Ir para o conteúdo. |

  • A Empresa
  • Apoie
  • Contato
  • Seções:
siga a estrada de tijolos amarelos: Yoga Fire Textos Yoga Fire As Seis Escolas de Filosofia Hindu

As Seis Escolas de Filosofia Hindu

null

A Índia exerce há muito um grande fascínio no Ocidente. Um dos aspetos principais dessa cultura milenar, que vem interessando e motivando as mentes deste lado do mundo, tem sido a sua brilhante, complexa e profunda herança filosófica. Platão, Schopenhauer, Hartman, Hegel, Nietzsche ou Schelling, entre muitos outros, sentiram-se atraídos, estimulados e inspirados por essa luz. Mas afinal, a que nos referimos exatamente quando falamos de filosofia hindu? É um corpo filosófico único, ou integra diversas escolas de pensamento? É a expressão de uma religião, ou uma filosofia por direito próprio?

Brahmavidya é o termo mais correto para aludirmos ao conjunto orgânico e integrado das escolas de filosofia hindu que aqui pretendemos expor. O termo significa, literalmente, sabedoria (Vidya) de Brahman, remetendo portanto para o conhecimento verdadeiro acerca da Manifestação Universal. A Índia viu nascer seis grandes escolas de filosofia, as quais podem ser agrupadas sob este nome – Brahmavidya – por todas elas serem tentativas complementares de compreender e explorar a realidade, segundo alguns pressupostos fundamentais ao pensamento hindu. Aqueles que estão familiarizados com o pensamento teosófico facilmente reconhecerão, nas várias tradições filosóficas hindus, ideias, termos e reflexões a que já se habituaram. Talvez o grande mérito de um estudo detalhado e separado de cada uma das filosofias seja permitir ao estudante compreender mais profundamente a subtileza sugestiva de algumas distinções entre termos aparentemente sinónimos.

As seis escolas filosóficas hindus

As seis escolas ou Darsanas podem ser dividas em dois grandes grupos, o primeiro incluindo os sistemas Sankya, Yoga e Vedanta, que são denominados sistemas maiores ou Purushicos, e o segundo contendo os sistemas Vaisesika, Nyaya e Purva Mimansa, que recebem a classificação de sistemas menores ou Prakríticos. Salvaguardando a ideia de que todos estes sistemas apresentam uma subtileza filosófica e espiritual elevada, esta distinção em dois grupos assenta no facto de os primeiros se focarem mais no aspeto Purusha (espírito) e os segundos no aspeto Prakriti (matéria). Será útil lembrar que Purusha e Prakriti são dois aspetos inseparáveis da realidade, duas faces da grande tela Svabhavática (substância cósmica primordial prévia a qualquer diferenciação fenomenal) de que é composto todo o universo, razão pela qual a associação de Prakriti à matéria como a concebemos comummente (isto é, a matéria física) não tem lugar. Assim, como já afirmámos, estes sistemas não são antagónicos ou concorrentes: são pontos de vista diferentes sobre a mesma realidade. 

Convém clarificar esta ideia, devido ao relativismo imperante na nossa cultura, e que não é o que aqui está em causa. Ao falar em pontos de vista, não nos referimos a opiniões mais ou menos esclarecidas, e não nos referimos certamente à noção de que tudo seria relativo ao observador não sendo portanto possível alcançar qualquer objetividade (ou Verdade). A ideia envolvida é, antes, a da tão conhecida metáfora da Verdade / Realidade como um diamante de várias faces. Cada sistema exploraria uma dessas faces mas, não obstante, cada visão, cada investigação é objetiva, é fundamentada e passível de ser compreendida por qualquer uma das outras, porque delas é complementar. Aliás, todas elas partem do mesmo ponto, a leitura dos Vedas, para seguirem diversas vias de investigação sugeridas pelos vários patamares de compreensão que esta magnificente obra possibilita (como aliás qualquer outra Escritura Sagrada o faz).

O universo em caos

Como dissemos, na base de todas estas escolas podemos encontrar certos pressupostos ou fundamentos tidos como indiscutíveis para a mente hindu (e, arriscamos, para qualquer pensador que se lance numa inquirição filosófica séria e empenhada sobre a realidade última). Não é aqui possível traçar todo o percurso lógico de fundamentação de cada uma das premissas mas procuraremos traçar um fio condutor entre elas. A reflexão parte da constatação de que o universo fenomenal é inconstante, impermanente, mutável e perecível. Definindo como Real aquilo que existe com permanência e constância, podemos classificar de Irreal o universo fenomenal que experienciamos. No entanto, se o mundo fenomenal em si não tem realidade, é preciso que haja ALGO que possa ser o seu substrato, o fundamento real. 

Esse Algo tem de ser Eterno pois, para a mente hindu, não existe tal coisa como criação ou dissolução a partir do nada ou para o nada. Tem também de ser uno, ou não existiria continuidade e ordem no mundo fenomenal. Da sua unidade e eternidade deriva a sua infinitude, imutabilidade e indivisibilidade (pois se algo houvesse de exterior que o pudesse delimitar, modificar ou dividir, o fundamento real do mundo fenomenal não seria uno mas múltiplo, com as consequências já apontadas. Assim, Isso que É, é Absolutamente, nada o condicionando ou relativizando porque tudo corresponde a Isso, nele encontrando fundamento e subsistência. ISSO é TAT, o ponto zero de toda a existência e de toda a reflexão. Zero porque não existe nem pode ser compreendido, pois existência e compreensão implicam tudo aquilo que TAT não pode ter: relatividade.

Estabelecida a Realidade Única de TAT e a Irrealidade do mundo fenomenal, a reflexão debruça-se agora sobre os princípios que regem a vida no universo manifestado e que se resumem nas duas leis fundamentais: da Periodicidade, e da Causa e Efeito. Da primeira, deriva a ideia da Imortalidade do Espírito (e consequentemente da Reencarnação da Alma, que é a involução de Purusha em Prakriti) e, da segunda, a noção verdadeira de Karma.

Estes são pois os princípios comuns a partir dos quais as seis escolas derivam as suas investigações e explicações. Cada um dos sistemas tem uma história perdida no tempo que é hoje (quase) impossível recuperar mas podemos aceder aos seus ensinamentos a partir de duas fontes, os aforismos (sutras) deixados pelo instrutor fundador da escola, e os comentários a esses sutras, realizados por uma ou algumas autoridades filosóficas e históricas da escola. Iniciaremos a nossa digressão pelos denominados sistemas purúshicos, passando depois às escolas prakríticas.