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siga a estrada de tijolos amarelos: Sociedades Secretas & Conspirações Textos Conspiracionais Despertar dos Mágicos Alguns Anos no "Algures" Absoluto - Capítulo VII

Alguns Anos no "Algures" Absoluto - Capítulo VII

Horbiger ainda tem um milhão de discípulos. - A expectativa do messias. - Hitler e o esoterismo em política. A ciência nórdica e o pensamento mágico. - Uma civilização inteiramente diferente da nossa. - Gurdjieff, Horbiger Hitler e o homem responsável do cosmos. O ciclo do fogo. - Hitler fada. - O fundo do anti-semitismo nazi. - Dos Marcianos a Nuremberga. - O antipacto. - O verão do foguetão. - Estalinegrado ou a queda dos magos. - A prece sobre o Elbruz. - O peQueno homem vencedor do super-homem. - É o homem pequeno que abre as portas do céu. - O crepúsculo dos Deuses. - A inundação do metropolitano de Berlim e o mito do Dilúvio. Morte caricatural dos profetas. - O coro de Shelley.
 
 
Os engenheiros alemães, cujos trabalhos estão na origem dos foguetões que expulsaram para o céu os primeiros satélites artificiais, foram obrigados a atrasar o acabamento dos V-2 pelos próprios chefes nazis. O general Walter Dornberger dirigia as experiências de Peenemünde onde nasceram os engenhos teleguiados. Suspenderam essas experiências para submeter os relatórios do general à apreciação dos apóstolos da cosmogonia: horbigeriana. Tratava-se, antes de mais nada, de saber como reagiria, nos espaços, o "gelo eterno," e se a violação da estratosfera não desencadearia qualquer desastre sobre a Terra.

O general Dornberger conta, nas suas Memórias, que os trabalhos foram de novo suspensos por dois meses, um pouco mais tarde. O Führer sonhara que os V-2 não funcionariam ou então que o céu se vingaria. Como esse sonho se produziu num estado de transe especial, teve maior influência nos espíritos dos dirigentes do que as opiniões dos técnicos. Para além da Alemanha científica e organizadora, o espírito das antigas magias estava alerta. Esse espírito não morreu.

Em Janeiro de 1958, o engenheiro sueco Rohert Engstroem dirigia um memorial à Academia das Ciências de Nova Iorque para precaver os Estados Unidos contra as experiências astronáuticas. "Antes de proceder a tais experiências seria conveniente estudar de uma maneira nova a mecânica celeste," declarava esse engenheiro. E prosseguia, em tom horbigeriano: "A explosão de uma bomba H sobre a Lua poderia causar um pavoroso dilúvio sobre a Terra". Nesta estranha advertência torna a encontrar-se a ideia paracientífica das alterações de gravitação num Universo em que tudo se repercute sobre tudo. Essas ideias (que no entanto não são inteiramente para desprezar se se pretende manter abertas todas as portas do conhecimento) continuam, na sua forma ingénita, a exercer um certo fascínio. No final de um célebre inquérito, o americano Martin Gardner cALcUlava, em 1953, em mais de um milhão o número de discípulos de Horbiger na Alemanha, na Inglaterra e nos Estados Unidos. Em Londres, H. S. Bellamy prossegue há trinta anos a organização de uma antropologia que tem em consideração a derrocada das três primeiras luas e a existência dos gigantes secundários e terciários. Foi ele que pediu aos russos, depois da guerra, autorização para dirigir uma expedição ao monte Ararate, onde contava descobrir a Arca da Aliança. A agência Tass publicou uma recusa categórica, por os soviéticos terem proclamado a atitude intelectual de Bellamy como fascista e serem de opinião que tais movimentos paracientíficos são de natureza a "revelar forças perigosas". Em França, Denis Saurat, universitário e poeta, tornou-se o porta-voz de Bellamy e o êxito do trabalho de Velikovsky demonstrou que muitos espíritos continuam sensíveis a uma concepção mágica do mundo. É quase escusado dizer, finalmente, que os intelectuais influenciados por René Guénon e pelos discípulos de Gurdjieff concordam com os horbigerianos.

Em 1952, um escritor alemão, Elmar Brugg, publicava um volumoso trabalho em honra do "pai do gelo eterno", do "Copérnico do nosso século xx". Escrevia ele:

"A teoria do gelo eterno não é apenas uma obra científica considerável. É uma revelação das ligações eternas e incorruptíveis entre o cosmos e todos os acontecimentos da Terra. Ela junta aos acontecimentos cósmicos os cataclismos atribuídos aos climas, as doenças, as mortes, os crimes, e desta forma abre portas completamente novas ao conhecimento da marcha da humanidade. O silêncio da ciência clássica a seu respeito só é explicável pela conspiração dos medíocres."
 
*

O grande romancista austríaco Robert Musil, cuja obra pôde ser comparada às de Proust e de Joyce[1], analisou muito bem o estado das inteligências na Alemanha, no momento em que Horbiger se sente inspirado e em que o caporal Hitler concebe o sonho de redimir o seu povo.

"Os representantes do espírito, escreve ele, não estavam satisfeitos. . . Os seus pensamentos nunca se encontravam em
repouso, porque se mantinham presos a essa parte irredutível das coisas que vagueia eternamente sem jamais poder entrar na ordem. Por isso se persuadiram finalmente de que a época em que viviam era votada à esterilidade intelectual, e só podia ser salva por um acontecimento ou um homem absolutamente excepcionais. Foi então que nasceu, entre aqueles a que chamamos os "intelectuais", o gosto pela palavra redimir. Estavam persuadidos de que a vida acabaria se não chegasse em breve um messias. Era, segundo o caso, um messias da medicina, que 1 deveria "salvar" a arte de Esculápio das pesquisas de aboratório
durante as quais os homens sofrem e morrem sem ser tratados; ou um messias da poesia que devia estar à altura de escrever um drama que atiraria milhões de homens para os teatros e no entanto seria perfeitamente original na sua nobreza espiritual. Para além dessa convicção de que não havia uma actividade humana que pudesse ser salva sem a intervenção de um messias particular, existia ainda, evidentemente, o sonho banal e perfeitamente primitivo de um messias à maneira forte para redimir
tudo".

Não é um só messias que vai aparecer, mas, se assim nos podemos exprimir, uma sociedade de messias que vai designar Hitler como seu chefe. Horbiger é um desses messias, e a sua concepção paracientífica das leis do cosmos e de uma história épica da humanidade terá um papel determinante na Alemanha dos "redentores". A humanidade vem de mais longe e de mais alto do que se supõe, e está-lhe reservado um destino prodigioso. Hitler, na sua constante exaltação mística, tem consciência de que está ali para que esse destino se cumpra. A sua ambição e a missão de que se supõe encarregado ultrapassam infinitamente o domínio da política e do patriotismo. "A ideia de nação, diz ele próprio, tive de me servir dela por razões de oportunidade, mas já sabia que não podia ter mais do que um valor provisório... Um dia virá em que pouca coisa restará, mesmo aqui na Alemanha, daquilo a que chamamos o nacionalismo. O que haverá no Mundo será uma confraria universal dos mestres e dos senhores". A política é apenas a manifestação exterior, a aplicação prática e momentânea de uma visão religiosa das leis da vida sobre a Terra e no cosmos. Há, para a humanidade, um destino que os homens comuns não são capazes de conceber, cuja visão não poderiam suportar. Isso está reservado para alguns iniciados. "A política, diz ainda Hitler, é simplesmente a forma prática e fragmentária desse destino". É o exoterismo da doutrina, com os seus slogans, os seus factos sociais, as duas guerras. Mas há também um esoterismo.

O que Hitler e os seus amigos encorajam ao defenderem Horbiger, é uma extraordinária tentativa para restaurar, a partir da ciência ou de uma pseudociência, o espírito das antigas épocas segundo o qual o homem, a sociedade e o Universo obedecem às mesmas leis, segundo o qual o movimento das almas e o das estrelas têm correspondências. A luta entre o gelo e o fogo, do qual nasceram, morrerão e renascerão os planetas, dá-se também no próprio homem.

Elmar Brugg escreve com grande exactidão: "O Universo, para Horbiger, não é um mecanismo morto de que apenas uma parte se deteriora pouco a pouco para finalmente sucumbir mas um organismo vivo no sentido mais prodigioso da palavra, um ser vivo onde tudo se repercute sobre tudo e que perpétua, de geração em geração, a sua força ardente".

É o fundo do pensamento hitleriano, como bem o viu Rauschning: "Só se podem compreender os planos políticos de Hitler conhecendo os seus pensamentos dissimulados e a sua convicção de que o homem está em relação mágica com o Universo".

Essa convicção, que foi a dos sábios nos séculos passados, que governou a inteligência dos povos a que chamamos "primitivos" e que se subentende na filosofia oriental, não se apagou completamente no Ocidente de hoje, e pode acontecer que a própria ciência lhe dê, de maneira inesperada, um certo vigor. Mas, entretanto, encontramo-la em estado bruto, por exemplo, no judeu ortodoxo Velikovski, cuja obra, Mundos a Chocarem-se, obteve êxito mundial nos anos 1956-57. Para os adeptos do gelo eterno, assim como para Velikovski, os nossos actos podem ter o seu eco no cosmos e o sol pôde imobilizar-se no céu em honra de Josué. Há alguma razão para que Hitler tenha nomeado o seu astrólogo particular uplenipotenciário das matemáticas, da astronomia e da física". Em certa medida, Horbiger e os esoteristas nazis alteram os próprios métodos e direcções da ciência. Reconciliam-na à força com a astrologia tradicional. Tudo o que em seguida se fizer, no plano das técnicas, no imenso esforço de consolidação material do Reich, bem poderá ser feito, aparentemente, fora desse espírito:
o impulso foi dado, há uma ciência secreta, uma magia, à base de todas as ciências. "Existe, dizia Hitler, uma ciência nórdica e nacional-socialista que se opõe à ciência judaico-liberal".

Essa "ciência nórdica" é um esoterismo, ou antes, ela inspira-se no que constitui o próprio fundo de todo o esoterismo. Não é por acaso que as Enéadas, de Plotino, foram cuidadosamente reeditadas na Alemanha e nos países ocupados. As Enéadas eram lidas nos pequenos grupos intelectuais místicos pró-alemães, durante a guerra, assim como liam os Índios, Nietzsche e os Tibetanos. Em frente de cada linha de Plotino. Por exemplo, na sua definição de astrologia, poderia colocar-se uma frase de Horbiger. Plotino fala das relações naturais e sobrenaturais do homem com o cosmos e de todas as partes do Universo entre elas:

"Esse Universo é um animal único que contém em si todos os animais... Mesmo sem estar em contacto, as coisas agem e têm necessariamente uma acção à distância. . . O mundo é um animal único, e é esse o motivo por que é absolutamente necessário que esteja de acordo com ele próprio; não há acaso na sua vida, mas uma harmonia e uma ordem únicas."

E finalmente: "Os acontecimentos deste mundo dão-se de acordo com as coisas celestes".
 
Mais perto de nós, William Blake, numa inspiração poético-religiosa, vê todo o Universo contido num grão de areia. É a ideia da reversibilidade do infinitamente pequeno e infinitamente grande e da unidade do Universo em todas as suas partes.

Segundo o Zohar: "Tudo na Terra se passa como no céu".

Hermes Trismegista: "O que está no céu é igual ao que está na Terra".

E a antiga lei chinesa: "As estrelas no seu percurso combatem pelo homem justo".
 
*

Chegámos às próprias bases do pensamento hitleriano. Lamentamos que esse pensamento não tenha sido até aqui analisado desta forma. Contentaram-se em destacar os seus aspectos exteriores, as suas fórmulas políticas, as suas formas exotéricas. Não quer dizer, bem entendido, que procuremos revalorizar o nazismo, como é evidente. Mas esse pensamento inscreveu-se nos factos. Agiu sobre os acontecimentos. Parece-nos que esses acontecimentos só se tornam verdadeiramente compreensíveis sob tal influência. Continuam a ser horríveis, mas, esclarecidos dessa forma, transformam-se noutra coisa além de dores infligidas aos homens por loucos e perversos. Dão à história uma certa amplitude; colocam-na de novo no nível em que deixa de ser absurda e merece ser vivida, mesmo no sofrimento, ao nível espiritual.

O que nós desejamos fazer compreender é que uma civilização totalmente diferente da nossa apareceu na Alemanha e se manteve durante alguns anos. Que uma civilização tão profundamente estranha se possa ter estabelecido de um momento para o outro não é, vendo bem, impensável. A nossa civilização humanista também se baseia num mistério. O mistério é que, entre nós, todas as ideias coexistem e que o conhecimento proporcionado por uma ideia acaba por beneficiar a ideia contrária. Além disso, na nossa civilização tudo contribui para fazer compreender ao espírito que o espírito não é tudo. Uma conspiração inconsciente dos poderes materiais reduz os riscos, mantém o espírito dentro de limites nos quais o orgulho não é excluído, mas onde a ambição é moderada por um pouco de "para que serve isso". No entanto, como Musil bem viu: "Bastaria que se tomasse verdadeiramente a sério uma qualquer das ideias que influenciam a nossa vida, de tal forma que não subsistisse absolutamente nada que lhe fosse contrário, para que a nossa civilização deixasse de ser a nossa civilização." Foi o que se deu na Alemanha, pelo menos nas altas esferas dirigentes do socialismo mágico.

*

Estamos em relação mágica com o Universo, mas esquecemo-nos disso. A próxima mutação da raça humana criará seres conscientes dessa relação, homens-deuses. Essa mutação já faz sentir os seus efeitos em certas almas messiânicas que reatam laços com  um passado muito longínquo e se recordam do tempo em que os gigantes influenciavam o percurso dos astros.

Horbiger e os seus discípulos, como já vimos, imaginam épocas de apogeu da humanidade: as épocas da lua baixa, no final do secundário e no final do terciário. Quando o satélite ameaça desmoronar-se sobre a Terra, quando gira a pouca distância do globo, os seres vivos estão no auge do seu poder vital e sem dúvida do seu poder espiritual. O rei-gigante, o homem-deus capta e orienta as forças psíquicas da comunidade Ele dirige esse feixe de radiações de tal forma que o percurso dos astros se mantenha e que a catástrofe seja adiada. É a função essencial do gigante-mago. Em certa medida, ele mantém no seu lugar o sistema solar. Ele dirige uma espécie de central de energia psíquica: é ali o seu reino. Essa energia participa da energia cósmica. Desta forma, o calendário monumental De Tiahuanaco, que deve ter sido elaborado durante a civilização dos gigantes, não seria feito para registar o tempo e os movimentos dos astros, mas para criar o tempo e para manter esses movimentos. Trata-se de prolongar ao máximo o período em que a lua está a alguns raios terrestres do globo, e pode ser que toda a actividade dos homens, sob a direcção dos gigantes, fosse uma actividade de concentração da energia psíquica, a fim de preservar a harmonia das coisas terrestres e celestes. As sociedades humanas excitadas pelos gigantes são uma espécie de dínamos. Produzem forças que irão ter o seu papel no equilíbrio das forças universais. O homem, e mais especialmente o gigante é responsável por todo o cosmos.

Há uma estranha semelhança entre esta visão e a de Gurdjieff. É sabido que este célebre taumaturgo afirmava ter aprendido, em centros iniciáticos do Oriente, certo número de segredos sobre as origens do nosso mundo e a respeito de grandes civilizações submersas há centenas de milhares de anos. Na sua famosa obra All and Everything, sob a forma imaginativa de que tanto gostava, pode ler-se:

"Essa Comissão (dos anjos arquitectos criadores do sistema solar), tendo cALcUlado todos os factos conhecidos, chegou à conclusão de que, embora os fragmentos projectados para longe do planeta "Terra" se possam manter algum tempo na sua posição actual, todavia, no futuro, devido ao que se chama as deslocações tastartoonarianas, esses fragmentos satélites poderiam vir a mudar de posição e provocar grande número de calamidades irreparáveis. Portanto, os altos comissários resolveram tomar medidas para impedir essa eventualidade. A medida mais eficaz, segundo decidiram, seria que o planeta Terra enviasse constantemente a esses fragmentos-satélites, para os manter no seu lugar, as vibrações denominadas askokinns."

Portanto os homens acham-se dotados de um órgão especial, emissor de forças psíquicas destinadas a preservar o equilíbrio do cosmos. É aquilo a que vagamente chamamos a alma, e todas religiões não seriam mais do que a recordação degenerada dessa função primordial: participar do equilíbrio das energias cósmicas.

Na primeira América, recorda Denis Saurat, "grandes iniciados executavam com raquetes e bolas uma cerimónia sagrada: as bolas descreviam no ar o mesmo percurso dos astros no céu. Se um desajeitado deixava cair ou perder a bola, causava catástrofes astronómicas: matavam-no então, e arrancavam-lhe coração".

A recordação dessa função primordial perde-se em lendas e superstições, desde o Faraó que, pela sua força mágica, faz encher o Nilo cada ano, até às orações do Ocidente pagão para fazer mudar o vento ou cessar o granizo e às práticas encantatórias dos feiticeiros polinésios para que a chuva caia. A origem de qualquer grande religião estaria nessa necessidade de que os homens das antigas épocas e os seus reis tinham consciência: manter aquilo a que Gurdjieff chama "o movimento cósmico da harmonia geral".
 
*

Na luta entre o gelo e o fogo, que é a chave da vida universal, existem ciclos sobre a Terra. Horbiger afirma que sofremos, de seis mil em seis mil anos, uma ofensiva de gelo. Produzem-se dilúvios e grandes catástrofes. Mas no seio da humanidade dá-se, todos os setecentos anos, uma explosão de fogo. Quer dizer que todos os setecentos anos o homem retoma consciência da sua responsabilidade nesta luta cósmica. Volta a ser, no sentido total da palavra, religioso. Retoma contacto com as inteligências há muito submersas. Prepara-se para as futuras mutações. A sua alma adquire as dimensões do cosmos. Recupera o sentido da epopeia universal. É novamente capaz de fazer a distinção entre o que vem do homem-deus e o que vem do homem-escravo e de rejeitar da humanidade o que pertence às espécies condenadas. Torna-se novamente implacável e flamejante. Volta a ser fiel à função para que os gigantes o destinaram.

Não conseguimos compreender de que forma é que Horbiger justificava esses ciclos, e como adaptava essa afirmação ao conjunto do seu sistema. Mas Horbiger declarava, como Hitler, aliás, que a preocupação pela coerência é um vício mortal. O que conta é o que provoca o movimento. O crime também é movimento: um crime contra o espírito é um benefício. Enfim, Horbiger tivera consciência desses ciclos por inspiração. Isso ultrapassava em autoridade o raciocínio. A última explosão de fogo dera-se com a aparição dos cavaleiros teutónicos. Estávamos agora sob uma nova explosão. Esta coincidia com a fundação da "Ordem Negra" nazi.

Rauschning, que se sentia desorientado, pois não possuía nenhuma das chaves do pensamento do Führer e se mantinha um bom aristocrata humanista, anotava as frases que Hitler por vezes deixava escapar na sua presença.

"Um tema que aparecia constantemente nas suas conversas era o que ele chamava a "curva decisiva do mundo", ou a charneira do tempo. Dar-se-ia uma alteração no planeta que nós, os não iniciados, não podíamos compreender na sua amplitude[2]. Hitler falava como um vidente. Ele imaginava uma mística biológica, ou, se assim o desejam, uma biologia mística que formava a base das suas inspirações. Ele inventara uma terminologia pessoal. "A falsa rota do espírito" era que o homem abandonasse a sua vocação divina. Adquirir a "visão mágica" parecia-lhe o objectivo da evolução humana. Acreditava que ele próprio estava no limiar desse saber mágico, fonte dos seus êxitos presentes e futuros. Um professor de Munique[3] dessa época escrevera, além de certo número de obras científicas, alguns ensaios bastante estranhos sobre o mundo primitivo, a formação das lendas, a interpretação dos sonhos entre os povos das primeiras épocas, sobre os seus conhecimentos intuitivos e uma espécie de poder transcendente que teriam exercido para modificar as leis da natureza. Havia também referência, no meio dessa baralhada, ao olho de Ciclope, o olho frontal que em seguida se atrofiara para formar a glândula pineal. Tais ideias fascinavam Hitler. Gostava de as aprofundar. Não sabia explicar a maravilha do seu próprio destino senão pela acção das forças ocultas. Atribuía a essas forças a sua vocação sobre-humana de anunciar à humanidade o novo evangelho.

"A espécie humana, dizia ele, fazia desde a origem uma prodigiosa experiência cíclica. Era submetida a provas de aperfeiçoamento de um milénio a outro. O período solar[4] do homem atingia o seu termo: já se podiam vislumbrar as primeiras amostras do super-homem. Uma espécie nova se anunciava, que iria expulsar a antiga humanidade. Assim como, de acordo com a
imortal sabedoria dos velhos povos nórdicos, o mundo devia ser constantemente rejuvenescido pelo desmoronar das eras extintas e pelo crepúsculo dos deuses, assim como os solstícios representavam nas velhas mitologias o símbolo do ritmo vital, não em linha direita e contínua, mas em espiral, assim também a humanidade progredia por uma série de saltos e de retornos.

"Quando Hitler se me dirigia, prossegue Rauschning, tentava exprimir a sua vocação de anunciador de uma nova humanidade I em termos racionais e concretos. Dizia ele:

"A criação não está terminada. O homem atinge nitidamente uma fase de metamorfose. A antiga espécie humana já entrou no estádio do enfraquecimento e da sobrevivência. A humanidade transpõe um escalão todos os setecentos anos, e o motivo da luta, que só se realizará muito mais tarde, é o advento dos Filhos de Deus. Toda a força criadora se concentrará numa nova espécie.

As duas variedades evoluirão rapidamente em discordância. Uma desaparecerá e a outra desenvolver-se-á. Ultrapassará infinita
mente o homem actual. . . Compreende agora o sentido profundo do nosso movimento nacional-socialista? Aquele que só compreende o nacional-socialismo como um movimento político pouco sabe..."
 
*

Rauschning, da mesma forma que os outros, não reuniu a doutrina racial ao sistema geral de Horbiger. No entanto, em certa medida, está-lhe ligada. Ela faz parte do esoterismo nazi de que veremos, daqui a pouco, outros aspectos. Existia um racismo de propaganda: é aquele que os historiadores descreveram e que os tribunais, exprimindo a consciência popular, condenaram justamente. Mas havia outro racismo, mais profundo, e sem dúvida mais horrível. Esse ficou fora do entendimento dos historiadores e dos povos, e não podia haver uma linguagem comum entre esses racistas, por um lado, as suas vítimas e os seus juízes por outro.

No período terrestre e cósmico em que nos encontramos, na expectativa do novo ciclo que determinará sobre a Terra novas mutações, uma nova classificação das espécies e o regresso ao gigante-mago, ao homem-Deus, nesse período coexistem no globo espécies vindas de diversas fases do secundário, do terciário e do quaternário. Houve fases de ascensão e fases de quedas. Certas espécies são marcadas por degenerescências, outras são anunciadoras do futuro, trazem os germes do porvir. O homem não é uno. Assim, os homens não são os descendentes dos gigantes. Eles apareceram após a criação dos gigantes. Foram criados, por sua vez, por mutação. Mas também essa humanidade mediana não pertence a uma única espécie. Há uma humanidade verdadeira, designada para conhecer o próximo ciclo, dotada dos órgãos psíquicos necessários para representar um papel no equilíbrio das forças cósmicas e destinada à epopeia sob a orientação dos Superiores Desconhecidos que hão-de vir. E há outra humanidade, que não passa de uma aparência, que não merece esse nome, e que sem dúvida surgiu no globo em épocas inferiores e sombrias em que, tendo-se desmoronado o satélite, imensas partes do globo não passavam de lameiros desertos. Foi sem dúvida criada com seres rastejantes e hediondos, manifestações de vida em decadência. Os Ciganos, os Negros e os Judeus não são homens, no verdadeiro sentido da palavra. Nascidos após a derrocada da lua terciária, por mutação brusca, como que por um infeliz tartamudear da força vital condenada, essas criaturas "modernas" (particularmente os judeus) imitam o homem e invejam-no, mas não pertencem à espécie. "Eles estão tão afastados de nós como as espécies animais da verdadeira espécie humana", disse exactamente Hitler a Rauschning, que fica aterrado, pois descobre no Führer uma visão ainda mais louca que em Rosenberg e todos os teóricos do racismo. "Não é verdade, precisa Hitler, que eu considere o judeu um animal. Ele está muito mais afastado dos animais do que nós." Exterminá-lo não é portanto cometer um crime contra a humanidade: ele não faz parte da humanidade. "É um ser estranho à ordem natural".

É este o motivo por que certas sessões do processo de Nuremberga eram desprovidas de sentido. Os juízes não podiam manter qualquer espécie de diálogo com os responsáveis, que aliás tinham desaparecido na sua maior parte, deixando ficar no banco dos réus apenas os executantes. Estavam em presença dois mundos, mas sem comunicação. O mesmo que pretender julgar os Marcianos sobre o plano da civilização humanista. Eles eram Marcianos. Pertenciam a um mundo separado do nosso, daquele que conhecemos há seis ou sete séculos. Uma civilização totalmente diferente do que está estabelecido chamar-se civilização fora organizada na Alemanha em poucos anos, sem que disso nos tivéssemos apercebido claramente. No íntimo os seus iniciadores já não tinham qualquer espécie de comunicação intelectual, moral ou espiritual connosco. A despeito das formas exteriores, eram-nos tão estranhos como os selvagens da Austrália. Os juízes de Nuremberga esforçavam-se por agir como se não esbarrassem contra essa pavorosa realidade. Em certa medida, tratava-se, de facto, de lançar um véu sobre essa realidade, a fim de que ela ficasse oculta, como nas sortes de prestidigitação. Tratava-se de manter a ideia da permanência e da universalidade da civilização humanista e cartesiana, e era necessário que os acusados fossem, a bem ou a mal, integrados no sistema. Era indispensável. Estava nisso o equilíbrio da consciência ocidental, e devem compreender que não nos passa pela cabeça negar os benefícios do empreendimento de Nuremberga. Pensamos simplesmente que o fantástico foi ali enterrado. Mas era necessário que o fosse, a fim de que não fossem contaminadas dezenas de milhões de almas. Só fazemos as nossas pesquisas para alguns amadores, prevenidos e munidos de máscaras.
 
*

O nosso espírito recusa admitir que a Alemanha nazi encarnasse os conceitos de uma civilização sem relação com a nossa. E no entanto é isso, e mais nada, que justifica essa guerra, uma das poucas da história conhecida cujo objecto foi realmente essencial. Era necessário que uma das duas visões do homem, do céu e da Terra, triunfasse, a humanista ou a mágica. Não havia coexistência possível, ao passo que se pode facilmente imaginar o marxismo e o liberalismo coexistindo: eles assentam sobre a mesma base, pertencem ao mesmo universo. O universo de Copérnico não é o de Plotino; ambos se opõem fundamentalmente, e não apenas no plano das teorias, como no da vida social, política, espiritual, intelectual, passional.

O que nos constrange, para admitir essa visão estranha de outra civilização estabelecida em tão pouco tempo para além do Reno, é que conservamos uma concepção infantil da distinção entre o "civilizado" e aquele que o não é. Precisamos de capacetes de plumas, de tantãs, de choças para sentir essa diferença. Ora seria mais fácil fazer um "civilizado" de um feiticeiro banto do que ligarmos Hitler, Horbiger ou Haushoffer ao nosso humanismo. Mas a técnica alemã, a ciência alemã, a organização alemã, comparáveis, se não superiores às nossas, ocultaram-nos esse ponto de vista. A formidável novidade da Alemanha nazi foi que o pensamento mágico se uniu à ciência e à técnica.

Os intelectuais difamadores da nossa civilização, virados para o espírito das antigas épocas, sempre foram inimigos do progresso técnico Por exemplo, René Guénon ou Gurdjieff, ou os inúmeros hinduístas. Mas o nazismo foi o momento em que o espírito de magia se apossou das alavancas do progresso material. Lenine dizia que o comunismo é o socialismo mais a electricidade. De certa maneira, o hitlerismo era o guenonismo mais as divisões blindadas.
 
*

Um dos mais belos poemas da nossa época tem por título: Crónicas rvlarcianas. O seu autor é um americano de cerca de trinta anos, cristão à maneira de Bernanos, receoso de uma civilização de autómatos, um homem cheio de cólera e de caridade. O seu nome é Ray Bradbury. Não se trata, como se supõe em França, de um autor de "ficção-científica", mas de um artista religioso. Serve-se de temas da mais moderna imaginação, mas se propõe viagens no futuro e no espaço é para descrever o homem interior e a sua crescente inquietação.

No início das Crónicas Marcianas, os homens vão lançar o primeiro grande foguetão interplanetário. Este atingirá Marte e estabelecerá, pela primeira vez, contactos com outras inteligências. Estamos em Janeiro de 1999:

"No instante anterior era o Inverno em Ohio, com as suas portas e janelas fechadas, as suas vidraças matizadas de geada,
os seus telhados franjados de estalactites. . . Depois uma longa onda de calor varreu a pequena cidade. Uma corrente violenta de ar escaldante, como se acabasse de ser aberta a porta de um forno. O vento quente passou sobre as casas, as moitas, as crianças. Os pedaços de gelo desprenderam-se, quebraram-se e começaram a derreter-se... O verão do foguetão. A notícia espalhava-se de boca em boca pelas grandes casas abertas. O verão do foguetão. A aragem abrasadora do deserto dissolvia nas janelas os arabescos do gelo... A neve, ao cair do céu frio sobre a cidade, transformava-se em chuva quente antes de atingir o solo. O verão do foguetão. À soleira das suas portas onde escorria a água, os habitantes contemplavam o céu que se ia avermelhando..."

O que mais tarde aconteceu aos homens, no poema de Bradbury, será triste e doloroso porque o autor não acredita que o progresso das almas possa estar ligado ao progresso das coisas. Mas, no prólogo, ele descreve esse "verão do foguetão", destacando assim um arquétipo do pensamento humano: a promessa de uma eterna Primavera sobre a Terra. No momento em que o
homem atinge o mecanismo celeste e ali introduz um novo motor, grandes alterações se produzem na Terra. Tudo se repercute sobre tudo. Nos espaços interplanetários, onde se manifesta daqui em diante a inteligência humana, produzem-se reacções em cadeia que se repercutem no globo, cuja temperatura se modifica. No momento em que o homem conquista, não apenas o céu, mas "o que está para além do céu"; no momento em que se opera uma grande revolução material e espiritual no Universo, no momento em que a civilização cessa de ser humana para se tornar cósmica, há uma espécie de recompensa imediata sobre a Terra. Os elementos já não oprimem o homem. Uma eterna suavidade, um eterno calor envolvem o globo. O gelo, sinal de morte, é vencido. O frio recua. A promessa de uma eterna Primavera será mantida se a humanidade cumprir a sua missão divina. Se ela se integrar no Todo universal, a Terra eternamente tépida e florida será a sua recompensa. Os poderes do frio, que são os poderes da solidão e da derrota, serão quebrados pelos poderes do fogo.

É outro arquétipo o da assimilação do fogo à energia espiritual. Quem contém essa energia contém o fogo. Por muito estranho que pareça, Hitler estava convencido que ali onde ele avançasse o frio recuaria. Essa convicção mística explica em parte a maneira como ele conduziu a campanha da Rússia.

Os horbigerianos, que se declaravam capazes de prever o tempo sobre todo o planeta, com meses e mesmo anos de antecedência, tinham anunciado um Inverno relativamente suave. Mas havia outra coisa: como os discípulos do gelo eterno, Hitler estava intimamente persuadido de que contraíra uma aliança com o frio, e que as neves das planícies russas não lhe poderiam retardar a marcha. A humanidade, sob a sua orientação, ia entrar num novo ciclo de fogo. Já estava a entrar. O Inverno cederia perante as suas legiões portadoras da chama.

Ao passo que, normalmente, o Führer prestava particular atenção ao equipamento material das suas tropas, apenas mandou entregar aos soldados da campanha da Rússia um suplemento de vestuário irrisório: um cachecol e um par de luvas.

E, em Dezembro de 1941, o termómetro descia bruscamente a quarenta graus negativos. As previsões eram falsas, as profecias não se realizavam, os elementos insurgiam-se, as estrelas, no seu percurso, cessavam bruscamente de trabalhar para o homem justo. Era o gelo que triunfava sobre o fogo. As armas automáticas pararam, pois o óleo gelara. Nos reservatórios, a gasolina sintética separava-se, sob a acção do frio, em dois elementos inutilizáveis. Na retaguarda, as locomotivas gelavam. Sob o seu capote e com as botas do uniforme, os homens morriam. A mais ligeira ferida os condenava. Milhares de soldados, ao acocorarem-se sobre o solo para satisfazer as suas necessidades, caíam com o ânus gelado. Hitler recusou acreditar nesse primeiro desacordo entre a mística e o real. O general Guderian, arriscando-se a ser destituído e mesmo condenado à morte, foi de avião até à Alemanha para pôr o Führer ao corrente da situação e pedir-lhe para dar ordem de retirada.

"Quanto ao frio - disse Hitler -, o assunto é comigo. Ataquem!"

Foi assim que todo o corpo de batalhão blindado que vencera a Polónia em dezoito dias e a França num mês, os exércitos de Guderian, Reinhardt e Hoeppner, a formidável legião de conquistadores a que Hitler chamava os seus Imortais, golpeada pelo vento, queimada pelo gelo, desapareceu no deserto do frio, para que a mística fosse mais real do que a Terra.

O que restava desse Grande Exército teve finalmente de renunciar e atacar em direcção ao Sul. Quando, na Primavera seguinte, as tropas invadiram o Cáucaso, realizou-se uma estranha cerimónia. Três alpinistas S. S. treparam ao cume do Elbruz, montanha sagrada dos arianos, importante local de antigas civilizações, vértice mágico da seita dos "Amigos de Lúcifer". Colocaram a bandeira com a suástica abençoada segundo o rito da Ordem Negra. A bênção da bandeira no alto do Elbruz devia marcar o início da nova era. Dali em diante, as estações obedeceriam e o fogo venceria o gelo por vários milénios. Houvera uma grave decepção no ano anterior, mas não passara de uma provação, a última, antes da verdadeira vitória espiritual. E, apesar das advertências dos meteorólogos clássicos, que anunciavam um Inverno ainda mais de recear que o precedente, apesar dos mil sinais ameaçadores, as tropas subiram em direcção ao Norte e Estalinegrado para cortar a Rússia em duas partes.

"Enquanto a minha filha cantava os seus cânticos exaltados, lá no alto perto do mastro escarlate, os discípulos da razão mantiveram-se afastados, com os seus rostos tenebrosos...

Foram "os discípulos da razão, com os seus rostos tenebrosos", que venceram. Foram os homens materiais, os homens "sem fogo," com a sua coragem, a sua ciência "judaico-liberal," as suas técnicas sem prolongamentos religiosos, foram os homens sem a "sagrada desmedida" que, auxiliados pelo frio, pelo gelo, triunfaram. Fizeram malograr o pacto. Venceram a magia. Após Estalinegrado, Hitler deixá de ser um profeta. A sua religião desmorona-se. Estalinegrado não é apenas uma derrota militar e política. O equilíbrio das forças espirituais foi alterado, a roda deixa de se mover. Os jornais alemães aparecem com banda preta e as descrições que fazem do desastre são mais terríveis que as dos comunicados russos. O luto nacional é decretado. Mas esse luto ultrapassa a nação. "Reparai bem!, escreve Goebbels. É todo um pensamento, toda uma concepção do Universo que sofre uma derrota. As forças espirituais vão ser destruídas, a hora do julgamento aproxima-se".

Em Estalinegrado não é o comunismo que triunfa sobre o fascismo, ou antes, não é só isso. Analisando de mais longe, quer dizer, com a perspectiva necessária para abarcar o sentido de tão amplos acontecimentos, é a nossa civilização humanista que faz parar o desenvolvimento de outra civilização, luciferina, mágica, não feita para o homem mas para "qualquer coisa acima do homem". Não há diferenças essenciais entre as causas dos actos civilizadores da U.R.S.S. e dos Estados Unidos. A Europa dos séculos xvIII e xIx forneceu o motor que ainda serve. Não faz exactamente o mesmo barulho em Nova Iorque e em Moscovo, e é tudo. No fundo, era de facto um mundo inteiro que estava em guerra contra a Alemanha, e não uma aliança momentânea de inimigos fundamentais. Um só mundo que acredita no progresso, na justiça, na igualdade e na ciência. Um só mundo que tem a mesma visão do cosmos, a mesma compreensão das leis universais e que reserva para o homem no Universo o mesmo lugar, nem grande nem pequeno demais. Um só mundo que acredita na razão e na realidade das coisas. Um só mundo que devia desaparecer completamente para dar lugar a outro de que Hitler se sentia o anunciador.

É o pequeno homem do "mundo livre", o habitante de Moscovo, de Boston, de Limoges ou de Liège, o pequeno homem positivo, racionalista, mais moralista que religioso, desprovido do sentido metafísico, sem apetite para o fantástico, aquele que Zaratustra classifica como um homem-fingido, uma caricatura, é esse pequeno homem saído da coxa do burguês médio que irá destruir o grande exército destinado a abrir o caminho ao super-homem, ao homem-Deus, senhor dos elementos, dos climas e das estrelas. E, por um curioso capricho da justiça - ou da injustiça - é esse pequeno homem de alma tacanha que, anos mais tarde, vai lançar para o céu um satélite, e inaugurar a era interplanetária. Estalinegrado e o lançamento do Sputnik são bem, como dizem os Russos, as duas vitórias decisivas, e eles aproximaram-nas uma da outra ao celebrar, em 1957, o aniversário da sua revolução Foi publicada pelos jornais uma fotografia de Goebbels. "Eles acreditavam que íamos desaparecer. Era necessário que triunfássemos para criar o homem interplanetário".
 
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A resistência desesperada, louca, catastrófica de Hitler, no momento em que, como era evidente, tudo estava perdido, só se explica pela expectativa do dilúvio descrito pelos horbigerianos. Se não fosse possível modificar a situação por processos humanos, restava a possibilidade de provocar o julgamento dos deuses. O dilúvio sobreviria, como um castigo, para a humanidade inteira. A noite ia de novo cobrir o globo e tudo ficaria sepultado por tempestades de água e granizo. Hitler, diz Speer com horror, "tentava deliberadamente fazer com que tudo morresse com ele. Já não era mais que um homem para quem o fim da sua própria vida significava o fim de todas as coisas". Goebbels, nos seus últimos editais, saúda com entusiasmo os bombardeiros inimigos que destróem o seu país: "Sob os destroços das nossas cidades aniquiladas estão enterradas as estúpidas realizações do século xIx". Hitler faz reinar a morte: prescreve a destruição total da Alemanha, manda executar os prisioneiros, condena o seu antigo cirurgião, manda matar o cunhado, pede a morte para os soldados vencidos, e desce ele próprio ao túmulo. "Hitler e Goebbels, escreve Trevor Roper, convidaram o povo alemão a destruir as suas cidades e as suas fábricas, a fazer ir pelos ares os seus diques e as suas pontes, a sacrificar os caminhos de ferro e todo o material circulante, e tudo isto em proveito de uma lenda, em nome de um crepúsculo dos deuses". Hitler pede sangue, envia as suas últimas tropas para o sacrifício: "As perdas nunca parecem bastante elevadas", diz ele. Não são os inimigos da Alemanha que ganham, são as forças universais que se preparam para destruir a Terra, punir a humanidade, porque a humanidade preferiu o gelo ao fogo, as potências da morte às potências da vida e da ressurreição. O céu vai vingar-se. Ao morrer, resta apenas reclamar o grande dilúvio. Hitler oferece um sacrifício à água: manda inundar o metropolitano de Berlim, onde morrem 300 000 pessoas refugiadas nos subterrâneos. É um acto de magia iniciática: esse gesto provocará movimentos de apocalipse no céu e na Terra. Goebbels publica um último artigo antes de matar, no Bunker, a mulher, os filhos e de se matar a ele próprio. Intitula o seu edital de despedida: "E mesmo que assim fosse". Diz que o drama não se representa à escala da terra, mas do cosmos. "O nosso fim será o fim de todo o Universo".
 
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Eles erguiam o seu pensamento demencial em direcção aos espaços infinitos, e morreram num subterrâneo.

Julgavam preparar o homem-deus ao qual os elementos iriam obedecer. Acreditavam no ciclo de fogo. Venceriam o gelo, tanto na Terra como no céu, e os seus soldados morriam ao deitar as calças abaixo, com o ânus congelado.

Alimentavam uma visão fantástica da evolução das espécies, aguardavam formidáveis mutações. E as últimas notícias do mundo exterior foram dadas pelo guarda-mor do Jardim Zoológico de Berlim, que, empoleirado numa árvore, telefonava ao Bunker.
 
Poderosos, esfaimados e orgulhosos, profetizavam:

A grande era do mundo renasce,
Os anos de ouro reaparecem.
Como uma serpente, a Terra
Renova os seus fatos gastos pelo Inverno

Mas há sem dúvida uma profecia mais profunda que condena os próprios profetas e os vota a uma morte mais do que trágica: caricatural. No fundo dos seus subterrâneos, ouvindo o rumor cada vez mais forte dos tanques, terminavam a sua vida arrebatada e má entre as revoltas, dores e súplicas com que termina a visão de Shelley que se intitula Hellas:

Oh! esperai! O ódio e a morte deverão reaparecer?
Esperai! Deverão os homens matar e morrer?
Esperai! Não esgoteis até ao sedimento
A urna de uma amarga profecia!
O mundo está cansado do passado.
Oh! oxalá morra ou repouse enfim!



1 L'homme sans qualités, publicado em francês nas Editions du Seuil.

2 A quarta lua reaproximar-se-á da Terra e a gravitação está alterada. As águas subirão, os seres conhecerão um período de gigantismo. Sob a acção dos raios cósmicos mais fortes produzir-se-ão mutações. O Mundo entrará numa nova fase atlantidiana.

3 Não de Munique, mas austríaco; trata-se de Horbiger, a que Rauschning se refere de ouvido.

4 O período sob a influência do Sol. Os períodos áureos ficam sob a influência da Lua, quando se aproxima da Terra.

Louis Pauwels e Jacques Bergier