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siga a estrada de tijolos amarelos: Thelema Textos Thelemitas Livrai-nos do mal?

Livrai-nos do mal?

Tonho

São José dos Pinhais, 19.08.17 10:08 Lua Minguante

Dies Saturnii, Sol 26º in Leo, Luna 27º in Cancer

 

Faze o que tu queres há de ser o todo da Lei!

 

“Foge, portanto, daqueles que te querem convencer que o sofrimento voluntário, cego ou passivo, que a subjugação da liberdade de tua consciência a outra, que a negativização da tua aura é O Caminho. Tu és Teu Próprio Caminho.”
-Chamando os Filhos do Sol, 6.

 

Nesta última reunião de Companheiros de Jornada, reunião em que participam os interessados nos estudos básicos relacionados ao Círculo Iniciático de Hermes, tivemos uma discussão muitíssimo pertinente àqueles que buscam o caminho espiritual: a necessidade de não ajudar o outro.

            À primeira vista, isto pode parecer monstruoso, principalmente porque somos constantemente bombardeados com mensagens de que devemos ajudar aos menos favorecidos, como a campanha do agasalho, bazares solidários e campanhas da fraternidade.

            “Eu vos dou um novo mandamento: amai-vos uns aos outros. Como eu vos amei, assim também vós deveis amar-vos uns aos outros”, ensina-nos Jesus em João 13,34.

            O antigo testamento também nos exorta a prática da caridade, como nessa passagem de Isaías (58:7): “Ora, não é partilhar teu alimento com o faminto, abrigar o pobre desamparado, vestir o nu e sem teto que encontraste e não recusar tua ajuda ao próximo?”

            “Deus caritas est”, diz a primeira encíclica do Papa Bento XVI, fazendo as vozes da Igreja Católica Apostólica Romana. ‘Deus é Amor’, responde a Igreja Pentecostal. Essa mensagem reverbera por todo o cosmos cristão, encontrando eco em quase todos os credos.

            Assim, temos exemplos de serviço à humanidade da mais alta abnegação - como a bem intencionada Santa Madre Teresa de Calcutá, que são verdadeiros baluartes da moral e da conduta humana universal.

            Universal? Veja bem...

            Primeiramente, devo fazer aqui um disclaimer: este texto reflete somente a minha visão, e não é necessariamente chancelado por nenhuma pessoa ou instituição ou entidade que não seja a minha própria consciência. Se acharem ruim, é no meu que tem que vir. Não sou necessariamente porta voz de Thelema ou de quem quer que seja. (Adendo de revisão, após discussão com o Imperator: no que concerne o conteúdo desse texto, também falo em nome do Círculo Iniciático de Hermes. Ainda assim, se tiver que dar treta com alguém, é comigo...)

            Agora sim, aqui vai.

Não tem nada de universal esse negócio aí de amor abnegado, não, e nem tampouco essa coisa piegas é a verdadeira caridade. Se quiser, dá para encontrar exatamente o mesmo raciocínio ‘cruel’ dentro dos ensinamentos cristãos, mas ele não é observado pelos praticantes.  Vide Lucas 9, 60: "Mas Jesus disse-lhe: Deixa que os mortos enterrem seus mortos." Draconiano esse Jesus, hein?

            Mas... mas e aquele negócio de “se não tivesse amor, de nada seria” que tem lá em Cortíntios 13 e que virou Camões e virou Renato Russo, você me pergunta com sorriso triunfante de um apologético tiozinho catequista?

            Aliás em grego, língua em que foram escritas as epístolas de Paulo Tarso, a palavra usada para esse amor é αγάπη (ágape). Thelema também faz uso dessa palavra diversas vezes, até em grego, já que soma 93. E também da palavra amor, em português e no original em inglês do Livro da Lei.

            A questão, meus caros, é que colocamos o amor em segundo lugar, atrás de outro valor: a Verdadeira Vontade (θέλημα), que é o conceito central de Thelema – e que também soma 93, caso interesse alguém.     

Pode-se argumentar forçosamente que o próprio Jesus concordaria com essa eleição de prioridades, mas não é exatamente assim que a coisa é entendida nas igrejas.

            Todavia, eu, particularmente, vejo muitíssimo espaço para uma interpretação thelêmica da frase Quem quiser, pois, salvar a sua vida perdê-la-á;” (Mc 8, 35), por exemplo, mas não sinto que essa interpretação esteja alinhada com a ortodoxia teológica da maior parte do pensamento cristão.

            Dessa forma, o pensamento thelêmico se distancia do clichê da definição de caridade, pois coloca em primeiro lugar a necessidade de se buscar estar alinhado com a Verdadeira Vontade, e subsequentemente apenas se buscar o tal amor – o que se acredita ser amor, mas é amortadela. Assim, a fórmula thelêmica é “AMOR É A LEI, AMOR SOB VONTADE!”, que também representamos como “93, 93/93!”, porque fica mais sexy e misterioso.

            Dentro da noção thelêmica da Verdadeira Vontade já se entende que se você estiver alinhado com essa corrente você vai amar aos outros de maneira sábia e assertiva. Mas isto não quer dizer sair por aí ajudando qualquer um indiscriminadamente.

            Em tempo, "Não dêem o que é sagrado aos cães, nem atirem suas pérolas aos porcos; caso contrário, estes as pisarão e, aqueles, voltando-se contra vocês, os despedaçarão." (Mt 7,6).

            Neste momento, gostaria de fugir ainda mais do familiar charco da piedade cristã e colocar a todos nós diante de um cenário diferente.

            Nele, não há esse Deus antropomórfico big brother onisciente que é o Chairman do conselho executivo. Há outras coisas... princípios inteligentes que regem o universo, ou qualquer coisa que você queira entender como primum mobile, mas não uma pessoinha megalomaníaca. Eu prefiro não chamar de nada (Ein). Lembro-me, aliás, do capítulo 1 do Tao Te Ching: “O Tao do qual se pode falar não é o Tao eterno,O Nome que pode ser nomeado não é o nome eterno.”

Nesse cenário alternativo também não há inferno ou céu - salvo o inferno ou céu do aqui e agora, que é criado e alimentado a cada e todo momento por você mesmo, e das conseqüências do que você mesmo faz. Nesse cenário não há salvação exterior. Ninguém vai pagar pelos seus pecados com seu sangue e sacrifício. Ah, sim. Também não há pecado. Salvo um. O pecado de ir contra a sua Verdadeira Vontade. “Contudo, tem o maior auto-respeito, e para este fim não peques contra ti mesmo. O pecado que é imperdoável é rejeitar consciente e intencionalmente a Verdade, recear o conhecimento mesmo que aquele conhecimento não alcovite teus preconceitos.” - Liber Librae, 15.

            Bem... nesse cenário alternativo, não tem ninguém que possa te salvar das cagadas que você mesmo fez. Nem do sofrimento imposto pelo ambiente. Nem de nada. Você está sozinho e tem de pagar o preço pelas suas escolhas. E é disso também que depende o seu crescimento interior, e sua ascensão espiritual e de consciência.

            Assim, faz-se surgir, entre os que realmente buscam a Verdadeira Vontade (e pagar por suas escolhas e galgar a escada de Jacob que é o aumento da consciência espiritual) aquele bode feio chamado Baphomet, figura que causa cagaço em cristão conservador só de ver de relance.

            Dá uma olhada nesse bode, por exemplo. Sim, ele tem tetas. Mas não é para isso que eu queria atentar.

            Olha o gesto que esse bicho está fazendo. Uma mão apontando para cima, outra para baixo. Em um antebraço está escrito SOLVE – separar, dissolver – e no outro COAGULA – juntar, aglutinar. Seria esse bode a essência demoníaca de todo professor de química?

            Esses gestos e símbolos mostram justamente aquilo que falta à maior parte das pessoas. A capacidade de separar aquilo que é seu e que lhe cabe daquilo que não é seu, e que, portanto, não lhe diz respeito.

            Essa mesma idéia é representada de outra forma também ubíqua no mundo esquisotérico: as colunas do Templo.

            Note que temos uma coluna branca, que simboliza a força que aglutina (entre outras coisas!), e a coluna negra como a força que separa. E o aprendiz se coloca entre elas, para exercer o controle das duas forças em uníssono com o princípio divino ou Grande Arquiteto ou CEO. É a eterna batalha entre o departamento comercial da empresa e o financeiro. Quem achar o equilíbrio se torna o senhor do mundo.

            Como nos instrumentos cerimoniais do Faraó, há o formato de cajado para puxar para perto e agradar (Heka) e o flagelo, que separa e pune (Nejek). O bate e assopra de todo casal de namoradinhos adolescentes. O Yin e Yang, e o patati e patatá.

            Todos esses símbolos apontam para a necessidade de um equilíbrio entre a misericórdia e a severidade. “Saiba, então, que como o homem nasce neste mundo em meio às Trevas da Matéria, e à luta de forças rivais; seu primeiro esforço deve, portanto, ser o de procurar a Luz através da reconciliação delas.” – Liber Librae, 1.

            A caridade cristã padece de um excesso de caridade, bem intencionada, porém erroneamente aplicada, que torna as pessoas dependentes e escravas umas das outras. “Todo profeta, todo livro, todo deus que quer despertar em ti uma tendência a dobrar o joelho a alguma coisa ou ser com exclusão do resto, é um profeta falso, é um livro tolo, é um deus negro.” – Chamando os Filhos do Sol, 6.

            Na fé cristã o orgulho é pecado, e a humildade é exaltada; não é o orgulho, contudo, o responsável pela vontade de alcançar a própria autonomia? Liber Al vel Legis II, 77. Ó sejas tu orgulhoso e poderoso entre os homens!”

Não é a vaidade que quer fazer de você o mais belo possível? Não é a inveja que te dá a ambição de ir buscar o que você não tem? Não é a preguiça que faz com que você busque formas mais eficientes de diminuir o volume de trabalho para um mesmo retorno de recompensa? Não é a ira que garante a autopreservação?

Sem os ‘pecados capitais’, estaríamos condenados a uma vida estagnada, subserviente e medíocre. Humildade não é ser uma ovelha de joelhos, dizendo amém para tudo.

            “Bem-aventurados os humildes de espírito, porque deles é o reino dos céus.” (Mateus 3,5).

            Bem... ser humilde de espírito é deixar o ego inferior e as vontades basais e mundanas de lado e obedecer à voz do verdadeiro chamado espiritual. “Follow your bliss” – seguir sua felicidade, como coloca o mitólogo J. Campbell. Não tem nada a ver com perpetuar a condição de pobreza, passividade e escravidão. “O sofrimento é o fruto da ignorância, e sua presença é sintoma de erro, e não sinal de espiritualização.” – Chamando os Filhos do Sol 4.

            Esse entendimento errôneo e opressor do que vem a ser humildade e caridade direciona os esforços, muitas vezes genuinamente puros e bem intencionados, por um trajeto que leva ao precipício.

            Sabe aquele seu amigo que exagerou numa festa e deu PT? Bom... vai, leva o cara para casa, dá banho nele e limpa o vômito dele, se você quiser. É legal de sua parte. Bem nobre.

            Faça isso mais de uma vez e você estará jogando fora o seu tempo, impedindo que esse cara aprenda com os erros e privando ele da cadeia causal, imputabilidade e responsabilidade por seus atos; sua bondade sem sabedoria perpetua o comportamento irracional, autodestrutivo e imaturo desse seu amigo. Belo gesto humanitário. Manter o cara no nível do lixo.

            A mesma coisa pode estar ocorrendo em várias outras esferas da sua vida, onde você acredita que, como ser espiritualizado que é (SERÁ?!), tem o direito de dizer às pessoas o que fazer – ou escrever um texto de seis páginas sobre... – que direito você tem de interferir com a vida dessas pessoas?

            Isto não quer dizer que Thelema seja insensível ao sofrimento alheio; mas significa que nem sempre é sábio oferecer conforto para o outro. E que, antes de mais nada, você precisa buscar a conexão com a Verdadeira Vontade, para adquirir essa sabedoria para poder discernir quando você deve oferecer ajuda e quando você deve se afastar e deixar que o outro sofra por suas escolhas.

            E é claro que isso não é sempre tão fácil, especialmente quando envolve as pessoas que amamos.

            Todos se recordam da parábola do filho pródigo. Não? Não foi na catequese, menino? Está no Novo Testamento, Lucas 15:11-32. Um filho ingrato pede sua parte da herança ao pai e sai patrão dar um role de vida louca, com altas aventuras na boemia.

            Quando tudo dá ruim e ele perde tudo, volta para pedir emprego na casa do pai e o pai lhe acolhe e o trata igualzinho ao outro filho que sempre foi obediente. Puta injusto, se me perguntarem.

            Mas o ponto que eu quero argumentar aqui, é que o pai, por amor e sabedoria, aguarda pacientemente o filho, enquanto este se fode de verde e amarelo, até ter o insight de que precisa tomar juízo. Se o pai tivesse deixado o coração falar sem a severidade de se distanciar, o filho continuaria sendo igual ao filho do Lula.

            Assim, a tradição thelêmica admoesta cuidado contra a crença naqueles que desejam salvar-nos por procuração. Acho que não há muito conflito normalmente com essa parte. O problema é quando inadvertidamente nos colocamos, por excesso de misericórdia e falta de sabedoria, na posição de querer salvar o outro por procuração nós mesmos. O Liber Librae nos ensina: “12. Lembra que a força desequilibrada é perniciosa; que a severidade desequilibrada é apenas crueldade e opressão; mas que também a misericórdia desequilibrada é apenas fraqueza que consentiria e incitaria o Mal. Obra com paixão; pensa com razão; sê Tu mesmo.”

            Cada um é responsável por si, por seu caminho e por sua salvação. Os deuses não farão por ninguém aquilo que a pessoa mesma não estiver disposta a fazer.        Diz o Liber Al Vel Legis II, 48. “Não lamenteis pelos caídos! Eu nunca os conheci. Eu não sou para eles. Eu não consolo: Eu odeio o consolado e o consolador.”

            Outra curiosidade: sabe a frase popular ‘faça por onde que eu te ajudarei’ e todo mundo diz que é bíblica? Pois é, só que não. O negócio é cuidar de si mesmo, porque nem Jesus, nem Hadit nem o deus espaguete cuida de quem não se cuida. E todo mundo odeia dono da verdade, então não tente salvar o outro.  Deixe que ele se salve, ou que pereça.

Liber Al vel Legis II, 21.” Nós não temos nada a ver com o proscrito e o incapaz: que eles morram na sua miséria. Pois eles não sentem. Compaixão é o vício dos reis: dominai o miserável e o fraco: esta é a lei do forte: esta é a nossa lei e a alegria do mundo.”

 

 

Amor é a Lei, Amor sob Vontade.

 



 

por Antonio Dissenha