verdade, os primeiros passos desde as sobras da Ilusão em direção à Realidade íntima e profunda que é a Essência, a Substância e a Base imanente de tudo. Também representa, em seu regresso, o esforço individual que cada um deve fazer para caminhar e processar sua vida em harmonia com seus Ideais e com suas aspirações mais elevadas, deixando de seguir passivamente a rotina de seus hábitos, instintos e tendências negativas.

Como complemento destes primeiros esforços, a segunda viagem indica a perseverança nesta obra metódica de purificação da alma, que a fará digna de receber ou abri-se às suas mais elevadas possibilidades, o batismo da água, ou seja a negação do negativo (sendo a água o elemento negativo por excelência) que deve preceder ao batismo do fogo, ou do espírito, ou seja à afirmação do positivo que levará consigo um perfeito estabelecimento da Verdade.

A purificação pela água, com a qual é concluída esta segunda viagem é essencialmente uma purificação da imaginação e da mente, de seus erros e de seus defeitos, constituindo uma fase importante daquela Grande Obra de redenção e regeneração individual que a iniciação maçônica nos mostra com seu particular simbolismo.

A TERCEIRA VIAGEM

Representando a segunda viagem principalmente a virtude negativa, que consiste em purificar a alma de suas paixões, erros e defeitos, mais do que um objetivo para cada um, constitui a necessária preparação para a etapa sucessiva que nos indica a terceira viagem.

Esta completa-se com uma facilidade ainda maior que as precedentes, tendo desaparecido por completo os obstáculos e ruídos. Somente são ouvidos os acordes de uma música cadenciada e profunda que parece sair do próprio silêncio.

Tendo o iniciado dominado e purificado a parte negativa de sua natureza, que é a causa dos ruídos e das dificuldades externas, é natural que estas tenham completamente desaparecido. Agora deve familiarizar-se com a energia positiva do fogo, isto é, com o Potencial Infinito do Espírito que se encontra em si mesmo, cuja mais perfeita manifestação se tornou possível pela precedente purificação.

Esta descida do espírito, que constitui a prova e a purificação pelo fogo, elimina, por meio de uma plena consciência da Verdade, todo resíduo de impureza, todo traço dos erros e ilusões que precedentemente dominaram a alma. Quando a Luz da Verdade aparece em toda sua plenitude, toda treva, todo erro, toda dúvida e imperfeição, automaticamente desaparecem.

O iniciado prepara-se e aprende, por intermédio desta terceira viagem, a caminhar no fogo, isto é, no mais profundo e sutil elemento das coisas, do qual todas nascem e no qual se dissolvem, onde cessa por exemplo o poder da ilusão e a Realidade manifestar-se como realmente é.

Esse mesmo fogo representa, por um lado, a essência espiritual ou Princípio Universal do Ser, com a qual estabelece contato através do discernimento da Verdade, e por outro lado, também representa a energia primordial, que constitui o Poder da Suprema Essência. Esta Divina Energia acha-se representada, no simbolismo helênico, por Prosérpina, a Rainha da Hades, filha de Démeter - a qualidade produtora da Essência Primordial - que se encontra nos "infernos", ou seja, mas profundezas místicas das coisas.

Tendo realizado nas profundezas de seu próprio ser, este íntimo contato com a essência fundamental que é ao mesmo tempo Verdade, Poder e Virtude, o iniciado anda agora com passo firme e seguro, sem que nada tenha o poder de modificar sua atitude ou fazê-lo desviar-se. Esta serenidade imperturbável, que tem em si mesma sua razão de ser e sua raiz, e na qual a alma descansa para sempre ao abrigo de todas as influências, tempestades e lutas exteriores, permanecendo absolutamente firme em seus esforços e em seus propósitos, torna patente que a prova simbolizada pela terceira viagem foi superada. O iniciado leva agora, aceso dentro de si mesmo, algo que é como uma chama que nunca se apaga: aquele entusiasmo veemente e persistente que brota da própria raiz do ser e é a base de toda a realização exterior.

Com esse fogo, cuja essência é Amor infinito, livre de todo desejo, impulso ou motivo pessoal, tem o iniciado o poder de executar em torno dele os milagres e as coisas mais inesperadas, sendo, como Fé Iluminada e sincera, uma Força Ilimitada por ter franqueado e possuir o poder de superar os limites da Ilusão.

O CÁLICE MISTERIOSO

O iniciado que afrontou as provas simbolizadas pelas três viagens e sofreu a tríplice purificação dos elementos, libertou-se de todas as escórias de sua natureza inferior e tem agora o dever e o privilégio de manifestar o mais alto e divino de seu ser.

Este dever e este privilégio, que já fazem dele potencialmente um maçom, devem ser selados com uma primeira obrigação (o reconhecimento dos deveres) que precede ao juramento propriamente dito, e consiste em dar-lhe de beber um cálice de água que de doce se transforma em amarga.

Nesta tríplice obrigação, que pode considerar-se como uma confirmação do testamento, aprende e reconhece as condições nas quais será recebido maçom: o segredo sobre o que há de mais sagrado; a solidariedade e devoção para com seus irmãos; e a fidelidade à Ordem, com observância de suas Regras e Leis tradicionais.

O cálice da amargura descreve-nos de forma eficaz, as desilusões que encontra quem desce das regiões puramente ideais, do Oriente simbólico, para enfrentar as realidades materiais. A doçura inefável dos sublimes conhecimentos adquiridos e dos planos ou programas de atividade que foram formulados na mente, não podem transformar-se na amargura que nasce quando tudo parece ir contra nossos projetos e nossas aspirações.

Então, não devemos estranhar-se num momento de debilidade, a alma cede momentaneamente sob o peso envolvente dessa aparência e brota do fundo do coração o grito: "Pai, se for possível, afasta de mim este cálice!".

Mas o cálice não pode ser afastado, já que deve ser servido até a última gota. O contato com a realidade externa não pode ser evitado, e neste contato deve demonstrar-se praticamente o valor de suas aquisições ideais e sua confiança na Verdade na qual se estabeleceu. A realidade exterior deve ser transmutada pela simples influência silenciosa de sua consciência íntima, fixada na visão de uma Realidade de ordem superior ou transcendente.

Em outras palavras, o iniciado que foi purificado pelos três elementos, deve ter sido convertido e deverá agir como um verdadeiro filósofo. Deve portanto, com sua atitude interior, ser a pedra filosofal que tudo transmuta pela simples influência de sua própria presença. Assim, pois, longe de evitar e afastar de si a poção amarga que lhe é oferecida pela ignorância dos homens, deve levá-la a seus lábios serenamente, como se fora a mais doce e agradável das bebidas. É, quando, então, cumpre-se o milagre: a amargura converte-se em doçura, e a visão espiritual triunfa sobre as sombras da ilusão que se desvanecem.

O SANGUE

Antes de selar definitivamente, por meio de um solene juramento, a admissão do recipiendário na Ordem, costuma-se submetê-lo a algumas outras provas que possam demonstrar sua força de ânimo, e sua retidão e firmeza de propósitos.

Uma destas provas é a do derramamento de sangue. É dito ao recipiendário que, como a Sociedade da qual anseia tomar parte poder-lhe-á pedir que verta seu sangue até a última gota, para a defesa dessa Causa Sagrada ou da vida de seus irmãos, deve dar prova de estar disposto a fazê-lo, firmando com seu próprio sangue, o seu juramento.

Este argumento do sangue, lembra-nos muitas antigas tradições que davam um singular valor à assinatura com o mesmo, de modo que o pacto assim firmado, não pode ser interrompido nem com a morte. Entre outros, citamos o Fausto, de Goethe, onde Mefistófeles, pede a Fausto selar com seu sangue o trágico pacto pelo qual se obriga a servi-lo, em troca de sua alma. E tendo-lhe este pergunto por que razão dito pacto deveria assim ser firmado, responde-lhe Mefistófeles enigmaticamente que o sangue é um fogo de virtude singular.

Com efeito, o sangue é a expressão orgânica mais direta da vida individual, ou do Ego pessoal e portanto do que um em nós existe da mais próprio e genuíno. A permanência da vida no organismo está caracterizada pelo estado de fluidez do sangue, que circula e anima todas as partes do corpo, cessando a vida quando o sangue deixa de circular, bem como, quando coagula.

O fato de "estar disposto a firmar com sangue" o juramento maçônico, significa pois, que ele deve estar disposto a aderir com todo o seu ser, e de forma permanente e inviolável, aos Princípios e Ideais da Ordem, fazendo dos mesmos, carne de sua carne, sangue e vida de sua vida.

Assim pois, a qualidade de maçom, que é conferida simbolicamente com a iniciação, e que individualmente é adquirida realizando ou tornando efetiva dita iniciação, deve considerar-se como permanente e indelével. Sua transitoriedade não provaria senão o fato de que nunca teria sido efetiva. Em outras palavras, não pode alguém "ser e deixar de ser" maçom à vontade, senão que, uma vez que tenha-se tornado verdadeiramente como tal, sê-lo-á para sempre. Aquele que acredita que pode deixar de considerar-se maçom é porque nunca o tinha sido, no sentido iniciático da palavra, apesar de que possa ter tido o desejo de sê-lo e tenha-se-lhe outorgado externamente tal título, dando-se-lhe assim a oportunidade (nada mais ou nada menos que a oportunidade) de converter-se em verdadeiro maçom.

A MARCA DO MAÇOM

Outra prova análoga à do sangue, que insiste sobre o caráter permanente da qualidade do maçom, é o convite que é feito ao candidato para que permita que se deixe imprimir com fogo, em alguma parte do corpo, "a marca gloriosa de um selo que se encontra em todas as Lojas do Universo" e por meio da qual os maçons se reconhecem.

Esta marca ou estigma verdadeiramente glorioso (mas que nunca foi aplicado materialmente pela simples razão de que a Maçonaria quer fazer homens livres e não coração de todo maçom, e é outro símbolo daquilo que o maçom deve ser e naquilo em seu coração e expressa por todo o seu ser.

As qualidades ou emblemas que são aplicadas com o fogo, por cujo intermédio os maçons reconhecem-se entre si, são evidentemente o compasso da razão que caracteriza o reconhecimento da Realidade Espiritual (que é o Centro simbólico de todo ser e de todas as coisas) e sua relação com a vida exterior (a circunferência ou aparência das coisas), e o esquadro do juízo, com o qual o maçom retifica, seus pensamentos, aspirações e desejos, em harmonia com o Plano do Grande Arquiteto, Plano com o qual deve esforçar-se em cooperar conscientemente.

Finalmente, e para dar uma prova tangível de suas boas disposições, é convidado a tomar parte na cadeia de união dos maçons, mediante uma oferta voluntária com a qual manifesta e reconhece seu dever de solidariedade com aqueles que se encontram momentaneamente necessitados de recursos e de meios suficientes para viver. Todos nós devemos e todos podemos ser úteis reciprocamente uns aos outros. O egoísta é um ser inconsciente que não conhece os laços que nos unem e o dever que temos de cooperar com todas as nossas forças para alcançar o Bem comum. E o maçom nunca pode ser um egoísta, ignorante de sua relação e deveres para com os demais.

O JURAMENTO

O candidato encontra-se agora pronto para cumprir a formalidade do juramento, ou obrigação solene que se lhe faz prestar diante da área de sua própria consciência, ajoelhado com o joelho esquerdo, e com o joelho direito em esquadro, em sinal de humildade, respeito e devoção; com a mão direita sobre a Bíblia, que representa a palavra Divina ou a Verdade Revelada pela tradição, tendo na esquerda um compasso, cujas pontas apoia sobre o peito num símbolo da plenitude da consciência e do perfeito entendimento de seu coração.

O juramento é feito "em presença do G. A do U. e dos irmãos reunidos em Loja". O reconhecimento da presença do G. A. é pois, sua primeira condição. O juramento ou obrigação assume-se individualmente em presença do Ideal e das aspirações mais elevadas de cada um de nós naquele Princípio impessoal que constitui o primeiro molde, rege o curso e é o Divino Arquiteto em nossas vidas.

Os irmãos reunidos ao redor do aspirante, com suas espadas juntas, formando uma abóbada de aço sobre sua cabeça sem que ele possa percebê-lo entretanto, com seus próprios olhos, são o símbolo daquelas presenças ou inteligências invisíveis que se acham constantemente ao nosso redor, sem que delas tomemos consciência; mudas testemunhas de nossos atos, que nos vigiam, nos protegem e nos ajudam a levar a termo nossos propósitos e nossas aspirações mais elevadas.

A obrigação contrai-se livre e espontaneamente "com pleno e profundo convencimento de alma". Heis aqui uma condição fundamental de seu significado e de sua validade: não se trata, pois, de uma obrigação obtida com lisonjas, promessas ou ameaças, com a qual se faz a ligação contra a própria vontade ou contra os desejos e aspirações, podendo o aspirante de tal forma ser constrangido a fazer algo que repugne, como em qualquer sociedade secreta, cuja orientação seja diferente da genuína Tradição Iniciática.

Isto é o que caracteriza a Maçonaria e a diferencia nitidamente de outras sociedades de diversas finalidades que tenham o segredo como meio ou instrumento de sua atividade. Seus elevados Princípios e a lealdade e fidelidade aos mesmos que é pedida a seus iniciados, dos quais quer fazer homens livres no sentido mais pleno e profundo da palavra, colocam-na eternamente acima das críticas interessadas e malévolas que lhe são feitas, sob o pretexto do segredo no qual se desenvolvem suas atividades.

O maçom contrai a obrigação que o liga à Ordem pelas mais elevadas aspirações de sua alma, com a mais plena, livre e espontânea vontade, e até o último momento dá-se-lhe a liberdade de se retirar, se assim o preferir.

AS TRÊS OBRIGAÇÕES

A primeira das obrigações contraídas pelo juramento, refere-se aos segredos da Ordem. O recipiendário obriga-se a "não revelá-los a ninguém que não seja um bom e legítimo maçom". É a obrigação da discrição no que se refere a todo ensinamento esotérico, para que a mesma seja útil e proveitosa, e que dito ensinamento possa transmitir-se unicamente a quem estiver devidamente preparado para recebê-lo, isto é, capacitado a entendê-lo em seu sentido real.

Esta obrigação está em perfeito acordo com as palavras de Jesus: "Não deis coisas sagradas aos cães ou pérolas aos porcos", e de Buda: "Não turbe o sábio a mente do homem de inteligência retardada"; como também na máxima hermética: "Os lábios da sabedoria estão mudos fora dos ouvidos da compreensão".

O termo cão, nas palavras de Jesus, nada significa de injurioso, sendo uma palavra de uso no Oriente no sentido de, profano ou "estranho"; e no que diz respeito às pérolas, estas representam uma imagem muito expressiva dos fragmentos da Sabedoria que o iniciado deve reunir cuidadosamente, no místico silêncio da alma, em vez de "atirá-las" ao mundo das paixões, onde ninguém sabedoria compreendê-las.

A segunda obrigação é a promessa de "não escrever", gravar ou fazer qualquer sinal pelo qual possam conhecer-se tanto a Palavra Sagrada, como os meios de comunicação e reconhecimento entre os maçons. Esta obrigação, em seu sentido exotérico, destina-se a proteger a unidade e inviolabilidade da Ordem, e, portanto, a continuidade da Tradição que por meio dela se transmite simbolicamente.

Esotericamente a palavra sagrada refere-se mais particularmente ao místico Verbo ou Ideal Divino que cada um recebe no íntimo de seu ser para expressá-lo numa atividade construtiva - atividade que será o meio pelo qual será exteriormente reconhecido como maçom por todos "os bons e legítimos maçons". Esta palavra não deve dar-se a conhecer exteriormente a ninguém, pois, perderia sua eficácia, assim como a semente perde seu valor vital se for afastada da terra aonde deve germinar.

A terceira obrigação é o reconhecimento dos deveres de solidariedade que o unem aos demais maçons pelo mesmo fato de ter adquirido a consciência de sua relação para com eles, que é a fraternidade. Deve, pois, considerá-los a todos como irmãos e a eles sentir-se ligado por aquela fraternidade espiritual que brota da comunidade de ideais, tendências e aspirações, que é mais forte e profunda que qualquer outra fraternidade puramente carnal ou exterior.

Assim compromete-se a ajudá-los e socorrê-los onde suas forças o permitam, tanto moral como materialmente. Isto não quer dizer que deva fazê-lo com prejuízo de outrem, amparando injustiças e ações desonestas, mas que deve cumprir para com eles o primeiro dever de humanidade, fazendo em todas as circunstâncias tudo o que o amor fraternal e seu próprio senso do bem, lhe sugerirem, evitando tudo quanto possa prejudicá-los direta ou indiretamente.

Antes de faltar a este juramento, o maçom prefere "ter a garganta cortada e a língua arrancada pela raiz", o que significa perder o poder da palavra, cuja eficácia construtiva e regeneradora depende do segredo e da veneração com os quais se custodia em religioso silêncio exterior, para que possa livremente manifestar-se em seu interior.

É o castigo simbólico que o indiscreto recebe, naturalmente, como conseqüência necessária de suas próprias ações, quando faz uso indevido, egoísta ou volúvel do que lhe tiver sido confiado. Comunicando aquilo que não deveria, perde ou retarda sua própria capacidade de expressá-lo, assim como a capacidade de alcançar uma justa e perfeita compreensão das coisas. O indiscreto e o infiel nunca podem estabelecer-se na Verdade, que se envolve em seus véus mais impenetráveis e se afasta deles para sempre.

Assim, a língua acaba efetivamente arrancada de sua raiz, que não pode ser outra coisa senão a própria verdade.

A LUZ

O juramento ou obrigação que acaba de contrair perante todos, e, fundamentalmente, consigo mesmo, com o propósito que exprime o testamento em sua vida profana, e com o qual as resoluções iniciais desse mesmo testamento se acham solenemente confirmadas e seladas, fazem o recipiendário digno de ver a luz, caindo-se-lhe por completo dos olhos, a venda de ilusão que lhe impedia de ver a Realidade em si mesmo.

E a luz é lhe dada simbolicamente por duas vezes, depois de tê-lo feito sair momentaneamente do Templo para que recomponha as irregularidades simbólicas de seu traje.

Tendo-se declarado disposto a confirmar seu juramento - à falta do qual sempre se lhe concede a faculdade de retirar-se - cai de seus olhos a venda com a qual até agora tinha podido ser admitido no Templo. Vê ao redor de si, na semi-escuridão do lugar em que se encontra, a todos os irmãos de pé com a cabeça envolta num capuz negro, portando na mão esquerda uma espada que é dirigida ao seu peito.

Estas espadas não são, entretanto, uma ameaça. Partindo da mão esquerda, ou seja, do lado do coração, são o símbolo dos pensamentos de todos os presentes, ainda desconhecidos para ele (e por esta razão velados) que convergem com benevolência em direção ao neófito e simbolizam também a unidade de sentimentos com os quais ele é recebido.

Estes irmãos fazem-no notar que na qualidade de testemunhas silenciosas de suas obrigações (e imagem das forças silenciosas que nos rodeiam), estão dispostos a ajudá-lo e socorrê-lo desde que cumpra com suas obrigações, assim como, a castigá-lo como é devido em caso de transgressão. Assim, oferece-se lhe pela última vez a oportunidade de se retirar, e com a certeza de que o juramento pronunciado não lhe provoca nenhuma inquietação, concede-se lhe a plena luz. Os irmãos presentes descobrem-se, abaixando suas espadas ficando à ordem, enquanto o Templo é iluminado com toda a claridade.

As espadas são o símbolo de todas as forças desconhecidas que na vida sempre favorecem e auxiliam a quem permanece constantemente fiel a seus ideais e obrigações apesar da situação difícil e das condições em aparência contrárias em que se encontre, enquanto que essas forças se convertem em outros tantos flagelos, remorsos e castigos, para quem cede e se assusta renunciando e faltando ao cumprimento de suas obrigações e ideais.

A vida torna-se sempre mais dura, difícil e insatisfatória para os que renunciam a seus ideais e às suas mais elevadas aspirações; aqueles que cedem à aparente contrariedade dos homens e das coisas e se deixam desalentar por sua frieza e falta de cooperação. Nunca e por nenhuma razão deve alguém renunciar à expressão de seu próprio Ser mais elevado e à do Divino desejo que constitui o anseio de seu coração. São estes para ele, além de um privilégio, uma obrigação e um dever cujo perfeito cumprimento lhe assegura a investidura de sua Primogenitura. Se bem que deve saber esperar com firmeza e confiança, sem que seu coração ao que nele representa o reflexo do próprio Verbo Divino e sua mais elevada visão da Realidade.

Com esta firme atitude de sua consciência diante das provas contrárias da vida, faz-se a luz gradualmente, em seu mundo exterior. As adversidades e os próprios inimigos descobrem-se, e aparecem agora como "amigos", tendo deposto a máscara, ou aparência hostil que escondia seus semblantes, e toda sombra pavorosa desvanece-se de sua existência. É a plena luz que passa livremente do interior e é derramada sobre o mundo exterior, uma vez que tenhamos sabido resistir com Fé inalterável, fidelidade e persistência a todas as contrariedades que nos tenham sido apresentadas.

A luz tem sido sempre considerada como o símbolo mais apropriado da Divindade e da Realidade. O próprio São João, o apóstolo iniciado, diz em sua primeira epístola: "Deus é Luz e nele não há trevas". Conhecer a luz é, pois, conhecer a Verdade e comunicar-se com a própria Divindade, que é Bem Onipresente, e desenvolver outros tantos Centros ou Canais, por meio dos quais essa Luz se manifesta em nossa vida e ao nosso redor.

A Luz que o iniciado recebe, como prêmio e conseqüência de seus esforços, é um símbolo de transcendental importância em todas suas acepções. A capacidade de ver a luz e adentrar à sua percepção constitui, pois, toda a essência e finalidade da iniciação.

Restituição à visão exterior das coisas, uma vez removida a venda que lhe cobria os olhos, depois de ter sido iniciado na visão interior da consciência, o candidato experimenta de início uma profunda decepção, uma vez que a realidade exterior aparece em seu aspecto mais sombrio e negativo. Mas, aprendendo a combinar a visão dos sentidos com a íntima visão da Realidade, adquire também a capacidade de manifestar e ver exteriormente a Luz da qual adquiriu a percepção interior, e a ilusão do aparente perde para ele todo o poder.

A CONSAGRAÇÃO

Conduzido novamente ao altar diante do qual deve, como antes, postar-se em atitude coerente com a importância do ato que será realizado deve o recipiendário confirmar novamente suas obrigações, após o que o Ven. Mestre com a espada flamejante apoiada sobre a cabeça daquele, pronuncia a fórmula da consagração, acompanhada pelos golpes misteriosos do grau. Isto feito, faz com que se levante e abraça-o, dando-lhe por primeira vez o título de irmão, dizendo ao cingir-lhe o avental:

"Recebe este avental, distintivo do Maçom, mais honroso que todas as Condecorações humanas, porque simboliza o trabalho, que é o primeiro dever do homem e a fonte de todos os bens, ele que dá o direito de sentar-vos entre nós, e sem o qual nunca deveis estar em Loja".

A espada flamejante, emblema do Magistério, e o avental de pele, que caracteriza todo maçom, são dois símbolos que merecem toda a nossa consideração.

Encontramos tanto este como aquele nos versículos 21 e 24 do terceiro capítulo do Gênesis, aonde foi dito que o Eterno fez túnicas de pele para Adão e sua mulher e os vestiu. E depois de ter expulsado o homem do Jardim do Éden "para que trabalhasse a terra" colocou no Oriente do mesmo Jardim do Éden uns querubins, que mostravam uma espada flamejante, "para custodiar o Caminho da Árvore da Vida".

É evidente que as túnicas de pele, às quais aqui se faz menção, simbolizam o corpo físico do homem, do qual se reveste a consciência individualizada (Adão) e seu reflexo pessoal (sua mulher) ao serem enviados do estado de beatitude edênica (o mundo mental ou interior) sobre a terra (ou realidade objetiva) para trabalhá-la, ou nela expressar suas qualidades divinas.

Da mesma forma, a espada flamejante que se encontra com os querubins anjos ou Mensageiros do Divino no homem) no Oriente, ou origem do Mundo Mental ou interior da consciência, é um símbolo manifesto do Poder Divino, "que é poder criador" latente em todo ser humano, e que é privilégio do Magistério realizar, ou recuperar, manifestando assim as mais elevadas possibilidades da vida, cujo Caminho abre e custodia.

O avental que recebe, e com o qual se reveste todo maçom, é um emblema do próprio corpo físico com o qual vimos para trabalhar sobre a terra, com o objetivo de adquirir aquelas experiências que nos transformarão em artistas verdadeiros e acabarão por dar-nos o magistério ou domínio completo sobre nosso mundo.

A percepção deste avental, ou túnica de pele, como simples traje ou envoltório exterior, assim como da essência de nosso próprio ser, é conseqüência da visão espiritual que conseguimos através da busca da Luz, desde o Ocidente dos sentidos ao Oriente da Realidade. Mas isto não deve conduzir-nos a desprezá-lo, por ser parte integrante e necessário à perfeita manifestação do homem na vida terrestre, mediante a qual deverá ir depurando-se, escalando graus em prol de uma existência divina.

AS LUVAS

Com o avental davam-se ao recém iniciado, e em alguns países este costume ainda persiste, dois pares de luvas, um para ele e outro para que ele dê à mulher que mais ama.

As luvas brancas são um símbolo evidente da pureza de intenções que o maçom sempre deve observar em suas ações: fazer o Bem pelo próprio Bem, esforçando-se em toda atividade ou trabalho, para fazer o melhor que puder para a Glória do G. A., ou seja, para a expressão do Divino, em vez de deixar-se guiar pelas considerações de conveniência e utilidade material ou visar principalmente o fruto ou benefício direto da ação. Heis aqui o significado das luvas brancas que se lhe oferecem, e que ele deve ter cuidado de não deixar sujar e manchar com o egoísmo e com a escravidão das paixões que embrutecem o homem.

Com o outro par de luvas, "para a mulher que mais ama", a Maçonaria quer mostrar como sua influência moralizadora, iniciática e regeneradora, deve estender-se também à mulher, ainda que esta não seja diretamente admitida nos seus trabalhos. Com estas luvas, a mulher que cada recém iniciado reputa como a mais digna de possuí-las, ingressa espiritualmente na Corrente de Solidariedade Ideal e Construtiva que a Maçonaria forma no mundo todo, como companheira do homem, sem necessidade de passar pelas provas de iniciação.

Assim pois, apesar de que alguns pretendem franquear-lhes e outro negar-lhe a entrada em nossos Templos, a debatida questão de admitir a mulher na Maçonaria acha-se já potencialmente resolvida a seu favor, pois que pelas qualidades que a fazem estimar, fica admitida nesta forma, e adotada espiritualmente no seio da Instituição.

Em vez das luvas, usa-se entregar, em alguns países, um malho e um cinzel, símbolos do trabalho que o Aprendiz deve executar sobre si mesmo, despojando-se das asperezas da pedra bruta que representa sua personalidade, e uma régua "para que nunca se separe da linha reta do dever". Estes símbolos são relativamente equivalentes e não é necessário discutir o valor de una preferentemente aos outros. O essencial é reconhecê-los como símbolos e por em prática seus ensinamentos alegóricos.

A PALAVRA

Tendo sido consagrado maçom, o neófito está agora em condições de receber os sinais, marcha e a bateria do grau, bem como, a palavra sagrada e de modo de dá-la, juntamente com os meios de reconhecimento, que constituem o fundamento de suas instruções.

Estudaremos em outro local o significado e o valor dos sinais e da marcha, no que diz respeito especialmente à aplicação da Doutrina Maçônica, contentando-nos por ora em ver o que representa a Palavra para o iniciado que tenha recebido a Luz.

O primeiro versículo do Evangelho de São João, sobre o qual são colocados os instrumentos emblemáticos da Maçonaria ao abrirem-se os trabalhos, dá-nos a chave do amplo significado da Palavra para o maçom. Constituindo este versículo o fundamento de toda atividade ou trabalho maçônico, devemos perceber seu significado, antes de ver a exata interpretação, em particular, da palavra sagrada do Aprendiz.

A afirmação No Princípio era o Verbo (ou seja, a Palavra) é eminentemente iniciática, isto é, não pode ser entendida sem adentrar ao sentido interior das coisas. É a comprovação da Verdade de que tudo se manifesta desde um Princípio Interior ou espiritual chamado Verbo ou Palavra, ou seja, afirmação criadora de sua realidade, que o manifesta e faz existir desde o estado de Realidade Imanente, latente ou potencial.

Dizendo "no Princípio era o Verbo" reconhecemos a origem espiritual de tudo o que vemos, ou se apresenta de alguma forma diante de nossos sentidos. De tudo sem distinção podemos dizer que no princípio (ou em sua origem) era ou foi um Verbo, Palavra, Pensamento não pode ser senão uma manifestação da consciência, tudo o que é exterior tem uma origem interior no ser onde teve nascimento primeiro como Causa, cujo efeito agora estamos percebendo.

Isto aplica-se tanto à criação ou formação do Universo desde seu Primeiro Princípio (que é Ser, e como tal, fundamento de tudo o que existe, espaço e tempo incluídos) como à particular criação ou formação do ser, do homem e da sua vida manifestada. Tudo o que nesta aparece teve sua origem num verbo (pensamento, desejo, aspiração, afirmação ou estado de consciência que é a causa sutil de sua existência, como efeito visível).

É, pois, de importância transcendente o que o homem diz, pensa ou afirma ainda que somente dentro de si mesmo. Por este único fato, participa consciente ou inconscientemente do Poder Criador Universal do Verbo e de sua atividade construtiva. É privilégio e prerrogativa do maçom fazê-lo consciente e sabiamente, enquanto o profano o faz inconsciente e alienadamente.

Aprender o reto uso da Palavra e disciplinar-se nele mesmo: heis aqui a tarefa fundamental de que se incumbe o maçom. Com esta disciplina faz sua atividade construtiva e em harmonia com os planos do G. A., isto é, com os Princípios Universais da Verdade.

Existe pois, uma palavra sagrada, diferente de todas as palavras profanas que são nossos erros, pensamentos negativos e juízos formados sobre a aparência exterior das coisas. A palavra sagrada é o Verbo, isto é, o que de mais elevado e de acordo com a Realidade podemos pensar ou imaginar, uma manifestação da Luz que do interior nos ilumina e cuja natureza é idêntica a essa Luz. É nosso ideal e nosso conceito do que há de mais Justo, Bom, Formoso, Grande, Nobre e Verdadeiro. Adaptando nossas palavras a este Verbo, pronunciamos a "Palavra sagrada" e decretamos seu estabelecimento. Pois, como foi dito: "Assim mesmo decretarás alguma coisa, e esta será estabelecida em ti", e sobre teus caminhos resplandecerá a Luz" (Jó, 22-28).

SIGNIFICADO DA PALAVRA

A Palavra Sagrada, dada pelo Ven. Mestre que toma assento no Oriente, simboliza a Palavra Sagrada dada individualmente a cada um de nós pelo Espírito da Verdade que igualmente se posta ou mora no Oriente ou origem de nosso ser. Também representa a instrução que é dada ou deveria ser dada em Loja (ou lugar aonde se manifesta o Logos ou Palavra) e que sempre deve partir do Oriente para ser efetiva, isto é, do que cada um pode imaginar individualmente de mais nobre e elevado. Deve ser Luz inspiradora e vida, como é a luz do sol que surge do Oriente material, iluminando e vivificando nosso planeta.

À semelhança da Palavra Sagrada do Aprendiz, que se pronuncia ao ouvido, letra por letra, assim deve ser dada a instrução maçônica. Dá-se a cada um o primeiro rudimento, a primeira letra da Verdade para que meditando e estudando sobre seu significado, chegue por seu próprio esforço a conhecer e formular a segunda, que lhe fará digno de receber útil e proveitosamente a terceira. Desta maneira tem sido e sempre foi comunicada a Doutrina Iniciática em todos os tempos, sendo o próprio simbolismo maçônico a primeira letra da mística Palavra Sagrada da Verdade.

O significado particular da Palavra Sagrada do Aprendiz é: "Nele há Força". Isto quer dizer que o Aprendiz reconhece por meio da palavra sagrada, ou seja, do Verbo Divino nele próprio, que a força verdadeira não se encontra no exterior, no mundo dos efeitos, mas interiormente, na Realidade que constitui o Princípio Imanente e Transcendente de tudo o que existe.

Esta transformação completa do ponto de vista da consciência - que distingue o iniciado do profano - não pode ser senão, o coroamento e a conseqüência de sua iniciação. É preciso, pois, adentrar interiormente na percepção da Realidade, para reconhecer que a força está nela, e não nas coisas aparentes que vemos, estabelecendo-nos firmemente neste reconhecimento fundamental, como coluna do simbólico Templo que erigimos, e baseando sobre este reconhecimento íntimo e secreto, todas nossas ações.

A análise da Palavra, nas três letras hebraicas de que se compõe, dá-nos um guia para compreender o sentido profundo que tomam as três letras em sua combinação.

A primeira letra refere-se, como é evidente, ao corpo físico e ao mundo objetivo que constitui a morada ou habitação do homem. Estudando a primeira letra, o homem aprende a conhecer a realidade exterior e o mundo dos efeitos, e meditando sobre a íntima essência deste, chegará a perceber a realidade interior que se esconde atrás desta aparência, representada pela segunda letra que deve ser individualmente encontrada ou descoberta.

Esta representa a consciência ou mundo interior que cada um de nós acha em si mesmo, o Mundo Mental, no qual se expressa individualmente o Ser, produzindo assim a causa de todo o feito visível. O descobrimento ou percepção individual desta segunda letra põe o iniciado em atitude para comunicação ou recebimento da terceira.

O significado desta última deve ser relacionado com aquilo que já temos visto quando falamos do simbólico instrumento, do qual a própria letra representa admiravelmente a sua forma. Refere-se às possibilidades do Mundo Divino ou Transcendente que se encontram no homem em estado latente, e que podem manifestar-se como um raio, ou como o brilho de uma espada, ante o olho de nossa consciência, que constitui o ponto central ou eixo de nosso próprio mundo interior "a luz que ilumina a morada do homem".

RESTITUIÇÃO DOS METAIS

A cerimônia iniciática dá-se por concluída no mesmo ponto em que teve ser início: tendo-se feito assentar o recém iniciado no lugar que lhe corresponde, isto é, no primeiro posto ao Oriente da Coluna do Norte, para que possa continuar dali no simbólico caminho que, em sentido inverso à direção de suas viagens, lhe fará realizar na Loja, o seu progresso maçônico. Após a proclamação e o reconhecimento de todos os seus irmãos, restituem-se-lhe os metais, cuidadosamente guardados, dos quais havia sido despojado ao entrar na câmara de reflexões.

É claro que esta restituição tem também um significado simbólico: depois de ter aprendido a pensar por si mesmo, com o esforço alegórico das três viagens, depois de ter visto a luz e recebido a Palavra da Verdade, pode reconhecer novamente as possessões intelectuais e materiais de que antes teve de despojar-se para poder empreender o Caminho da Verdade.

Agora tem o dever de fazer das mesmas aquele sábio uso para qual sê-lhe restitui sua posse, pois, tudo indistintamente tem-nos sido dado e sempre será dado para seu uso. Não existe posse de nenhum tipo que possamos reter para sempre. Nem nossas próprias criações intelectuais, nem tão pouco os átomos de que se compõe o nosso corpo, que estão sujeitos a uma incessante mudança. Devemos pois, converter-nos em canais sábios e úteis de tudo o que passa por nossas mãos, transmitindo-o como o temos recebido, em benefício dos demais. Isto ensinar-nos-á o primeiro uso que deverá fazer o recém iniciado, dos metais que lhe foram devolvidos, dando sua primeira contribuição à Solidariedade Maçônica.

Manual do Aprendiz Franco Maçon