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siga a estrada de tijolos amarelos: Sociedades Secretas & Conspirações Textos Conspiracionais Despertar dos Mágicos A Conspiração em Pleno Dia - Capítulo I

A Conspiração em Pleno Dia - Capítulo I

A geração dos "obreiros da Terra". - Sois um moderno atrasado ou um contemporâneo do futuro? - Um cartaz nas paredes de Paris em 1622. - A linguagem esotérica e a linguagem técnica. - Uma nova noção da sociedade secreta. - Um novo aspecto do "espírito religioso".
 
Griffin, o homem invisível de Wells, dizia: "Os homens, mesmo cultos, não se apercebem dos poderes ocultos nos livros de ciência. Nesses volumes há maravilhas, milagres."

Compreendem-no agora, e mais os homens da rua do que os letrados, sempre em atraso de uma revolução. Há milagres,
há maravilhas e há terrores. Os poderes da ciência, depois de Wells, alastraram para além do planeta e ameaçam-lhe a vida. Uma nova geração de sábios surgiu. São pessoas que têm a consciência de ser, não investigadores desinteressados e puros espectadores, mas, segundo a bela expressão de Teilhard de Chardin, "obreiros da Terra", solidários com o destino da humanidade e, em grande parte, responsáveis por esse destino.

 Joliot-Curie lança garrafas de gasolina contra os tanques alemães durante os combates pela libertação de Paris. Norbert Wiener, o cibernético, intima violentamente os políticos: "Nós demos-vos um reservatório infinito de poder, e vós haveis feito Bergen-Belsen e Hiroshima!".

São sábios de um estilo novo, cuja aventura está ligada à aventura do mundo[1]. São os herdeiros directos dos investigadores da primeira quarta parte do nosso século: os Curie, Langevin, Perrin, Planck, Einstein, etc. Não se disse com a necessária insistência que durante esses anos a chama do génio atingiu altitudes jamais alcançadas depois do milagre grego. Mesmo estes travaram lutas contra a inércia do espírito humano. E foram violentos nessas batalhas. "A verdade jamais triunfa, mas os seus adversários acabam por morrer", dizia Planck. E Einstein: "Não acredito na educação. O teu único modelo deves ser tu próprio, mesmo que esse modelo seja assustador". Mas não eram conflitos ao nível da terra, da história, da acção imediata. Eles sentiam-se responsáveis unicamente perante a Verdade. No entanto, a política reuniu-os. O filho de Planck foi assassinado pela Gestapo, Einstein exilado. A geração actual sente que, por todos os lados, em todos os sentidos, o sábio está ligado ao mundo. Ele retém a quase totalidade do saber útil. Ele reterá, em breve, a quase totalidade do poder. É a personagem-chave da aventura em que a humanidade está empenhada. Cercado pelas políticas, acossado pela polícia e pelos serviços de informação, vigiado pelos militares, tem idênticas probabilidades de obter, no final da sua carreira, tanto o Prémio Nobel como o pelotão de execução. Ao mesmo tempo, os seus trabalhos levam-no a avaliar o ridículo dos particularismos, elevam-no a um nível de consciência planetária, senão cósmica. Entre o seu poder e os poderes há um mal-entendido. Entre o que ele próprio arrisca e os riscos a que submete o mundo, só um incrível cobarde poderia hesitar. Kourchatov quebra a ordem de silêncio e revela o que sabe aos físicos ingleses de Harwell. Pontecorvo foge para a Rússia, para aí prosseguir a sua obra. Oppenheimer entra em conflito com o seu governo. Os atomistas americanos tomam partido contra o exército e publicam o seu extraordinário Boletim: a capa reproduz um relógio cujos ponteiros caminham para a meia-noite cada vez que uma experiência ou uma descoberta temíveis caem nas mãos dos militares.

"Eis o meu vaticínio para o futuro, escreve o biólogo inglês J. B. S. Haldane: aquilo que não foi será. E ninguém está protegido!
 
A matéria liberta a sua energia e o caminho dos planetas abre-se. Semelhantes acontecimentos parecem sem paralelo na história. "Vivemos um momento em que a história retém o fôlego, em que o presente se desliga do passado assim como o icebergue quebra os laços que o prendiam às falésias de gelo e desliza sobre o oceano sem limites".[2]

Se o presente se desliga do passado, trata-se de uma rotura, não com todos os passados, não com os passados que atingiram a maturidade, mas com o passado recém-nascido, quer dizer, com aquilo a que chamamos "a civilização moderna". Esta civilização saída da efervescência das ideias na Europa Ocidental do século xvIII, que desabrochou no século xIx, que espalhou os seus frutos pelo mundo inteiro durante a primeira metade do século xx, está prestes a deixar-nos. Sentimo-lo a cada instante. Estamos na época da rotura. Ora nos apresentamos como modernos atrasados, ora como contemporâneos do futuro. A nossa consciência e a nossa inteligência dizem-nos que são coisas completamente diferentes.

As ideias sobre as quais a civilização moderna assentou estão gastas. Neste período de rotura, ou antes de transmutação, não nos devemos admirar muito se o papel da ciência e a missão do sábio sofrerem profundas alterações. Quais serão essas alterações? Uma visão oriunda de um passado longínquo pode permitir-nos esclarecer o futuro. Ou, mais precisamente, pode refrescar-nos a vista para a pesquisa de um novo ponto de partida.

Num dia de 1622, os parisienses descobriram sobre as paredes da sua cidade certos cartazes assim redigidos:

"Nós, delegados da agremiação principal dos Irmãos da Rosa-Cruz, fazemos uma estada visível e invisível nesta cidade, pela graça do Altíssimo, em direcção ao qual se dirige o coração dos Justos, a fim de libertar os homens, nossos semelhantes, do erro mortal."

O assunto foi considerado por muitos como uma brincadeira, mas, segundo o recorda Serge Hutin: "Atribuía-se aos Irmãos Rosa-Cruz os seguintes segredos: a transformação dos metais, o prolongamento da vida, o conhecimento do que se passa em locais afastados, a aplicação da ciência oculta para a descoberta dos objectos mais escondidos. Suprimi o termo "oculto": encontrais-vos perante os poderes que a ciência moderna possui ou para os quais se encaminha. Segundo a lenda há muito conhecida nessa época, a sociedade dos Rosa-Cruz afirmava que o poder do homem sobre a natureza e sobre si próprio se tornaria infinito, que a imortalidade e o controlo de todas as forças naturais estavam ao seu alcance e que ele poderia tomar conhecimento de tudo o que se passa no Universo. Nada há de absurdo nisto e os progressos da ciência justificaram em parte tais sonhos. De forma que o apelo de 1622, em linguagem moderna, poderia ser colocado sobre as paredes de Paris ou aparecer num jornal diário, caso vários sábios se reunissem em congresso para informar os homens dos perigos que correm e da necessidade de empregar as suas actividades em novas perspectivas sociais e morais. Uma patética declaração de Einstein, um discurso de Oppenheimer, um edital do Boletim dos atomistas americanos produzem exactamente o mesmo efeito do manifesto Rosa-Cruz. Vejamos mesmo um recente texto russo. A respeito da conferência sobre os radioisótopos, realizada em Paris em 1957, o escritor soviético Vladimir Orlov escrevia: "os actuais alquimistas devem recordar-se dos estatutos dos seus predecessores da Idade Média, estatutos conservados numa biblioteca parisiense, e que proclamavam que não se podem consagrar a alquimia senão os homens "de coração puro e intenções elevadas".

A ideia de uma sociedade internacional e secreta, reunindo homens intelectualmente muito avançados, transformados espiritualmente pela intensidade do seu saber, desejosos de proteger as suas descobertas científicas contra os poderes organizados, a curiosidade e a avidez dos outros homens, resetvando-se o direito de utilizar as suas descobertas no momento oportuno, ou de as sepultar durante vários anos, ou de apenas pôr em circulação uma ínfima parte - tal ideia é simultaneamente muito antiga e ultramoderna. Era inconcebível no século xIx ou mesmo apenas há vinte e cinco anos. Mas hoje é concebível. Num determinado plano, ouso afirmar que essa sociedade existe neste momento. Certos hóspedes de Princeton (recordo especialmente um sábio viajante oriental,) puderam ter consciência disso. Se nada prova que a sociedade secreta Rosa-Cruz existiu no século xvII, tudo nos leva a pensar que uma sociedade dessa natureza se constitui actualmente, pela força das circunstâncias, e que ela se inscreve logicamente no futuro. E ainda teremos de falar a respeito da noção de sociedade secreta. Essa mesma noção, tão longínqua, é esclarecida pelo presente.

Voltemos aos Rosa-Cruz. Segundo nos diz o historiador Serge Hutin, "eles constituem a colectividade dos seres elevados ao estado superior à humanidade vulgar, possuindo desta forma os mesmos carácteres interiores que lhes permitem reconhecer-se entre si".

Pelo menos quanto a nós, esta definição tem o mérito de pôr de lado o estilo ocultista. É que nós temos, em relação
ao "estado superior", uma ideia clara, quase científica, actual, optimista.
 
As nossas pesquisas chegaram a um ponto em que se prevê a possibilidade de transformações artificiais que aperfeiçoarão os seres vivos e o próprio homem. "A radioactividade pode criar monstros, mas também nos dará génios", declara um biólogo inglês. O términus da investigação alquímica, que é a transformação do próprio operador, talvez seja o términus da investigação científica actual. Veremos mais adiante que, em certa medida, isso já se deu com alguns sábios contemporâneos.

Os estudos mais avançados de psicologia parecem provar a existência de um estado diferente dos estados de sono e de vigília, de um estado de consciência superior no qual o homem possuiria faculdades intelectuais duas vezes superiores. À psicologia das profundezas, que devemos à psicanálise, acrescentamos hoje uma psicologia das altitudes que nos coloca na direcção de uma superintelectualidade possível. O génio não seria mais que uma das etapas do percurso que o homem pode percorrer dentro de si próprio, para alcançar a utilização das suas faculdades totais. Numa vida intelectual normal, não utilizamos a décima parte das nossas possibilidades de atenção, prospecção, memória, intuição ou coordenação. Pode ser que estejamos prestes a descobrir, ou redescobrir, as chaves que nos permitirão abrir dentro de nós as portas para além das quais nos espera uma imensidade de conhecimentos. A ideia de uma próxima transformação da humanidade, neste plano, não faz parte do sonho ocultista, mas da realidade. Voltaremos demoradamente ao assunto mais adiante. Provavelmente, já existem mutantes entre nós, ou; pelo menos, homens que já deram alguns passos sobre a estrada que, um dia ou outro, todos nós percorreremos.

Segundo a tradição[3], não sendo a expressão "génio" suficiente para exprimir todos os possíveis estados superiores do cérebro humano, os Rosa-Cruz pertenciam a espíritos de outra categoria, que se reuniam por cooptação. Digamos antes que a lenda dos Rosa-Cruz serviu de suporte a uma realidade: a sociedade secreta permanente dos homens superiormente esclarecidos - uma conspiração feita à luz do dia.

A sociedade Rosa-Cruz ter-se-ia formado naturalmente, através de homens que tinham atingido um estado de consciência elevado, em busca de correspondentes, de outros homens, seus semelhantes pelo nascimento, com os quais o diálogo fosse possível. Vemos assim Einstein ser compreendido apenas por cinco ou seis homens no mundo, e existirem só algumas centenas de matemáticos e físicos susceptíveis de reflectir proveitosamente a respeito de uma nova revisão da lei de paridade.

Para os Rosa-Cruz não há outro estudo além do da natureza, mas este estudo só é realmente esclarecedor para espíritos de uma categoria diferente do espírito vulgar.

Aplicando um espírito da categoria diferente ao estudo da natureza, alcança-se a totalidade dos conhecimentos e a sabedoria. Esta ideia nova, dinâmica, seduziu Descartes e Newton. Ao falar-se de ambos, os Rosa-Cruz foram mais de uma vez evocados. Quer dizer que eles eram filiados? Esta pergunta não faz sentido. Não é uma sociedade organizada que concebemos, mas os necessários contactos entre espíritos de outra categoria, e uma linguagem comum, não secreta, mas simplesmente ininteligível para os homens em determinada época.

Se alguns dos profundos conhecimentos sobre a matéria e a energia, sobre as leis que regem o Universo, foram elaborados por civilizações actualmente desaparecidas, e se se conservaram, através dos séculos, fragmentos desses conhecimentos (do que aliás não estamos certos), não pode ter sido senão por espíritos superiores e numa linguagem forçosamente incompreensível para o vulgo. Mas caso não queiramos aceitar esta hipótese, podemos pelo menos imaginar, no decorrer dos tempos, uma sucessão de espíritos fora do comum, comunicando entre si. Tais espíritos sabem evidentemente que não têm o menor interesse em fazer estendal do seu poder. Se Cristóvão Colombo fosse um espírito fora do comum, teria mantido secreta a sua descoberta. Obrigados a uma espécie de clandestinidade, esses homens só com os seus semelhantes podem manter contactos satisfatórios. Basta pensar na conversa dos médicos em redor do leito de um enfermo no hospital, conversa em voz alta e da qual no entanto o paciente nada entende para compreender o que pretendemos dizer sem baralhar ideias no obscuridade do ocultismo, da iniciação, etc. É bem visível que espíritos desta natureza, empenhados em passar desapercebidos simplesmente para não sofrerem entraves, teriam mais que fazer do que brincar entre si aos conspiradores. Se eles formam uma sociedade é pela força das circunstâncias. Se têm uma linguagem especial, é porque as noções gerais que essa linguagem exprime são inacessíveis ao espírito humano vulgar. É exclusivamente neste sentido que nós aceitamos uma ideia de sociedade secreta. As outras sociedades secretas, ligadas entre si, que são inúmeras e mais ou menos poderosas e pitorescas, para nós não passam de imitações, de brincadeiras de crianças que pretendem copiar os adultos.

Enquanto os homens alimentarem o sonho de obter seja o que for a troco de coisa alguma, dinheiro sem trabalhar, conhecimentos sem estudos, poder sem sabedoria, virtude sem ascese as sociedades supostamente secretas e iniciáticas prosperarão, com as suas hierarquias imitativas e o seu rosnar que imita linguagem secreta, quer dizer, técnica.

Escolhemos o exemplo dos Rosa-Cruz de 1622 porque, segundo a tradição, o autêntico Rosa-Cruz não se fundamenta
em qualquer iniciação misteriosa, mas num estudo profundo e coerente do Liber Nlundi, do livro do Universo e da natureza. A tradição Rosa-Cruz é portanto a mesma que a da ciência contemporânea. Começamos agora a compreender que um estudo profundo e coerente deste livro da natureza exige mais qualquer coisa do que simples espírito de observação, ou aquilo a que ultimamente chamámos científico, e mesmo qualquer coisa mais do que aquilo a que chamamos inteligência. No ponto em que as nossas investigações estão, seria necessário que o espírito se vencesse a si próprio, que a inteligência se transcendesse. O humano, demasiado humano, não basta. Talvez seja a esta mesma constatação, feita nos séculos passados por homens superiores, que devemos, senão a realidade, pelo menos a lenda Rosa-Cruz. O moderno atrasado é racionalista. O contemporâneo do futuro sente-se religioso. Modernismo a mais afasta-nos do passado. Um pouco de futurismo aproxima-nos dele.

"Entre os jovens atomistas, escreve Robert Jungkl, há os que julgam os seus trabalhos como uma espécie de concurso intelectual que não contém significado profundo nem obrigações, mas outros descobrem na investigação uma experiência
religiosa."

Os nossos Rosa-Cruz de 1622 faziam uma "estada invisível" em Paris. O que nos espanta é o facto de que, apesar do actual regime de polícia e de espionagem, os grandes investigadores consigam comunicar entre si destruindo as pistas que poderiam conduzir os governos até aos seus trabalhos. O destino do mundo poderia ser debatido por dez sábios, e em voz alta, diante de Khruchtchov e Eisenhower, sem que estes senhores compreendessem uma única palavra. Uma sociedade internacional de investigadores que não interviesse nos assuntos dos homens teria todas as probabilidades de passar desapercebida, da mesma forma que passaria desapercebida uma sociedade que limitasse as suas intervenções a casos muito especiais. Os seus próprios meios de comunicação poderiam não ser captados. A T.S.F. poderia muito bem ter sido descoberta no século xvII e os aparelhos de galena, tão simples, poderiam ter servido para os "iniciados". Da mesma forma, as modernas pesquisas a respeito dos meios parapsicológicos obtiveram como resultado aplicações em telecomunicações. O engenheiro americano Victor Enderby escreveu recentemente que, se se obtiveram resultados nesse domínio, foram mantidos secretos, por livre vontade dos inventores.

O que também nos impressiona é que a tradição Rosa-Cruz alude a aparelhos ou máquinas que a ciência oficial da época não pode fabricar: lâmpadas perpétuas, registadores de sons e de imagens, etc. A lenda descreve aparelhos encontrados no túmulo do simbólico "Christian Rosen Kreutz", que poderiam ser do ano de 1958, mas não de 1622. É que a doutrina Rosa-Cruz baseia-se no domínio do Universo pela ciência e pela técnica, mas de forma alguma pela iniciação ou pela mística.

Do mesmo modo, podemos conceber na nossa época uma sociedade que manteria uma tecnologia secreta. As perseguições políticas, as dificuldades sociais, o desenvolvimento do senso moral e da consciência de uma aterradora responsabilidade forçarão cada vez mais os sábios a refugiar-se na clandestinidade. Ora não será esta clandestinidade que retardará as pesquisas. Não é possível acreditar que os foguetões e as enormes máquinas para destruir o átomo serão de futuro os únicos instrumentos do investigador. As verdadeiras grandes descobertas sempre foram feitas com materiais simples, um equipamento sucinto. É possível que existam no mundo, neste momento, certos locais onde a densidade intelectual é particularmente grande e onde essa nova clandestinidade se afirma. Entramos numa época que se assemelha, sob certos aspectos, ao princípio do século xvii e talvez esteja em preparação um novo manifesto de 1622. Talvez até já tenha aparecido. Mas nós não nos apercebemos disso.

O que nos afasta desses pensamentos, é que as épocas antigas se exprimem sempre em fórmulas religiosas. Portanto, apenas lhes dedicamos uma atenção literária, ou "espiritual". É por isso que somos modernos. É por isso que não somos contemporâneos do futuro.

O que finalmente nos impressiona é a afirmação reiterada dos Rosa-Cruz e dos alquimistas, segundo a qual o objectivo da ciência das transmutações é a transmutação do próprio espírito. Não se trata nem de magia, nem de recompensa vinda do céu mas de uma descoberta das realidades que obriga o espírito do observador a tomar outra posição. Se pensarmos na evolução extremamente rápida do estado de espírito dos maiores atomistas, começaremos a compreender o que os Rosa-Cruz queriam dizer. Estamos numa época em que a ciência, no seu termo máximo, atinge o universo espiritual e transforma o espírito do próprio observador, situando-o num nível diferente do da inteligência científica, tornada insuficiente. Aquilo que acontece aos nossos atomistas é comparável à experiência descrita pelos textos alquímicos e pela tradição Rosa-Cruz. A linguagem espiritual não é uma balbuciação que precede a linguagem científica, mas principalmente a superação desta. Aquilo que se passa no nosso presente pode ter-se passado em tempos idos, noutro plano do conhecimento, de forma que a lenda Rosa-Cruz e a realidade de hoje se esclarecem mutuamente. É preciso ver as coisas antigas com olhos actuais, o que nos ajudará a compreender o futuro.
 
Já não estamos na época em que o progresso se identifica exclusivamente com o avanço científico e técnico. Surge outra probabilidade, aquela que se encontra nos Superiores Desconhecidos dos séculos passados quando eles mostram que a observação do Liber Mundi desemboca "noutra coisa". Um físico eminente, Heisenberg, declara actualmente: "O espaço em que se desenvolve o ser espiritual do homem tem outras dimensões além daquela em que se desenvolveu durante os últimos séculos".

Wells morreu desanimado. Esse espírito poderoso vivera com fé no progresso. Ora Wells, no fim da vida, viu esse progresso tomar aspectos assustadores. Já não tinha confiança. A ciência arriscava-se a destruir o mundo, pois acabavam de ser inventados os mais extraordinários processos de aniquilamento.

"O homem, disse em 1946 o velho Wells desesperado, chegou ao termo das suas possibilidades". Foi nesse momento que o ancião que fora um génio da antecipação deixou de ser um contemporâneo do futuro. Nós começamos a perceber que o homem apenas atingiu o términus de uma das suas possibilidades. Outras possibilidades surgem. Outros caminhos se abrem, que o fluxo e refluxo do oceano dos séculos encobrem e descobrem alternadamente. Wolfgang Pauli, matemático e físico mundialmente conhecido, professava outrora o cientismo na mais perfeita tradição do século xIx. Em 1932, no congresso de Copenhaga, pelo seu frio cepticismo e pela sua ânsia de poder, surgiu como o Mefistófeles de Fausto. Em 1955, esse espírito penetrante alargara tão amplamente as suas perspectivas que se transformou no eloquente defensor de uma via de salvação interior, desprezada durante muito tempo. Esta evolução é típica. É a da maior parte dos grandes atomistas. Não é um regresso ao moralismo ou a uma vaga religiosidade. Trata-se, pelo contrário, de um progresso no equipamento do espírito de observação, de uma nova reflexão sobre a natureza do conhecimento. "Em face da divisão das actividades do espírito humano em diferentes domínios, estritamente mantida desde o século xvII, diz Wolfgang Pauli, imagino um objectivo que seria a conciliação dos contrários, uma síntese que abarcasse a inteligência racional e a experiência mística da unidade. Este fim é o único que se adapta ao mito, expresso ou não, da nossa época".

1 "O investigador foi obrigado a reconhecer que, à semelhança de qualquer ser humano, tanto é espectador como actor no grande drama da existência." Bohr.

2 Arthur Clarke: Les Enfants d'Icare (Gallimard)

3 Ver a terceira parte do presente trabalho: "O homem, esse infinito."

Louis Pauwels e Jacques Bergier