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siga a estrada de tijolos amarelos: Sociedades Secretas & Conspirações Textos Conspiracionais Despertar dos Mágicos A Conspiração em Pleno Dia - Capítulo III

A Conspiração em Pleno Dia - Capítulo III

Ainda uma palavra sobre o realismo fantástico. - Ali existiram técnicas. - Houve a necessidade do segredo e volta a haver. - Nós viajamos no tempo. - Queremos ver na sua continuidade, o oceano do espírito. - Novas reflexõessobre o engenheiro e o mágico. - O passado, o futuro. - O presente atraza-se nos dos sentidos: O ouro dos livros antigos. - Um olhar novo sobre o mundo antigo.
 
Nós não somos nem materialistas, nem espiritualistas: aliás, tais distinções já não têm, para nós, o menor sentido. Apenas procuramos a realidade sem nos deixarmos dominar pelo reflexo condicionado do homem moderno (a nossos olhos retardatários), que se desvia assim que essa realidade se reveste de uma forma fantástica. Tornámo-nos novamente bárbaros, a fim de vencer esse reflexo, exactamente como tiveram de o fazer os pintores para destruir a barreira das convenções colocada entre os olhos e os objectos. Também como eles, optámos por métodos balbuciantes, selvagens, por vezes infantis. Colocámo-nos perante os elementos e os métodos do conhecimento como Cézanne em frente da maçã. Van Gogh em frente do campo de trigo. Recusá-mo-nos a pôr de parte factos, aspectos da realidade, sob o pretexto de que não são "convenientes", de que ultrapassam as fronteiras impostas pelas teorias habituais. Gauguin não põe de parte um cavalo vermelho, Manet uma mulher nua entre os convivas do Déjeuner sur L'herbe, Max Ernst, Picabia, Dali, as figuras saídas do sonho e o mundo vivente na imensidade da consciência[1]. A nossa forma de agir e de ver provocará revolta, desprezo, sarcasmos. Seremos recusados no Salão. Aquilo que finalmente aceitaram nos pintores, nos poetas, nos cineastas, nos decoradores, etc., ainda não há preparação para ser aceite no nosso domínio. A ciência, a psicologia, a sociologia são florestas de tabos. Mal é expulsa, a ideia do sagrado volta a galope, sob vários disfarces. Que diabo! A ciência não é uma vaca sagrada: podemos empurrá-la, desimpedir o caminho.
 
Voltemos ao nosso assunto. Nesta parte do nosso trabalho, intitulada O Futuro Anterior, o nosso raciocínio é o seguinte:
 
- Poderia dar-se o caso de que aquilo a que chamamos esoterismo, alicerce das sociedades secretas e das religiões, seja o resíduo, dificilmente compreensível e manejável, de um conhecimento muito antigo de natureza técnica, adaptável simultaneamente a matéria e ao espírito. É o que mais adiante desenvolveremos.

- "segredos" não seriam fábulas, histórias ou divertimentos, mas receitas técnicas exactas, chaves para libertar os poderes contidos no homem e nas coisas.

- A ciência não é a técnica. Contrariamente ao que se pode supor, a técnica, em bastantes casos, não segue a ciência, precede-a. A técnica executa. A ciência demonstra que é impossível executar. Depois as barreiras das impossibilidades desmoronam-se. Evidentemente que não pretendemos dar a entender, bem longe disso, que a ciência é vã. Ver-se-á a importância que damos à ciência e com que olhos maravilhados a vemos mudar de rosto. Pensamos simplesmente que no longínquo passado algumas técnicas podem ter precedido a aparição da ciência.
 
- Pode acontecer que técnicas passadas tenham dado aos homens poderes demasiado temíveis para ser divulgados.

- A necessidade de segredo poderia ter dois motivos:

a) A prudência. "Aquele que sabe não fala". Não deixar cair as chaves em más mãos.

b) O facto de que a possessão e manejo de tais técnicas e conhecimentos exige do homem outras estruturas mentais além das do estado de vigília normal, uma situação da inteligência e da linguagem sobre outro plano - de tal forma que nada é comunicável na condição do homem vulgar. O segredo não é um resultado da vontade daquele que o guarda, é o resultado da sua própria natureza.

- Verificamos a existência de um fenómeno idêntico no nosso mundo actual. Um desenvolvimento constantemente acelerado das técnicas incita aqueles que sabem ao desejo, depois à necessidade de segredo. O perigo extremo leva à discrição extrema. À medida que o conhecimento se desenvolve e atinge determinado nível, tende a ocultar-se. Formam-se corporações de sábios e de técnicos. A linguagem da sabedoria e do poder torna-se incomunicável. O problema das diferenças nas estruturas mentais é posto com clareza, no plano de investigação físico-matemática. Ao fim e ao cabo, aqueles que possuem, como Einstein dizia, "o poder de tomar as grandes decisões, para o bem e para o mal", formam uma verdadeira criptocracia. O futuro imediato assemelha-se às descrições tradicionais.

- A nossa visão do conhecimento passado não está de acordo com o esquema "espiritualista". A nossa visão do presente e do futuro imediato introduz magia onde apenas se queria pôr o racional. Para nós, trata-se simplesmente de procurar correspondências esclarecedoras. Estas podem permitir-nos situar a aventura humana na totalidade dos tempos. Tudo o que nos pode servir de ponte é útil.

No fundo, tanto nesta parte do livro como noutras, a nossa opinião é a seguinte:

O homem tem, provavelmente, a possibilidade de estar em comunicação com a totalidade do Universo. É conhecido o paradoxo do viajante de Langevin. Andrómeda está a três milhões, de anos-luz da Terra. Mas o viajante, deslocando-se a uma velocidade pouco mais ou menos igual à da luz, apenas envelheceria alguns anos. Segundo a teoria unitária de Jean Charon, por exemplo, não seria inadmissível que a Terra, durante essa viagem, também não envelhecesse mais do que isso. O homem estaria portanto em contacto com o todo da criação, estando o espaço e o tempo a jogar um jogo diferente do jogo aparente. Por outro lado, a investigação físico-matemática, no ponto em que Einstein a deixou, é uma tentativa da inteligência humana para descobrir a lei que, possivelmente, regula o conjunto das forças universais (gravitação, electromagnetismo, luz, energia nuclear). Uma tentativa de visão unitária, visto todo o esforço do espírito ser para se situar num ponto em que a continuidade fosse visível. E de onde viria esse desejo do espírito se este não pressentisse que esse ponto existe e que lhe é possível situar-se dessa maneira? "Não me procurarias se não me tivesses já encontrado".

Noutro plano, mas dentro deste mesmo movimento, aquilo que procuramos é uma visão contínua da aventura da inteligência humana, do conhecimento humano. Eis a razão por que passamos com a maior velocidade da magia para a técnica, dos Rose-Crozx para Princeton, dos Maia para o homem das próximas mutações, do selo de Salomão para a tabela periódica dos elementos, das civilizações extintas para as civilizações a surgir, de Fulcanelli para Oppenheimer, do feiticeiro para a máquina electrónica analógica, etc. Com a maior velocidade, ou antes a uma velocidade tal que o espaço e o tempo provoquem a destruição da sua carapaça e que a visão do contínuo surja. Há o viajar em sonho e o viajar realmente. Nós preferimos a viagem real. Neste sentido é que o presente livro não é produto de imaginação. Nós construímos aparelhos (isto é, correspondências demonstráveis, comparações válidas, equivalências incontestáveis). Aparelhos que funcionam, foguetões que partem. E, por vezes, em certos momentos, pareceu-nos que o nosso espírito atingia o ponto em que a totalidade do esforço humano é visível. As civilizações, os períodos do conhecimento e da organização humana são como outros tantos rochedos no meio do oceano. Quando se contempla uma civilização, um período do conhecimento, apenas se vê o choque do oceano contra esse rochedo, o quebrar da.onda, a espuma borbulhante. O que procurámos foi o local de onde se pudesse contemplar o oceano inteiro, na sua calma e poderosa continuidade, na sua harmoniosa unidade.
 
Voltemos agora às reflexões sobre a técnica, a ciência e a magia. Elas irão determinar com exactidão a nossa tese sobre a ideia de sociedade secreta (ou antes de "conspiração às claras") e servir-nos de preparação para próximos estudos, um sobre alquimia, outro sobre as civilizações desaparecidas.

Quando um jovem engenheiro entra para a indústria, depressa distingue dois universos diferentes. Há o do laboratório, com as leis definidas das experiências que se podem reproduzir, com uma imagem compreensível do mundo. E há o Universo real, no qual as leis nem sempre são aplicadas, onde os fenómenos são por vezes imprevistos, onde o impossível se realiza. Se tem um temperamento forte, o engenheiro em questão reage pela cólera, a paixão, o desejo de "violar essa maldita matéria". Os que adoptam esta atitude vivem existências trágicas. Veja-se Edison, Tesla, Armstrong. Um demónio os arrasta. Werner von Braun experimenta os seus foguetões sobre os londrinos, massacra milhares deles e é finalmente preso pela Gestapo por ter declarado: "No fim de contas, estou-me nas tintas para a vitória da Alemanha, o que eu quero é a conquista da Lua![2]" Disse-se que a grande tragédia actual é a política. Essa ideia já caducou. A tragédia é o laboratório. É a esses "mágicos" que se deve o progresso técnico. Na nossa opinião, a técnica não é de forma alguma a aplicação prática da ciência. Muito pelo contrário, ela desenvolve-se contra a ciência. O eminente matemático e astrónomo Simon Newcomb demonstra que aquilo que é mais pesado do que o ar não teria possibilidades de voar. Dois mecânicos de bicicletas provar-lhe-ão o contrário. Rutheford, Millikan [3], provam que jamais será possível explorar as reservas de energia do núcleo atómico. A bomba de Hiroshima explode. A ciência ensina que uma massa de ar homogénea não se pode dividir em ar quente e ar frio. Hilsch demonstra que basta fazer circular essa massa através de um tubo apropriado z. A ciência coloca barreiras de impossibilidades. O engenheiro, da mesma forma que o mágico sob o olhar do explorador cartesiano, transpõe as barreiras por meio de um fenómeno análogo ao que os físicos chamam o "efeito de túnel". Uma conspiração mágica o atrai. Pretende ver para além do muro, ir até Marte, activar a pólvora, fazer ouro. Não procura o lucro, nem a glória. Pretende apanhar o Universo em flagrante delito de mistério. No sentido apresentado por Jung, é um arquétipo. Pelos milagres que tenta realizar, pela fatalidade que sobre ele pesa e pelo doloroso fim que a maior parte das vezes o espera, é o filho do herói dos Sagas e das tragédias gregas.

Como o mágico, guarda o segredo e, também como ele, obedece a essa lei de similitude que Frazer4 sublinhou no seu estudo sobre a magia. No início, a invenção é uma imitação do fenómeno natural. A máquina voadora assemelha-se ao pássaro, o autómato ao homem. Ora a semelhança com o objecto, o ser ou o fenómeno de que ele pretende captar os poderes é quase sempre inútil, mesmo nociva para o bom funcionamento do aparelho inventado. Mas, como o mágico, o inventor encontra na similitude um poder, uma volúpia que o empurra para a frente.
 
A passagem da imitação mágica para a tecnologia científica poderia ser, em muitos casos, relatada com facilidade. Exemplo:
 
Na origem, o endurecimento superficial do aço foi obtido, no Próximo-Oriente, mergulhando uma lâmina em brasa no corpo de um prisioneiro. Este é um típico processo mágico: trata-se de transferir para a lâmina as qualidades guerreiras do adversário. Esta prática foi divulgada no Ocidente pelos Cruzados, que tinham verificado que de facto o aço de Damasco era mais rijo do que o aço da Europa. Fizeram-se experiências: mergulhou-se o aço em água sobre a qual flutuavam peles de animais. Obteve-se o mesmo resultado. No século xIx, descobriu-se que esses resultados eram devidos ao azote orgânico. No século xx, quando foi aperfeiçoada a liquefação dos gases, aperfeiçoou-se o processo mergulhando o aço em azote líquido a baixa temperatura. Sob esta forma, a "nitruração" faz parte da nossa tecnologia.

Poder-se-ia verificar outro elo entre magia e técnica estudando os "encantamentos" que os antigos alquimistas pronunciavam durante os seus trabalhos. Provavelmente, tratava-se de medir o tempo na obscuridade do laboratório. Os fotógrafos servem-se muitas vezes de verdadeiras canções infantis que recitam enquanto procedem à revelação, e nós ouvimos uma dessas canções no alto da Jungfrau, enquanto se revelava uma placa impressionada pelos raios cósmicos.

Finalmente, existe outro elo, mais forte e curioso, entre magia e técnica: é a simultaneidade na aparição das invenções. A maior parte dos países registam o dia, e mesmo a hora em que uma patente é depositada. Ora, foi várias vezes constatado que inventores que se não conheciam e trabalhavam a grandes distâncias uns dos outros depositavam patentes idênticas e no mesmo instante. Este fenómeno não poderia ser explicado pela vaga ideia de que "as invenções estão no ar" ou que "a invenção aparece assim que se torna necessária". Se existe ali percepção extra-sensorial, circulação das inteligências debruçadas sobre a mesma investigação, então o facto merecia um profundo estudo estatístico. Talvez esse estudo nos tornasse compreensível este outro facto: que as técnicas mágicas se reconhecem, idênticas, na maior parte das antigas civilizações, através de montanhas e oceanos. . .
 
*

Vivemos convencidos de que a invenção técnica é um fenómeno contemporâneo. É porque nunca nos demos ao trabalho de consultar os velhos documentos. Não existe um único serviço de investigação científica que vise o passado. Os livros antigos, se são lidos, são-no apenas por raros eruditos de formação puramente literária ou histórica. Portanto aquilo que eles contêm de ciência e de técnica escapa à atenção. Será o desinteresse pelo passado devido a estarmos demasiado ocupados na preparação do futuro? Não é certo. A inteligência francesa parece atrasada segundo os esquemas do século xIx. Os escritores de vanguarda estão sem apetite para a ciência, e uma sociologia que data da máquina a vapor, um humanismo revolucionário nascido com a espingarda Chassepot continuam a mobilizar a atenção. Não se imagina até que ponto a França se condensou em redor do ano de 1880. Estará a indústria mais alerta? Realizou-se em 1955 a primeira conferência atómica mundial, em Genebra. René Alleau foi encarregado da difusão em França dos documentos relativos às aplicações pacíficas da energia nuclear. Os dezasseis volumes que contêm os resultados experimentais obtidos pelos sábios de todos os países constituem a mais importante publicação da história das ciências e das técnicas. Cinco mil indústrias que se hão-de interessar na energia nuclear com maior ou menor brevidade receberam uma carta anunciando essa publicação. Houve vinte e cinco respostas.

Será sem dúvida necessário esperar que as novas gerações alcancem cargos de responsabilidade para que a inteligência francesa recupere uma verdadeira agilidade. É para essas gerações que escrevemos este livro. Se estivéssemos verdadeiramente atraídos pelo futuro, está-lo-íamos também pelo passado, buscaríamos riquezas nos dois sentidos do tempo, com o mesmo apetite.

Nada sabemos ou quase nada do passado. Há tesouros que dormem nas bibliotecas. Preferimos imaginar, nós que afirmamos "amar o homem", uma história do conhecimento descontínua, e centenas de milhares de anos de ignorância a precederem alguns lustros de saber. A ideia de que tivesse surgido, de súbito, um "século da luz," ideia que admitimos com uma desconcertante ingenuidade, mergulhou na sombra todas as restantes épocas. Um olhar novo sobre os livros antigos modificaria tudo. Ficaríamos transtornados pelas riquezas que contêm. E teríamos de chegar à conclusão, de acordo com o que dizia Atterbury, contemporâneo de Newton, "que há mais obras antigas perdidas do que conservadas".

Foi esse olhar novo que o nosso amigo René Alleau, simultaneamente técnico e historiador, pretendeu lançar. Imaginou um sistema e obteve alguns resultados. Até à data, parece não ter obtido qualquer espécie de incitamento para prosseguir na tarefa que ultrapassa as possibilidades de um homem só. Em Dezembro de 1955, perante os engenheiros da Mecânica Automóvel, reunidos sob a presidência de Jean-Henri Labourdette, ele pronunciava, a meu pedido, uma conferência cujo essencial era o seguinte:
 
"Que resta dos milhares de manuscritos da biblioteca de Alexandria fundada por Ptolemeu Soter, desses manuscritos insubstituíveis e para sempre perdidos, referentes à ciência antiga? Onde estão as cinzas das 200000 obras da biblioteca de Pérgamo? Que foi feito das colecções de Pisístrato em Atenas, e da biblioteca do Templo de Jerusalém, e da do santuário de Phtah em Mênfis? Que tesouros continham os milhares de livros que foram queimados no ano 213 antes de Cristo por ordem do imperador Cheu-Hoang-Ti, com um fim unicamente político? Nestas condições, encontramo-nos perante as obras antigas como perante as ruínas de um templo imenso de que apenas restam algumas pedras. Mas o exame atento desses fragmentos e dessas inscrições permite-nos entrever verdades profundas demais para se atribuírem apenas à intuição dos antigos.

"Em primeiro lugar, ao contrário do que se supõe, os métodos do racionalismo não foram inventados por Descartes. Consultemos os textos: "Aquele que procura a verdade, escreve Descartes, deve tanto quanto possível duvidar de tudo." É uma frase muito conhecida, e a ideia parece bastante recente. No entanto, se lermos o segundo livro da Metafísica de Aristóteles veremos: "Aquele que procura instruir-se deve em primeiro lugar duvidar, pois a dúvida do espírito conduz a descobrir a verdade". Aliás, pode constatar-se que Descartes foi buscar a Aristóteles não apenas nesta frase capital, mas também a maior parte das suas famosas regras espirituais, que têm como base o método experimental. Em todo o caso isto prova que Descartes tinha lido Aristóteles, do que se abstêm inúmeras vezes os modernos cartesianos. Estes também poderiam constatar que houve alguém que disse: "Se me engano, chego à conclusão que existo, pois aquele que não existe não se pode enganar, e, precisamente porque me engano, sinto que existo". Infelizmente, não foi Descartes, mas santo Agostinho.

"Quanto ao cepticismo necessário ao observador, não se pode na verdade levá-lo muito mais longe que Demócrito, o qual só considerava válida a experiência a que pessoalmente assistira e cujos resultados autenticara com o seu próprio selo.

"Isto parece-me muito diferente da ingenuidade de que os Antigos são acusados. Sem dúvida, direis vós, os filósofos da Antiguidade eram dotados de um génio superior no domínio do conhecimento, mas enfim, no plano científico, que sabiam eles realmente?

Ao contrário também do que se pode ler nas actuais obras de divulgação, as teorias atómicas não foram encontradas nem desenvolvidas por Demócrito, Leucipo e Epicuro. De facto, Sextus Empiricus diz-nos que o próprio Demócrito as recebera e obtivera por intermédio de Moschus o Fenício, o qual parece ter afirmado que o átomo era divisível, ponto capital que convém notar.

"Reparai que a teoria mais antiga é também mais exacta do que as de Demócrito e dos atomistas gregos em relação à indivisibilidade dos átomos. Neste caso determinado, parece tratar-se mais de um obscurecimento dos conhecimentos arcaicos, tornados incompreensíveis, do que de descobertas originais. Enfim, no plano cosmológico, e apesar da ausência de telescópios, com espanto verificamos serem muitas vezes os conhecimentos astronómicos tanto mais exactos quanto mais antigos.
 
No que respeita, por exemplo, à via Láctea, segundo Tales e Anaxímenes, seria constituída por estrelas, formando cada uma delas um mundo com sol e planetas, e esses mundos estavam situados num espaço imenso. Pode verificar-se em Lucrécio a percepção da uniformidade da queda dos corpos no vácuo e a concepção de um espaço infinito ocupado por uma infinidade de mundos. Pitágoras, antes de Newton, criou a lei inversa do quadrado das distâncias. Plutarco, depois de explicar a lei da gravidade, procura a origem da mesma numa atracção recíproca entre todos os corpos e diz que é essa a razão por que a Terra atrai todos os corpos terrestres da mesma maneira que o Sol e a Lua atraem para o seu centro todas as partes que lhes pertencem e as retêm na sua esfera particular.

"Galileu e Newton confessaram claramente aquilo que deviam à ciência antiga. Também Copérnico, no prefácio das suas obras dedicadas ao Papa Paulo III, escreve textualmente que descobriu a ideia do movimento da Terra ao ler os Antigos. Aliás, a confissão desses empréstimos em nada diminui a glória de Copérnico, de Newton e de Galileu, os quais pertencem a essa raça de espíritos superiores cujo desinteresse e generosidade os levam a não se preocuparem com o amor-próprio de autor ou a originalidade, seja a que preço for, que são preconceitos modernos. Mais humilde e mais profundamente autêntica parece a atitude da modista de Maria Antonieta, Mademoiselle Bertin. Ao modernizar habilidosamente um chapéu antigo, exclamou: "Só é novo o que está esquecido".

"Tanto a história das invenções como a das ciências seria suficiente para mostrar a verdade deste dito. "Dá-se com a maior parte das descobertas, escreve Fournier, o mesmo que com essa fugidia ocasião de que os Antigos haviam feito uma deusa inacessível para aquele que a deixasse escapar uma primeira vez. Se, logo que apareça, a ideia que nos põe no bom caminho, a palavra que pode levar à resolução do problema, o facto significativo não são agarrados com presteza, será uma invenção perdida ou, pelo menos, adiada por várias gerações. Para que ela regresse triunfante, será preciso o acaso de um pensamento novo que faça ressuscitar o anterior, ou então o plagiato feliz de qualquer inventor de segunda categoria; em questões de invenção, a desgraça é para o primeiro, a glória e os proveitos para o segundo". São considerações desta espécie que justificam o título da minha exposição.

"De facto, pensei que devia ser possível substituir largamente o acaso pelo determinismo, e os riscos dos mecanismos espontâneos da invenção pelas garantias de uma vasta documentação histórica baseada em controlos experimentais. Tendo isto em conta, propus constituir um serviço especializado não na investigação da anterioridade das patentes, a qual de toda a maneira se detém no século xvIII, mas um serviço tecnológico que estudaria simplesmente os processos antigos e que tentaria adaptá-los eventualmente às necessidades da indústria contemporânea.
 
"Se um serviço desta espécie tivesse existido outrora, teria podido assinalar, por exemplo, o interesse de um pequeno livro passado despercebido, publicado em 1618 e intitulado Histoire naturelle de la fontaine qui brúle près de Grenoble. O autor era um médico de Tournon, Jean Tardin. Se este documento tivesse sido estudado, o gás de iluminação podia ter sido utilizado desde o princípio do século xvII. De facto, Jean Tardin não só estudou o gasómetro natural da nascente, como reproduziu no seu laboratório os fenómenos observados. Meteu hulha num recipiente fechado, submeteu-o a uma alta temperatura e obteve a produção das chamas cuja origem procurava. Ele explicou com clareza que a chama é provocada pelo betume e que basta reduzir esta matéria a gás para que ela produza um "fluido inflamável". Mas o francês Lebon, anterior ao inglês Winsor, só no ano VII da República[5] é que registou a sua "termo-lâmpada". Devido a os textos antigos não serem lidos, fora esquecida, portanto praticamente perdida, durante cerca de dois séculos, uma descoberta cujas consequências industriais e comerciais teriam sido consideráveis.
 
"Da mesma forma, cerca de cem anos antes dos sinais ópticos de Claude Chappe, inventados em 1793, numa carta que  Fénelon dirigiu em 26 de Novembro de 1695 a Jean Sobieski, secretário do rei da Polónia, refere-se a recentes experiências não apenas de telegrafia óptica, mas também de telefonia com porta-voz.

"Já em 1636, um autor desconhecido, Schwenter, examina nos seus Délassements physico-mathématzques o princípio do telégrafo eléctrico e de que forma, segundo a sua própria expressão, "dois indivíduos podem comunicar entre si por meio da agulha magnética". Ora as experiências de Oersted sobre os desvios da agulha de marear datam de 1819. Também neste caso, perto de dois séculos tinham decorrido.

"Vou citar rapidamente algumas invenções pouco conhecidas: a câmara de imersão é referida num manuscrito do Romance  de Alexandre do Real Gabinete das Estampas de Berlim; a inscrição tem a data de 1320. Um manuscrito do poema alemão  Salman und Morolf, escrito em 1190 (biblioteca de Estugarda), falava no projecto de um barco submarino; a inscrição subsiste, o submersível era em cabedal e capaz de resistir às tempestades. Encontrando-se um dia rodeado de galeras, o inventor, que corria o risco de ser capturado, fez submergir o barco e permaneceu catorze dias no fundo do mar respirando por meio de um tubo flutuante. Num trabalho escrito pelo cavaleiro Ludwig von Hartenstein, por volta de 1510, encontra-se o modelo para um escafandro; tem duas aberturas à altura dos olhos, cobertas por óculos de vidro. Na parte de cima, um comprido tubo com uma torneira na extremidade permite a entrada de ar. À direita e à esquerda do desenho vêem-se os acessórios indispensáveis para facilitar a descida e a vinda à superfície, como seja solas de chumbo e uma vara com escalões.

"Eis ainda outro exemplo de esquecimento: um escritor desconhecido, nascido em 1729 em Montebourg, perto de Coutances (França), publicou um trabalho intitulado Giphantie, anagrama da primeira parte do nome do autor, Tiphaigne de la Roche. Nele se descreve não só a fotografia das imagens, como também a das cores: "A impressão das imagens, escreve o autor, faz-se no primeiro instante em que a tela as recebe. Deve ser retirada imediatamente e colocada num local escuro. Uma hora depois, o reboco está seco e tereis um quadro tanto mais precioso quanto é certo não ser possível a qualquer arte imitar a verdade". O autor acrescenta: "Em primeiro lugar trata-se de examinar a natureza do corpo viscoso que intercepta e conserva os raios, em segundo lugar as dificuldades para o preparar e usar, em terceiro lugar o jogo da luz e desse corpo enxuto". Ora é sabido que a descoberta de Daguerre foi anunciada por Arago à Academia das Ciências, um século mais tarde, a 7 de Janeiro de 1839. Aliás, convém notar que as propriedades de certos corpos metálicos susceptíveis de fixar as imagens foram assinaladas num tratado de Fabricius: De rebus metallicis, publicado em 1566.

"Outro exemplo: a vacinação, descrita desde tempos imemoriais por um dos Vedas, o Sactaya Grantham. Este texto foi citado por Moreau de Jouet a 16 de Outubro de 1826, na Academia das Ciências, no seu Relatório sobre a varíola: "Recolhei o fluido das pústulas com a ponta de uma lanceta, introduzi-o no braço misturando o fluido com o sangue e a febre surgirá: dessa forma a doença será bastante benigna e não inspirará preocupações". Em seguida há uma descrição completa de todos os sintomas.
 
"Tratar-se-á de anestésicos? A este respeito poderia consultar-se um trabalho de Denis Papin escrito em 1681 e intitulado: Le traité des opérations sans douleur, ou então prosseguir as antigas experiências dos chineses sobre os extractos de cânhamo indiano, ou ainda utilizar o vinho de mandrágora, muito conhecido na Idade Média, completamente esquecido no século xviI e do qual um médico de Tolosa, em 1823, o doutor Auriol, estudou os efeitos. Jamais alguém pensou em verificar os resultados obtidos.
 
"E a penicilina? Neste caso, podemos citar em primeiro lugar um conhecimento empírico, como seja os pensos de queijo Roquefort utilizados na Idade Média[6], mas a este respeito pode constatar-se um facto ainda mais curioso. Ernest Duchesne, aluno da École de Santé Nlilitaire de Lião, apresentou a 17 de Dezembro  de 1897 uma tese intitulada: Contribution à I'étude de la concur rence vitale chez les micro-organismes - antagonisme entre les moisissures et les microbes. Neste trabalho encontram-se experiências relatando a acção do penicillum glaucum sobre as bactérias.  Ora esta tese passou despercebida. Insisto sobre este exemplo de evidente esquecimento numa época muito próxima da nossa, em pleno triunfo da bacteriologia.

"Quereis mais exemplos? São inúmeros e seria necessário consagrar uma conferência a cada um deles. Citarei especialmente o oxigénio, cujos efeitos foram estudados no século xv por um alquimista, Eck de Sulsback, como o assinalou Chevreul no Journal des Savants, de Outubro de 1849; aliás, Teofrasto já dizia que a chama era sustentada por um corpo aeriforme e São Clemente de Alexandria era da mesma opinião.

"Não citarei qualquer das extraordinárias antecipações de Roger Bacon, Cyrano de Bergerac e outros, pois é muito fácil justificá-las por um excesso de imaginação. Prefiro manter-me no terreno sólido dos factos controláveis. A propósito do automóvel - e peço desculpa de não poder insistir sobre um assunto que muitos de vós conheceis bem melhor do que eu - farei notar que no século xviI, em Nuremberga, um tal Jean Hauteh fabricava "carros com molas". Em 1645, foi experimentado um carro deste género na cerca do Templo e creio que a sociedade comercial fundada para explorar esta invenção não se pôde concretizar. Possivelmente encontrou obstáculos comparáveis aos que sofreu a primeira Sociedade dos Transportes Parisienses, cuja iniciativa - convém recordá-lo - se deve a Pascal, que levou um dos seus amigos, o duque de Roannes, a patrociná-la com o seu nome e a sua fortuna.

"Mesmo em relação a descobertas mais importantes do que estas, esquecemos a influência dos dados fornecidos pelos Antigos. Cristóvão Colombo confessou sinceramente tudo o que devia aos sábios, aos filósofos e aos poetas antigos. Geralmente ignora-se que Colombo copiou duas vezes o coro do segundo acto de Nledeia, uma tragédia de Séneca, onde o autor falava de um mundo cuja descoberta estava reservada para os séculos futuros. Essa cópia pode ser examinada no manuscrito das Profecias que se encontra na biblioteca de Sevilha. Colombo também se lembrou da afirmação de Aristóteles, no seu tratado De Caelo, a propósito da esfericidade da Terra.

"Não teria Joubert razão ao dizer que "coisa alguma torna os espíritos tão imprudentes e inúteis como a ignorância do passado e o desprezo pelos livros antigos"? Tal como Rivarol escrevia admiravelmente: "Todo o Estado é um misterioso navio ancorado no céu", poder-se-ia dizer a propósito do tempo que o navio do futuro está ancorado no céu do passado. Apenas o esquecimento nos ameaça com os piores naufrágios.

"Ele parece atingir o limite máximo com a história inacreditável, se não fosse verdadeira, das minas de ouro na Califórnia. Em Junho de 1848, Marshall descobriu pela primeira vez pedaços de ouro nas margens de um regato perto do qual vigiava a construção de um moinho. Ora Fernando Cortês já por ali passara, procurando, na Califórnia, mexicanos que se diziam portadores de tesouros consideráveis; Cortês transtornou a região inteira, revistou todas as cabanas, sem sequer pensar em apanhar um pouco de areia; durante três séculos, os bandos espanhóis, as missões da Companhia de Jesus calcaram com os pés a areia aurífera, procurando o Eldorado sempre um pouco mais longe. No entanto, em 1737, mais de cem anos antes da descoberta de Marshall, os leitores da Gazeta da Holanda poderiam ter sabido que as minas de ouro e de prata de Sonora eram exploráveis, pois o jornal em questão indicava a sua posição exacta. Além disso, em 1767, podia comprar-se em Paris um livro intitulado Histoire naturelle et civile de la Californie, onde o autor, Buriel, descrevia as minas de ouro e transcrevia testemunhos dos navegadores a propósito dos pedaços de ouro. Ninguém reparou nesse artigo, nem nesse trabalho, nem nesses factos que, um século mais tarde, foram suficientes para provocar a "corrida para o ouro". Aliás, será que ainda são lidas as descrições dos antigos navegadores árabes?

E, no entanto, ali se encontrariam preciosas indicações para a exploração mineira.

"Na verdade, o esquecimento não perdoa. Demoradas pesquisas, verificações precisas convenceram-me de que a Europa e a França possuem tesouros que praticamente não exploram: os documentos antigos das nossas grandes bibliotecas. Ora toda a técnica industrial deve ser elaborada a partir de três dimensões: a experiência, a ciência e a história. Eliminar ou desprezar esta última é dar provas de orgulho e ingenuidade. É igualmente preferir correr o risco de encontrar aquilo que ainda não existe em vez de procurar racionalmente adaptar o que existe ao que se deseja obter. Antes de investir grandes capitais, um industrial deve estar de posse de todos os elementos tecnológicos de um problema. Ora é evidente que, só por si, a procura da anterioridade das patentes não é, de forma alguma, suficiente para situar uma técnica num dado momento da história. De facto, as indústrias são muito mais antigas do que as ciências, por tanto, devem ser completamente informadas quanto aos seus métodos, a respeito dos quais estão muito menos ao facto do que julgam.

"Os Antigos, servindo-se de técnicas muito simples, obtinham resultados que podemos reproduzir, mas que, a maior  parte das vezes, teríamos dificuldades em explicar, apesar do imenso arsenal teórico de que dispomos. Essa simplicidade era o dom por excelência da ciência antiga.

"Pois sim, direis vós, mas e a energia nuclear? A essa objecção responderei com uma citação que nos deveria obrigar a reflectir um pouco. Num livro precioso, quase desconhecido, mesmo de muitos especialistas, publicado há mais de oitenta anos e intitulado Les Atlantes, o autor, que prudentemente se escondeu sob o pseudónimo de Roisel, expôs os resultados de cinquenta e seis anos de pesquisas e trabalhos sobre a ciência antiga. Ao explicar os conhecimentos científicos que atribui aos Atlantas, Roisel escreve estas linhas extraordinárias para a sua época: "A consequência dessa actividade incessante é, de facto, o aparecimento da matéria, desse outro equilíbrio cuja ruptura igualmente determinaria poderosos fenómenos cósmicos. Se, devido a uma causa desconhecida, o nosso sistema solar se desagregasse, os átomos que o constituem, devido à independência adquirida, tornar-se-iam imediatamente activos e brilhariam no espaço com uma luz inefável que anunciaria ao longe uma vasta destruição e a esperança num mundo novo". Parece-me que este último exemplo é suficiente para fazer compreender toda a profundidade da frase de Nlademoiselle Bertin:

"Só é novo o que está esquecido".

"Vejamos agora qual o interesse prático que apresenta para a indústria uma sondagem sistemática do passado. Quando digo que nos devemos debruçar com o maior interesse sobre os trabalhos antigos, não se trata de forma alguma de efectuar um trabalho de erudição. Apenas é necessário, em função de um problema concreto posto pela indústria, verificar nos documentos científicos e técnicos antigos se existem factos significativos desprezados, ou então métodos esquecidos, mas dignos de interesse e que digam directamente respeito à questão apresentada.

"As matérias plásticas, cuja invenção nós supomos muito recente, poderiam ter sido descobertas muito antes se se tivesse o cuidado de prosseguir certas experiências do químico Berzélius.

"Quanto à metalurgia, apontarei um facto de certa importância. No início das minhas investigações sobre certos processos químicos dos Antigos, fiquei bastante surpreendido por não poder reproduzir no laboratório experiências metalúrgicas que me pareciam descritas com muita clareza. Procurava, em vão, compreender os motivos de tal insucesso, pois cumprira as indicações e as proporções que eram dadas. Reflectindo melhor, apercebi-me que no entanto cometera um erro. Utilizara fundentes quimicamente puros, enquanto os Antigos se serviam de fundentes impuros, quer dizer, de sais obtidos a partir de produtos naturais e por consequência susceptíveis de provocar acções catalíticas. De facto, a experiência confirmou este ponto de vista. Os especialistas compreenderão as importantes perspectivas que estas observações apresentam. Poderiam fazer-se economias de combustível e de energia se fossem adaptados à metalurgia certos processos antigos que, quase todos, se baseiam sobre a acção de catalisadores. Neste ponto, as minhas experiências foram confirmadas, assim como os trabalhos do doutor Ménétrier sobre a acção catalítica dos oligoelementos e as pesquisas do alemão Mittasch sobre a catálise na química dos Antigos. Por vias diferentes obtiveram-se resultados convergentes. Essa convergência parece provar que a tecnologia chegou à altura de ter em conta a importância fundamental da noção de qualidade e do seu papel na produção de todos os fenómenos quantitativos susceptíveis de ser observados.

"Os Antigos conheciam igualmente processos metalúrgicos que parecem esquecidos, como, por exemplo, temperar o cobre em certos banhos orgânicos. Desta forma, obtinham instrumentos extraordinariamente duros e penetrantes. Não eram menos hábeis em derreter esse metal, mesmo no estado de óxido. Darei apenas um exemplo. Um dos meus amigos, especialista da prospecção mineira, encontrava-se a noroeste de Agadès, em pleno Sara. Ali descobriu minerais de cobre que apresentavam indícios de fusão e crisóis que ainda continham metal. Mas não se tratava de um sulfureto, e sim de um óxido, quer dizer, de um corpo que, para a indústria actual, apresenta problemas de redução que não é possível resolver com uma simples fogueira de nómada.

"No domínio das ligas de metais, que é um dos mais importantes da indústria actual, não escaparam aos Antigos muitos factos significativos. Não só conheciam os processos de produzir directamente, a partir de minerais complexos, ligas com singulares propriedades, processos a que a indústria soviética dedica, neste momento, grande interesse, como ainda utilizavam ligas raras, como seja o âmbar amarelo, que nós jamais tivemos a curiosidade de estudar seriamente, apesar de conhecermos as receitas de fabricação.

"insistirei apenas sobre as perspectivas do domínio farmacêutico e médico, quase inexplorado e propício a tantas investigações. Apontarei simplesmente a importância do tratamento das queimaduras, questão tanto mais grave quanto é certo que os acidentes de automóvel e de avião obrigam a pensar nela, praticamente, a cada minuto. Foi na Idade Média, época incessantemente devastada por incêndios, que se descobriram os melhores remédios contra as queimaduras, receitas essas completamente esquecidas. A este respeito, convém saber que certos produtos da antiga farmacopeia não só acalmavam as dores, como permitiam evitar as cicatrizes e regenerar as células.

"Quanto aos corantes e aos vernizes, seria supérfluo recordar a excelente qualidade das matérias elaboradas segundo os processos dos Antigos. As admiráveis cores utilizadas pelos pintores da Idade Média não se perderam, como geralmente se supõe; há em França pelo menos um manuscrito que explica a sua composição. Jamais alguém pensou em adaptar e verificar esses processos. Ora os pintores modernos, se daqui a um século ainda fossem vivos, não reconheceriam os seus quadros, pois as cores utilizadas actualmente não duram. Aliás, os amarelos de Van Gogh já perderam, segundo parece, a extraordinária luminosidade que os caracterizava.

"Tratar-se-á de minas? A este respeito, falarei apenas de uma relação entre a investigação médica e a exploração mineira.
 
As aplicações terapêuticas das plantas, a que se chama fitoterapia, muito conhecida dos Antigos, de facto está ligada a uma ciência nova, a biogeoquímica. Esta disciplina propõe-se revelar as anomalias positivas relativas aos indícios de metais nas plantas e que indicam a proximidade de camadas de minérios. Desta forma é possível determinar particulares afinidades de certas plantas com certos metais e, por consequência, esses dados podem ser utilizados tanto no plano da exploração mineira como no domínio da acção terapêutica. Isso é mais um exemplo característico de um facto que me parece ser o mais importante da história actual das técnicas, como seja a convergência das diversas disciplinas científicas, o que implica a existência de sínteses constantes.

"Citemos ainda algumas outras tendências de pesquisas e aplicações industriais: os adubos, vasto domínio em que os antigos químicos obtiveram resultados geralmente ignorados. Penso especialmente naquilo a que eles chamavam "a essência da fecundidade," produto composto por certos sais misturados a estrumes digeridos ou destilados.

"A vidraria antiga é um assunto ainda pouco conhecido: os Romanos já utilizavam os sobrados em vidro; aliás, o estudo dos antigos processos de vidraceiros poderia proporcionar um precioso auxílio para a solução de problemas ultramodernos, como a dispersão das terras raras e do paládio no vidro, o que permitiria obter tubos fluorescentes de luz negra.

"Quanto à indústria têxtil, apesar do triunfo dos plásticos, ou talvez justamente devido a esse triunfo, deveria orientar-se para a produção, para o comércio de luxo, de tecidos de muito boa qualidade, que poderiam ser tintos segundo as normas antigas, ou então tentar o fabrico daquele pano raro que era conhecido sob o nome de Pilema. Tratava-se de tecidos de linho ou lã preparados com certos ácidos e que resistiam ao gume do ferro e à acção do fogo. Aliás, o processo foi conhecido dos Gauleses, que o utilizavam no fabrico de couraças.

"A indústria do mobiliário, devido ao preço ainda muito elevado dos revestimentos plásticos, também poderia encontrar soluções vantajosas adaptando processos antigos que aumentavam consideravelmente, devido a uma espécie de imersão, a resistência da madeira a diversos agentes físicos e químicos.

As empresas de trabalhos públicos teriam interesse em prosseguir o estudo de cimentos especiais cujas proporções são  indicadas nos tratados dos séculos xv e xvI e que apresentam características muito superiores às do cimento moderno.

"A indústria soviética utilizou recentemente, na fabricação utensílios cortantes, uma cerâmica mais dura que os metais. Esse endurecimento poderia igualmente ser estudado à luz dos antigos processos de imersão.

"Enfim, sem poder insistir sobre este problema, indicarei um resumo de investigações físicas que poderiam ter consequências profundas. Refiro-me a trabalhos relativos à energia magnética terrestre. Neste sentido, há observações muito antigas que jamais foram seriamente verificadas, apesar do seu incontestável interesse.

"Quer se tratasse, finalmente, das experiências do passado ou das possibilidades do futuro, creio que o realismo profundo ensina a desviar-nos do presente. Esta afirmação pode parecer paradoxal, mas basta reflectir para compreender que o presente é apenas um ponto de contacto entre a linha do passado e a do futuro. Firmemente apoiados sobre a experiência ancestral, devemos olhar para a frente e não para baixo, sem levar exageradamente em conta o breve intervalo de desequilíbrio durante o qual atravessamos o espaço e a duração. Prova-o o movimento da marcha e a lucidez do nosso olhar deve manter sempre igual a balança entre aquilo que foi e o que vai ser".



1 Alusão ao célebre Salão de 1863, que recusou todas as obras "avançadas," entre as quais o citado quadro de Manet. (N. da T.)

2 Walter Dornberger: L Árnte secrète de Pennemunde, Arthaud, Paris

3 Millikan: Électron.
 2 7'echnique Mondiale, Paris, Abril de 1957.
 3 Edwin Armstrong: the Inventor as Hero, artigo do "Harper's MagazineH.

4 Frazer: O Ramo de Ouro.

5 Ou seja em 1800. (N. da T.)

6 Sabe-se hoje que este queijo francês contém colónias de penicillum (cogumelo microscópio). (N. da T.)


Louis Pauwels e Jacques Bergier