Ir para o conteúdo. |

  • A Empresa
  • Apoie
  • Contato
  • Seções:
siga a estrada de tijolos amarelos: Sociedades Secretas & Conspirações Textos Conspiracionais Despertar dos Mágicos Alguns Anos no "Algures" Absoluto - Capítulo II

Alguns Anos no "Algures" Absoluto - Capítulo II

Na Tribuna das Nações recusam o Diabo e a loucura. - Há no entanto uma luta dos deuses. - Os alemães e a Atlântida. - Um socialismo mágico. - Uma religião e uma ordem secretas. - Uma expedição às regiões ocultas. - O primeiro guia será poeta.
 
Num artigo da Tribune des Nations, um historiador francês exprime claramente o conjunto das insuficiências intelectuais usadas desde que se trate do hitlerismo. Analisando a obra Hitler Desmascarado, publicada pelo doutor Otto Dietrich, que foi durante doze anos chefe do serviço de imprensa do Führer, Pierre Cazenave escreve:

"Todavia, o doutor Dietrich contenta-se facilmente demais com uma frase que repete muitas vezes e que, num século positivista, não permite explicar Hitler. "Hitler, diz ele, era um homem demoníaco, vítima de ideias nacionalistas delirantes". Que quer dizer demoníaco? E que quer dizer delirante? Na Idade Média ter-se-ia dito que Hitler estava "possesso". Mas hoje? Ou a palavra "demoníaco" nada significa ou significa possesso do demónio. Mas o que é o demónio? Acredita o doutor Dietrich na existência do Diabo? Precisamos de nos entender. A mim, a palavra "demoníaco" não me satisfaz.

"E a palavra "delirante" também não. Quem diz delírio diz doença mental. Delírio maníaco. Delírio melancólico. Delírio de perseguição. E que Hitler tinha sido um psicopata e até um paranóico ninguém duvida, mas os psicopatas e mesmo os paranóicos andam pelas ruas. Daí a um delírio mais ou menos sistematizado, e cuja observação e diagnóstico deveriam ter determinado o internamento do seu possuidor, vai uma distância. Por outras palavras: Hitler será responsável? A meu ver, sim. E eis porque ponho de parte a palavra delírio como ponho de parte a palavra demoníaco, não tendo a demonologia, a nossos olhos, mais que um valor histórico."

Nós não nos contentamos com a explicação do doutor Dietrich. O destino de Hitler e a aventura de um grande povo moderno sob a sua conduta não poderiam ser inteiramente descritos a partir do delírio e da possessão demoníaca. Mas também não nos podemos contentar com as críticas do historiador da Tribune des Nations. Hitler, afirma ele, não era clinicamente louco. E o Demónio não existe. Portanto é preciso não deitar fora a noção de responsabilidade. Isso é verdade. Mas o nosso historiador parece atribuir a essa noção de responsabilidade virtudes mágicas. Mal a evocou, a história fantástica do hitlerismo parece-lhe clara e reduzida às proporções do século positivista em que ele pretende que nós vivemos. Esta operação escapa à razão, assim como a operação de Otto Dietrich. É que, de facto, o termo "responsabilidade" é, na nossa linguagem, uma transposição daquilo que era a "possessão demoníaca" para os tribunais da Idade Média, como demonstram os grandes processos político modernos.

Se Hitler não era louco, nem possesso, o que é possível, a história do nazismo continuaria no entanto inexplicável à luz de um "século positivista". A psicologia das profundezas revela-nos que certas acções aparentemente racionais do homem, na realidade são governadas por forças que ele próprio ignora ou que têm ligações com um simbolismo completamente estranho a lógica vulgar. Por outro lado sabemos, não que o Demónio não existe, mas que é diferente da visão da Idade Média. Na história do hitlerismo, ou antes em certos aspectos dessa história, tudo se passa como se as ideias-força escapassem à crítica histórica habitual, e como se precisássemos, para compreender, de abandonar a nossa visão positiva das coisas e fazer o esforço de entrar num universo no qual deixaram de se confundir a razão cartesiana e a realidade.

Empenhamo-nos em descrever estes aspectos do hitlerismo porque, como viu muito bem Marcel Ray em 1939, a guerra que Hitler impôs ao mundo foi "uma guerra maniqueísta[1], ou, como disse a Escritura, uma luta dos deuses". Não se trata, bem entendido, de uma luta entre fascismo e democracia, entre uma concepção liberal e uma concepção autoritária das sociedades. Isto é o exoterismo da batalha. Há ali um esoterismo[2]. Essa luta dos deuses, que se desenrolou atrás dos acontecimentos aparentes, não terminou no planeta, mas os formidáveis progressos da ciência humana, dentro de alguns anos, estarão aptos a dar-lhes outras formas. Agora que as portas do conhecimento começam a abrir-se sobre o infinito, importa apreender o sentido
dessa luta. Se queremos ser conscientemente homens de hoje, quer dizer, contemporâneos do futuro, precisamos de ter uma visão exacta e profunda do momento em que o fantástico se começou a insinuar na realidade. É esse momento que nós vamos estudar.
 
 
 *

"No fundo, dizia Rauschning, todo o alemão tem um pé na Atlântida, onde procura uma pátria melhor e um melhor património. Esta dupla natureza dos alemães, esta faculdade de desdobramento que lhes permite simultaneamente viver no mundo real e projectar-se num mundo imaginário, revela-se muito especialmente em Hitler e fornece a chave do seu socialismo mágico."

E Rauschning, tentando explicar a subida ao poder desse "grande sacerdote da religião secreta", tentava persuadir-se de que, por diversas vezes na história, "nações inteiras caíram numa inexplicável agitação. Elas empreendem marchas de flagelantes. São agitadas pela dança de São Vito".

"O nacional-socialismo, concluía ele, é a dança de São Vito do século xx. "

Mas de onde provém essa estranha doença? Não encontrava em parte alguma uma resposta satisfatória. "As suas raízes mais
profundas mantêm-se em regiões secretas.

São essas regiões secretas que nos parece útil explorar. E não é um historiador, mas um poeta que nos servirá de guia.



1 O maniqueísmo, que surgiu no século III, baseia-se na luta eterna entre as forças adversas do Universo: a luz e as trevas, o bem e o mal. (N. da T.)

2 C. S. Lewis, professor de teologia em Oxford, tinha, em 1937, anunciado num dos seus romances simbólicos, O Silêncio da Terra, o início de uma guerra pela possessão da alma humana, de que uma terrível guerra material não seria mais do que a forma exterior. Voltou a esta ideia em duas outras obras: Perelandra e Esta Força Hedionda (não traduzidos).

O último livro de Lewis intitula-se Até Que Tenhamos Rostos. É nesta grande narrativa poética e profética que se encontra a frase admirável que a seguir transcrevemos: "Os deuses só nos falarão frente a frente quando nós próprios tivermos um rosto".

Louis Pauwels e Jacques Bergier