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siga a estrada de tijolos amarelos: Sociedades Secretas & Conspirações Textos Conspiracionais Despertar dos Mágicos Futuro Anterior - Capítulo I

Futuro Anterior - Capítulo I

Homenagem ao leitor apressado. - Uma demissão em 1875. - As aves agoirentas. - Como o século xix fechava as portas. - O fim das ciências e o recalcamento do fantástico. - Os desesperos de Poincaré. - Somos os nossos próprios avós. - Juventude!Juventude! 

Como poderia um homem inteligente, hoje em dia, não se sentir apressado? "Levante-se, senhor, pois tem grandes coisas a fazer!" Mas é necessário levantarmo-nos cada dia um pouco mais cedo. Acelerai os vossos aparelhos de ver, ouvir, pensar, recordar, imaginar. O nosso melhor leitor, para nós o mais precioso, devorar-nos-á em duas ou três horas. Conheço alguns homens que lêem com o máximo proveito cem páginas de matemática, filosofia, história ou arqueologia em vinte minutos. Os actores aprendem a "colocar" a voz. Quem nos ensinará a "colocar" a atenção? Há uma altura a partir da qual tudo muda de velocidade. Eu não sou neste trabalho, um desses escritores que desejam conservar o leitor a seu lado o mais tempo possível, entretendo-o. Nada para o sono, tudo para o despertar. Despachem-se, escolham e partam! Lá fora há uma ocupação. Se for preciso, saltem capítulos, comecem por onde lhes apetecer, leiam em diagonal: isto é um instrumento com múltiplas aplicações, como a faca dos campistas. Por exemplo, se receiam chegar tarde demais ao âmago do assunto que lhes interessa, saltem estas primeiras páginas. Saibam apenas que elas dão a conhecer a forma como o século XIX fechou as portas à realidade fantástica do homem, do mundo, do Universo; a maneira como o século xx as reabre, e como as nossas leis morais, as nossas filosofias e a nossa sociologia, que deviam ser contemporâneas do futuro, não o são, continuando acorrentadas a esse caduco século xIx. Não foi lançada a ponte entre a época das espingardas e a dos foguetões, mas pensa-se nisso. É para que se pense ainda mais que nós escrevemos. Apressados como estamos, não é sobre o passado que choramos, é sobre o presente, e com impaciência. Pronto. Já sabem o bastante para poderem folhear rapidamente este início se for necessário, e ler mais adiante.
 
*

A história esqueceu-se de o citar, o que é pena. Era director do Patent Office americano e foi ele que deu o sinal de alarme. Em 1875 pediu a sua demissão ao Secretário do Estado do Comércio. "Ficar para quê? - dizia ele -, já não há mais nada para inventar."

Doze anos depois, em 1877, o ilustre químico Marcellin Berthelot escrevia: "De futuro o Universo não terá mistério." Para obter do mundo uma imagem coerente, a ciência libertara-se totalmente. A perfeição pela omissão. A matéria era constituída por um certo número de elementos impossíveis de transformar uns nos outros. Mas enquanto Berthelot rebatia no seu sábio trabalho as fantasias alquímicas, os elementos, que o ignoravam, continuavam a sofrer alterações sob o efeito da radioactividade natural. Em 1852, o fenómeno fora descrito por Reichenbach, mas imediatamente rejeitado. Certos trabalhos, com data de 1870, evo cavam um quarto estado da matéria" constatado por ocasião da descarga dos gases. Mas era necessário recalcar qualquer mistério. Recalcamento: é a palavra. Há que fazer a psicanálise de uma certa forma de pensar do século XIX.

Um alemão, cujo nome era Zeppelin, de regresso ao seu país após ter combatido nas fileiras sulistas, tentou interessar alguns industriais pela direcção dos balões. Desgraçado! Não sabe então que há três assuntos a respeito dos quais a Academia das Ciências francesa já não admite que se fale: a quadratura do círculo, o túnel sob a Mancha e a direcção dos balões. Outro alemão, Herman Gaswindt, propunha construir máquinas voadoras mais pesadas do que o ar, propulsionadas por foguetões. Sobre o quinto manuscrito, o ministro da guerra alemão, depois de ouvir a opinião dos técnicos, escreveu, com a suavidade da sua raça e do seu cargo: "Quando será que esta ave agoirenta morrerá de vez!"

Os Russos, esses tinham-se desembaraçado de outra ave agoirenta, Kibaltchich, igualmente partidário das máquinas voadoras com foguetões. Pelotão de execução. É verdade que Kibaltchich se servira das suas qualidades de técnico para fabricar uma bomba que acabava de reduzir a pedacinhos o imperador Alexandre II. Mas não havia motivos para expor no pelourinho o professor Langley, do Smithsonian Institute americano, o qual propunha máquinas voadoras accionadas pelos motores de explosão de fabrico muito recente. Desonraram-no, arruinaram-no, expulsaram-no do Smithsonian. O professor Simon Newcomb demonstrou matematicamente a impossibilidade do mais pesado que o ar. Alguns meses antes da morte de Langley, que morria de desgosto, um garoto inglês regressou um dia da escola a soluçar. Mostrara aos camaradas a fotografia de uma "maquette", que Langley acabava de enviar a seu pai. Proclamara que os homens acabariam por voar. Os camaradas tinham feito troça. E o professor dissera: "Meu amigo, será caso que o seu pai seja um idiota?" O pressuposto idiota chamava-se Herbert George Wells.

Todas as portas se iam fechando com um ruído seco. De facto, apenas restava pedir a demissão e o Sr. Brunetière podia falar tranquilamente, em 1895, de "A falência da ciência". O célebre professor Lippmann, nessa mesma altura, declarava a um dos seus alunos que a Física estava concluída, classificada arrumada, completa, e que seria melhor enveredar por outros caminhos. O aluno chamava-se Helbronner e viria a ser o maior professor de química-física da Europa, e a fazer notáveis descobertas relativas ao ar líquido, ao ultravioleta e aos metais coloidais. Moissan, químico genial, era obrigado à "autocrítica" e teria de declarar publicamente que não fabricara diamantes, que se tratava de um erro experimental. Inútil procurar mais longe: as maravilhas do século eram a máquina a vapor e a lâmpada de gás, jamais a humanidade faria uma invenção mais importante.

A electricidade? Simples curiosidade técnica. Um inglês louco, Maxwell, pretendera que por meio da electricidade se poderiam produzir raios luminosos invisíveis: uma brincadeira. Alguns anos mais tarde, Ambrose Bierce poderia escrever no seu Dicionário do Diabo: "Não se sabe o que é a electricidade, mas em todo o caso ela ilumina melhor do que um cavalo-vapor e é mais veloz do que um bico de gás."

Quanto à energia, era uma entidade completamente independente da matéria, e sem o menor mistério. Era composta por fluidos. Os fluidos desempenhavam todas as funções, deixavam-se descrever por equações de grande beleza formal e satisfaziam o pensamento: fluido eléctrico, luminoso, calorífico, etc. Uma progressão contínua e clara: a matéria com os seus três estados (sólido, líquido, gasoso) e os diversos fluidos energéticos, mais subtis ainda do que os gases. Bastava pôr de parte como fantasia filosófica as novas teorias do átomo para conservar uma imagem "científica" do mundo. Estava-se muito longe dos grãos de energia de Planck e Einstein.

O alemão Clausius demonstrava que nenhuma fonte de energia além do fogo era concebível. E a energia, se se conserva em quantidade, degrada-se em qualidade. O Universo foi construído um belo dia como um relógio. Parará quando a mola estiver frouxa. Nada a esperar, não há surpresas. Neste universo de destino previsível, a vida surgira por acaso e evoluíra simplesmente devido às regras das selecções naturais. No pináculo definitivo desta evolução: o homem. Um conjunto mecânico e químico, dotado de uma ilusão: a consciência. Sob o efeito dessa ilusão, o homem inventara o espaço e o tempo: imagens do espírito. Se se tivesse dito a um investigador oficial do século xIx que a física absorveria um dia o espaço e o tempo e estudaria experimentalmente a curvatura do espaço e a contracção do tempo, ele chamaria a polícia. O espaço e o tempo não têm qualquer existência real. São divagações de matemático e temas de reflexão gratuita para filósofos. O homem não poderia ter qualquer relação com essas grandezas. A despeito dos trabalhos de Charcot, de Breuer, de Hyslop, a ideia de percepção extra-sensorial ou extratemporal deve ser rejeitada com desprezo. Não há incógnitas no Universo, não há incógnitas no homem. Sábio meu filho, tem juízo!

Era completamente inútil tentar uma exploração do mundo interior, mas no entanto havia um facto que criava certas dificuldades na engrenagem da simplificação: falava-se muito em hipnose. O ingénuo Flammarion, o duvidoso Edgar Poe, o suspeito H. G. Wells interessavam-se pelo fenómeno. Ora, por muito fantástico que isto possa parecer, o século xIx oficial demonstrou que a hipnose não existia. O paciente tem tendência para mentir, para simular a fim de agradar ao hipnotizador. É exacto. Mas, desde Freud e Morton Price, sabe-se que a personalidade pode ser dividida. A partir de críticas exactas, esse século conseguiu Criar uma mitologia negativa, eliminando o menor traço de incógnita no homem, rejeitando qualquer suspeita de mistério.

A biologia também estava completa. O Sr. Claude Bernard esgotara-lhe as possibilidades e concluíra-se que o cérebro segrega o pensamento, como o fígado segrega a bílis. Sem dúvida, acabaria por ser possível revelar essa secreção e escrever-lhe a fórmula química de acordo com as belas disposições em hexágonos imortalizadas pelo Sr. Berthelot. Quando se soubesse de que forma os hexágonos de carbono se associam para criar o espírito, estaria virada a última página. Que nos deixem trabalhar seriamente! Os doidos que vão para o manicómio! Numa bela manhã de 1898, um senhor grave deu ordem à governanta para não mais permitir que seus filhos lessem Jules Verne.

Aquelas ideias falsas deformariam os jovens espíritos. O senhor grave chamava-se Édouard Branly. Acabava de tomar a decisão de renunciar às suas experiências sem interesse sobre as ondas para se transformar em médico de bairro.

O sábio deve abdicar. Mas deve igualmente reduzir a pó os "aventureiros" quer dizer, as pessoas que pensam, imaginam, sonham. Berthelot ataca os filósofos "que lutam contra o seu próprio fantasma na arena solitária da lógica abstracta" (eis uma boa descrição de Einstein, por exemplo). E Claude Bernard declara: "Um homem que descobre o mais pequeno facto presta maiores serviços do que o maior filósofo do Mundo." A ciência não podia ser senão experimental. Fora dela não havia esperança. Fechemos as portas. Jamais alguém poderá igualar os gigantes que inventaram a máquina a vapor.

Neste Universo organizado, compreensível, e aliás condenado, o homem devia manter-se no seu devido lugar de epifenómeno. Fora a utopia e fora a esperança. O combustível fóssil esgotar-se-á dentro de alguns séculos, e então será o fim, devido ao frio e à fome. Jamais o homem voará, jamais ele viajará pelo espaço. Jamais também visitará o fundo dos mares. Estranha proibição essa da visita aos abismos marinhos! Nada impedia o século xIx, em relação ao estado da técnica, de construir o batiscafo do professor Piccard. Apenas uma enorme timidez, apenas a preocupação, para o homem, de se "manter no seu lugar".

Turpin, que inventou a melinite, foi imediatamente internado num manicómio. Os inventores dos motores de explosão sentem-se desencorajados e tenta-se provar que as máquinas eléctricas não passam de formas do movimento perpétuo. É a época dos grandes inventores isolados, revoltados, escondidos. Hertz escreve à Câmara do Comércio de Dresde dizendo que é necessário desencorajar as pesquisas relativas às ondas "hertzianas": não é possível a menor aplicação prática. Os peritos de Napoleão III provam que o dínamo Gramme nunca girará. Quanto aos primeiros automóveis, ao submarino, ao dirigível, à luz eléctrica (uma aldrabice desse maldito Edison!), as doutas academias não se incomodam. A esse respeito há uma na imortal. É o relato da recepção do fonógrafo na Academia Ciências de Paris: "Assim que o aparelho emitiu algumas palavras, o Secretário Perpétuo precipita-se sobre o impostor e aperta-lhe a garganta com pulso de ferro. - "Vocês vão ver!" disse aos seus colegas. Mas, perante o assombro geral, o aparelho continuou a emitir sons."
 
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equipam-se em segredo para preparar a mais formidável revolução dos conhecimentos que o homem "histórico" presenciou. Mas, de momento, todos os caminhos estão vedados. Vedados à frente e atrás. Ocultam-se os fósseis de seres pré-humanos que se começam a descobrir em quantidade. Não provou o grande Heinrich Helmholtz que o Sol extrai energia da própria contracção, isto é, da única força, juntamente com combustão, que existe no Universo? E não demonstram os seus séculos que nos separam do nascimento do Sol, quanto muito, a centena de milhares de anos? Como teria podido produzir-se uma longa evolução? E, aliás, quem descobrirá jamais a forma de datar o passado do mundo? Neste curto espaço entre dois nadas, nós, os epifenómenos, mantenhamo-nos graves. Factos apenas factos!

Dado que a pesquisa sobre a matéria e a energia não é de forma nenhuma encorajada, os mais curiosos atiram-se para um beco sem saída: o éter. É o meio penetrando toda a matéria e servindo de suporte às ondas luminosas e electromagnéticas. Ao mesmo tempo infinitamente sólido e infinitamente subtil. Ird Rayleigh, que representa no final do século XIX a ciência oficial inglesa em todo o seu esplendor, elabora uma teoria sobre o éter giroscópico. Um éter composto por múltiplos iões girando em todos os sentidos e reagindo entre si. Aldous Huxley escreverá mais tarde que "se uma obra humana pode dar a ideia da fealdade absoluta, a teoria de Lord Rayleigh
 
É na especulação sobre o éter que estão comprometidas as inteligências disponíveis, no despontar do século xx. Em 1898 produz se a catástrofe: a experiência de Michelson e Morley destrói a hipótese do éter. Toda a obra de Henri Poincaré vai testemunhar esse desmoronamento. Poincaré, matemático de génio, sentia sobre ele o enorme peso desse século xIx carcereiro e carrasco do fantástico. Teria descoberto a relatividade se o ousasse. Mas não ousou. La Valeur de la Science, La Sczence et I Hypothèse são livros de desespero e demissão. Para ele, a hipótese científica. Nunca é autêntica, não pode ser senão útil. É como uma esta lagem espanhola: só se encontra aquilo que para lá se leva. Segundo Poincaré, se o Universo se contraísse um milhão de vezes, e nós com ele, não nos aperceberíamos de nada. Especulações inúteis, visto estarem separadas de toda a realidade sensível.

O argumento foi citado até ao princípio do nosso século como modelo de profundidade. Até ao dia em que um engenheiro prático observou que pelo menos o salsicheiro notá-lo-ia. Pois todos os presuntos cairiam ao chão. O peso de um presunto é proporcional ao seu volume, mas a força de um cordel apenas é proporcional à sua secção. Que o Universo se contraia apenas um milionésimo, e não haverá mais presuntos no tecto! Pobre, grande e querido Poincaré! Era esse mestre do pensamento quem escrevia: "O bom senso só por si é suficiente para nos dizer que a destruição de uma cidade por meio da desintegração de meio quilo de metal é uma impossibilidade evidente."

Carácter limitado da estrutura física do Universo, inexistência dos átomos, fracos recursos da energia fundamental, incapacidade de uma fórmula matemática dar mais do que aquilo que contém, vacuidade da intuição, estreiteza e mecanicidade absoluta do mundo interior do homem: tal é o espírito nas ciências, e esse espírito estende-se a tudo, cria o clima no qual mergulha toda a inteligência desse século. Século inferior? Não. Grande mas estreito. Um anão que foi esticado.

Bruscamente, as portas cuidadosamente fechadas pelo século XIX sobre as infinitas possibilidades do homem, da matéria, da energia, do espaço e do tempo vão cair em estilhaços. As ciências e as técnicas darão um salto formidável, e a própria natureza do conhecimento vai ser novamente discutida.

Mais do que um progresso: uma transmutação. Neste novo estado do mundo, a própria consciência deve mudar de estado. Actualmente, em todos os domínios, todas as formas da imaginação estão em movimento. Excepto nos domínios onde se desenrola a nossa vida "histórica", obstruída, dolorosa, com a precariedade das coisas condenadas. Um fosso imenso separa o homem da aventura da humanidade, as nossas sociedades da nossa civilização. Vivemos à base de ideias, de morais, de sociologias, de filosofias e de uma psicologia que pertencem ao século XIX. Somos os nossos próprios bisavós. Contemplamos a subida dos foguetões em direcção ao céu, sentimos a terra vibrar devido a mil radiações novas, chupando o cachimbo de Thomas Graindorge. A nossa literatura, os nossos debates filosóficos, os nossos conflitos ideológicos, a nossa atitude perante a realidade, tudo isto dormita atrás das portas que acabam de ir pelos ares. Juventude! Juventude! Ide dizer a toda a gente que as entradas estão abertas e que o Exterior já penetrou!

Louis Pauwels e Jacques Bergier